O Ingrato Griseldo: Uma História de Desafeto e Redenção em Terras Portuguesas

O INGRATO GRACINHA

De manhã, o meu marido ligou-me diretamente para o escritório e avisou que, assim que saísse do trabalho, ia passar na casa dos Vasconcelos comemorar o seu dia profissional.
Se quiseres, aparece por lá, disse num tom indiferente, convencido de que eu não iria. Achava que eu preferia ficar a ler ou sentada horas ao computador.
Está bem, respondi-lhe com o mesmo desdém, mas logo no intervalo do almoço rumei ao centro comercial à procura de um presente para ele. As mulheres aglomeravam-se no balcão dos perfumes.

De imediato, o meu olhar recaiu sobre um frasco elegante de colónia: na caixa preta brilhante, estava um homem charmoso de blazer desaprumado, olhar atrevido e um esboço de sorriso irónico. Era o retrato do meu Graciano.

A funcionária fazia embrulhos de metalizado colorido, rematados com laços. De repente, uma velhota aproximou-se e atirou:
Ah, meninas, vocês oferecem colónias aos maridos, mas quem vai sentir o cheiro nem sempre são vocês. E as gravatas também acabam elogiadas por outras.

Toda a gente se riu, mas eu fiquei pensativa. A minha vida tinha sido assim: tudo por causa do Gracinha, e ele sempre com um pé fora. Em nova, era louca por ele, e ele deixava-se amar, sempre com aquele ar de superioridade. Quando entrou em Engenharia à noite, era eu quem lhe fazia os trabalhos de casa de madrugada. Quando vieram os filhos, toda a responsabilidade caiu em mim.

No início, ele mostrava alguma gratidão. Depois, habituou-se às minhas atenções e passou a encará-las como obrigação. Por fora, certamente seríamos uma família exemplar: estabilidade, harmonia, filhos estudiosos e educados. Mas eles cresceram e foram à sua vida. Fiquei só com o Graciano. E percebi que me faltava qualquer coisa de verdade.

A minha mãe, há vinte anos, tinha sido contra o casamento. Olha bem: ele é bonito demais, e sabe disso, adora-se ao espelho, repetia-me ela na altura. Homem bonito é de toda a gente. Todas o querem, e tu é que vais ficar para último, mesmo tendo mais direitos… E pronto: ponto um, mulher não amada. Ponto dois, já fiz 43 anos. Ponto três, ninguém precisa de mim…

Encostei-me à janela. O sol já aquecia em modo primaveril. Daqui a nada é o dia da mulher, pensei, sem ânimo. E depois? Outra vez sozinha… E a vida quase vivida… O que me espera pela frente?

Lá de fora ouviam-se passaritos alegres, depois um toque persistente no vidro. Olhei e, no parapeito, andava um pardal despenteado, de olho posto em mim com ar atrevido.

Isto é um sinal, pensei. Na mesma altura, o relógio da parede bateu as horas, como a confirmar o que sentia.

Bem, ainda há tempo. Ponto um: se não gostam de nós, tratamos de gostar de nós próprias…

Com um estrondo, saí porta fora, escadas abaixo: primeiro cabeleireiro, depois loja de roupa…

Às seis e meia da tarde, o espelho admirava, fascinado, uma mulher misteriosa sentada na cadeira do computador. Vestido preto curto, corte de cabelo moderno com franja tricolor despenteada, olhar profundo realçado a lápis e sombra, os lábios apenas esboçados a batom reluzente carnudos e com aquele ar de mimo e desafio.

Pois bem, ponto dois: aos 40, tudo começa de novo…

Fui à cozinha, voltei com um copo de vinho, brindei com o espelho. Ponto três: será que precisamos de um marido que não sabe valorizar uma mulher assim?..

Nem preciso dizer que cheguei à casa dos Vasconcelos a balançar, segura nos saltos altos. Ficaram todos em silêncio, mas num instante vários homens apressaram-se a ajudar: tirar-me o casaco, arranjar-me lugar, trazer-me uma maçã. Ah, pois… O quê? O meu marido está aqui? Nem o tinha visto…

O adversário ficou atrapalhado, perdido com tamanha ousadia e afundado na admiração geral.

De manhã, talvez para compensar a derrota da véspera, decidiu mostrar-se com arrogância habitual: Então, vamos tomar o pequeno-almoço ou nem por isso? Mas enganou-se, ou não tinha acordado bem, porque ao seu lado estava outra mulher não aquela diz-me-te-trago-te.

Junto dele, ressonava tranquila uma mulher caprichosa, doce e plenamente confiante.

Sem se virar, com um toque irónico na franja de três cores, murmurou mimada:
Já preparaste o pequeno-almoço, querido?

Esticou-se e, voltando a dormir, pensou: É assim mesmo, meu caro. Caso contrário, voltamos ao ponto três…Graciano abriu os olhos, tateando, tentando encontrar nos gestos conhecidos da esposa o conforto previsível de sempre. Mas deparou-se com um espaço diferente e aquela indiferença doce, aquele perfume novo, aquela mulher reinventada ao seu lado. Por um instante sentiu-se estrangeiro na própria cozinha, na própria casa, e um frio súbito lhe correu pela espinha.

O silêncio da manhã era outro: dinâmico, vital. E, ali, com uma força tranquila, ela tomou conta do seu café, saboreando o momento como quem colhe fruta madura no pé apressada em viver.

Naquele dia, Graciano não disse nada, nem reclamou. Pela primeira vez, ficou a olhar para ela, os olhos perdidos entre dúvida e fascínio, como quem descobre no jardim de sempre uma flor desconhecida em pleno desabrochar.

No reflexo da janela, viu-se pequeno e, por fim, percebeu o óbvio: não era ele quem conduzia o espetáculo. Já não. E quando saiu de casa, ouvindo atrás de si o tilintar dos saltos dela, ficou com a estranha sensação de que o mundo enfim girava não em torno de si, mas por impulso daquela mulher surpreendente, capaz de se reinventar quando ninguém esperava.

Do lado de fora, o pardal despenteado piou animado, e ela sorriu para o céu. Afinal, o melhor perfume é aquele que escolhemos para nós.

E assim, naquela manhã trivial, ela finalmente experimentou o sabor raro de ser suficiente para ela mesma, para o resto dos seus dias.

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