— Ó Dona Alô! — exclamou Mateus. — Quem deu permissão para manter um lobo na aldeia?

Dona Milú! gritou Martim. Quem lhe deu autorização para manter um lobo aqui na aldeia?

Dona Emília chorou baixinho ao ver o portão destruído. Andava sempre a reforçar aquilo com tábuas, a remendar os postes podres, na esperança que a vedação aguentasse até conseguir juntar dinheiro suficiente com a sua magra reforma. Mas não teve sorte! O portão caiu mesmo.

Há dez anos que Emília tomava conta da quintinha sozinha, desde que o seu querido marido, Joaquim Barbosa, falecera. Ele tinha mãos de ouro. Enquanto viveu, Emília nunca se preocupou com nada. Joaquim era mestre de tudo carpinteiro e marceneiro. Fazia tudo sozinho, nunca precisaram de chamar artífices. Toda a aldeia respeitava-o pela sua bondade e trabalho. Juntos viveram felizes 40 anos, faltando apenas um dia para o aniversário de casamento. A casa limpa, o pomar farto, os animais bem tratados tudo fruto do seu esforço conjunto.

O casal tinha um único filho Tomás, o seu orgulho e alegria. Desde pequeno, Tomás aprendeu a trabalhar, nunca foi preciso obrigar para ajudar. Quando a mãe chegava cansada da horta, o filho já tinha trazido lenha, ido buscar água, acendido o fogão e tratado os bichos.

Joaquim, ao chegar do trabalho, lavava-se e ia para a varanda fumar um cigarro, enquanto Emília preparava o jantar. À noite, reuniam-se à mesa para partilhar as novidades do dia. Eram felizes.

O tempo corre rápido e só ficam memórias. Tomás cresceu e saiu de casa, foi para Lisboa estudar, casou-se com uma rapariga da cidade, Matilde. O casal ficou pela capital. No início Tomás vinha nas férias visitar os pais, mas depois Matilde convenceu-lhe a passar férias no estrangeiro, e assim todos os anos. Joaquim nunca entendeu as escolhas do filho.

Onde se cansa tanto o nosso Tomás? Aquela Matilde deve já tê-lo virado do avesso. Para que precisa ele dessas viagens?

O pai entristecia, a mãe sentia saudades. Que mais podiam fazer? Viver e esperar ao menos uma notícia do filho. Até que um dia Joaquim adoeceu. Deixou de comer, enfraqueceu; os médicos receitaram medicamentos e por fim mandaram-no para casa. Na primavera, quando o campo florescia e os rouxinóis enchiam o ar, Joaquim partiu.

Tomás veio ao funeral, chorou amargamente, culpando-se por não ver o pai ainda vivo. Ficou uma semana na casa antiga, depois voltou à capital. Nos últimos dez anos, só escreveu três cartas à mãe. E Emília ficou só. Vendeu a vaca e as ovelhas aos vizinhos.

Para quê mais animais? A vaca ficou tempo junto à porta da casa de Dona Emília, ouvindo a dona lamentar-se. Emília fechava-se no quartinho do fundo, tapava os ouvidos e chorava.

Sem as mãos de um homem, tudo ia ficando à míngua. A água entrava pelo sótão, as tábuas do alpendre rompiam-se, o subterrâneo alagava… Dona Emília esforçava-se o que podia. Da reforma guardava um pouco para contratar alguém, às vezes conseguia resolver ela própria cresceu na aldeia, sabia de tudo.

Assim ia sobrevivendo, contando os trocos, até que mais uma desgraça caiu. De repente, a visão piorou, coisa que nunca tinha acontecido. Foi à loja da aldeia e mal conseguiu ler os preços. Passados meses, quase não via a montra.

A enfermeira veio de visita, examinou-a e insistiu que fosse ao hospital.

Dona Emília, quer ficar cega? Fazem-lhe a operação, volta a ver!

Mas Emília, receosa da cirurgia, recusou-se a ir. Passado um ano, quase já não via nada. Ainda assim, não se preocupava muito.

Ora, nem preciso disso! Nem vejo televisão, só oiço. O rádio dá-me as notícias, percebo tudo. Em casa, faço tudo de memória.

Mas às vezes ficava inquieta. Na aldeia, tinha aumentado o número de gente pouco de confiança. Roubavam casas abandonadas, levavam o que podiam. Dona Emília lamentava não ter um cão forte, que assustasse intrusos com o porte e o latido.

Perguntou ao caçador, Simão:

Não sabes se o guarda-florestal não tem cachorros para dar? Nem que seja o mais pequenino. Crio-o com amor…

Simão olhou intrigado para a idosa:

Para que te serve um cachorro de raça, Dona Emília? Esses são para o mato. Posso trazer uma verdadeira pastorinha da cidade.

Apanhada, há-de ser cara!

Não é mais importante que dinheiro, Dona Emília.

Então traz.

Emília contou as poucas poupanças; achou que bastavam para um bom cão. Mas Simão, homem pouco confiável, foi sempre adiando a promessa. Emília ralhava com ele, mas no fundo tinha pena. Simão era desgraçado sem família, sem filhos. O copinho era o seu único companheiro.

Simão, da idade do seu filho Tomás, nunca saiu daqui. Não se via na cidade. A paixão era a caça. Passava dias no mato.

Quando acabava a época da caça, Simão fazia todo o tipo de serviços: cavava hortas, fazia tarecos, arranjava motores. O pouco dinheiro recebido das viúvas gastava logo em bebida.

Depois, nos seus excessos, ia ao mato inchado, doente, arrependido. Passados dias, voltava ao povo com cesta cheia: cogumelos, bagas, peixe, pinhões. Vendia por tuta-e-meia, voltava a gastar. O bêbado ajudava também Dona Emília recebendo. Agora, com o portão partido, teve de recorrer-lhe de novo.

Com o cão vai ter de esperar, suspirou Emília. Tenho de pagar ao Simão pelo portão, mas dinheiro é pouco…

Simão apareceu com mais do que ferramentas no saco. Sorrindo, chamou Dona Emília.

Veja o que lhe trouxe, e abriu o saco.

A idosa aproximou-se e apalpou uma pequena cabeça peluda.

Simão, trouxeste mesmo um cachorro para mim? espantou-se.

O melhor dos melhores, uma autêntica pastorinha.

O cachorro guinchava tentando sair. Dona Emília entrou em pânico:

Mas não tenho dinheiro! Só para o portão!

Não vou levar o cão de volta, Dona Emília! insistiu Simão. Imagina quanto paguei por este bicho?

Não houve remédio. Dona Emília correu à mercearia, onde a senhora emprestou-lhe cinco garrafas de vinho fiado, anotando o nome na caderneta.

Ao fim do dia Simão terminou a obra do portão. Dona Emília serviu-lhe jantar farto e um copinho. Alegre, o homem foi dando conselhos, apontando para o cachorro enrolado junto ao fogão.

Tem de comer duas vezes ao dia. Compra-lhe uma corrente forte vai crescer robusto. Percebo de cães.

Assim apareceu na casa de Emília um novo habitante Fiel. A idosa ganhou-lhe carinho, o cachorro retribuía com devoção. Sempre que a dona ia ao pátio para alimentar Fiel, ele saltava de alegria, pronto a lamber-lhe o rosto. Só uma coisa preocupava Emília: o cão cresceu enorme, quase do tamanho duma vitela, mas nunca soube ladrar. Isso inquietava-a.

Ai, Simão! Ó vigarista! Vendeste-me um cão sem préstimo.

Mas quem teria coragem de afastar tão boa criatura? Nem precisava de ladrar. Os cães dos vizinhos nem ousavam mostrar os dentes a Fiel, que em três meses já alcançava o meio de Emília.

Numa ocasião, veio à aldeia Martim, caçador local, comprar mantimentos para o inverno. Aproximava-se o tempo da caça em que passava meses pelos montes. Ao passar pela casa de Dona Emília, ficou gelado ao ver Fiel.

Dona Milú! gritou Martim. Quem lhe deu licença de criar lobo aqui?

Emília levou as mãos ao peito, assustada.

Ó meu Deus! Que ingenuidade a minha! O trapaceiro do Simão enganou-me! Disse que era pastorinha pura…

Martim aconselhou com seriedade:

Tem de levá-lo ao monte, dona. Ou arrisca-se a tragédia.

Os olhos da idosa inundaram-se de lágrimas. Custava-lhe tanto separar-se de Fiel! Bicho tão bonzinho era lobo, é verdade. Ultimamente andava agitado, puxava a corrente, queria a liberdade. Os aldeões olhavam-no com medo. Não havia escolha.

Martim levou o lobo ao monte. Fiel abanou a cauda e desapareceu na mata. Nunca mais ninguém o viu.

Emília ficou triste pelo amigo e maldizia a esperteza de Simão. Mas o próprio Simão lamentou, pois as intenções eram boas. Um dia, vagueando no mato, encontrou pegadas de urso; ao longe ouviu choro. Preparava-se para sair dali, pois perto de ursinhos está sempre a mãe. Mas o som não parecia de urso.

Ao afastar uns arbustos, viu uma toca. A mãe lobo jazia morta e, à volta, pequenos lobitos sem vida. O urso atacara-lhes o ninho. Só um sobrevivia, escondido no buraco.

Simão teve pena do órfão. Levou-o para casa e com o tempo decidiu dá-lo à Emília, para ela cuidar. Pensou que, ao crescer, acabaria por fugir para o mato. Enquanto isso, procurava-lhe um canito verdadeiro. Mas por causa de Martim tudo mudou.

Simão andou dias à volta da casa, sem coragem de entrar. Lá fora o inverno rugia. Emília mantinha o fogão aceso para não morrer de frio.

De repente bateram à porta. Emília correu a abrir. Era um homem.

Boa noite, dona. Posso ficar abrigado uma noite? Ia para a aldeia vizinha, mas perdi-me.

Qual é o teu nome, querido? Não enxergo bem.

Bernardo.

Emília franziu o sobrolho.

Não conheço nenhum Bernardo cá…

Não sou daqui, dona. Comprei casa há pouco tempo. Queria ver, mas o carro ficou preso. Tive de vir a pé, esta ventania!

Então compraste a casa do velho Aníbal?

O homem assentiu.

Isso mesmo.

Emília tornou a convidar o desconhecido, pôs água ao lume. Sem notar, ele observava o móvel antigo onde os aldeões guardavam dinheiro e joias.

Enquanto Emília trabalhava no fogão, o estranho iniciou a busca no móvel. Ela ouviu o ranger da gaveta.

Que fazes aí, Bernardo?

Ora, houve reforma monetária! Ajudava a livrar-se do dinheiro velho.

Emília desconfiou.

Mentira. Não houve reforma nenhuma! Quem és tu?!

O homem sacou de uma faca e encostou ao queixo dela.

Cala-te, velha. Dá-me dinheiro, ouro, comida!

O terror tomou conta de Emília. Diante dela, um criminoso fugitivo. O destino estava traçado…

Mas subitamente irrompeu um enorme lobo na sala, saltou sobre o ladrão. Ele gritou, mas o cachecol grosso protegeu-o das dentadas. Apanhou a faca e atingiu o lobo no ombro. Fiel saltou para o lado e o criminoso aproveitou para fugir.

Nessa hora, Simão, vindo pedir desculpa, avistou à porta o homem com faca a correr, praguejando. Correu para a casa de Emília e encontrou Fiel ferido no chão. Percebeu tudo, foi a correr chamar o guarda.

O ladrão foi preso. Condenaram-no a pena nova.

Fiel tornou-se herói da aldeia. Nozes, peixe, pão, tudo lhe traziam. Já não ficava preso, era livre. Mas nunca deixava Dona Emília; vinha sempre com Simão, depois das caçadas.

Um dia apareceu junto à casa, de carro grande, um homem a cortar lenha. Era Tomás, o filho de Emília. Ao ver Simão, abriu os braços de alegria.

À noite juntaram-se todos à mesa. Emília era alegria pura. Tomás convenceu-a a ir à cidade fazer a operação aos olhos.

É preciso, mãe… suspirou Emília. No verão vem o neto, quero vê-lo. Simão, olha pela casa e pelo Fiel, está bem?

Simão acenou. Fiel ficou junto ao fogão, deitado, satisfeito. O seu lugar era ali, entre amigos.

Se quiserem mais histórias destas, sigam a página! Contem o que sentiram nos comentários e deixem o vosso gosto.

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— Ó Dona Alô! — exclamou Mateus. — Quem deu permissão para manter um lobo na aldeia?