O Gatinho de Cristal
Três irmãs sentadas na varanda a olhar o rio…
Mãe, é igualzinho a ti e às tuas irmãs, não é?
Beatriz suspirou, o suspiro a ecoar no fundo do corredor coberto de azulejos verde-aventura de Lisboa.
Quase isso, filha. Agora chega de conversa, hora de fechar os olhos. Ainda tenho que trabalhar antes que a lua se esconda. Senão amanhã vais adormecer com meia fatia de bolo de aniversário na mão, durante o arraial…
Ai que disparate, está já bem! Vou dormir, juro! Carolina enterrou-se debaixo dos cobertores, mas o seu narizinho atrevido logo voltou a espreitar Mas amanhã há balões? A Leonor vem? E…
Beatriz apanhou a filha, embrulhou-a num abraço cheiroso a alfazema e deu-lhe beijos de mãe, ignorando o protesto miudinho.
Agora dorme, miúda danada! Amanhã saberás de tudo!
Deixou-lhe o urso amarelecido na mão, acendeu o candeeiro em forma de estrela (Carolina ainda tremia no escuro, e Beatriz mantinha todas as luzes escondidas pela casa), e saiu. Lá em baixo, na cozinha, com o cheiro do chá ao longe, abriu o portátil. Podia perder-se a olhar as casas em telha que se inclinavam pela colina de Alfama, mas o relatório esperava por ela, impaciente.
Como a avó Olímpia dissera: Se tiveres a cabeça nos números, nunca te faltará pão. Beatriz fechou os olhos por um instante e imaginou-se a mergulhar nas águas verdes do Atlântico, uma vida a estudar polvos e correntes misteriosas ao largo de Cascais, mas acabou por escolher ser contabilista, menos vertigem, talvez mais certezas. E agora, enquanto o vapor do chá subia sinuoso, sentia uma suave gratidão pela vida que escolhera.
Beatriz nascera em casa dos Campos e Fernandes, tesouro tardio, recebida como uma bênção em festa. Que alegria estrondosa das avós! E os pais, a aprenderem o cheiro de uma primeira filhaBeatriz, a rosada, de olhos atentos.
Têm de dar-lhe uma mana pelo menos, para não ser sozinha no mundo! diziam as avós, com adagas de saudade.
E assim veio Madalena, pouco tempo depois. Cresceram mãos dadas, irmandade e competição em doses iguais. A mãe Maria do Carmo impôs a convivência quase como lei: Vocês são a raiz uma da outra. Convencendo o diretor da escola, lá foram para a mesma turma, os sapatos novos a tocarem-se por baixo da carteira no primeiro dia, sinais secretos: Estou aqui contigo!
Mas era Beatriz sempre a mais atenta, Madalena, uma correria, distraída com as andorinhas sempre do lado de fora da janela.
Bea, empresta-me o caderno da matemática! Já fizeste os exercícios, não fizeste? Só para copiar, depois vamos comer bolas de Berlim ali na esquina!
Faz tu! Senão a professora Rosa separa-nos como da última vez. Queres ajuda com os problemas?
Madalena logo se ofendia, mas nunca durava. Meia hora depois já puxava a irmã para o coreto ou para o parque, alimentar patos fedorentos.
Quando entraram no sexto ano, nasceu a pequena Lourdes, a terceira. Maria do Carmo já não planeava aumentar a prole. Tudo outra vez, António? Já não tenho idade para isto… Mas António sorria:
São três anjinhas, vamos dar conta, minha querida. Quem sabe se agora é um rapaz…
Mas nasceu Lourdes, berrante, firme no querer, tão diferente das duas mais velhas. Rapidamente, Maria do Carmo se dividiu, Lourdes era leoa, queria tudo para si, e a atenção da mãe deslocava-se como as marés, arrastando Beatriz e Madalena para a periferia. E no meio do redemoinho familiar, crescia entre as irmãs um gato preto, invisível, chamado Simão.
Simão era vizinho do andar de baixo, e até aos dezasseis anos de Beatriz, uma sombra sem nome. Numa tarde, a sair da natação, cruzaram-se:
Bea, espera… Preciso falar contigo Simão torcia as mãos como um peixe na rede.
Beatriz mediu-o, sorrindo de esguelha:
Não posso. A mãe espera. Seis em ponto, lá em baixo.
O sorriso tímido dele acendeu o bairro.
Gosto de ti! disparou.
Já percebi! riu-se ela, prata líquida ao pé das tílias.
Primeiros segredos de amor, dedos frios, beijos a medo. Decidiu contar tudo a Madalena, talvez tarde de mais. Madalena, sem saber porquê, entendeu que o olhar de Simão devia ser para si. Queria-o só porque era da irmã. Tentou, conseguiu: Beatriz passou pela varanda e viu-os juntos.
Regressou a casa sem chorar. Bateu a porta do quarto, empurrou Lourdes para fora. Maria do Carmo percebeupela primeira veza dor abismal nos olhos da filha.
Mãe, dói. Por quê? Por que Madalena? repetia, braços cruzados.
Sê paciente, filha. O tempo é remédio…
Beatriz fez as malas.
Vou para casa da avó Olímpia. Não posso ficar.
Madalena, a chegar, cheia de vento e frio da rua, cruzou-se com ela no corredor Onde vais com essa mala?
Beatriz não respondeu. Saiu daquela casa e nunca mais voltou. Maria do Carmo, em pranto, deu a Madalena uma estalada que ecoou até à sala.
Mas na família portuguesa, a mágoa é sopa morna: duas semanas, dois meses, uma abraço reata. Só que Beatriz levou dois anos, regressando ao seio da família apenas quando a mãe adoeceu. O hospital era um jardim de esperas e reconciliações. Sentaram-se em silêncio, de mãos dadas, enquanto António anunciou: a operação correu bem.
A vida seguiu por rotas diferentes. Beatriz foi viver com a avó Olímpia, em Coimbra. Quando a avó partiu, a herança foi um apartamento com sol e conselhos:
Sobretudo, confia na tua bússola, rapariga.
Beatriz riu-se, mas não explicou as mágoas ou escolhas.
Casou mais tarde, em segredo, só com Francisco, o condutor de autocarro. Nada de arroz ou véus. Escolhi-o eu, mãe. E basta!
Por mais que Maria do Carmo lamentasse Com o teu diploma, eras doutora, podias ter tudo… oh, filha Beatriz era feliz. Francisco era gentileza: cozinhava, cuidava, limpava. Não havia chefes em casa, só abraços e chá.
O que faltava era um filho, mas os médicos abanavam a cabeça. Portanto, começaram a pensar em adoção, mas eis que o destino trocou as cartas.
Numa madrugada chuvosa, veio um telefonema Lourdes tinha morrido, as luzes da noite de Lisboa dilaceraram tudo. Carolina, a menina de Lourdes, ficou órfã de mãe ainda antes de saber andar. O avô António chamou cada filha. Madalena recusou: Tenho os meus, pai!. E Beatriz, sem pestanejar, fez-se mãe de novo.
Um mês depois, Carolina já acordava em versos de Beatriz, Francisco vendeu a casa, terminaram o restauro num bairro de sinos e buganvílias. Renascidos.
Durante anos, pouco contato com Maria do Carmo, agora mais amarga, por tudo e por nada, queixando-se até às paredes do convento.
Tiraste-me a neta, foste embora, nem pensas em mim…
Mas à neta Carolina, a avó reservava ternura, lágrimas nos olhos.
Faz dela o que não fiz de ti, Beatriz: que seja livre!
Beatriz apertava a mão de Francisco debaixo da mesa, calava os argumentos.
Naquela noite estranha, Beatriz desligou o portátil. Passava da meia-noite e desejou tanto que Francisco estivesse já de regresso, mas amanhã sim, amanhã! traria de Madrid um presente para Carolina, misterioso como só ele sabia ser: Vais gostar, miúda, vais gostar.
Na manhã seguinte, eis Carolina:
Mãe! Parabéns a mim! ecoou pela casa E a ti, por seres minha mãe!
Risadas, cócegas, promessas de muitos balões. Carolina, finalmente dez anos, mas ainda pequena para caber inteira no abraço de Beatriz.
E então, presentes? perguntou ela.
Beatriz abriu a gaveta, tirou uma caixinha.
Cuidado, tesouro!
A miúda espreitou e brilhou:
Mãe… é mesmo o gatinho! O de cristal?
O mesmo que o avô António me deu, para a filha mais velha.
Carolina apertou a figurinha, olhos de quem acabou de apanhar um desejo.
Mas eu sou filha única…
Beatriz sorriu, calou a emoção, olhou para Carolina com ternura de mar.
Verdade? sussurrou a miúda.
Beatriz acenou, e Carolina soltou um grito, a dançar pela casa com o gatinho brilhante.
Vou ser mana mais velha! Quem?
Não sei ainda, querida.
O resto do dia bailou como um sonho lusitano bolos, sinos, primos e primas, correria, a avó assustada com o riso alto da neta, Madalena a queixar-se da vida, a elogiar os filhosLeonor campeã, Carlos medalhado em boxe.
De repente ouve-se um berro na sala de brinquedos: Carolina, de vestido branco, a soluçar sobre as nódoas de framboesa do lanche. Beatriz corre, agarra-lhe as mãos ensanguentadas de arranhões.
Madalena, a caixa de primeiros-socorros! Anda!
No meio da confusão, Leonor observa, calada, dos cantos da sala.
Carolina, diz-me, o que se passou?
Silêncio, até que a miúda levanta o rosto, olhos cinzentos como os da mãe. Tudo se dilui na névoa do sonho vozes que se desfazem, risos que ecoam, o chão inclinado de Lisboa a desaparecer por debaixo dos pés.







