O Eterno Eco do Amor

Eco demorado do amor

Recupera-te depressa murmurou a rapariga, num soluço abafado, fitando o rosto pálido do homem, onde as sombras da noite já começavam a desenhar-se através da janela do hospital.

Beatriz estava encolhida numa das austeras cadeiras de plástico que se alinhavam ao lado da cama, joelhos erguidos junto ao peito. No ar pairava o odor familiar do desinfetante, misturado com o amargo dos medicamentos. O candeeiro de mesa espalhava uma luz morna pelo compartimento, projectando reflexos dourados sobre o perfil de Nuno.

Ele repousava meio sentado, a perna engessada apoiada numa estrutura de ferro frio, a tentativa de sorriso escondendo o cansaço. Durante a última meia hora, Nuno insistira, entre palhaçadas e tentativas de se erguer, que tudo não passava de um incidente corriqueiro uma fractura é coisa que passa, daqui a pouco está como novo, nada digno de alarme! Mas Beatriz pressentia a dor que ele não deixava sair à tona, um sofrimento que ia muito além da carne, e magoava onde ninguém via.

Ela limitou-se a escutá-lo sem interromper, esmiuçando cada ruga, cada minúsculo tremor, cada centelha no olhar dele até que, de súbito, percebeu que não podia mais guardar para si aquele tormento surdo, escondido atrás das conversas de circunstância, rasgando-lhe o peito por dentro.

Inspirou fundo. Endireitou-se na cadeira, enfrentando o olhar dorido do marido, e disse finalmente, quase num sussurro firme:

Sabes eu amo-te.

A voz vacilou no fim, e os olhos dela encheram-se de lágrimas, brilhando sob a luz amarelada. Tentou conter as emoções, agarrando-se ao assento até os nós dos dedos ficarem brancos, mas foi em vão; as lágrimas brilharam e correram-lhe em fio pelas faces.

O olhar de Beatriz era tão despido, tão cheio de ternura e temor, que Nuno ficou preso naquele instante. Os gracejos dele perderam-se no silêncio, a bravata diluiu-se frente à sinceridade que encontrava nos olhos da mulher que a vida lhe deu.

Mas, por detrás daquele calor que se espalhava dentro do peito, Nuno foi esmagado pela dúvida. Teria aquela confissão apenas nascido do seu susto, da fraqueza e do susto da doença? Seria a compaixão, e não um amor verdadeiro, o que ouvira agora, na penumbra azul do hospital? A dúvida pairou-lhe na garganta:

Não estás só a tentar que eu cale esta conversa de que está tudo bem? Que deixo de fingir força?

Beatriz hesitou só um instante, a voz a tremer sob o esforço de manter-se clara, olhos presos nos dele:

Eu amo-te.

E foi aí, nesse instante precioso, que não conseguiu mais conter as lágrimas. Chorou aberta e desesperadamente, o corpo sacudido por soluços, sem se importar em limpar as faces.

Pensei tanto nisto continuou, com a voz entrecortada , mas hoje de manhã, quando recebi aquele telefonema horrível do hospital, foi como se levasse um choque! Saí sem pensar, imaginei o pior O médico não dizia nada, só falava em radiografias, exames, à espera. Sentei-me no corredor e, de repente, entendi que podia perder-te! Mesmo sendo só uma fractura, mesmo ouvindo que vais recuperar, senti que podia perder o que mais amo neste mundo. Nunca me doeu tanto, nunca tive tanto medo

Beatriz murmurou Nuno apenas.

Limitou-se a estender a mão o pouco que o gesso e as dores permitiam, e agarrou-lhe ternamente os dedos era, enfim, o gesto que libertava todo o choro.

Beatriz cedera. Deixou-se cair até ao ombro dele, a testa encostada à bata branca, e chorou com força as dores que ocultara meses a fio. Ele segurou-lhe a mão, acariciando os dedos devagar, sem uma palavra, sem pressas, permitindo-lhe sarar pela libertação.

Sentia-lhe o tremor das mãos, sentia o coração pesado, e compreendeu que dizer estou bem ali já não fazia sentido. O que importava era só que Beatriz estava ali com ele, a chorar por ele que o seu amor, por fim, era real, profundo, e não dependia da força física, de um corpo sem gesso ou do orgulho vazio.

Era nesse silêncio, nesse toque quente, que estava a verdade a alegria, a pertença.

Durante muito tempo, para Nuno a felicidade parecia estar sempre por um fio, coisa de que desconfiava quase como de um acaso. Remexia nas memórias do dia em que Beatriz dissera sim ainda espantado, como se aquele milagre lhe tivesse simplesmente caído do céu. Cinquenta anos, e ele continuava sem perceber porque Beatriz aceitara casar com um tipo como ele ela que parecia sempre demasiado livre, demasiado divina para aceitar a vida simples que ele podia oferecer. Sabia que o coração dela não era só dele, que tinha chegado por entre desenlaces e caminhos difíceis. E, mesmo assim, aquilo não lhe roubava alegria bastava-lhe estar perto, saber que ela acordava ali, na mesma casa, e já sentia o mundo completo.

Conheciam-se desde miúdos. Nuno recordava-se de Beatriz em miúda, saltitante pela rua da Mouraria, nos dias quentes de verão Lisboeta onde cresciam juntos, casas encavalitadas, vizinhança familiar. Ele protegia-a dos miúdos traquinas da rua, dava-lhe rebuçados na escada do prédio, ria-se quando ela corria atrás dele a arranhar os joelhos e a chamar Nunuco, arrastando-o para brincadeiras de crianças. Só mais tarde, anos depois, percebeu que aquela criança ia ocupar todos os espaços do futuro.

Cresceram, cada um à sua vida. Nuno voltou a Lisboa depois de faculdade e estágio, com emprego estável num banco, uma vida organizada, e uma promessa confessar-se a Beatriz, propôr-lhe namorar, talvez um dia casar. Escreveu mentalmente discursos, planeou a ocasião, até comprou um ramo enorme de rosas brancas no mercado da Praça da Figueira.

Mas, naquele fim de tarde, quando tocou à porta da Rua dos Fanqueiros, o plano caiu por terra. Foi a própria Beatriz que abriu, radiante, linda e por detrás dela um rapaz de sorriso largo, alto, demasiado confiante. Ela corou ao apresentar:

Este é o Diogo. Vamos casar.

Nuno ficou estático com as flores na mão, qualquer coisa a ceder lá dentro. Murmurou apenas um parabéns, deixou flores, inventou uma desculpa tola e desapareceu rua abaixo, tal como o miúdo que perdera as canicas na calçada, arrastando o orgulho ferido.

**************

Poderia ter tentado impedir aquele casamento. Diogo era imprevisível, facilmente desequilibrável, e os rumores do bairro confirmavam-no. Nuno hesitou mil vezes mas nunca achou que tinha o direito de se meter. Beatriz estava feliz; brilhava, sorria, parecia absoluta na sua alegria, a viver o seu conto de fadas ao lado de Diogo, leve e encantada.

E Nuno recuou. Foi-se afastando discreta, dolorosamente, como se se tratasse de sarar um osso partido: primeiro fingiu que nada sentia, depois refugiou-se no trabalho bancário, e por fim partiu outra vez, indo morar para o Porto, escondendo-se dentro de si, regressando a Lisboa apenas quando a saudade da família se sobrepunha ao orgulho.

De cada vez que passeava pelos bairros antigos, pelas praças onde em criança tinham partilhado gelados, a ferida latente voltava. Custava-lhe vê-los juntos, a passear de braço dado na Baixa, a rir às bocas pequenas nas esplanadas, a viver algo de que nunca faria parte. Foi-se afastando de tudo o que recordava Beatriz, de tudo o que era deles.

Ainda assim, espreitava de longe. Entrava, de permeio, no perfil da Beatriz nas redes sociais, à espera de um sinal, de uma confissão, de uma brecha. Não comentava, não punha gostos espreitava apenas, como se aquilo lhe desse ânimo nas noites solitárias de Porto.

Com o tempo, começaram a surgir avisos subtis. O tom dos textos de Beatriz mudou. Ela, tão próxima da família, agora escrevia sobre incompreensão dos pais, sobre discussões sem remédio, sobre ausência de apoio em casa. As palavras tornaram-se carregadas, as lamentações cresciam. E até a mãe de Beatriz, senhora de instinto apurado, percebeu que Diogo não era quem ela pensava. Refugiava a filha num mundo privado, incitava-a a afastar-se da família, a aceitar que só ele a compreendia, e que tudo o resto era passado. Beatriz, apaixonada mas inexperiente, via apenas rebeldia feliz, liberdade, conquista.

Os conflitos agravaram-se. Beatriz isolava-se. Passava mais tempo na casa de Diogo do que no lar de infância e tudo servia de motivo para rejeitar a família. Apesar de tudo, Nuno manteve-se à margem, a assistir, impotente e magoado, consciente que qualquer acção seria inútil ela teria de abrir os olhos por si.

*************************

Beatriz passou a procurar companhia nas amigas. Mas as conversas mudaram. Agora, à mesa do café no Bairro Alto, entre o chá verde e as fatias de bolo seco, começaram as frases estranhas:

O Diogo diz que não vale a pena eu trabalhar. Quer ver-me sempre bem-disposta, sem aquela cara cansada do salão de beleza.

Mas tu adoravas aquilo contestava uma delas. E o teu patrão estava sempre a dizer que eras das melhores.

Beatriz encolhia os ombros, com um sorriso forçado:

O Dioguinho quer cuidar de nós. Diz que o trabalho é peso morto. Além disso, tenho tempo para mim, para a casa. Isso é bom, não é?

Outro dia, à conversa sobre estudos, uma conhecida relatava as aventuras no ISCTE, e Beatriz respondia com desdém:

A universidade é entediante. Ainda bem que o Diogo valoriza mais as pessoas do que diplomas. Ele diz que basta saber o essencial para a vida.

A rede de amigas foi-se cortando. Quem ainda ouvia as suas queixas já era exceção, até essas foram desaparecendo eram vistas como invejosas, sempre a criticar.

E Beatriz soçobrou à solidão. Deixou o emprego para estar melhor consigo mesma , abandonou a licenciatura, afastou-se dos pais, dos poucos amigos que restavam, já só existia o Diogo, que falava cada vez menos de casamento e cada vez mais de vida à margem das obrigações. Depois de três anos assim, de posse nenhuma exceção à sua vontade, ela estava, na verdade, sozinha mais ainda, dependente de alguém a quem só era útil enquanto útil fosse, numa relação desigual, feita de silêncio e esquecimento.

Nuno tentou avisar vezes sem conta, por mensagem, por telefone:

Tens a certeza de que é isto que tu queres, Beatriz? A tua felicidade não deveria depender tanto de outra pessoa. Tu também contas.

Ela reagia sempre igual distante, defensiva, indiferente.

Não percebes, Nuno. O Diogo cuida de mim. Nunca me senti assim.

Com o tempo, nem respondia mais.

*******************

Os anos passaram. Nuno mergulhou de volta à vida dele. Tinha emprego estável numa sucursal do banco na Avenida dos Aliados, jantares ocasionais com amigos do futebol, fins-de-semana em família. Nunca constituíra família própria, talvez ainda marcado pelas decepções. Mantinha distância das mulheres, temendo magoar ou ser magoado.

No fim de dezembro, rumou a Lisboa, como sempre fazia no Natal. A casa da mãe cheirava a canela e polvo à lagareiro; o pai fazia-se de casmurro, mas devorava as rabanadas sob o olhar divertido dos filhos. Na véspera do ano novo, saiu para comprar pastéis de nata à confeitaria da esquina.

O frio era ténue, bonito, com laivos de neblina ao longo do Tejo e luzes a piscar nas varandas. Voltando a casa, viu-a. Sentada no parapeito do prédio, a camisola lilás enrolada até o queixo. Ao lado, uma mala rasgada, e uma velha transportadora de gato de onde vinha um miado estridente.

Beatriz…? O que fazes aqui? perguntou, incrédulo.

Nuno desconhecia que os pais dela tinham vendido a casa media Lisboa e ido para Braga, tentando recomeçar. Não sabia que Beatriz fora posta na rua por Diogo, com as malas e a gata, e que não havia onde ir naquela última noite do ano.

Sento-me. Que mais me resta? riu-se, sem alegria. Não tenho para onde ir.

Havia no olhar dela uma estranha serenidade, como se depois de tanto sofrer já não restasse energia para o desespero.

Anda, sugeriu-lhe, tocando-lhe no ombro. Isto não é lugar para ninguém, menos ainda para ti.

Beatriz não ofereceu resistência. Juntou os pertences, e juntos subiram pelo elevador, em silêncio, enquanto a gata se queixava baixinho.

Já dentro do apartamento, Nuno sentou-a no sofá da sala, arranjou-lhe uma manta, correu à cozinha e trouxe-lhe chá bem quente.

Bebe. Relaxa um pouco.

Beatriz aninhou-se na chávena, mas não bebeu. Limitava-se a olhar para o vazio. Por fim, Nuno sentou-se de frente, e falou sem rodeios:

Diz tudo. O que aconteceu?

Diogo abandonou-a grávida, sem emprego, sem dinheiro, sem lar. Na véspera, discutira sobre o nome do bebé, sobre o berço, sobre futuro. Nessa manhã, Diogo empacotou as roupas dela, deixou umas notas em cima da mesa (trinta euros, o que dava mal para comer dois dias) e murmurou, já à porta:

A culpa é tua. Não estou pronto para isto. Arranja-te.

Com apenas três meses de gravidez, Beatriz nunca pensara noutra saída senão arranjar forças. E agora, estava sem casa, nem saber onde dormir na noite em que toda a cidade celebrava.

Os pais tinham reerguido a vida longe dali e não deixaram contactos; as antigas amigas, afastadas por divergências passadas, ignoravam-lhe as mensagens. As poucas que atenderam foram frias e evasivas.

Ela chorava, encolhida na cadeira, braços cruzados sobre o corpo, às escuras, à luz apenas do candeeiro antigo que Nuno acendera. Ele escutava sem interromper, sentindo o peito apertado, lavando com o olhar as dores dela, as mãos trémulas, o desamparo.

Quando finalmente se calou, Nuno esfregou a cara, prendeu-lhe o olhar e disse sem hesitar:

Casa comigo. Tu sabes que sempre te amei. Não te vai faltar nada nem a ti nem ao teu filho! Ficas comigo, amor.

Beatriz ergueu a cabeça, pasmada, as lágrimas a brilhar-lhe nos olhos:

A sério? Nuno, não posso corresponder… E o bebé… não é teu.

Vai ser. O meu amor chega para os dois, e tudo o teu será aceite por mim.

Falava sem medo, com ternura e firmeza.

Já aceitei o mesmo antes Acabei assim. Sozinha.

Baixou o olhar ao recordar todos os avisos, todos os conselhos que ignorou.

Se quiseres trabalho, arranjo-te (conheço meio mundo em Lisboa), continuou ele. Resolvo a casa. Abro uma conta, faço-te segura. Só tens de dizer que sim

Era a promessa não de conto de fadas, mas de apoio, de estabilidade, de paredes seguras.

Depois de muito silêncio, sem levantar os olhos, Beatriz disse apenas:

Está bem. Aceito.

********************

Muitos meses passaram. A vida deles ganhou um novo compasso não um romance explosivo, mas laços de confiança e respeito, de trabalho e ternura. Aos poucos, o casamento de Nuno e Beatriz consolidou-se: a paixão adolescente nunca viera, mas havia algo maior, de solidariedade e humanidade concreta.

Nuno dedicava-se ao filho como sempre prometera: noites em claro, fraldas, risos no jardim do Campo Pequeno, livros de histórias, bolos ao domingo. E a cada noite, não faltava um beijo, um amo-vos, uma promessa de esperança.

Beatriz demorou a reerguer-se. No início, ainda presa ao passado, magoada pelos erros, culpada por não ter protegido o filho da desilusão. Mas o cuidado atento de Nuno, o seu pragmatismo, a ajuda quotidiana para encontrar trabalho (numa loja em Alvalade) e, mais tarde, o regresso aos estudos na Universidade Aberta, deram-lhe outro caminho, outro conforto. Pela primeira vez, Beatriz sentia-se dona do próprio destino.

As rotinas tornaram-se alegria. Fins de semana de passeio pelo Jardim da Estrela, idas a Sintra ou a casa dos pais de Nuno, tardes no sofá a ler, pôr-do-sol à conversa sobre os planos que a vida, afinal, lhes devolveu. Não era paixão fulminante, mas uma tranquilidade sólida e crescente, feita de gratidão, de aconchego, de pertença.

Até ao acidente.

Nuno regressava do banco já noite cerrada, à pressa, quando um carro atravessou o cruzamento de Alvalade sem travar bateu-lhe de lado, projetando-lhe o corpo contra os vidros. Faltou pouco para ter consequências irremediáveis: o carro ficou arrasado, mas a perna partido foi o menor mal, segundo o médico do Hospital de Santa Maria.

Deitado na cama de ferro, a perna engessada e as ideias enroladas entre remédios e cansaço, Nuno sorria nervoso:

Estraguei-te os planos para o fim de semana. Desculpa lá

Beatriz sentou-se ao lado dele. Não sorriu, mas apertou-lhe a mão, certos do essencial.

Importa é que estejas vivo. O resto resolve-se.

Nesse instante, baixando a voz, de olhos presos nos do marido, soltou enfim as palavras que ele esperava desde sempre:

Amo-te.

Foi um sussurro, quase nada na sala enorme; mas chegou bem longe. Nuno sentiu tudo aquecer por dentro e não perguntou mais nada, não procurou dúvidas no rosto dela.

Obrigado, retribuiu ele, apertando-lhe os dedos. Por ti, por tudo. Nem imaginas quanto vales.

Sabia que em breve o gesso seria uma memória, que voltaria a andar, e que por fim, levaria Beatriz a onde ela merecia: talvez uma festa à antiga no Chiado, uma boda rodeados dos que realmente importam, com promessas já não de palavras, mas da verdade crua, a de um amor fundado no tempo, no cuidado, nas cicatrizes e, finalmente, na esperança que cada eco deixa ao demorar.

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