O Direito de Ser Quem Somos

Direito a Si Mesma

O dia começou como de costume: no silêncio. Não aquele silêncio suave da casa quando todos ainda dormem e se ouvem os pardais acordando lá fora, mas um silêncio mais espesso, denso como um cobertor velho, daqueles que já não fazemos caso das manchas. Helena Margarida Batista estava junto ao fogão, mexendo o mingau de aveia, enquanto escutava, da sala, o murmúrio animado do marido ao telefone. O tom dele era fresco, quase juvenilum tom que nunca usava com ela.

Tinha cinquenta e três anos. Vinte e oito de casamento, dois filhos rapazes já com a própria vida e uma filha, Beatriz, a terminar o curso na Universidade do Porto. Vinte e oito anos, sendo que pelo menos vinte e cinco vivera na sombra do marido, dissolvendo-se sem perceber nas rotinas, nos planos dele, nos desejos dele, como açúcar num chá quente, até já não saber onde começava ela própria.

António Manuel Batista entrou na cozinha sem olhar para Helena. Agarrou o telemóvel, que ela lhe tinha deixado ao lado da chávena de café, e espreitou o ecrã.

A aveia está pronta, disse Helena.

Tá bem, murmurou, já novamente enrodilhado no mundo do telemóvel.

Ela pôs o prato à frente dele. António franziu o sobrolho:

Outra vez líquida. Eu disse que preferia mais grossa.

Na terça passada disseste que estava muito grossa.

Ele nem respondeu. Passou o dedo no telemóvel, empurrou o prato.

Hoje vou chegar tarde, há jantar da empresa, com o Pacheco.

Helena largou a colher na panela.

Jantar? Quando é que combinaram isso?

Há semanas. É hoje, aniversário da empresa, não me esperes.

Helena ficou a olhar para a sua nuca, para a zona sem cabelo que já se notava, para o casaco caro que ela própria levara à lavandaria. Pacheco. João Pacheco, sócio nos negócios há anos. Lembrou-se da esposa dele, Maria, mulher simpática de olhos cansados. Será que Maria também ia ao jantar?

Também podia ter ido, deixou escapar, sem esperança.

António olhou-a, com aquele ar impaciente de quem quer encerrar um assunto incómodo.

Helena, só vai pessoal de trabalho. Conversa de negócios, nem ias gostar.

Gosto de tudo o que tem a ver contigo, contrapôs ela. Ou já te esqueceste?

Mas ele já se levantava, aconchegando o casaco enquanto digitava.

Falamos depois.

Depois. Entre eles, “depois” era já um muro antigo.

Helena ficou sozinha na mesa. Olhou a aveia intacta, esvaziou-a no lava-loiça e ficou a ver aquela papa cinzenta escorrer, levada pela água.

Durante anos, Helena tinha sido designer. No tempo em que tinha sonhos, vinte e cinco anos, acabada de sair da Faculdade de Arquitetura com uma distinção. Os professores diziam que ela sabia dar alma aos espaços, percebia como a luz devia cair, como as casas deviam respirar. Ria-se, sem perceber ao certo o elogio. Só sabia desenhar, só sentia.

António surgiu-lhe na faculdade. Andava em Economia, dois anos mais velho, confiante, dos que entram numa sala como se fossem donos dela. Apaixonou-se depressa, como só se é capaz aos vinte e três. Casaram um ano depois. O filho mais velho, Luís, nasceu enquanto Helena dava os primeiros passos num gabinete de arquitetura. Achava então que a pausa seria só isso: uma pausa.

Mas António decidiu abrir uma pequena construtora. Precisavam de dinheiro, de contactos, de ideias. As ideias, curiosamente, vinham de Helena. Ela, em casa com o Luís, desenhava plantas, pensava soluções para fazer as casas mais acolhedoras e humanas, não apenas baratas e rápidas. António ouvia, anotava.

Depois veio o João. Depois, três anos mais tarde, veio Beatriz a menina improvável e muito amada.

Nessa altura, a empresa de António já prosperava. Começou com obras pequenas, depois projetos de raiz, logo a construir prédios. No portfólio da empresa viam-se projetos criativos, aquilo a que chamaram por brincadeira espaço vivido: cozinhas fundidas com a sala, janelas largas, zonas comuns iluminadas. Tudo saído das mãos de Helena, noite dentro, depois de deitar as crianças.

António apresentava estas ideias como nossas soluções, nosso conceito, eu tinha pensado assim. Helena não se magoava não naquela altura. Via-o como um projeto conjunto, a família era nós, tanto fazia quem recebia os louros.

Estava enganada.

Com o tempo deixou de desenhar. Primeiro, por falta de tempo. Depois, por falta de vontade. António um dia disse-lhe que não fazia sentido ela voltar a trabalhar. Ele ganhava o suficiente, ela que se dedicasse à casa. E ela anuiu. Geriu-lhe as contas, recebeu clientes sem escritório, revisou contratos, preparou jantares de negócios. Foi tudo o que a empresa precisou para crescer mas o seu nome não ficou em parte nenhuma.

Os filhos cresceram e restou-lhe o silêncio e um marido que já não a via.

Nessa manhã, com António fora, ficou a beber chá à janela. Viu uma idosa passear um cão ruivo no jardim. Pensou em nadaou em tudo. Pegou no telemóvel, ligou à amiga da faculdade.

Tamara, estás livre à noite?

Sempre para ti, respondeu Tamara de imediato. Que se passa?

Nada. Só queria ver-te.

Mas Tamara conhecia-a. Chegou duas horas depois, com um bolo comprado e olhar atento.

Foi na cozinha que Helena falou. Não da traição disso ainda nem sabia bem. Mas falou do silêncio, dos olhares, da última vez que António lhe chamou o nome, de como sentia-se invisível.

Lena, Tamara ponderou, já te ocorreu que ele?

Já, interrompeu Helena. Mas pensei que fosse paranoia minha.

E agora?

Silêncio.

Agora não sei.

Tamara só foi embora tarde. António não voltou. Helena deitou-se, deixou o telemóvel a carregar e fitou o teto. Passava da meia-noite quando ouviu a chave na porta.

Ele foi direto à casa de banho. Demorou-se na água, depois deitou-se, costas para ela. Exalava um perfume estranho, vindo de outra pele. Pouco, mas Helena notou.

Fingiu dormir. Só respirava. Por dentro, alguma coisa partiu-se. Devagarinho, quase impercetível no início, como o estalar do gelo a início de primavera.

Na manhã seguinte ligou ao filho mais velho, Luís. Ele vivia em Coimbra com a esposa e um pequeno, Miguel, o primeiro neto de Helena. A conversa foi breve, Luís apressado. Depois enviou mensagem à Beatriz, e ela respondeu com uma gravação alegre, contando peripécias da faculdade. Só o João telefonou espontaneamente ao final do dia:

Mãe, tudo bem?

Sim, Joãozinho. Um pouco cansada.

O Pai está em casa?

Não, está numa reunião.

Silêncio.

Mãe, se quiseres, vens para minha casa. Para já.

Ela riu, senão começaria a chorar.

Está tudo bem, querido. Obrigada.

Sentou-se na poltrona à janela mais tempo do que dava conta. João era o mais sensível. Helena suspeitava que ele sabia mais do que dizia. E isso pesava-lhe ainda mais.

Passaram-se duas semanas, num ritmo cinzento, monótono como calçada molhada. António ora chegava tarde, ora cedo, sempre ausente. À mesa, só falava por obrigação, sempre indiferente, sempre meio sorrindo para o telemóvel.

Não procurou provas, mas um dia ele pediu para imprimir uns recibos e deixou o portátil aberto. Movendo o rato, viu por acaso uma conversa:

“Sabes bem que ela não vai. Não faz parte do teu mundo.”

Ela. Helena. Outro respondia e António concordava.

As mãos mantiveram-se firmes. Estranhou isso. Imprimiu os papéis, fechou o portátil, foi pôr água ao lume.

Só ali, debruçada sobre o bule, notou que chorava. Sem soluçosapenas lágrimas a correr, ignoradas.

Não era tanto pela traição, embora doesse. Mas por aquelas palavras. Ele envergonhava-se dela. Consentia que outros a menosprezassem, aceitava. Vinte e oito anos, três filhos, todas as ideias, todo o trabalho, e ela não fazia parte.

Naquela noite não dormiu. Pensou longamente, friamente, como se desenhasse mais um projeto.

De manhã, sabia o que fazer.

Ligou à Tamara:

Preciso da tua ajuda. Mas a sério.

Diz, respondeu Tamara sem demoras.

Preciso de ficar bem. Mesmo bem. Conheces um bom cabeleireiro, alguém para tratar do visual?

Pausa.

Helena planeias quê?

Vou ao jantar da empresa do António.

Longo silêncio ao telefone.

Ele convidou-te?

Não. Mas é um evento aberto, sócios e clientes. Sou esposa do fundador, tenho direito a estar presente.

Helena

Só preciso que me ajudes. O resto, eu trato.

Tamara apareceu no dia seguinte com uma amiga estilista, Vera, jovem de olhar perspicaz, que logo disse:

Tem um rosto lindíssimo. Só precisa de se redescobrir.

Helena não levou a mal. Era verdade.

Passaram o dia inteiro em casa. Vera pintou-lhe o cabelo castanho-escuro com nuances de mel, penteou-lhe como nos velhos tempos. A maquilhagem realçou os olhos verdes-cinza já esquecidos de serem bonitos.

Encontraram, ao fundo do armário, um vestido azul-escuro, tecido acetinado, clássico e elegante. Helena comprara-o há três anos, numa saída com Tamara. Ao experimentar, sentira-se outra vez mulher. Mas António, quando viu, comentou: Onde vais com isso? Muito aborrecido. E ela arrumou o vestido.

Agora, ao vesti-lo, sentiu-se novamente inteira. Tamara ficou sem palavras.

Helena, murmurou, por fim, estás maravilhosa.

Helena olhou o reflexo. Não era jovem. Mas estava viva, finalmente.

Sabia que o jantar da Batista Engenharia seria no restaurante Panorâmico, na Avenida dos Aliados, oitavo piso, vista para o Porto todo. Encontrara o convite pousado, esquecido, como tantas outras coisas.

O táxi parou à porta pouco antes das nove. Foi aí que sentiu o peso do medo. Não pânico só a certeza, de que não havia como recuar.

Entrou, compôs os ombros, passou pelo bengaleiro.

Boa noite, tem o nome na lista? perguntou a recepcionista.

Sou Helena Batista, esposa de António Batista, fundador.

A rapariga hesitou na lista.

Não consta, desculpe

Por certo o meu marido esqueceu-se. Pode ligar-lhe a confirmar? Ou então subo e tratamos lá.

A jovem ficou nervosa mas cedeu.

Pode subir, sim, senhora.

O salão tinha mais de cinquenta pessoas: mesas corridas, flores, luzes envolventes. Música leve. Conversas cruzadas. Helena avistou António ao fundo. Taça de vinho, junto de um homem de fato cinza e de uma jovem loira de vermelho, que ria inclinada para ele.

Helena, digna, não foi ter com o marido. Pegou uma água, aproximou-se de conhecidos. Maria Pacheco veio logo ao seu encontro, sincera.

Helena! Que linda que estás!

Era gente da sua vida: antigos clientes, parceiros, jovens arquitetos. Todos partilhavam memórias, sorrisos. O jovem arquiteto, Diogo, contratado por António havia pouco, escutava-a como quem tira notas.

Só ao fim de vinte minutos António a reparou nela. Ficou paralisado. Disfarçou, armou um sorriso, aproximou-se.

Helena, vieste? Porquê

Vim ao jantar da empresa da qual sempre fiz parte. Não sabia que era proibido.

Não só que

Só quê, António?

Olhou em volta, desconfortável. A loira em vermelho observava-os com um sorriso lânguido.

Depois falamos, murmurou.

Depois, então.

Helena virou costas.

Cerca de uma hora e meia depois, chegou o momento decisivo. Já tinha conversado com quase todos, ouviu falar de projetos, de oportunidades. Diogo, o arquiteto novo, ficou genuinamente impressionado com as ideias dela.

Foi então que Pacheco ergueu a voz, erguendo um copo para um brinde. Falava da empresa, dos sonhos, da sorte de terem uma equipa começando com o conceito de espaço vivido do primeiro projeto.

António, ao lado, sorria como se fosse tudo dele.

Helena sentiu, mais do que raiva, uma lucidez.

Ergueu o copo.

João, posso acrescentar ao teu brinde?

Todos se voltaram.

Sou Helena Batista, esposa do António. Muitos conhecem-me. Quero apenas enaltecer o conceito espaço vivido, pois fui eu quem o desenhou. Em casa, depois de deitar os miúdos, elaborei cada uma dessas plantas, essas ideias de luz e convivência. Os três primeiros anos da empresa e todo o seu método de trabalho foram trabalho meu enquanto cuidava dos filhos, preparava jantares de trabalho e fazia a contabilidade, quando não havia quem o fizesse.

O salão ficou quieto. António empalideceu.

Helena, não é o local para

Para a verdade? Então onde será, António? Em casa, também não a ouves. Não falo por ofensa, mas porque decidi que já não vou fingir que não existi.

Fitou a rapariga de vermelho. Ela já não sorria.

Não faço uma cena. Apenas nomeio o que é meu. Esta empresa existe com base nas minhas ideias e no meu trabalho. O meu nome nunca foi incluído, aceitei isso por pensar que éramos família. Mas já não somos. Agora, peço que haja pelo menos justiça.

Pousou o copo.

Obrigada, João. Maria, telefona-me qualquer dia.

E saiu, serena, sem pressas nem olhares atrás.

António alcançou-a no bengaleiro.

Como te atreves?! a voz abafada de quem tem raiva, mas não a pode soltar.

Não me atrevo a nada, António. Só disse a verdade.

Envergonhaste-me perante os clientes!

Envergonhaste-me perante uma vida inteira. Isso custa mais.

O que queres dizer? Que vais divorciar-te?

Ela apertou o cinto do sobretudo.

Quero dizer que cansei. Já não vou ser invisível. O resto, decide tu.

Saiu para a rua. O frio de novembro cortava, mas sentia-se leve, como se finalmente respirasse, pela primeira vez em anos.

Chamou táxi. Foi para casa da Tamara.

O divórcio durou quatro meses. Não tanto pelo dinheiro, embora houvesse apartamento, quinta e carros, mas porque António não levava a sério. Depois resmungava, depois tentava especular. O advogado que Tamara recomendou era uma mulher de meia-idade, decidida.

Provar contribuição intelectual para o negócio é difícil, admitiu. Tem desenhos, plantas, emails?

No encontro seguinte, Helena levou três pastas. Esboços de vinte anos, nenhum deitado fora. Emails para António com plantas e ideias, trocas de mensagens. Diogo, o jovem arquiteto, ligou-lhe pouco depois:

Dona Helena, se precisar de testemunha, eu vi os seus croquis na empresa. Posso testemunhar.

Ela não esperava tal oferta.

Porquê?

Porque é verdade, respondeu. Sempre soube. Só não era da minha conta. Mas agora quero que seja.

Dividiram os bens: ela ficou com o apartamento, António com a quinta, que acabaria por vender. Helena não festejou. Fechava-se uma porta que tinha sido metade da sua vida.

As primeiras semanas sozinha, no próprio apartamento, pareceram estranhas. O silêncio continuava, mas era outro. Agora era só dela. Fazia as refeições que bem lhe apetecia. Não cozinhava se não quisesse, podia deitar-se cedo, acordar cedo, sem dar satisfações a ninguém.

Achou num armário uma caixa de lápis antigos. Pegou num papel e começou a desenhar, sem pressa. Uma casa imaginada, cheia de luz, com jardim de inverno na sala.

Desenhou duas horas, sem dar pelas horas.

No outro dia, chamou João:

Joãozinho, sabes como está o mercado de design de interiores? O que preciso para abrir um pequeno estúdio?

João hesitou um pouco.

Mãe falas a sério?

Muito.

Então conheço alguém o Nuno, que é consultor de negócios. Dou-te o contacto?

Dá, sim.

Abriu o estúdio quatro meses depois do divórcio. Arrendou um espaço pequeno num prédio antigo, perto do centro do Porto. Fez obras simples, pintou com Tamara e Beatriz, que veio especialmente ajudar. Penduraram prateleiras, discutiram o local do sofá.

Mãe, és mesmo fixe, Beatriz sorriu, quando jantavam no chão, entre caixotes de pizza. Sabias?

Agora sei, riu Helena.

Chamou o estúdio simplesmente: Helena Batista – Arquitetura de Interiores. Tamara sugeriu um nome mais comercial, mas Helena quis o seu. O próprio nome, finalmente revelado, depois de anos escondido nos sucessos alheios.

O primeiro cliente veio por referência. Um casal jovem queria remodelar o apartamento. Helena ouviu, foi ver, e no dia seguinte apresentou três propostas. Eles escolheram a segunda e disseram que era exatamente o que sonhavam, mas não conseguiam explicar. Para Helena, era isso: ouvir o que ninguém sabia dizer e dar-lhe forma.

Escreveram sobre ela numa revista local. Depois numa maior. O próprio Pacheco telefonou:

Helena, a sério. Tenho um projeto, duzentos fogos. Preciso do teu conceito. Aceitas?

Claro, respondeu.

Era o maior contrato em décadas. Trabalhou noites seguidas, não por necessidade, mas pelo entusiasmo. Pesquisou, fez visitas a outras cidades. Diogo, o arquiteto, procurou-a para colaborar nos detalhes técnicos. Aceitou, e formavam uma boa equipa ele meticuloso, ela criativa. Juntos, produziam excelência.

Quando o projeto foi aprovado, Helena ligou à Beatriz:

Filha, consegui.

Mãããe! Eu sabia! Conta tudo!

Contou, detalhou luz, espaços verdes, playgrounds. Beatriz ouvia e vibrava.

Mãe, sempre soubeste. Só te calaram.

Helena refletiu.

Talvez eu própria tenha ajudado nisso, nalguma altura.

Agora já não. Isso é o que importa.

Meio ano após abrir, o estúdio crescia. Três projetos em simultâneo, dois na fila. Uma pequena equipa: Diogo a part-time, uma administrativa, Carla. O dinheiro não dava ainda para luxos, mas era totalmente dela, ganho por mérito próprio.

Mudou-se muito. Não tanto por fora, mas no modo de entrar nos lugares. Deixou de pedir desculpa por existir, aprendeu a dizer não, uma arte que nunca dominara.

Às vezes, ao fim da tarde, com o chá à janela, pensava no passado. Não com mágoa, essa tinha evaporado. Antes com ternura triste, por aquela jovem que se deixou dissolver.

Mas essa rapariga interior nunca desapareceu. Esperou, desenhou de noite, resistiu.

Numa dessas tardes, António ligou.

Helena viu o nome acender no ecrã e demorou a atender.

Boa noite, ouviu.

Olá.

Estás ocupada?

Estou na oficina.

Ouvi dizer que tens oficina O Pacheco falou, elogiou imenso.

Sabe bem ouvir.

Longo silêncio.

Helena, posso ir falar contigo?

Pensou. Não sobre se queria vê-lo sobre se valia a pena a conversa.

Aparece amanhã, às três.

Obrigado, Helena.

Desligou e ficou a olhar o escuro através da janela. A cidade corria lá fora num dezembro já frio.

No dia seguinte, António chegou pontualmente. Helena recebeu-o, sozinha. Ele parou, varreu o espaço com o olhar, fixou os desenhos dela, as estantes de livros, a caixa de amostras. Notava-se o peso nos ombros, cansaço nos olhos, o casaco já sem brilho.

Está bonito aqui, comentou.

Senta-te.

Sentaram. Helena serviu chá. Ele segurou a chávena nas duas mãos, tenso.

Como estás? veio a primeira pergunta.

Bem, afirmou, simples.

Vejo isso. Falaram-me no teu projeto para o Pacheco, ficou impressionado.

Ela não respondeu. Esperou.

António pousou a chávena, esfregou o rosto, como fazia quando estava perdido.

Só queria dizer estou mal. Mal de verdade. Julguei que ia ser simples, sei lá Agora estou sozinho, e nada funciona.

Helena esperou.

A Marta foi embora, disse, referindo a loira. Saiu em fevereiro, disse que não era isto que queria. O conforto sim, mas

Interrompeu-se. Sem ti isto não funciona nem em casa nem na empresa.

Pois.

Fui parvo, sei disso. Agora que não consigo fazer nada bem Os clientes saíram, o Pacheco quer renegociar tudo. Não sei como aguentavas.

Agüentei porque era a minha casa.

Ele assentiu.

Helena, peço que voltes. Olhou-a nos olhos, vulnerável. Só agora percebo o que perdi. Foste tu só agora vejo.

Helena meditou.

António, deixas-me perguntar uma coisa? Responde sem rodeios.

Pergunta.

Dizes que estás mal, que a Marta foi embora, que o trabalho falha. O que é que perdeste, exatamente?

Ele hesitou, olhando para baixo.

Perdeste-me a mim, ou só a conveniência?

Tu sempre mantiveste tudo em pé. Eu confiava cegamente.

Perdeste o que era confortável. Perder-me mesmo, duvido.

Ele ficou calado.

Não te odeio. Isso é importante. És pai dos meus filhos, foste parte da minha vida. Mas não volto. Não por ódio, não por falta de perdão mas porque reencontrei quem fui e quem sou. Não volto a perder-me.

Silêncio longo.

Estás feliz? arriscou ele.

Estou. Há dias difíceis, mas vivo a minha vida, não a tua, nem a dos filhos. Isso basta.

Fico feliz, murmurou.

Eu também.

Ele levantou-se, alinhou o casaco.

Os meninos?

Bem. João vai ter mais um bebé, André e família vêm cá no verão, Beatriz já trabalha Fala com eles, não estão zangados, especialmente o João.

Assentiu.

Obrigado pelo chá. Aliás O conceito de espaço vivido Deviam orgulhar-se.

Eu sei.

Fechou-se a porta atrás dele. Helena lavou a chávena, guardou-a cuidadosamente.

Voltou ao desenho. O telemóvel vibrou: Beatriz.

Mãezinha, onde andas? Já tentei meia hora!

Estou no estúdio, a trabalhar.

Tenho de ir ao Porto no Ano Novo, pode ser contigo?

Claro, vem sempre que quiseres.

Levo uma amiga. Vais adorar.

Traz.

E tu, estás bem?

Helena pousou o lápis. Era já noite, dezembro precoce. Lá fora, alguém passeava uma criança de gorro vermelho.

Estou. De verdade.

Não te sentes sozinha?

Pensou um momento.

Não estou. Vocês vêm cá, João chamou-me para jantar, Tamara arrastou-me ao teatro, a Carla trouxe doces Tenho a oficina, os meus projetos, muita sorte.

Mãe, és a melhor.

E tu também, filha. Porta-te, dorme bem, aquece-te.

Pareces igual.

Mudei, sorriu Helena. Mas para mim mesma. Não sou outra pessoa, sou eu.

Depois ficou a desenhar o projeto novo: uma sala pequena, aberta à luz, espaço para yoga, para vida. Pensava como fazê-la respirar, como acolher quem entrasse.

Nevava do lado de fora. A luz dos candeeiros caía suave, os carros passavam, ouvia-se na calçada o rumor de passos lentos.

Era designer. Era mãe. Era mulher que viveu uma vida inteira e saiu dela sábia, não partida.

Relação acabada, infidelidade, ausência tudo isso dói, mas não define ninguém. Dói, sim, mas é só informação. Mostra onde olhar, o que mudar.

E Helena mudou não por leituras ou segredos de psicologia, mas porque, um dia, deixou de se esconder de si mesma.

A solidão no casamento é destrutiva. Não são dificuldades, nem contas, nem cansaço. É deixar de ser vista por quem foi o teu mundo. Isso mina, corrói, consome por dentro.

Mas, para Helena, não foi fatal.

Guardou o lápis, espreguiçou-se. Nove da noite, tempo de ir para casa. Amanhã, clientes cedo, almoço com Tamara, jantar com João em breve, novidades do neto a caminho.

Muita coisa. Boa.

Arrumou, apagou, espreitou a rua. Lá fora, o Porto cobria-se de neve fina e quase mágica. Uma gata atravessava o beco, ligeira e determinada como quem conhece o destino.

Helena Margarida Batista fechou a porta, desceu as escadas e saiu à rua.

O ar frio cheirava a pinho e lareira, era já tempo de Natal. Três semanas para o novo ano. Beatriz viria com a amiga. Haveria de inventar receitas novas sempre gostou de cozinhar para quem ama, nunca por hábito.

Avançou devagar, saboreando a cidade, as luzes nas janelas, a promessa do inverno. Pensava no próximo projeto, no apartamento pequeno e luminoso, na filha, no orgulho de saber que ela fazia o que gostava.

Pensava em si. Nos cinquenta e três anos cheios de perdas, alegrias, traições, silêncios, e este dezembro de estúdio e renascimento.

Tinha-se escolhido, enfim. Tarde, mas sempre a tempo. Não é só frase feita percebeu por própria vida.

O elétrico chegou. Helena sentou-se junto à janela, pousou a mala no colo. A cidade era toda dela, coberta de neve e luz.

E, ao olhar, sentiu um sossego forte, firme. Não felicidade de euforia só a paz de quem sabe, finalmente, para onde vai.

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