Trás de Casa
Martim, foste tu que arrumaste o quintal? Ana pousou a mão no ombro do filho.
O rapaz deu um salto, tirou os auscultadores enquanto, no ecrã, monstros continuavam a trocar murros. Martim já não lhes dava atenção.
O quê, mãe?
Perguntei se chegaste há muito da escola.
Agora mesmo.
E então, quem pôs o quintal em ordem?
Sei lá eu! Talvez a Bia…
Ana sorriu. A filha de três anos era um furacãozinho, mas arrumar o quintal ainda era coisa para daqui a uns bons anos.
Que piada! Só se foi o duende da casa!
Pois claro, foi isso! Tu és cá um artista, Martim. Vai buscar a Bia a casa da avó, está na hora de regressar. Vou preparar o jantar. Tens fome?
Tenho! Os rapazes e eu comemos bolas de Berlim na cantina, mas isso já foi depois da segunda aula. Mãe, quando é que passamos a ter aulas de manhã?
Não sei, filho. Ninguém diz nada. O colégio está a abarrotar.
Olha, ao menos dorme-se à grande. Martim sempre via o copo meio cheio.
Ana beijou-o com força no alto da cabeça, deu-lhe a tradicional festinha na orelha (mesmo que ele, como sempre, tentasse esquivar-se) e voou para a cozinha.
Adolescentes…
Treze anos. Já acha que é homem, mas ainda… Cada vez que os lábios de Ana pousavam naqueles cabelos escuros, duros como os do pai, o miúdo ficava sem saber o que fazer.
Os filhos de Ana não podiam ser mais diferentes. Martim, alto, moreno e de olhos azuis, era tal e qual o pai, Ricardo. E não só por fora. Ana sabia, ainda em erva verde, que o miúdo ia sair ao pai: teimoso, responsável, de coração enorme… O quintal, se calhar, não era obra dele, mas a loiça lavada na bancada e o chão da cozinha a brilhar de recente limpeza não deixavam dúvidas. Onde encontrar outro assim? Só se Bia crescesse.
Bia era um milagre para Ana. Foram quase dez anos de esperança miudinha. As complicações do primeiro parto quase levaram tudo, mas aquela esperança foi suficiente para trazer ao mundo a filha tão sonhada. Loirinha, olhos azuis como os do irmão. Cultura para a mãe, Ana. Carinhosa como um gatinho. Encostava-se à mãe ou ao Martim e ali ficava.
Está tudo, Bia?
E o sorriso da pequena iluminava a casa inteira. Como aquela miúda sorria, não havia quem igualasse. Ana sabia-o bem. Ninguém…
O sorriso alegrava Ana e ao mesmo tempo fazia doer onde mais custava. O sorriso era o do pai, do Ricardo. Que já cá não estava
Dava-lhe ganas de gritar, mas aguentava. Os miúdos precisavam dela.
O marido tinha sido bombeiro-salvador. Combatera incêndios, salvara vidas. Naquela última tragédia, salvara uma família inteira de uma casa rural, mas voltou para dentro a buscar a avó deles e nunca mais saiu. Assim soube Ana que Ricardo não voltava mais: o coração avisou-a antes de chegar a notícia. Tirou Bia dos braços, gritou para a sogra que tomasse conta da bebé, e correu dali para a esquadra dos bombeiros sem nem sentir as lágrimas misturadas com o leite a encharcar-lhe a t-shirt.
Como sobreviveu? Nem ela sabe.
Só por causa dos filhos. Martim não a largava nem por um minuto.
Martim, anda, é hora de dormir! Maria do Carmo, a sogra de Ana, mal conseguia andar, mas nunca a deixou sozinha. Obrigava-a a comer, a beber, colocava Bia ao colo da mãe para lhe dar de mamar.
Eu vou ficar com a mãe! Martim abanava a cabeça e acariciava a mão gelada da mãe. Avó, porque é que ela está com as mãos tão frias?
Ana lembra-se disto quase em flashes. Tal como o momento de fazer as malas à pressa: brinquedos num saco, roupa noutra.
Não consigo estar mais aqui… Parece que o Ricardo vai abrir a porta a qualquer instante e gritar: “Cheguei!”
Tens razão! Vamos para minha casa um tempo. Logo se vê o resto.
Não, nem aí consigo. Tudo me lembra ele. Dói… Vou para a casa da avó.
O quê? Aquela casa está ao abandono há anos! Não pode ser lá com as crianças!
É só meter arrumações e mais nada. E terei vocês por perto, que sozinha não aguento.
Claro que não vais ficar sozinha, filha…
Vá, mãe… Está quase, não chores… Ainda temos tanto para fazer. Olha a Bia, vê lá o Martim, coitado, quase não come. Só se senta à mesa comigo.
Não pode ser! Maria do Carmo levantou a voz. Tu és mãe! Se não te cuidares, quem cuida deles? Eu já não consigo dar voltas como antes. Vá, trata de ti!
Ana agradeceu à sogra e voltou às arrumações. Precisava fugir daquela casa, da felicidade que ali viveram e agora pesava.
A velha casa da avó não a recebeu de braços abertos. Sentiu o gelo do tempo sem gente. Era justo: mal a visitara depois de sair para a nova vida.
Passeou pelas divisões, passou as pontas dos dedos nas paredes, limpou o pó do toucador, abriu as janelas ao ar frio do Outono.
Mãe, podes levar os miúdos por enquanto? Já vou dar mamar à Bia.
Claro. Consegues ficar sozinha?
Consigo…
Sozinha de todo, não ficou. Meia hora depois, surge Carla, a amiga de infância e do liceu.
Olha quem ele é cheia de vergonha. Só tu, mulher! Onde é que estão as esfregonas?
Carla sempre foi despachada. E com a conversa, nunca se calava.
Ana limpou as mãos e, com algum embaraço, deu um abraço à amiga.
Olá, então!
Olá! Onde estão os miúdos?
Com a mãe.
Compreendido. Então, mexe-te que ainda há muita coisa para fazer. Ou queres dormir em casa da tua mãe hoje?
Não. Prefiro ficar aqui.
Então, toca a mexer!
Carla puxou do alguidar como se fosse dona da casa.
Carla! Ana ficou embasbacada.
Então o quê? Ah, pois é…
Quando é que soubeste?
Em Fevereiro. Mas olha que não estou doente, só estou grávida.
De quem?
Ó mulher, não faças de conta! Carla pegou no pano, limpou o parapeito. Bolas, que porcaria…
O Bruno? Mas ele…
Foi-se, sim. Vou ser mãe solteira. Depois conto o resto.
Vai voltar?
O Bruno? Nem pensar. Gosta mais da liberdade. Paciência. Mas eu vou ser mãe, Ana… O menino é meu. Ou menina…
Já sabem o que é?
Ainda não, está escondido. Mas pouco importa?
Ana sabia o que aquilo queria dizer. O primeiro marido de Carla não quis saber dela quando acharam que não iam poder ter filhos. Culpa para cima de Carla, chorava sozinha… Até largou tudo. Mais vale só que com quem não nos defende, dizia ela agora.
O ex logo casou de novo, e a segunda mulher foi ao médico: afinal, o problema era dele. Depois de tratamento, tiveram logo dois filhos.
Carla, coração de manteiga, ficou feliz por ele e grata pelo caminho se ter cruzado noutro sentido. Se não fosse assim, não estaria agora à espera do tão desejado bebé. E se Bruno não queria saber, azar! Ela não se deixava abater.
Andaram na lida toda a tarde. Mas valeu a pena. A casa pareceu acordar, falar, estremecer-se de contente.
Já sentadas na mesa, cansadas, Carla olhou para Ana:
Como o tempo voa…
Não ia assim tanto tempo que ali vinham buscar rissóis e fugiam para o rio ao grito da avó:
Sujeitinhas! Nunca ficam para comer como gente?!
Nem paravam. Gritavam por cima do ombro:
Daqui a uma hora voltamos!
A tal raiz esticava-se até tarde. Ao fim do dia, ajudavam a avó na horta. Como era possível uma senhora sozinha e ainda por cima de trabalho na vacaria aguentar aquilo tudo? Ana era a sua neta querida, nunca faltava à chamada.
Quando o filho ficou com nova família na cidade, a avó ainda ajudava, mas pouco. Ana era o elo que a prendia ao mundo.
Quando Ana fez dezoito, a avó adoeceu. Só restaram três meses para tudo o que havia a dizer. Nunca chega, pensou Ana.
Mas a avó teve tempo de fazer algo precioso: chamou Maria do Carmo, sogra de Ana, e falou com ela a sós. O que disse, Ana nunca soube, mas desde aí ganhou uma segunda mãe.
Chamou-lhe “mãe” ainda antes do casamento.
Posso? O ar de menina não enganava, mas o aceno de cabeça da sogra trouxe descanso.
Nem valia a pena verbalizar o desejo de ter mãe. Só a avó sabia tudo. Agora tinha mais uma.
Entre Ana e a sogra nunca houve uma faísca. Para quê? Nunca ninguém ajudou tanto quanto ela. Conselhos? Sempre suaves. Não eram família de sangue, mas de coração.
Claro que Ana percebeu logo que parentescos nem sempre querem dizer amor. Depois da morte da avó, apareceu caravana de família da cidade: pai, madrasta, sogra da madrasta.
Boa casa, senhora. Dá bom dinheiro.
A matriarca, que Ana nunca tinha visto, passeava-se pelo terreno:
Está tudo ao abandono! Tem de arranjar, que os compradores não querem lixo.
Compradores? Ana, já a tremer.
A semana após o funeral da avó foi vivida a meio gás. Mal mexia, mal comia. Sonhava que a avó saía da cozinha e resmungava:
Já brincaste? Agora vai lavar os frascos, vamos fazer doces para o inverno!
Que compradores? a madrasta encolheu os ombros tostados do campo, a alça do vestido escorregou, e Ana sentiu enjoo. Os que comprarem a casa!
Ana não respondeu. Debandou para trás da casa, a tapar a boca, e quando voltou já estava lá Maria do Carmo.
Vão embora daqui. Agora mesmo.
E a senhora quem é? A mandar em casa que não é sua…
A casa é da Ana. Tem escritura.
Mas…
Tudo legal, senhora. O dinheiro no banco também está com testamento. Ajudei a tratar disso. Podem ir dar banho ao cão! Mexer com órfãos, não!
Encontrão que podia ter rebentado foi desarmado. Maria do Carmo levou Ana para o quarto, despiu-lhe a t-shirt manchada.
Não chores! Ninguém te toca. Prometi à tua avó. Vai, veste este robe limpo. Vou preparar-te um chá. Dorme. Depois logo falamos.
Ao pai só voltou a ver no casamento.
Nem convite mandou, ele apareceu à mesma.
A festa, os jogos, risos de Ana ao ver Ricardo a tentar vestir o boneco maior da cidade. De repente, toca um ombro, ela vira-se e o pai.
Olá, filha.
Ana nem sabia o que dizer. O pai deu-lhe uma chave à socapa.
Desculpa! Os papéis ficam com Maria do Carmo. Sê feliz!
Sumiu. A casa que lhe deixou era pequena, acolhedora, com cozinha como ela gostava.
Ana, aqui tens mais oportunidades, mesmo sendo uma cidade pequena. E assim ataste os estudos. Agora é seguir em frente.
Maria do Carmo sentou-se, satisfeita. Tinha convencido o pai de Ana a dar um braço ao destino.
É preciso, sim. Mas quando? Ana sorriu tímida.
Olha que não é treta!
Sim, o prazo ainda é curto. Nem contei ao Ricardo.
Eu ajudo. Entra na universidade. Tens cabeça cheia de ideias! É para usar!
Com esforço, Ana terminou o curso numa filial da Universidade Nova. Maria do Carmo ajudava como podia, a tomar conta do Martim, levava tachos e ovos.
Só respiraram fundo quando Ana arranjou trabalho e Martim foi para o jardim de infância.
Vamos à praia! Ricardo tapou os ouvidos com risos, ao ver as “suas mulheres” aos gritos.
Foi a única viagem em família à Costa da Caparica. Ana e Ricardo nadavam feitos peixes, vigiando de longe o Martim, que brincava na areia com a avó. À noite, passavam horas a passear no pontão, aproveitando a brisa e o céu estrelado.
Numa dessas noites, Ricardo ficou a dar voltas com o Martim na roda dos cavalos, e Ana e Maria do Carmo foram passear no pontão. Uma discussão de casal, aos berros, à beira-mar, obrigou-as a franzir as sobrancelhas.
Para quê tudo isto? suspirou Maria do Carmo. As pessoas não percebem o tempo que perdem? Afinal vão sempre fazer as pazes, mas perdem um dia. Para quê?
Quem lhe disse que vão fazer as pazes? Ana, pensativa.
Só se grita assim quando se ama. Viste como ela chorava? Vai perdoar. E ele, que se virou seis vezes? O que ninguém devolve a este casal é este serão. E se a noite não os remendar, lá se vão mais dias. Tu e o Ricardo ainda estão no início, mas pensa, Ana: o tempo é escasso. Muito escasso…
Ana sentiu gratidão por aquele conselho. Nunca desperdiçaram tempo juntos.
Na volta, enquanto aquecia o chá, deu um pulo: uma sombra passou pela janela. Não era Martim. Lá fora, pelos fundos, alguém andava.
A primeira ideia foi trancar portas, esconder-se, gritar… Mas os miúdos vinham aí! E Maria do Carmo também. Não podia deixar um estranho ali.
A pega do bule de chá, quente nas mãos, serviu de escudo. Ana avançou até à porta.
Lá fora, sem luz, esqueceu-se de ligar na pressa.
Quem está aí?!
A porta do anexo rangeu e Ana gelou de medo.
O que quer? Eu grito!
Uma sombra subiu o alpendre e Ana vacilou.
Não grites, Ana. Sou eu, o Tiago.
Ana baixou o bule, aliviada, mas queimou-se. Pousou-o com palavrão baixinho.
Então, andas a passear-te no meu quintal, Tiago? Por que não entraste?
O homem baixo, robusto, pareceu encolher-se como o Martim quando partia um vidro.
Olha, estava a endireitar a porta do anexo. Amanhã vou para as abelhas. Depois não sei quando volto. Queria arrumar aquilo.
Ana ficou baralhada.
A porta? Do anexo?
Juntou dois mais dois e ali estava a resposta: a limpeza do quintal, o portão arranjado, a ponte do poço novinha em folha…
Portanto, tu és o meu duende da casa! Ana sorriu.
O quê?
Duende! Arranja tudo, mas nem bebe leite do pires. O Martim diz que devíamos arranjar gato para lhe fazer companhia. Achas?
Na pouca luz, Ana viu o rubor de Tiago.
Desculpa, devia ter dito antes.
Obrigada. Mas… Porquê, Tiago?
Ele não respondeu. Despediu-se com a mão e saltou a vedação, nem ligando ao trio parado à entrada: Maria do Carmo e as crianças.
Ah, apareceu! Maria do Carmo riu, entregando a Ana um frasco de leite. Guarda no frigorífico.
Apareceu como assim? Já sabias, mãe?!
Toda a aldeia sabe, filha. Descoberta tu! O Tiago já te tinha queda quando andavas com o Ricardo. Nunca viste os olhos dele para ti?
Não…
A sério? Não estás a inventar?
Jura, não fazia ideia…
Vai, temos conversa a ter, mas primeiro deitamos as crianças. Isto vai ser longa noite.
E foi quase até ao sol nascer. Ana deitava água a ferver na chávena da sogra, enquanto esta contava.
Ele veio ter comigo há um ano. Pediu-me a tua mão. Disse que, se não tinhas mais ninguém, devia pedir-me a mim. O danado sabia quem acariciar!
E aceitou?!
Claro que sim! Tu és nova, tens a vida toda adiante. Os miúdos vão crescer e tu ficas sozinha comigo, velha… Isso é viver? Não! Eu sei o quanto amaste o meu Ricardo. Essa paixão é única, mas há quem tenha duas sortes. E aceitam-se ambos os amores como prendas. Mesmo que não sintas o mesmo, se te fizer bem, eu fico feliz. O Martim precisa de homem à volta. Tu sabes que ele e o Tiago já dão uns toques de mecânica juntos, não sabes?
Não…
Ele não contou. Tem medo de te magoar.
Porquê?
Talvez ache que estás a pensar que trocavas o pai? Fala com o Martim. Ele gosta do Tiago, mas receia ser mal-entendido. A Bia é pequena, pouco percebe, nem do Ricardo se lembra. O Martim é mais complicado. E tu…
Eu? Ana ficou encarnada, olhos no chão.
E tu nada! Maria do Carmo sorriu, pede mais chá. Serve-te, mulher! É preciso forças.
Ana e Tiago casarão um ano depois. Um ano daí nasce mais um menino.
Olha-me este cabelo despenteado! Ao chegar a casa, Ana tira o gorrinho ao bebé e alisa-lhe as madeixas, loirinhas, tal Bia.
Parece mesmo um duendezinho! Maria do Carmo embrulha o menino e pega-lhe ao colo. Bem-vindo, netinho! Podes chamar-me avó Maria.
Mãe…
Olha que eu só estou a prevenir! Vai dando de mamar, que eu vou à cozinha levantar o jantar.
Um grande gato ruivo, oferecido ao Martim pelo padrasto, espreita à porta, salta para o parapeito e observa Ana e o rebento a dormir. A paz senta-se também no parapeito e encosta-se ao gato, encantada. Ali está ela a felicidade… frágil, terna. Que seja bem guardada.
Ao longe, ouve-se a colher a tilintar, Bia solta uma gargalhada, a paz escorrega do parapeito e dá um último toque na orelha do gato. Ele abana a cabeça, estica o pêlo, pronto a conhecer o novo amigo.
Vai lá, felicidade. Aqui há guardiões de sobra!©
Autora: Adaptado de Ludmila Lavrova.







