O Ex-Marido Resolve ser Pai: Uma Reviravolta Inusitada na Vida Familiar Portuguesa

O ex voltou para ser pai

Sabes aquelas coisas que pensaste mil vezes como é que seriam, mas no fim não sentiste rigorosamente nada disso? Pronto, foi assim que a Mafalda viu o André sentadinho, meio encostado, ali no fundo do restaurante. Só sentiu uma ligeira comichão, como quando entra uma mosca irritante pela sala querias só que fosse embora.

Sete anos desde aquele telefonema que mudou tudo. Sete anos a perguntar-se, de vez em quando, se algum dia seria surpreendida por ele a aparecer. Em alguns cenários chorava, noutros era ela quem dizia aquela frase certeira, dolorosa. Mas agora nem lágrimas, nem discurso dramático. Só ligeira impaciência.

Mafalda aproximou-se da mesa não porque quisesse, mas porque aquele era o seu espaço, o seu restaurante. Na verdade, era o seu projeto, o seu nome no letreiro cá fora: Severina & Associados. Não tinha maneira de se esconder.

– Mafalda disse ele, assim a dar aquele tom de homem sensível, meio quebrado. Estás incrível.

– André ela respondeu, seca. Já fizeste o pedido?

– Vim falar contigo.

– Os nossos empregados começam aos dezoito, portanto tens tempo de sobra até trazerem o menu.

Sentou-se. Era mais fácil que ficar ali de pé, tipo novela. O teatro ficou enterrado há muitos anos.

E, olha, foi assim que começou tudo. Ou melhor, foi o fecho de um ciclo. Para perceberes porque é que naquela noite a Mafalda Severina olhava para o André como se estivesse a reparar em azulejos rachados, tens que recuar uns anos.

Sete anos e três meses antes, ela era só Mafalda Teixeira. Vinte e seis anos e meio, designer autodidata numa empresa de obras ali em Lisboa. Vivia num quarto alugado em Arroios, o suficiente para comer e pagar as contas, mas pouco mais. O André era o namorado bonito trinta e um anos, gestor numa imobiliária, aquele charme que podia dar numa coisa séria ou acabar oco. Ela achava que era daquelas coisas boas.

Andavam juntos há dois anos. Ela levava aquilo a sério.

Naquela noite de outubro, ligou-lhe a pensar que ia dar uma boa novidade. Estava nervosa, mãos a tremer, olhar na janela para a chuva a bater na calçada.

– André, tenho de te dizer uma coisa.

– Diz.

– Estou grávida.

Ficou aquele silêncio. Não o das boas surpresas. Outro. Aquele em que já sabes que não vem coisa boa.

– Mafalda eu não sei Preciso pensar.

– Está bem ela disse, mas já sentia tudo a apertar por dentro.

Demorou dois dias a pensar. Ao terceiro apareceu em casa dela com um saco. Não levou tudo, só o que era mesmo dele. Deixou o saco junto à porta.

– Eu não estou preparado para isto. Sabes que estou numa fase difícil. Não posso assumir esta responsabilidade.

– Que fase difícil, André? perguntou ela, baixinho.

– Não compliques mais

Ela não respondeu. Ficou só a olhar para ele, a perceber que afinal esteve dois anos apaixonada por alguém que só existia por fora.

Um mês depois, amigos em comum vieram com novidades. O André já andava com a Lídia Mota mulher feita, dona de salões de beleza em Lisboa, apartamento na Lapa, Mercedes último modelo, jantares caros. Mafalda soube disto no almoço, sozinha com a sua sopa, e não sentiu nada. Já não havia espaço para mais tristeza.

O inverno foi duro. A empresa cortou-lhe o horário, os poucos clientes não apareciam. Começou a fazer tudo por menos dinheiro, cortou despesas, mudou para um quarto ainda menor. A gravidez estava complicada, o médico a dizer que precisava de repousar, mas repouso era artigo de luxo.

Em fevereiro, na trigésima segunda semana, foi de ambulância para o hospital de Santa Maria. Correu mal. Quase tudo branco na memória dela: o teto, o frio dos corredores, aquela sensação de que o chão desaparece debaixo dos pés. O Tiago nasceu prematuro, com pouco mais de quilo e meio. Levaram-no logo. Não ouviu sequer o choro.

Duas semanas a ir todos os dias olhar pela janela do berçário para aquele ser minúsculo, coberto de tubos. As semanas mais longas da vida dela, não por dor mas porque todos os dias prometia o mesmo: Se ele sobreviver, eu mudo. Não melhor nem pior, diferente.

O Tiago sobreviveu.

Quando mas o entregaram, embrulhado num cobertor azul claro, tomado nos braços, não chorou. Só pensou: agora é a sério.

O primeiro ano foi automático: dar de comer, mudar, adormecer, dormir três horas, levantar, abrir computador, fazer mais um desenho, mandar mais uma proposta, levar nega, repetir tudo. O Tiago dormia no colo dela e foi assim que ela aprendeu a desenhar com uma só mão.

Aceitou tudo o que aparecia remodelações de casas de banho por cinquenta euros, esquemas de cor para cozinhas, disposição de móveis por fotografia. Ao início era humilhante, depois deixou de interessar. O que importava era fazer bem, para o cliente voltar ou recomendar.

Ao fim do primeiro ano, já tinha uns vinte clientes fidelizados, pouco mas constante. Percebeu que, mais do que ouvir pedidos, precisava perceber o que as pessoas realmente queriam.

No segundo ano do Tiago, arrendou uma secretária num espaço de cowork em Santos. Não era porque podia, era porque já percebeu que trabalhar numa sala minúscula com crianças não era compatível com clientes. Foi lá que conheceu o Pedro Oliveira homem de mais de cinquenta, empresário da construção, recuperava casas antigas e dava-lhes nova vida. Tinha aquela calma de quem observa primeiro.

Conheceram-se ao lado da impressora. Ela estava ali a tentar desentupir aquilo há meia hora, ele a ver.

– É paciente, menina. comentou ele.

– Não, só sei que stress não resolve impressoras.

Ele sorriu.

– Pedro Oliveira.

– Mafalda Teixeira.

– O que está a projectar aí?

Ela mostrou o traçado um apartamento antigo, repleto de detalhes difíceis. Pedro estudou, ficou calado um bom bocado.

– Já viu que aqui mexeram nas paredes mestras sem consulta a engenheiro?

– Não sabia. Este projecto foi passado já assim, estou a fechar.

– Trabalha por conta própria?

– Sim.

– Há quanto tempo?

– Dois anos.

– Antes disso?

– Uma empresa pequena. E pronto, sempre fui fazendo por fora.

– E a formação?

– Deixei a faculdade a meio, arquitetura.

Não perguntou porquê.

– Tenho aí uma casa de comerciantes na Rua de São Bento, quero fazer escritórios e um pequeno café. Tem interesse?

– Posso dar uma vista de olhos.

– Passe lá na sexta.

Ela foi. A casa era um desafio, cheia de pormenores dos quais ninguém queria saber. Mediu, tirou fotos, cheirou a luz e o tempo antiga que o espaço ainda tinha. As soluções do antigo projetista ignoravam a história do lugar ela sabia fazer diferente.

Disse ao Pedro: isto não pode ser igual aos outros. Não custa mais, mas a lógica tem de ser outra.

Fez a proposta numa semana, não por pressa, mas porque viu logo o que os outros não viam. Às vezes só precisas de escutar o lugar.

Ele aceitou. Espreitou os desenhos, fixou-a.

– De onde lhe vem este olho?

– Não sei, olho e faço.

– O que fez aqui com a alvenaria ninguém pensou nisso.

– Porquê esconder o que é bonito?

Ele mexeu a cabeça, decisão tomada.

– Fica com o projecto. Pagamento justo, contrato direitinho. Se correr bem, tenho mais para si.

Correu. Depois disso, trabalharam juntos em mais cinco casas. O Tiago ia crescendo. Com o tempo, pôde pagar uma ama, depois o jardim de infância. Passou de um quarto para um T0, de T0 para um T1. Comprou finalmente uma secretária decente.

O Pedro Oliveira só aconselhava se ela pedisse. Sabia como funcionava o bairro, as obras, os clientes, as burocracias. Com o tempo, Mafalda aprendeu o negócio, percebeu como fazer render.

– Pedro perguntou ela um dia, nas escadas da casa antiga Porquê deu-me uma hipótese? Ninguém arriscava.

– Porque vi alguém que passou meia hora a tentar uma impressora sem dramas. Depois mostrou-me um desenho feito com cabeça, não para agradar ao patrão.

– Isso basta?

– Para mim chega.

Ela foi guardando estas respostas, como quem aprende a confiar em si. Não era orgulho, era serenidade.

Quando o Tiago fez cinco anos, abriu o seu próprio gabinete: Severina & Associados. O nome Severina saiu do apelido da família, ajustou para soar melhor. Era mesmo para marcar um novo ciclo.

O primeiro ano como patroa custou: contratou, despediu, perdeu tempo e dinheiro. O Pedro ajudava com palavras diretas, mas nunca se impunha.

A ligação entre os dois foi mudando, devagar, sem pressas de cinema. A Mafalda passou a gostar daqueles encontros. Importava-lhe o que o Pedro pensava para além do trabalho. Se o Tiago estivesse doente, ele ia a casa dela assinar papéis, sem protestar.

Numa dessas noites, ficaram até tarde a discutir uma obra. Tiago dormia ao lado. Copos de café vazios acumulados. Nesse momento, Mafalda percebeu que não sentia paz assim há muitos anos.

– Não te faz confusão? perguntou ela.

– Estar contigo?

– Não, em geral. Pareces sempre sereno.

– Quem se aborrece é quem não tem o que fazer. Eu tenho.

Parou ali. Ele compreendeu o silêncio. Sabiam o que estava a nascer dali, sem urgências.

Quando teve o maior desafio um restaurante num prédio antigo na Bica , agarrou logo. O dono queria qualquer coisa com alma, nova, sem imitar o velho nem o moderno. Ela sabia o que isso era. Fez várias reuniões, apresentou esboços. Ganhou logo.

O projecto foi um terror de normas, obras, prazos. Mas o restaurante abriu a tempo. Quando finalmente se sentou lá como cliente, pediu uma água, pousou os olhos naquele teto sobre o bar que esteve meses a ajustar. Os pormenores eram todos dela, e ninguém na sala sabia.

Sentiu prazer miudinho, daqueles tranquilos.

Foi ali que viu o André Veras mais uma vez.

– Sabes como se chama este restaurante? perguntou, já depois do pedido.

– Severina, ele respondeu.

Exatamente isso.

Ele olhava para ela com o mesmo ar de antigo, misto de cansaço e saudade mascarada de carinho. Agora via só o vazio por trás disso tudo.

– Mafalda, estive anos a pensar nisto.

– André, queres conversar ou fizeste um monólogo para eu ouvir?

Ele parou.

– Estou a ouvir ela disse, sorrindo sem calor. Força.

– Fugi quando devia ter ficado. Fui cobarde. Errei.

– Continua.

Contou que com a Lídia não deu certo, o negócio faliu, agora fazia outra coisa, menos interessante. Pensava nela e no filho.

– No filho, sim corrigiu Mafalda. Tiago, tem sete anos.

Alguma coisa mexeu-se no olhar dele.

– Quero conhecê-lo.

– Não.

– Mafalda

– André, escolheste há sete anos. Eu respeitei. O Tiago tem uma vida estável, cheia de adultos normais. Tu já não fazes parte.

– Mas sou o pai.

– Biologicamente. É só isso.

– Não podes só apagar uma pessoa.

Ela olhou, serena, como quem viu um erro nos planos e já corrigiu.

– Não apaguei. Segui em frente. Não é a mesma coisa.

Chegou a conta. Ela pousou umas notas euros de sobra para o jantar dele.

– Fica para o jantar. Foi interessante.

– Vais-me deixar dinheiro? havia dor e orgulho.

– Vou. A tua vida não está fácil. Considera uma ajuda ligeira. Aqui come-se bem.

Levantou-se, vestiu o casaco. Agora podia pagar bom fato feito em medida, comprado num ateliê em Campo de Ourique. Há um ano mal pagava a renda.

– Mafalda.

Ela virou.

– Não me perdoaste disse ele.

– Não, mas também não importa. O perdão serve a quem ainda nos faz falta. Tu já não fazes.

Atravessou a sala e ninguém percebeu o que lhe ia na cabeça.

Lá fora, Setembro já escurecia. Cheirava a chuva em Lisboa, aquele friozinho que já pede cachecol. Ela gostava muito daqueles fins do verão, sem turismo, cidade só dela.

Pedro Oliveira esperava junto ao carro, casaco azul-escuro, sem nunca usar gravata. Ela já lhe tinha dito que gravata era para quem espera inauguração ou cerimónias oficiais.

– Demoraste.

– Nada, vinte minutos.

– Estás bem?

Ela pensou bem antes de responder.

– Estou, curiosamente. É como se tivesse posto tudo no sítio.

– Com frio?

– Não.

Ele pegou-lhe na mão, sem dizer nada. Foram para o carro.

– O Tiago perguntou quando voltávamos.

– Ligou há muito?

– Uma hora. A ama já o deitou.

– Daqui a bocado vou vê-lo, só espreitar.

– Claro.

Entraram no carro. O Pedro ainda ligou o motor, mas não arrancou logo.

– Ele esteve lá?

– Esteve.

– E?

– Nada. Disse o que há para dizer nestas alturas. Eu respondi o que era preciso.

– Estás bem?

Ela olhou para ele cansado, mas tão acolhedor.

– Pedro, sabes que eu nunca fui boa a agradecer pessoas? Sem floreados

– Sei.

Ela não disse mais. Ele arrancou.

A cidade deslizava pelos vidros luzes de Lisboa a piscar reflectidas no Tejo, tudo escuro e pesado. A Mafalda reparou que, no restaurante que desenhou, ficou alguém sozinho. Não sentiu mais nada. O passado não é coisa a apagar ou perdoar. É só parte dos alicerces. Aprendes com as falhas e seguess em frente.

Quando chegaram a casa, o Tiago dormia. Ela entrou devagarinho, olhou-o sete anos. Dormia de lado, boca aberta. Verdadeiramente alguém dela.

Passou-lhe uma réstia de lembrança à janela do hospital o bebé minúsculo, os tubos, as promessas feitas.

Foi isso que a guiou sempre não tristeza pelas pessoas, mas aquilo que prometeu de verdade.

Ajeitou-lhe o cobertor e saiu.

O Pedro estava na cozinha, chá na mão, telemóvel na outra.

– Ele dorme.

– Eu sei. Bem?

– Como sempre.

Encheu um copo de água, sentou-se à frente dele.

– Pedro, não te arrependes de nada disto? De nós?

Ele olhou em silêncio.

– Mafalda, arrependi-me só uma vez: de ter demorado tanto tempo a falar contigo sobre tudo menos trabalho.

Ela sorriu, pegou-lhe na mão.

Lá fora chovia. Aquela chuva miúda e certa de Lisboa. No restaurante já deviam estar a servir os pratos quentes. No canto, talvez, já não estivesse ninguém.

Ela já tinha outros pensamentos aula de desenho do Tiago no dia a seguir (adora!), reunião grande no escritório, chuva que provavelmente ficava a noite toda. E a certeza que tudo isso, e cada detalhe – ela construiu, pedra a pedra, aos poucos, mesmo quando só tinha o filho ao colo e desenhos mal pagos à frente.

A vida não era o que sonhava aos 26. Era outra. Muito melhor.

– Pedro.

– Sim?

– Está tudo bem.

Ele apertou-lhe a mão.

– Eu sei.

A chuva continuava lá fora. O Tiago dormia. No restaurante, entre copos e notas, a conta estava paga com folga.

***

Olha, para ser justo, falta contar um bocadinho. O que nunca disse em voz alta.

Durante uns anos, já a trabalhar em casa de noite, pensou muitas vezes em ligar ao André. Não para reatar, claro, mas só para dizer: olha o que perdeste. Mas calava-se. Não por orgulho, mas porque era para ela, não para ele. Teve de aprender a conseguir tudo de outra forma.

Houve uma noite em Fevereiro, o Tiago tinha oito meses, ela não aguentava mais. Tentou trabalhar, não conseguiu, fechou o portátil e ficou dez minutos a olhar para o escuro não chorou, só ficou. Depois voltou a abrir o computador e continuou. Foi ali, nessa microdecisão, que fez o maior caminho. Vários dias, às vezes mais do que uma vez por dia.

O dia em que o gabinete começou finalmente a render, não gastou em roupa ou carro. Pagou um curso de estruturas em que sempre quis inscrever-se, porque queria saber até ao último prego aquilo que desenhava. Estava ali no meio dos miúdos, mas aquilo era para ela.

O professor perguntou-lhe:

– Trabalha mesmo nesta área?

– Trabalho.

– Há muito?

– Uns anos.

– E porquê agora um curso básico?

– Porque prefiro saber a fingir que sei.

A honestidade dela com os limites tornou-se uma marca. Os clientes sentiam-se seguros porque ela nunca prometia o impossível.

Pedro confessou-lhe um dia:

– Mafalda, há quem diga tudo só para agradar ao cliente. Tu recusas um terço dos pedidos, mas tens fila para três meses.

– As pessoas precisam que se lhes diga a verdade, nem que não gostem.

Foi aí que percebeu que aquilo já nem era só trabalho. Havia respeito, havia equilíbrio.

Costumava surpreender-se com o Pedro fora do trabalho. Ele lia muito não só manuais, mas romances a sério. Um dia encontrou-lhe Os Maias na mesa. Riu-se.

– Que estás a fazer com isso?

– Comprei há anos, volto a reler de tempos a tempos. E tu?

– Mil vezes.

E falaram disso, numa conversa que vale por semanas de jantares. Com o André, agora via, nunca teve conversas dessas.

Assim que começou a estabilizar financeiramente, levou o Tiago um dia à obra. Só para ele ver onde a mãe trabalhava. O miúdo ficou espantado, tocou nas paredes, olhou para o teto.

– Foste tu que inventaste isto?

– Fui eu que imaginei como podia ser. Os senhores é que fizeram.

– Mas a ideia é tua?

– A ideia é minha.

– Então é um bocadinho teu.

– É ela sorriu.

Mais tarde, o Tiago perguntou:

– Todas as mães têm o seu lugar?

Ela só respondeu depois de pensar:

– Há mães que têm, outras não. Melhores são as que têm.

Ele assentiu, a fingir que percebeu tudo.

Depois, claro, nem tudo correu bem sempre. Cliente deixou de pagar, empreiteiro fez porcaria, houve quem copiasse o projeto. Umas vezes resolvia a conversar, outras por advogado, outras de frente. Nunca foi meiga sem razão, mas sempre justa.

Quando o Pedro pela primeira vez sugeriu um jantar sem trabalho, ela questionou-se.

– Não tens receio?

– Do quê?

– De misturar. Somos uma equipa, pode ficar complicado.

– Pode, mas prefiro isso a não tentar. Isso seria covardia.

Lá foi. E percebeu que o segredo foi não andar a fugir trabalho continuava, mas havia mais.

O Tiago aceitou rápido. As crianças aceitam bem mudanças honestas. Ela nunca lhe mentiu.

– Tiago, o Pedro é importante para mim. Vai vir cá mais vezes, tudo bem?

– É aquele dos bolos?

– É.

– Ótimo, deixa vir.

Depois, um dia, o Tiago perguntou ao Pedro:

– Sabes jogar xadrez?

– Sei.

– Ensinas-me?

– Se a tua mãe deixar.

– Mãe?

– Claro.

E começaram os jogos ao serão. Pedro nunca facilitou, explicava e pronto. A Mafalda olhava e achava graça a aquela rotina, silenciosa, segura.

Quando se decidiram a casar, não houve ajoelhares nem frases feitas. Estavam só na cozinha, noite cerrada.

– Mafalda.

– Sim?

– Quero casar contigo.

Ela olhou.

– Porquê?

– Quero ficar, não só às vezes. Todos os dias, aqui.

– Não é a fala mais romântica.

– Mas é sincera.

Ela riu-se, porque sentiu verdade.

– Então sim.

No dia seguinte ele trouxe-lhe um anel simples, com uma pequena pedra cinzenta. Pronto.

Por trás de tudo, estava isso. Por isso, quando saiu do restaurante, de casaco apertado, tinha uma vida inteira construída á mão atrás.

Há uma coisa que nunca disse ao André e não vai dizer a ninguém.

Naquela noite, o Tiago bebé com três meses, adormecia, ela à janela, perguntava-se: Será a vida justa? Percebeu que não a vida não é justa nem injusta, só avança, e tu moves-te nela como sabes.

A dor sentiu-a bem real, mas deixou de pesar. Não foi a traição que a fez mais forte, foram as pequenas decisões persistentes, todos os dias, no escuro, entre emails e choros.

A solidão existiu, mas ela deixou de doer. A solidão de silêncio fazia-lhe bem, quando Tiago dormia e tudo era dela.

O segundo fôlego deu-o ela, todos os dias. As pequenas escolhas diárias aí é que estava a força.

Naquela noite de setembro, no carro com Pedro já a chegar a casa, pensava só: o gabinete precisa crescer, os jovens arquitectos querem desafios, o Tiago para o ano tem escola nova, e eles ainda nem casa conjunta têm.

A vida cheia, normal.

No restaurante Severina, decerto já tinham limpo a mesa. A conta paga, tudo resolvido.

Às vezes, a história fecha-se sozinha. Não porque decides, mas porque, quando falas do passado, percebes que já só interessa o que vem depois.

No carro, o Pedro ligou a rádio, piano suave a tocar. Ela recostou-se e fechou os olhos.

– Cansada?

– Não, estou bem.

Ele conduziu, calado.

E lá fora, continuava a chover. E tudo estava no sítio certo.

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