O Direito de Ser Quem Somos

Direito a Si Mesma

As manhãs, naquele tempo distante, sempre começavam com silêncio. Não aquele silêncio leve de uma casa adormecida onde se pode ouvir os pardais acordando no quintal, mas um silêncio denso, antigo, que se colava às paredes como o perfume de um móvel velho. Leonor Maria Tavares de Almeida estava de pé junto ao fogão, mexendo o leite com aveia, ao mesmo tempo que escutava, da sala, a voz do marido ao telefone. O tom dele era animado quase jovial. Um tom que há muito não usava com ela.

Tinha cinquenta e três anos. Vinte e oito de casamento. Dois filhos que já tinham voado do ninho, e uma filha, Matilde, terminando o curso na Universidade do Porto. Desses vinte e oito anos, cerca de vinte e cinco tinham sido passados à sombra do marido. Sem se dar conta, Leonor dissolvera-se nas rotinas e vontades dele, como açúcar a derreter no café quente, já nem sabendo mais onde acabava ela e começava ele.

João Manuel de Almeida, o marido, entrou na cozinha sem lhe dirigir o olhar. Agarrou o telemóvel que ela colocara ao lado da sua chávena. Olhou para o ecrã.

A aveia já está, disse Leonor.

Pois, respondeu, voltando logo a enfiar-se no telemóvel.

Ela colocou-lhe o prato à frente. Ele franziu o nariz.

Outra vez rala. Já te disse que gosto dela mais espessa.

Na terça disseste que estava demasiado espessa.

Não respondeu. Passou páginas no telemóvel, afastou o prato.

Hoje vou chegar tarde. É o jantar de empresa do Teixeira.

Leonor pousou a colher na panela.

Jantar de empresa? E combinaram agora?

Já estava combinado há muito. Coisa da firma. Não me esperes.

Olhou para a nuca dele, para o princípio de careca que já começava a notar-se, para o casaco caro que ela fora buscar à lavandaria na véspera. Teixeira. Era o António Teixeira, sócio de João há quase dez anos. Leonor lembrou-se da esposa do Teixeira, a Isabel, uma senhora simpática de olhos cansados. Será que Isabel também ia ao jantar?

Também podia ir, murmurou, sabendo que era em vão.

João ergueu os olhos, com aquele olhar de quem se sente incomodado por perguntas indesejadas.

Leonor, aquilo é só o pessoal do trabalho. Conversa chata, negócios. Não ias achar interessante.

Interessa-me tudo o que tem a ver contigo, disse, quase sem voz. Ou já te esqueceste?

Mas ele já se levantava, já carregava no botão de chamada.

Falamos depois.

Depois. Daquela palavra fez-se um muro entre eles.

Leonor ficou algum tempo sentada, a fitar a mesa posta. Olhou para a aveia intocada. Depois levantou-se, deitou-a fora e ficou a ver a papa ser levada pela água.

Era designer ou tinha sido, noutra vida, quando tinha vinte e cinco anos. Na altura, acabava de concluir arquitetura no Instituto Superior Técnico, com distinção. Os professores diziam que ela tinha um dom raro via o espaço de outra maneira, sentia como a luz devia entrar numa sala não só para que fosse bonita, mas verdadeira. Ela só sorria e desenhava. Era simples para ela.

João cruzou-se no seu caminho no terceiro ano do curso. Estudante de gestão, dois anos mais velho, desses rapazes que parecem saber sempre o que querem. Leonor apaixonou-se depressa e com força, como tanta gente aos vinte e poucos. Casaram passado um ano. O Pedro, o filho mais velho, nasceu logo depois, quando Leonor ainda agora começara a trabalhar no ateliê. Achava então que seria provisório, que voltaria às plantas e à prancheta. Que a licença de maternidade era breve.

Depois João quis abrir o próprio negócio uma empresa de construção civil, modesta mas ambiciosa. Era preciso capital, contactos, ideias novas. Estranhamente, as ideias vinham quase sempre de Leonor. Ela, em casa com o Pedro, esboçava plantas, projetava conceitos, idealizava casas onde as pessoas quisessem viver de verdade. João, atento, anotava tudo.

Depois nasceu o Rui. Três anos mais tarde, a Matilde, a filha quase fora de tempo, a mais inesperada.

Nessa altura, a firma de João já estava lançada. Começara por obras de remodelação, depois avançara para projetos maiores, depois pegou em construções de pequenos bairros de apartamentos. No portefólio da empresa apareciam projetos criados por Leonor: a tal Casa Viva, como lhe chamavam entre eles plantas bem pensadas, cozinhas abertas para a sala, ângulos amplos de luz natural, patamares com bancos e janelas e não com sombras e cheiro a mofo. Tudo sonhado por Leonor, nas noites em que desenhava enquanto João dormia.

Ele levava as ideias às reuniões. E nunca mencionava a origem. O nosso conceito, o nosso método, já andava a pensar nisto. Na altura, a Leonor não lhe doía: era a vida em comum, pensava ela. Um projeto familiar.

Enganava-se.

Com o tempo, deixou de desenhar. Primeiro, não havia tempo. Depois, vontade. Um dia, João sugeriu que não precisava de voltar ao trabalho ganho bem, dedica-te à casa e aos miúdos. Ela não discutiu. Aceitou. Fez tudo. A contabilidade da empresa, enquanto não havia escritório. Recebia clientes em casa, lia contratos, preparava jantares para os sócios de João. Era tudo e não era nada oficial.

Depois os filhos cresceram. E Leonor ficou a sós com um homem que já não a via.

Naquele dia em que João partira para o jantar, Leonor ficou junto à janela, o chá ainda quente nas mãos. No jardim, uma velhota passeava um cãozito castanho. Pensava em nada, ou em tudo. Decidiu ligar à amiga Sofia, dos tempos de faculdade.

Estás livre esta noite? perguntou.

Sempre para ti, respondeu Sofia sem hesitar. Passa-se alguma coisa?

Não. Só apetece companhia.

Mas Sofia conhecia-a bem demais. Apareceu duas horas depois, com um bolo de pastelaria e olhos atentos.

Sentaram-se na cozinha. Leonor foi falando. Não de traição disso ainda não sabia nada concreto. Falou do silêncio, dos olhares furtivos, de como já ninguém a chamava pelo nome. E de como se sentia invisível, dentro da própria casa.

Leonor, começou Sofia, com cuidado. Nunca pensaste que talvez ele…

Já pensei, interrompeu. Achei que era só paranoia minha.

E agora?

Silêncios.

Agora não sei.

Sofia saiu tarde. João não voltou. Leonor deitou-se, pôs o telemóvel a carregar. Viu as horas passarem era quase uma da manhã quando ouviu a chave na porta.

Passou direto para a casa de banho, nunca apareceu no quarto. A água correu muito tempo. Depois deitou-se, costas voltadas, cheirava a perfume de mulher ténue, mas inconfundível.

Ela calou-se. Fingiu dormir.

Cá dentro, algo rachou, muito devagar, mas definitivo.

No dia seguinte, ligou ao Pedro, que vivia em Lisboa, com a mulher e o filho pequeno, Miguel, o primeiro neto de Leonor. A conversa foi breve o Pedro com pressa, outra reunião por marcar. Mandou mensagem à Matilde, que respondeu rápido com um áudio, animada à sua maneira. Só o Rui ligou à tarde.

Mãe, está tudo bem?

Está Rui, só um pouco cansada.

O pai está em casa?

Em reuniões.

Silêncio do outro lado.

Se precisares, podes sempre vir para cá, mãe. Ouvires? Quando quiseres.

Riu-se, para não chorar.

Está tudo bem, filho. Obrigada.

Pensou muito nisso naquela tarde. Rui, sensível como sempre. Sempre soube, sem perguntar. Isso custava mais.

Passaram-se duas semanas cinzentas, sem nome. João vinda tarde, ou cedo mas ausente, sempre com conversas de trabalho, sempre com o telemóvel. Às vezes sorria para o ecrã com doçura nova. Sorriso que Leonor já não via.

Ela não procurou provas, mas um dia ele pediu que imprimisse umas faturas e deixou o portátil ligado. Ao mexer no rato, saltou no ecrã uma mensagem. Apenas uma linha.

Sabes bem que ela não vem. Não pertence ao teu mundo.

Ela. Leonor.

As mãos não tremeram. Isso surpreendeu-a depois. Fechou o portátil, deixou as folhas na mesa e foi pôr água para chá.

Foi diante do bule que percebeu que chorava. Sem barulho, lágrimas soltas. Não pelas traições, embora doesse e doía muito. Mas porque aquela frase dizia tudo: ele tinha vergonha dela, permitia que outros falassem dela com desdém e não a defendia. Vinte e oito anos ao lado dele, três filhos, tantas noites em claro e ela agora era de fora.

Aquela noite não dormiu. Pensou, em silêncio, como calculava projetos. Deitou contas ao tempo, à verdade. Não se permitiu dó nem drama, só lucidez.

De manhã sabia o que fazer.

Telefonou à Sofia.

Preciso de ajuda. De verdade.

Diz.

Preciso de estar bem apresentada. Tens contacto de uma boa cabeleireira? E de uma stylist?

Leonor, que planeias?

Vou ao jantar da empresa.

Silêncio.

Foi o João que te convidou?

Não. Mas é evento público, clientes e sócios. Conhecem-me. Sou esposa do fundador. Tenho direito a estar lá.

Leonor…

Sofia, ajuda-me. O resto resolvo.

No dia seguinte, Sofia apareceu de braço dado com Mariana, jovem estilista de olhar afiado. Olhou Leonor de alto a baixo.

Tem estrutura de rosto linda. Só precisa de se cuidar de novo.

Leonor não se ofendeu. Era verdade.

Passaram o dia naquele apartamento. Mariana tratou-lhe do cabelo, voltou ao castanho escuro, com madeixas como usava em jovem. Maquilhagem discreta, olhos bem delineados. Nos fundos do armário, um vestido azul-escuro, de tecido brilhante, austero mas elegante, comprado há anos. João só dissera: Vais usar isso onde? É tão apagado. Ficou arrumado até aquele dia.

Quando Leonor saiu vestida, Sofia ficou em silêncio.

Maria, estás mesmo bonita.

Leonor olhou-se ao espelho. Não era jovem, não. Mas era viva. E sabia não por vaidade, mas por verdade.

Soube do jantar ConstruAlma no restaurante Solar Atlântico por acaso, por um convite esquecido na entrada. Lembrou-se do espaço, entrada nobre de portas envidraçadas.

O táxi chegou às oito e meia. Ao sair, sentiu não medo, mas certeza de não haver regresso.

Desceu, endireitou-se e entrou.

Na entrada, uma rapariga confirmou nomes.

Boa noite, está na lista?

Sou Leonor Almeida, esposa de João Almeida, fundador.

Ela procurou o nome.

Não a encontro…

Terá sido esquecimento do João. Ligue-lhe. Ou vou eu lá acima.

Acabou por deixá-la entrar.

A sala estava cheia uns cinquenta, sessenta. Mesas longas de flores frescas, meia luz, música suave. Leonor circulou. Encontrou a Isabel Teixeira, que a recebeu de braços abertos.

Leonor! Estás lindíssima!

E tu, Isabel, respondeu, abraçando a amiga.

Ali estava também o velho cliente, Manuel, com quem discutira um projeto anos antes. Jovem arquiteto, o Diogo, recém-contratado por João, olhava-a curioso.

João viu-a passado uns vinte minutos. Ficou imóvel um instante, recompôs-se, colocou um sorriso.

Leonor, vieste? Porquê?

Vim ao jantar da minha empresa. Não sabia que era proibido.

Não é, mas…

Mas? João?

Ele olhou em volta. Mais além, uma loura de vermelho, jovem, sorria discretamente.

Falamos depois.

Depois, pois, disse Leonor, e virou-se para Isabel.

O momento decisivo veio uma hora mais tarde. Já falara com quase todos, ouvira que o Manuel estava à procura de arquiteta, que o Diogo e ela tinham estudado no mesmo Instituto Técnico, vinte anos antes trocaram ideias sobre arquitetura, ele ouvindo-a com respeito.

Teixeira, então, levantou-se propôs um brinde ao sucesso da Casa Viva, referência da firma desde o início. João sorria, saboreando o crédito.

Leonor ergueu o copo.

Posso acrescentar algo, Teixeira?

Todos viraram. Ele acenou.

Sou Leonor Almeida, mulher do João, muitos aqui me conhecem. Tenho orgulho que a Casa Viva tenha dado tanto nome à empresa. Porque essa ideia nasceu de mim. Em casa, a desenhar enquanto os filhos dormiam. Inventei os espaços, abri cozinhas para salas, desenhei corredores de luz, bancos para conversar. Durante três anos, dei ideias, tratei dos filhos, da contabilidade, dos jantares, toda a base da firma. Mas nunca tive nome nos papéis.

Silêncio. João ficou lívido.

Leonor, não é…

Lugar para quê, João? Para a verdade? Em casa também não ouves. Não estou a fazer escândalo. Só a dizer a empresa começou comigo. E o nome desapareceu porque achei que éramos família. Já não somos. Ao menos, aqui, fica dito.

Deixou o copo. Despediu-se de Isabel. E saiu, pelo salão, sem pressas.

João apanhou-a no bengaleiro.

Que raio foste fazer?!

Dizer a verdade.

Humilhaste-me!

Tu humilhaste a minha vida. É pior.

Isto é… divórcio?

É cansaço. Não sou invisível. A palavra é tua, a decisão é minha.

Saiu para o frio de novembro. Inspirou fundo há quanto tempo não respirava assim? Chamou um táxi. Foi a casa de Sofia.

O divórcio levou quatro meses. Não tanto pelo património havia casa, carro, casa de campo mas porque João não acreditava no início, depois discutia, por fim resignou-se. O advogado, recomendado pela Sofia, era uma mulher firme, cabelos curtos.

Contribuição intelectual no negócio é difícil de provar, disse logo. Tem desenhos, e-mails, rascunhos?

Na reunião seguinte, Leonor levou três pastas. Vinte anos de plantas, e-mails trocados com João, agradecimentos. O Diogo, jovem arquiteto do jantar, ligou-lhe pouco depois:

Sra. Leonor, posso testemunhar que vi os seus esquissos nos arquivos. E que eram seus.

Ficou sem palavras.

Porquê ajudar?

Porque é justo. Vi as plantas, tinham data e assinatura. Agora é o meu dever.

No fim, dividiram bens. Ela ficou com o apartamento, João vendeu a casa de campo. Leonor não celebrou: era um final, não um triunfo.

Os primeiros dias, já sozinha, estranhou. O silêncio continuava, mas agora era um repouso. Comia o que lhe apetecia, quando queria, ligava-se ao mundo ao seu ritmo. Uma noite encontrou uma caixa de lápis esquecida. Sentou-se, desenhou uma casa luminosa, com jardim de inverno num canto da sala. Sem notar, passaram duas horas.

Ligou ao Rui:

Rui, sabes como está o mercado do design de interiores? O que é preciso para abrir um ateliê?

A sério, mãe?

Sim.

Eu conheço uma pessoa, o Gonçalo, ele pode ajudar-te.

O ateliê abriu-o quatro meses depois do divórcio. Um espaço pequenino, numa rua ao pé do centro, segundo andar de prédio antigo, pé direito alto. Pintou ela mesma, com Sofia e Matilde. Discutiam onde por o sofá, colavam prateleiras.

Mãe, és incrível, disse Matilde, num final de dia, comendo pizza em pratos improvisados.

E Leonor riu.

Chamou-lhe Leonor Almeida Arquitetura de Interiores. Sofia sugeriu outro nome, mais giro. Ela quis o seu. Pela primeira vez, o seu nome à porta.

O primeiro cliente veio por amigos. Casal novo, queria repensar um T2. Leonor ouviu-os. Visitou a casa. No dia a seguir entregou-lhes três plantas. Escolheram a segunda. Disseram: Era isto, não sabíamos como explicar. Era esse o dom dela: ver o que os outros mal conseguem dizer.

Saiu uma menção no jornal local. Depois, noutra revista, maior. O Manuel, do jantar, ligou:

Leonor, tenho um projeto de duzentos apartamentos. Preciso que cries o conceito. Vens?

Vou, respondeu.

Era o maior desafio em décadas. Trabalhou noites seguidas, não por falta de tempo, mas por paixão. Diogo ofereceu-se para ajudar com as partes técnicas. Pegaram bem juntos, ele metódico, ela visionária.

Quando o projeto do Manuel foi aceite, Leonor ligou à Matilde.

Tive sucesso.

Mãããe! Eu sabia! Conta tudo!

Contou-lhe tudo, sobre a luz, as zonas verdes, sobre fazer aquilo com que os outros apenas sonham. Matilde respondeu:

Sempre soubeste. Só não te deixaram fazer.

Leonor concordou em silêncio.

Agora deixas-te. É o que importa.

Seis meses depois, estava a pleno vapor: três projetos, equipa pequena mas leal. Pouco dinheiro, mas todo seu, limpo, ganho por si.

Ela mudara percebia isso na forma como andava, como falava, como ocupava o espaço. Perdera o medo de existir. Aprendera a dizer não habilidade nova.

Muitas vezes, de chá nas mãos, ao cair da noite, pensava nos anos passados. Sem mágoa; apenas tristeza serena, como por um inverno antigo. Pena do tempo. Da jovem licenciosa, generosa, que aceitara apagar-se.

Mas dentro dela, a chama nunca se apagara de todo. Aguentara, à espera do tempo certo.

Uma noite, o telefone tocou. Era João.

Ficou uns segundos a olhar para o nome no ecrã. Atendeu.

Boa noite, disse ele, voz rouca.

Boa noite.

Estás ocupada?

Estou na ateliê, a terminar um desenho.

Ouvi dizer que tens tido sucesso. O Manuel elogiou muito o projeto.

Fico contente.

Pausa.

Leonor, posso ver-te? Precisamos de falar.

Pensou. Não se tratava de querer ver João, mas de perceber se estava pronta.

Amanhã, às três, no ateliê.

Obrigado, Leonor.

Olhou depois o candeeiro da rua a balançar ao vento, o reflexo trémulo nas janelas. Era só mais uma noite normal de dezembro.

No dia seguinte, João chegou às três em ponto. Ela mesma abriu a porta. Ele, parado no hall, olhou os esboços nas paredes, a mesa de amostras, livros antigos de arquitetura.

Estava mais envelhecido, olhar baço, ombros caídos.

Está muito bonito aqui, disse.

Senta-te.

Trouxe-lhe chá. Ele agarrou a chávena com ambas as mãos.

Como estás?

Bem.

Nota-se. O Manuel elogiou muito o projeto, disse que é o melhor desde sempre.

Nada respondeu.

João pousou a chávena, esfregou o rosto.

Preciso de te dizer… Estou mal. Mesmo mal. Em casa não me entendo, o trabalho corre pior, clientes perderam-se, o Teixeira repensou o negócio. E a… a Raquel foi-se embora. Em fevereiro. Disse que queria conforto, mas sem ti aquilo não funciona.

Leonor não disse nada.

Fui burro, Leonor. Percebo agora. Fazias tudo: casa, contas, ideias. Sem ti, é caos. Não percebo como aguentavas.

Era minha casa, disse.

Leonor, peço que voltes. Sei o que perdi. Vejo-o agora.

Olhou-o de frente. O homem dos seus vinte e oito anos, pai dos filhos, primeiro amor. Não sentia ódio. Só cansaço e clareza.

João, diz-me só: o que foi que perdeste? Mas concreto.

Ele ficou a pensar.

Tu. Fazias tudo. Eu não tinha que pensar tu pensavas.

Sim.

Ele fitou-a, sem perceber.

Perdeste conforto, João. Uma função. Uma mulher invisível a resolver tudo sozinha. E gostaste disso.

Não é justo. Eu amava-te.

Talvez. Como se ama a poltrona favorita: só quando falta é que se nota.

Isso é cruel.

Não, é exato. Ouvistes o que digo há meses? Que fui tua sócia sem nome? Não o negaste. Porque era verdade.

Silenciou-se.

Não te odeio, continuou Leonor. És o pai dos meus filhos, parte da minha vida. Mas não volto. Já o perdoei, creio. Só não perco mais a mim mesma. Encontrei-me. Não volto a perder.

João hesitou.

És feliz?

Pensou um pouco.

Sou. Não sempre, há dias difíceis, mas a vida é minha. Isso basta.

Fico contente, disse, sinceramente.

Falou dos filhos Rui a mudar de casa, a mulher grávida, Pedro a vir no verão, Matilde já a trabalhar depois do curso.

Notou em João um travo de nostalgia perdeu-se fora daquela família.

Fala com eles, João. Não te afastes.

Agradeceu, levantou-se.

Aquele conceito Casa Viva… Era coisa tua. Podes orgulhar-te.

Eu sei.

Quando a porta se fechou, Leonor lavou a chávena. Sentou-se ao desenho. O telemóvel tremeu: Matilde.

Mãe, onde estás? Liguei mil vezes!

Estou a trabalhar no ateliê.

Quero ir no Natal. Levo uma amiga?

Claro.

Mãe, e tu? Está mesmo tudo bem?

Pousou o lápis, olhou para a neve devagar lá fora, as luzes dos candeeiros, uma criança pela mão do pai.

Matilde, está. Um dia disseste que eu não mudava. Mas mudei, só não como esperavas. Não virei outra pessoa virei eu própria. Isso é diferente.

Depois ficou a rever o projeto: transformar um T1 num espaço com luz de manhã, um canto de ioga. Desenhou pensando que cada casa devia respirar.

A neve caía macia, portas batiam, carros cruzavam o empedrado.

Pensava: cinquenta e três anos não são o fim nem o meio só um ponto onde, enfim, já nos conhecemos. E não esperamos mais licença para viver.

Vezes houve em que pensou: Devia ter saído antes. Talvez. Mas não se culpava. Olhava para trás e via uma jovem entregue ao amor, confundindo-se com os outros, sem saber que amar não é desaparecer. Que servir uma família é belo, se é escolha não anulação.

Agora sabia distinguir.

Sofia ligou.

E então? Ele apareceu?

Veio sim.

E?

Pediu-me para voltar. Eu disse que não.

Silêncio. Depois:

Estás mesmo bem, Leonor?

Sofia, estou. Talvez pela primeira vez.

Óptimo. Ouve, há exposição de arquitetos jovens esta quinta, vais?

Com gosto.

E depois um café?

Claro.

A vida está a compor-se, hein?

Já compôs, respondeu Leonor.

Pegou no lápis. O projeto tomava forma: sítio de luz do lado leste, canto de almofadas para sossego, janela virada ao bairro.

Sabia como os espaços abraçam quem os habita, mais do que só pela vista. Era a sua arte, a sua verdade antiga, intacta apesar de vinte cinco anos quase mudos.

Era designer. Era mãe. Era mulher que viveu muito, e saiu inteira.

Casamento é uma parte da vida não tudo. A traição, a indiferença, magoam, claro, mas são sinais, não sentenças. Dizem: vê, entende, muda.

E Leonor entendeu. Não por ter lido conselhos ou ido a terapeutas embora um psicólogo a tenha ajudado, sim. Mas porque deixou de ter medo de se ver.

O que destrói é a solidão partilhada, não a falta de dinheiro ou de companhia. Ser invisível, sem escuta, sem nome isso mata devagarinho.

Mas não a matou por inteiro. Agora sabia-o.

Arrumou o estirador. Oito e meia da noite amanhã reuniões, depois almoço com Sofia, sábado jantar em casa do Rui, grandes novidades a caminho.

Tanta coisa à espera. Coisas boas, pequenas e enormes.

Vestiu o casaco, apagou a luz, segurou a mala. Parou um instante a olhar para o ateliê o seu lugar.

Lá fora, nevava devagar. O candeeiro iluminava o beco onde um gato cruzava apressado, sabedor do caminho.

Leonor Maria Tavares de Almeida fechou a porta do seu ateliê, desceu à rua.

O frio cheirava a pinho deviam estar já a montar as bancas das árvores de Natal. Faltavam três semanas para o fim do ano. Matilde chegaria, trazia amiga. Era preciso planear receitas novas. Cozinhar sabia-lhe bem, se fosse para quem lhe fosse querido não por obrigação.

Seguiu devagar até à paragem. Observava as luzes nas casas, o rebrilhar da neve, o rumor de novas histórias no ar. Pensou na cliente do T1 e na luz de manhã. Pensou que a Matilde estava no caminho certo escolher viver conforme o coração.

Pensou nela mesma. Nos 53 anos de vida feita de tudo: alegrias, mágoas, traição, silêncio e este dezembro branco, ateliê, clientes novos.

Escolhera-se. Tarde, talvez mas melhor tarde do que nunca. Sabia isso, agora, não dos livros, mas da vida.

Entrou no elétrico, apanhou um lugar à janela, pousou a mala no colo. Das janelas, desfiavam-se as luzes de Lisboa, a neve cobrindo telhados, ruas e praças. Sentiu, dentro de si, um silêncio manso e firme. Não felicidade ruidosa, mas a paz de quem, finalmente, sabe o seu caminho.

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