O ex-marido quis ser pai
Ela avistou-o antes de ele dizer qualquer palavra.
Sete anos. Durante sete anos, Teresa pensou ocasionalmente em como seria esse reencontro, se é que algum dia aconteceria. Imaginara cenários distintos. Num deles, chorava. Noutros, disparava frases cortantes, carregadas de precisão, só para o magoar. Mas agora, ali, enquanto Ricardo Figueiredo, sentado numa mesa do canto do seu restaurante em Lisboa, a olhava com o semblante de quem ensaiou esta conversa vezes sem conta, Teresa sentiu apenas um leve incómodo, como uma mosca a voar numa tarde abafada.
Aproximou-se. Não porque quisesse. Mas porque era o seu restaurante. Ou melhor, o seu projeto, o seu trabalho, o seu nome em letras douradas sob o logotipo: Severina & Associados. E ela recusava arredar pé do seu próprio espaço.
Teresa, disse ele, levantando-se. A voz inquieta, com aquela cadência de homem a querer ser comovente. Estás incrível.
Ricardo, respondeu, num tom neutro. Pediste alguma coisa?
Vim para falar contigo.
Os nossos empregados só têm mais dezoito anos, devolveu ela. Tens tempo enquanto trazem o menu.
Sentou-se. Não para o ouvir. Mas porque ficar de pé seria demasiado teatral e ela, há muito, já não se identificava com o teatro.
Assim começou. Ou melhor, assim acabou. Só se entende a razão daquele olhar, com que Teresa Severina observava o antigo amor como quem contempla estuque rachado, voltando sete anos e três meses atrás.
Nessa altura, ainda era apenas Teresa. Teresa Fonseca, vinte e seis anos, designer autodidata a meio tempo numa construtora modesta nos arredores de Lisboa. Fazia plantas em Autocad que, mais tarde, colegas experientes alteravam. Ganhava o suficiente para alugar um quarto em Alvalade e comer sem grandes luxos. Tinha, contudo, Ricardo. Ricardo Figueiredo, trinta e um anos, gestor numa empresa imobiliária, bonito com aquele charme seguro que, com os anos, ou cresce em nobreza ou se esvazia. Teresa acreditava ser o primeiro caso.
Namoraram dois anos. Ela pensava que era a sério.
Nesse final de outubro, ligou-lhe com o que pensou ser uma ótima notícia. As mãos tremiam enquanto encostava o telemóvel à orelha e olhava a chuva grossa, a escorrer pela janela.
Ricardo, preciso dizer-te uma coisa.
Diz.
Estou grávida.
Silêncio. Não daqueles felizes, de excitação. De outros. Daqueles em que alguém tenta arranjar uma saída.
Teresa, disse finalmente. Eu não sei. Preciso pensar.
Tudo bem, respondeu. Mesmo nesse instante, algo nela se fechou. Mas empurrou o pressentimento.
Pensou dois dias. No terceiro, trouxe as coisas dele. Não todas, só as que deixava no quarto. Deixou os sacos ao lado da porta.
Não estou preparado para isto. Sabes que estou numa fase complicada. Não consigo assumir tamanha responsabilidade.
Que fase é essa, Ricardo? perguntou ela, baixo.
Teresa, por favor, não compliques.
Não respondeu. Fitou-o e percebeu que, afinal, durante dois anos, amara alguém que nunca conhecera. Um homem com aquela cara, aquele tom de voz, mas por dentro só vazio. Uma decoração.
Um mês depois, soube pelos amigos que Ricardo saía com Carla Moura. Carla Moura, trinta e cinco anos, dona de vários salões de beleza em Lisboa, apartamento no Príncipe Real, um SUV último modelo, habituada ao melhor dos restaurantes. Teresa soube no intervalo do trabalho, comendo sopa no micro-ondas da empresa. Não sentiu nada. Não havia energia para sentir.
O inverno foi duro. Ficou sem ordenado fixo a firma cortou-lhe as horas a um quarto. Tentou angariar clientes, mas poucos apareciam. Passou a comer o mais barato possível, cortou subscrições, mudou-se para um quarto ainda menor. A gravidez era complicada. O médico falava em risco, recomendava repouso, mas o repouso custa dinheiro e o dinheiro faltava.
Em fevereiro, à trigésima segunda semana, levou-a de urgência o INEM. Não recorda as horas seguintes com clareza, apenas tetos brancos e a sensação de chão a fugir. O João nasceu antes do tempo. Nem dois quilos. Levaram-no logo. Não ouviu o primeiro choro.
Duas semanas passou Teresa a visitar, através do vidro dos Cuidados Intensivos Neonatais, o ser pequenino ligado a tubos. Foram as semanas mais longas. Não pelo sofrimento, mas porque todos os dias prometia uma só coisa. Se ele sobreviver, mudo de vida. Não para melhor ou pior, mas mudo. Aprendo a ser firme.
João sobreviveu.
Quando finalmente lho trouxeram, enrolado naquela manta verde do hospital, tão pequeno, quente, olhos fechados, ela não chorou. Só pensou: acabou. O resto começa agora.
O primeiro ano ficou vago na memória. Foi um emaranhado de rotinas: alimentar, mudar fraldas, embalar, dormir três horas, levantar, abrir o portátil, desenhar outra planta, enviar proposta comercial, receber respostas negativas, insistir. Alimentar, acalmar, dormir.
João dormia-lhe nos braços. Aprendeu a desenhar com uma só mão.
Pegava em tudo o que vinha: remodelações de casas de banho por trinta euros, combinações de cores para cozinhas, disposição de móveis por fotografia. No início foi humilhante. Depois deixou de pensar nisso. Pensava só em fazer bem cada pedido, para fidelizar clientes, para recomendarem o seu nome.
Ao fim de um ano do João, já tinha vinte clientes fixos. Pequenos, mas regulares. Começou a perceber as pessoas para lá do que diziam. Quero algo moderno era, muitas vezes, código de quero impressionar os vizinhos. Preciso funcional significava não tenho bem dinheiro, mas custa-me admitir. Aprendeu a ler as entrelinhas um talento precioso.
No segundo ano do João, alugou secretária num cowork em Campo de Ourique. Não porque podia, mas porque percebeu que trabalhar em casa, com criança, era impossível para mostrar credibilidade. Ali conheceu Pedro Manuel da Silva. Cinquenta e tal anos, construtor, especializado em recuperar edifícios antigos na Baixa. Reservado, observador, com o hábito de fixar as pessoas.
Cruzaram-se por acaso um desenho preso na impressora, meia hora de luta sem exasperar. Pedro observava-a.
Tem paciência, comentou ele, quando o papel saiu.
Não. Só sei que gritar não resolve.
Sorriram.
Da Silva. Pedro Manuel.
Fonseca. Teresa.
Está a projetar o quê?
Mostrou o desenho. Um T1 em Alfama, planta difícil, teto irregular. Ele analisou.
Sabe que mexeram nas paredes mestras sem projeto aprovado?
Não é meu, peguei já assim. Faço só a planta final.
É freelancer?
Sim.
Quanto tempo de experiência?
Dois anos.
Antes?
Meio tempo numa construtora. Depois por conta própria.
Qualificação?
Faculdade de arquitetura não terminei.
Ele não pediu explicações.
Tenho um projeto. Pequeno. Casa senhorial nas Janelas Verdes. Quero torná-la espaço de escritórios e uma pequena cafetaria. A equipa não me convence, tudo igual ao que já vi.
Posso analisar.
Venha cá sexta-feira. Dou-lhe a morada.
Ela foi. Mediu o espaço, tirou fotos, observou o sol em horas diferentes. Os outros ignoravam as imperfeições, aplicando ideias genéricas em espaços únicos.
Passou lá duas horas. Pedro ficou ao lado, calado.
Isto não se pode tratar como um projeto típico, disse ela.
Sei.
Se for para fazer bem feito, usa-se o que cá está vigas, paredes tortas, as portadas gastas.
Fica mais caro?
Não. Fica diferente.
Faça a proposta.
Prazo?
O tempo que precisar.
Em uma semana fez tudo. Não por pressa, mas por clareza. Há tarefas que já contêm a resposta, só não atrapalhar.
Pedro estudou a proposta. Depois, olhou para ela.
Como lhe ocorreu isto?
O quê?
Aqui. Preservou o tijolo antigo e tornou-o parte do café.
É bonito. Para quê tapar o que é bonito?
Ele assentiu, devagar, como quem chegou a uma decisão.
Fica com o projeto. Contrato, pagamento integral. Se corresponder, aparecem mais.
E compensou.
Nos três anos seguintes, trabalhou para Pedro em cinco obras. Mantinha clientes próprios. João crescia. Teresa contratou uma ama por algumas horas, depois inscreveu-o na pré-primária. Mudou para um pequeno T1. Mais tarde, um T2. Comprou finalmente uma secretária decente.
Pedro nunca dava palpites sem que lhe pedissem; mas quando sim, era certeiro. Sabia do negócio, dos clientes, dos fornecedores, das dificuldades. Por ele, Teresa aprendeu não só a desenhar, mas a negociar, a gerir.
Pedro, perguntou um dia, partilhando um pastel de nata porque me deu aquele primeiro trabalho? Eu não era ninguém.
Não eras ninguém? negou ele. Estavas ali, meia hora paciente com uma impressora, depois mostraste um desenho original. Trabalho de quem pensa, não despacha. Isso chega-me.
Ela refletiu nisto. Não era orgulho ou vaidade. Era só consciência lucida do próprio valor.
No quinto aniversário do João, fundou o nome Severina & Associados, embora não houvesse outros sócios. Severina, do apelido de solteira, sem inspiração melodramática. Para marcar novo caminho.
Primeiro ano difícil. Contratava, falhava, uns abandonavam, outros não encaixavam na equipa. Analisava, aprendia, tentava de novo. Pedro recomendava quando consultado, nunca mais.
Pelo tempo, algo mudava entre eles. Não como nos maus filmes, onde de repente alguém se vê apaixonado. Foi subtil. Teresa percebeu que aguardava aqueles encontros. Que a opinião dele contava, mesmo fora do trabalho. Notou que, quando João estava doente, Pedro nunca a pressionava, antes a visitava com os papéis em mãos.
Uma noite, ficaram até tarde a rever um orçamento complicado. João dormia noutra sala. Restavam canecas de chá sobre a mesa. Teresa sentiu um estado raro de serenidade.
Não tem medo de aborrecer-se? perguntou ela.
Consigo?
Em geral. É tão calmo.
Aborrece-se quem não tem o que fazer, respondeu. Eu tenho.
Mas refiro-me a fora do trabalho.
Sei. E não, não me canso.
Ela não insistiu. Ele também não, mas a relação ganhou definição naquele serão. Ambos entenderam, mas decidiram não apressar nada.
Quando João fez seis anos, confiou-lhe o projeto de um restaurante num edifício centenário no Chiado. O dono queria algo único: não vintage, não minimalista, outra coisa. Teresa percebeu. Após várias reuniões, apresentou a sua ideia.
É isto, disse logo o empresário. Mesmo isto.
O projeto levou oito meses. O mais desafiante que já encetara. O espaço era todo regulamentos: história, ventilação, acústica, prazos. Teresa lá estava quase diariamente, a ver o espaço ganhar alma, a casar passado e presente.
Na inauguração, foi como cliente. Sentou-se, bebeu água, contemplou cada pormenor. Só ela sabia que aquele teto junto ao bar foi recomposto três vezes, que aquele tom de madeira levou semanas a encontrar, que a parede descascada evocava a primeira obra com Pedro.
Era um orgulho discreto. Não glória, não vaidade. Satisfação de quem fez algo autêntico.
E foi ali que, três meses depois, voltou a ver Ricardo Figueiredo.
Sabes como se chama este sítio? perguntou-lhe, quando o empregado se afastou com os pedidos.
Severina, respondeu Ricardo.
Pois. Isso mesmo.
Ricardo olhava-a daquela forma cansada, arrependida, meio doce a que noutra vida teria achado atraente. Agora só via o que estava por trás: vazio.
Teresa, começou Ricardo. Pensei muito. Estes anos todos.
Ricardo cortou ela. Queres conversar ou preferes declamar o discurso que ensaiaste?
Ele calou-se.
Estou a ouvir, continuou ela.
Eu fui cobarde. Não estive à altura. Fugi quando deveria ter ficado.
Continua.
Nada me correu como imaginei. Acabei com a Carla há três anos. Negócios falharam. Mudei de ramo, mas não resulta. Pensei em ti. E no nosso filho.
O João, corrigiu Teresa. Chama-se João. Tem sete anos.
A face dele tremeu, falsa dor.
Quero conhecê-lo.
Não.
Teresa
És tu que decidiste há sete anos, Ricardo. Ouvi-te então. João tem uma vida estável, cheia, com adultos normais à volta. Tu já não fazes parte.
Sou o pai dele.
Biologicamente. Apenas isso.
Não podes apagar uma pessoa da vida assim.
Fitou-o, serena, como quem encontra um erro num projeto e já corrigiu.
Não apaguei ninguém. Continuei a viver, só isso. São coisas diferentes.
O empregado trouxe água, Ricardo pegou no copo, depois pousou-o.
Peço-te uma hipótese, disse. Não pelo passado. Pelo que poderia ter sido.
Ricardo, devolveu ela. Vou casar.
Ele ficou em silêncio. Olhava-a.
Com quem?
Com alguém que esteve quando tu não estavas. Que nunca me perguntou porque insisti. Que trazia trabalho quando João estava doente e eu não podia sair. Que vê uma pessoa em mim, não um peso.
Teresa
Não é preciso dizeres mais nada sobre amor. Não porque seria cruel. Mas porque já não interessa à conversa.
Calou-se. Olhou para o tampo da mesa.
Ela tirou da bolsa algumas notas de vinte euros. Deixou-as no canto da mesa mais do que suficiente para o jantar.
Fica para a conta, disse ela. Foi uma conversa agradável.
Vais deixar-me dinheiro? Na voz dele, entre dor e espanto.
Vou. Atravessas um momento difícil, parece-me. Considera uma ajuda leve. A comida aqui é boa.
Levantou-se. Vestiu o casaco claro, de lã grossa, feito por medida numa alfaiataria da Rua Augusta. Antes, nunca teria esse luxo. Agora, sim.
Teresa.
Voltou-se.
Não me perdoaste, disse ele.
Não, confirmou ela. Mas isso é irrelevante. O perdão é para quem nos fere continuadamente. A tua ausência já não fere.
Caminhou entre as mesas. Alguns fitavam-na. Um homem no bar acompanhou com o olhar. Ela não reparou. Pensava noutra coisa.
Já era noite em Lisboa. Final de setembro, o ar frio, cheiro de chuva e calçada molhada. Teresa gostava de Lisboa assim: despida de propaganda turística, só Lisboa mesmo.
Pedro esperava junto ao carro. Não de telemóvel na mão, nem fora do automóvel. Encostado ao capot, olhava-a. De sobretudo azul-escuro, sem gravata nunca usava quando estava com ela. Disse-lhe um dia que a gravata punha as pessoas à espera de formalidades.
Demoraste, disse Pedro.
Nem por isso contestou ela. Vinte minutos.
Estás bem?
Parou. Pensou, sinceramente.
Estou. Estranhamente bem. Como se, finalmente, alguma peça tivesse encaixado.
Tens frio?
Não.
Ele pegou-lhe na mão com naturalidade, sem palavras. Caminharam juntos até ao carro.
O João perguntou quando voltávamos, disse Pedro.
Há muito?
Ligou há uma hora. Disse-lhe que era rápido. A ama já o deitou.
Vou espreitar, disse ela. Só ver se dorme.
Claro.
Entraram no carro. Pedro pôs o motor a trabalhar, mas ficou parado a olhar para ela.
Estava lá?
Sim.
E?
E nada, respondeu Teresa. Disse o habitual. Eu respondi o que tinha de ser dito.
Estás bem?
Ela virou-se, olhou-o à luz do candeeiro da rua. Um rosto ligeiramente cansado, reservado, familiar.
Pedro, sabes que nunca fui boa a agradecer? Não no sentido de palavras bonitas.
Eu sei.
Então, não digo nada. Tu entendes.
Ele assentiu. Arrancou.
Desceram a Marginal, os candeeiros a reluzir na água do Tejo. Setembro carregado, Lisboa pesada, real. Teresa olhava e pensava que, no restaurante que desenhou, naquele instante estaria sentado quem um dia saiu com um saco de roupas. Olhava para o vazio, para a mesa, para o nada. E isso já não a gelava, nem aquecia. O passado não é para perdoar ou esquecer. É uma mancha no desenho. Vê-se o erro e evita-se repeti-lo.
João dormia quando chegaram. Teresa entrou no quarto, ficou a olhar. Sete anos. Dormia virado de lado, orelha colada à almofada, boca entreaberta. Tão real, tão próprio.
Lembrou-se do vidro da incubadora. Aquela criaturinha de pouco mais de um quilo. Tubos. Paredes brancas.
Era isso que perseguia. Não a traição, nem a dor. O momento do vidro, a promessa a si própria promessa mais forte que tudo antes dela.
Ajeitou-lhe os lençóis. Saiu em silêncio.
Pedro estava na cozinha, chá na mão. Pousou o telemóvel ao vê-la entrar.
Dorme, disse ela.
Eu sei. Dorme tranquilo?
Como sempre.
Serviu-se de água. Sentava-se à mesa, frente a frente.
Pedro, disse não vais arrepender-te?
De quê?
De tudo isto. De nós. De já não sermos só colegas.
Ele ficou a olhar. Longamente.
Teresa, só me arrependi uma vez na vida: de demorar a falar contigo sobre mais do que trabalho. Não tenho mais nada de que me arrepender.
Assentiu. Tapou-lhe a mão com a sua.
Chovia lá fora. Chuva miúda sobre Lisboa, sem vento, só chuva constante de outono. No restaurante Severina, servia-se o principal. Pessoas conversavam, admiravam a parede nua, a luz pensada durante dois meses. Uma mesa no canto, provavelmente já vazia.
Teresa já não pensava nisso. Pensava no João, na aula de desenho do dia seguinte, nas reuniões da próxima semana para um projeto grande. Que possivelmente chovesse a noite inteira, e que isso era perfeito.
E que tudo aquilo o restaurante, a aula do João, o projeto novo, essa cozinha, esse toque, construiu sozinha. Tijolo a tijolo, às três da manhã, de bebé ao colo e plantas por acabar.
Era a sua vida. Não a que sonhara aos vinte e seis. Mas melhor.
Pedro, disse.
Sim?
Está mesmo tudo bem.
Ele apertou-lhe a mão.
Sei disso.
A chuva caía. João dormia. O restaurante do Chiado fechava à meia-noite. E algures, numa sala cálida e iluminada, repousava um copo de água intacto e algumas notas no canto da mesa.
Chegava para um jantar, e sobrava.
***
Mas, para ser honesta, falta um pormenor. O que ficou por dizer.
Nos dois primeiros anos, quando Teresa Fonseca trabalhava noite dentro, pensou várias vezes em ligar a Ricardo. Não para reatar. Só para dizer: olha, foi isto que deixaste. Olha, como sobrevivemos. Nunca ligou. Não por orgulho por saber que esse telefonema era para ela, não para ele. E precisava de aprender a conseguir o que precisava noutras formas.
Teve uma noite, em fevereiro, quando João tinha uns oito meses. Deitou-o, abriu o portátil sobre um projeto e bloqueou. Mãos a falhar, cabeça vazia. Fechou o computador e ficou dez minutos no escuro. Não chorou. Só ficou.
Depois voltou a abrir.
Foi aí a escolha. Não uma decisão monumental. Só a opção diária, no escuro, entre desligar o portátil ou tentar mais uma vez.
Repetiu-a todos os dias. Várias vezes por dia.
Quando o estúdio permitiu algum conforto, a primeira extravagância nem foi roupa nem carro. Inscreveu-se num curso de estruturas de construção, matéria que nunca terminara na faculdade. Para saber todos os detalhes do que desenhava. O professor olhou-a com curiosidade a maioria, jovens de vinte e poucos anos.
Trabalha na área?
Sim.
Há muito?
Uns anos.
Então porque o curso básico?
Porque não quero só achar que sei. Quero mesmo saber.
Ele assentiu. Nunca mais questionou.
Esta capacidade de reconhecer o limite do próprio conhecimento, de crescer, revelou-se o mais valioso do seu trabalho. Os clientes percebiam isso não porque ela o dissesse, mas porque quem não finge saber tudo inspira mais confiança do que qualquer discurso seguro.
Pedro disse-lhe um dia:
Teresa, conheço muitos que dizem o que o cliente quer ouvir. Tu recusas um terço dos trabalhos porque és honesta: se não é para ti ou não dá nos prazos, não pegas.
E?
E tens lista de espera de três meses.
As pessoas fartaram-se de ouvir só o que querem replicou ela. Querem quem diga a verdade.
Talvez, concordou ele.
Foi aí que percebeu que já não eram só parceiros profissionais. Havia respeito mútuo. Nada de dívidas, nada de paternalismo. E isso era o alicerce de tudo o resto.
Com o tempo, Teresa reparou em Pedro fora da rotina. Lia a sério. Uma noite viu-lhe no escritório um romance do seu tempo de estudante ficou surpreendida.
Onde arranjou isto?
Comprei há anos. Gosto de reler de tempos a tempos. Leu também?
Muitas vezes.
O que acha do final?
Conversaram uma hora. Não sobre trabalho, mas literatura, mudanças de perspetiva consoante os anos. O primeiro diálogo genuíno fora de trabalho. E recordou-se de que, com Ricardo, nunca conversavam. Iam ao cinema, jantavam, falavam de amigos. Achava que era partilha, mas não era. Era só presença. Vazia.
No sexto ano do João, com o estúdio já estável, decidiu mostrar-lhe um dos seus espaços. Para que percebesse onde a mãe trabalhava. Olhava tudo, curiosidade nos olhos de criança, tocava as paredes.
Foste tu que pensaste nisto? perguntou.
Pensei como seria. Mas quem construiu foram os operários.
Mas a ideia foi tua?
Foi.
Então, é um pouco teu, disse ele.
Sim, um pouco.
Todas as mães têm um pouco delas?
Ela hesitou.
Não todas. Mas é melhor quando têm.
João assentiu, ar sério, fingindo entender conversas de crescidos. Deram a mão e foram ver o futuro pátio interior, que Teresa queria preservar o mais possível.
Nem tudo era fácil. O trabalho trazia dissabores. Clientes que desapareciam a meio do pagamento, construtores que erravam, colegas a copiar-lhe as ideias. Muitas resolvia ao telefone, outros pelos advogados. Uma vez, ficou lado a lado com o empreiteiro a explicar, pacientemente, o que estava errado no projeto. Ele refez tudo, calado.
Nunca foi uma alma meiga, daquela bondade de perdoar tudo. Era justa. E sabia a diferença.
Quando Pedro, pela primeira vez, propôs um jantar não de negócios, perguntou:
Tem a certeza?
Sobre?
Que é boa ideia. Trabalhamos juntos, isto pode complicar as coisas.
Talvez complique, admitiu.
E?
E mesmo assim proponho. Porque não propor seria covardia. E não quero ser cobarde.
Apreciou a precisão: não erro, mas cobardia.
Está bem, sorriu. Mas se correr mal, temos de voltar a trabalhar normalmente.
Combinado.
Jantaram. Voltaram a jantar. E perceberam que nada precisava de voltar, porque nunca tinham saído do essencial.
João aceitou com naturalidade. As crianças entendem bem, desde que não mintamos. Teresa disse certa noite, sem rodeios:
João, o Pedro é alguém muito importante para mim. Vai cá estar mais vezes. Que achas?
É aquele que trouxe bolo no meu aniversário?
Sim.
Então pode vir. Ele é porreiro.
Meses depois, começaram a jogar xadrez ao serão. Pedro não deixava ganhar, mas também não esmagava. Explicava cada jogada, esperava que João entendesse.
Teresa via-os da cozinha, feita de coisas simples. Um explicava, o outro pensava. Sem pressas, sem ruído.
Era disso que sentira falta: confiança quieta. Alguém, não por acaso ou conveniência, mas por escolha.
O pedido de casamento foi discreto; terminaram um dia de trabalho, João já dormia, Lisboa lavada de chuva.
Teresa, começou Pedro.
Sim?
Quero casar contigo.
Ela olhou-o.
Porquê?
Porque quero estar aqui. Sempre.
Não é muito romântico.
Mas é sincero.
Ela sorriu, breve.
Está bem.
Está bem como sim?
Sim.
Trouxe o anel no dia seguinte. Nada de veludos, só tirou do bolso e pôs em cima da mesa. Discreto, com pedra cinzenta. Teresa pôs logo.
Foi com isso que saiu do restaurante. Foi com isso que fechou a porta atrás dela nesse final de setembro.
E agora, o mais importante, aquilo que nunca disse nem dirá ao Ricardo. Porque há coisas que só pertencem a quem as viveu.
Uma noite, há anos. João bebé, adormeceu. Teresa sentou-se à janela, no escuro. Pensou se a vida seria justa. Não no sentido do destino, mas na essência. Concluiu que não. Nem justa, nem injusta. A vida segue. E cabe a nós escolher como a atravessamos.
Esta ideia não era descoberta: só uma constatação.
A dor foi real. Não desapareceu com sete anos. Só deixou de comandar. Foi ultrapassada por aquilo que Teresa criou. Pela mulher que se tornou. Pelos que ficaram do seu lado.
A traição não a fez forte. Seria uma explicação fácil. O que a tornou forte foram os pequenos gestos diários no escuro: abrir o portátil mais uma noite; aceitar trabalhos pequenos, quando podia recusar; ir à incubadora todos os dias, prometer só mais um.
A solidão também era real. Não a superou por completo. Só percebeu distinguir entre solidão-dor e solidão-espaço. Esta última, até passou a gostar. O silêncio da casa, João a dormir, ela a trabalhar esse silêncio era só dela.
O segundo fôlego, deu-lhe a ela mesma. Não num só gesto grandioso. Mas nos pequenos, diários. Aí estava tudo.
No carro, naquele final de setembro, com Pedro no volante, Teresa olhava os candeeiros molhados e já pensava noutra coisa o estúdio a crescer, os jovens arquitetos, a escolha da escola do João, o próximo passo do casal.
A vida. Cheia, comum.
No restaurante do Chiado, alguém tirava a conta da mesa Severina, já sem ninguém.
As histórias fecham-se. Não porque escolhemos. Porque, a certa altura, abrimos a boca para falar do passado e percebemos que o assunto é outro o futuro.
Talvez seja isto.
No rádio, Pedro pôs um piano sem palavras. Teresa encostou-se, fechou os olhos.
Cansada? perguntou-lhe ele.
Não. Só bem.
Ele não comentou. Só guiou.
A chuva continuou.
Estava certo assim.






