O Direito de Ficar em Silêncio

O cheiro do perfume dentro do carro estava tão forte, quase sufocante. Beatriz entreabriu o vidro só uma frincha e entrou aquele ar de estrada, misturado com o calor brilhoso do asfalto. Junho este ano tinha sido abrasador em Portugal, dessas ondas de calor que parece colar tudo à pele.

Estás outra vez calada disse Miguel, sempre com os olhos presos na estrada.

Não estou calada. Estou a pensar.

Pensar em quê? Está tudo tratado, tudo pago. Só tens de te deixar ir.

Beatriz olhou para as mãos dele agarradas ao volante. Eram mãos bonitas, de unhas cortadas a rigor, tão pouco marcadas mãos de arquitecto. Sempre achou estranho como é que um arquitecto conseguia ter as mãos tão limpas, como se nunca mexesse verdadeiramente em nada.

Ó Miguel, a minha mãe naquele vestido… percebes? Ela comprou-o na feira com tanto cuidado. Mas os teus convidados…

Os meus convidados são pessoas normais.

Pessoas normais também sabem olhar de lado para quem não faz parte do mesmo mundo.

Ele suspirou aquele suspiro dele, contido, quase inaudível, que ela já reconhecia há dois anos. Queria dizer: já me cansas com isto.

Bia, nós vamos casar. Estás a perceber? O nosso dia. Não podes só hoje esquecer os dramas?

Não são dramas. Eu sinto.

Pois, tu sentes sempre tudo.

Soou tudo menos elogio.

Passaram por uma placa: Quinta do Girassol 2 km. Beatriz endireitou a grinalda do véu. O tule branco, com mini pérolas ao redor, era lindo, caro escolhido pela mãe do Miguel, Dona Amélia, naquela loja fina do Chiado. Beatriz nem se opôs. Nos últimos meses deixava quase tudo passar, alimentando aquela fé frágil que tudo correria bem se ela não complicasse.

O meu pai está numa pilha sussurrou. Ele nunca entrou em sítios destes.

Bia…

Diz.

Deixa, por favor.

Caleu-se. Espreitou pela janela do carro: de um lado e do outro, campos ondulantes e verdes. Sabia que, lá longe, ficava a aldeia onde crescera, Vila do Limoeiro. Era onde a casa ainda tinha portadas azuis de madeira, e onde a avó Rosalina se sentava junto à janela com o bastidor e dizia: Bia, a agulha é conversa para o tecido. Tu vais ver, ele responde-te.

Miguel estacionou à porta do restaurante. Saiu, abriu-lhe a porta. Era desses gestos que lhe saíam naturais bonito, pontual, certinho. Beatriz agarrou-lhe o braço, forçou um sorriso porque não via o que mais podia fazer.

Os pais já estavam dentro. Mal entrou na sala, viu-os logo: Dona Teresa e o Senhor Manuel, encostados discretamente a uma das paredes, pareciam dois pardais meio perdidos no meio de uma festa de papagaios.

A mãe ía num vestido azul escuro com um colarinho de renda, saia mais comprida do que o que agora se usava, cabelo preso e ondulado, uns brincos pequenos de pedras azuis oferta do pai pelos vinte cinco anos de casados. Segurava a malinha junto à barriga, e olhava para os lustres de cristal como quem espreita um sonho tão bonito quanto distante.

O pai estava de fato aquele cinzento escuro, largo aos ombros, que Beatriz só tinha visto em fotos antigas. Passou a ferro de véspera, as calças tinham o vinco tão afiado como régua. A gravata? Um bocadinho torta, claro.

Bia! mãe avançou, mas travou, com medo de amachucar o vestido. Agarrou-lhe só as mãos És linda.

Tu também, mãe.

Dona Teresa riu muito baixo, meio envergonhada, como sempre fazia quando queriam elogiá-la.

O pai abraçou-a de lado, sem força de mais para não estragar nada.

Orgulhoso estou, filha e calou-se. Era um homem de poucas palavras, daqueles que acha que falar de mais estraga as coisas.

A sogra, Dona Amélia, chegou dez minutos depois. Entrou com aquela pose de quem está habituada a chamar atenções. Vestido de seda bordô, fios de pérolas, cabelo esticado à frente por mãos de salão. Cinquenta e tal anos a aparentar dez menos e bem ciente disso.

Beatriz beijou o ar ali perto Estás deslumbrante, querida. Miguel, segura bem esta mulher, olha que é um diamante.

Miguel sorriu. Aquele sorriso formal que Beatriz já conhecia das reuniões de trabalho.

Dona Amélia virou-se então para os pais de Beatriz. Tinha aquele olhar calmo, avaliador, sem altivez clara, mas com algo impossível de pôr só em palavra. Mediu-os de cima a baixo como uma máquina de supermercado.

Dona Teresa, Senhor Manuel, muito gosto finalmente. O Miguel só fala de vocês.

A mãe sorriu, acenou só. O pai apertou-lhe a mão sem grande calor.

Dentro da sala, sentaram os pais de Beatriz cá no fundo, perto de um primo afastado do Miguel e a mulher dele, que passaram o jantar a falar a dois sobre obras da casa nova.

Beatriz espreitava-os de longe. A mãe comia devagar, preocupada com os talheres certos. O pai bebeu um shot de aguardente e começou a mirar lá para fora, para Lisboa a brilhar na noite. Às vezes trocavam olhares trocas tão cheias de tudo, que Beatriz tinha de desviar os olhos.

Os brindes começaram. O amigo do Miguel fez o primeiro rapaz animado, relógio caro ao pulso. Depois a Maria Inês, amiga de Beatriz da costura, mais formal que real. Depois outros. O champanhe era bom, a comida parecia revista, os empregados andavam sem ruído, quase invisíveis.

Dona Amélia pegou no microfone pouco depois das oito. Levantou-se devagar, cheia de pose. A sala calou-se.

Deixem-me dizer umas palavras começou com voz firme, de quem manda em reuniões. O brinde da mãe do noivo, como se costuma dizer, é sempre especial.

Risadas tímidas aqui e ali.

O meu Miguel sempre teve alma grande pausa estudada, à la grande orador. Desde miúdo trazia para casa gatinhos da rua, ajudava os amigos nos trabalhos. Era do pai que Deus o tenha e talvez um pouco meu. Risadinha leve. Quando me apresentou a Beatriz… devo confessar, achei surpreendente. O Miguel podia… enfim, tinha onde escolher. Mas escolheu-a. Uma rapariga de uma aldeia pequena e uma família tão simples… eu diria até humilde. Acho que é preciso ter coração grande para isso.

Beatriz sentiu o corpo do Miguel enrijecer ao lado, mas não se mexeu.

Os pais da Beatriz olhou para o fundo da sala são gente de trabalho. E trabalho pesa. Empregada de limpeza, motorista são profissões vitais. Cada um no seu lugar tem valor. Outra pausa. Agora, sejamos francos: nem todas as mães, no lugar dos nossos convidados humildes, teriam coragem para deixar uma filha partir para outro mundo. Isso é coragem. Até tenho alguma inveja desse desprendimento. Quando não se espera nada da vida, vive-se mais leve. Não é verdade?

Risada sem convicção. Muitos nem riram, ficaram a olhar pratos.

Um brinde ao Miguel e à Beatriz. Que nunca se esqueçam de onde vêm, porque isso é o que os faz… especiais.

Os copos tilintaram.

Beatriz não bebeu. Ficou a olhar na frente, a mão tremia de frio apesar do calor da noite, um frio de dezembro mesmo sem neve.

Olhou para a mãe.

Dona Teresa sorria. Era um sorriso assustador, tão forçado que até doía. Sorriso educado, plastificado, de quem engole uma ofensa embrulhada em palavras bonitas e já nem forças para responder encontra.

O pai mirava o prato, gravata torta.

Beatriz pousou o copo. Depois ergueu-se.

Posso também dizer umas palavras? A voz não tremeu. Estranhou vê-la tão segura.

Miguel virou-se para ela. O que brilhou nos olhos dele? Medo? Ou a pedir-lhe que não continuasse?

Beatriz pegou no microfone.

Quero agradecer a todos os que estão aqui hoje. Mas sobretudo aos meus pais. A minha mãe, Dona Teresa, que há trinta anos limpa casas dos outros mas nunca deixou um grão de pó na nossa. E ao meu pai, Manuel, que faça chuva ou calor, entre ao volante do seu carro para garantir pão na nossa mesa. Eles vêm cá não porque tiveram permissão. Vêm porque são meus pais. E eu a filha deles. Não sou a menina da província. Não sou objeto de caridade. Sou a filha deles.

Silêncio. Dona Amélia ficou com o copo no ar e um ar estranho no rosto.

Dignidade acrescentou Beatriz não depende do restaurante, do carro ou da cidade. Vi dignidade todos os dias nas pessoas que agora chamaram de simples. Simples repetiu, quase sussurrando. Simples como pão. Água. Como honestidade.

Pôs o microfone devagar na mesa. Tirou o véu e pousou-o sobre a toalha, ao lado do copo por tocar.

Miguel disse só. E fitou-o.

Ele não levantou os olhos.

Chegava.

Beatriz foi até à mãe, apertou-lhe a mão. Sinalizou ao pai. Manuel levantou-se, ajeitou o casaco.

Saíram dali os três, sem pressa, de costas direitas.

Lá fora fazia calor e cheirava a jasmim. Da rua seguinte vinha uma música de Verão, leve, com um acordeão.

Bia… começou a mãe.

Mãe, deixa estar. Está tudo.

E agora?

Agora vamos para casa respondeu. Pai, estás bem?

Ele ajeitou a gravata torta, sorriu pouco.

Óptimo disse.

Entraram no velho Renault do pai, cor de chuva, tão antigo como Beatriz. Pôs o carro a trabalhar; tossiu e lá arrancou.

Até Vila do Limoeiro era mais de três horas.

A mãe adormeceu no banco de trás. O pai não falou. Beatriz ficou a admirar os campos escuros. Por dentro, nenhum pensamento, só silêncio daqueles tão densos que parecia mar.

Quase de manhã, quando já clareava, o pai perguntou:

E se um dia te arrependes?

Beatriz pensou.

Não sei respondeu com honestidade.

Ele acenou. E não disse mais nada.

A casa recebeu-os com cheiro a madeira e a alfazema do quintal. A gata Pantera estava no alpendre, com ar de quem sempre soube que regressariam.

Durante a primeira semana, Beatriz quase não saiu do quarto. Não por vergonha apesar de sentar cá dentro, debaixo do osso , mas porque não sabia o que fazer. Cinco anos na cidade, dois com Miguel; tudo acabou num só seráo, como quando se desliga a TV a meio do filme.

Desligou o telemóvel ao segundo dia. Recebeu doze chamadas do Miguel numas horas. Depois, pareceu que ele desistiu. Ela bem evitou ligar, nem quis saber.

A mãe levava-lhe chá e nunca fazia perguntas a mais. Isso ela sabia fazer, esse dom: estar calada por perto e, só por isso, a dor já se tornava menos pesada.

O pai emendava a vedação da horta. De dentro, Beatriz escutava o som do martelo batendo, compassado. E pensava: é assim que se resolve pega-se e conserta-se.

Ao oitavo dia, levantou-se cedo, pôs-se a mexer no sótão.

Lá, no fundo dum baú, por baixo de revistas envelhecidas, encontrou o bastidor. O da avó Rosalina, de madeira, gasto por anos de uso. E linhas de todas as cores, arrumadas como se a avó fosse voltar dali a nada.

Descartou-os até à janela. Pousou tudo à luz.

A mãe entrou com um bule de chá, e ficou à porta, a olhar.

O da avó.

Sim.

Ela ensinou-te bem. Ainda te lembras?

Lembro. Tudo.

Pegou na agulha, passou a linha. O primeiro ponto saiu torto, a mão tremia. O segundo melhor. O terceiro já certo.

Beatriz sabia bordar desde miúda. Estava-lhe no sangue. A avó dizia sempre: que cada ponto era uma conversa entre os dedos e o tecido. Que cada linha tinha uma disposição. Bordar era falar, mesmo no meio do silêncio.

Nos primeiros dias, bordava ao acaso a mão apontava o caminho. Linha encarnada, azul, depois dourada. Do caos surgiram folhas, depois um pássaro e finalmente uma flor de oito pétalas, que a avó dizia ser de proteção.

Um dia, D. Zélia, a vizinha, apareceu com o pretexto de devolver a tesoura emprestada.

Bia, deixa ver disse, de olho no bastidor.

Beatriz mostrou.

D. Zélia olhou longamente.

Ai menina, isto devias era vender. Não deixar na gaveta.

E a quem serve isto?

A mim serve! Quero já. Quanto pedes por esse pássaro?

Beatriz ficou atrapalhada.

Ó D. Zélia, não diga isso…

Não digo disso nada! Dou dinheiro, não estou a pedir esmola. Grande diferença.

Isso travou Beatriz. Uma coisa é pena, outra é interesse sincero.

Em setembro já tinha seis trabalhos prontos: dois panos de mesa tradicionais, um quadro de flores silvestres, uma paisagem com pinheiros desenhada pela memória, duas toalhas com pássaros.

D. Zélia comprou um pano e o pássaro. O dinheiro que recebeu coisa simbólica soube-lhe diferente de salário de loja. Era fruto das próprias mãos.

Nicolau apareceu no final de setembro.

Beatriz estava ao pé da janela com o bastidor, quando a mãe veio chamá-la: Beatriz, tens visita.

Era um homem perto dos trinta e cinco, casaco simples, botas gastas. Alto, escuro, mãos de quem trabalha a sério, não de arquitecto.

Boa tarde apresentou-se Nicolau, sou de Vale da Ribeira, aqui ao lado. Falaram-me que bordas panos tradicionais.

Sim, faço.

Queria um para a minha mãe, anos dela em novembro. Mas queria algo mesmo teu, nada da loja. Ela entende disto, bordava em nova.

Beatriz olhou para ele. Pessoa simples, olhar aberto, sem sombra de julgamento. Falava simples.

Entre e mostro o que tenho ou faço à medida.

Nicolau percorreu, uma a uma, as peças espalhadas na mesa. Olhou cada ponto, o motivo, o remate.

Este desenho, qual é? apanhou num dos panos.

É da zona de Castelo Branco. Protege a casa.

E tu, és de cá?

Daqui de Vila do Limoeiro. Vivi uns anos em Lisboa, voltei agora.

Ele não perguntou porquê. Ela agradeceu em silêncio.

Fico com este… e este também. Um para a mãe, outro para a casa. A minha filha adora coisas bonitas deve seguir por artista, tem oito anos.

Como se chama?

Matilde.

Falaram do preço. Nicolau aceitou sem discussões, apesar de Beatriz pedir pouco.

Na porta, ao ir-se, perguntou:

Só fazes para conhecidos ou posso voltar?

Pode, claro.

A Matilde gostava de ver cavalos ela adora.

Beatriz sorriu.

Faço um com cavalos.

Ele foi-se embora. Mãe de Beatriz espreitou da cozinha, a ouvir tudo.

Homem porreiro esse.

Mãe…

Só disse. Porreiro.

Nicolau voltou duas semanas depois para levantar o pano. Trouxe a Matilde. Menina tímida, escura, grandes olhos curiosos. Correu logo ao bastidor, ficou ali a namorar o tecido inacabado.

É um cavalo? perguntou.

Ainda não. Mas vai ser.

Quando fica pronto?

Uma semana.

Matilde assentiu como se tirasse nota.

Enquanto isso, Nicolau e a mãe conversavam sobre o tempo e as vindimas. Ao fundo, a conversa deles era serena, era bom perceber.

Depois, Nicolau disse a Beatriz:

Isto teu é especial. Não percebo muito, mas sente-se. As coisas feitas com alma vê-se logo.

Obrigada.

Já pensaste vender mais? Há páginas na net só para isto. A minha falecida vendia cerâmica assim.

Ainda pensei, mas não percebo disso.

Eu ajudo-te se quiseres. Tenho um amigo entendido no assunto.

Porquê?

Olhou-a nos olhos.

Nenhum porquê. Coisas boas não devem ficar escondidas.

Foi simples, franco. Ela agradeceu por dentro.

O mês passou entre bastidores e linhas às cores. Matilde vinha várias vezes com o pai, até chegou a vir sozinha de bicicleta pelos campos, sentava-se a ver os pontos formarem vida. Silêncio bom, daqueles cheios de atenção.

Nicolau ajudou a criar uma página online. Beatriz tirou retratos às peças, juntou descrições simples. Ao fim de três dias, veio logo um pedido de outra cidade, depois outro. Em Outubro já ia em sete encomendas entregues.

Engolia o passado sem pensar em Miguel. À noite ainda doía mais do que toda aquela história, custava era o silêncio: não as palavras, os gestos, mas o silêncio, nos olhos.

Em Novembro, caiu o primeiro nevão e apareceu um jipe alemão, enorme e caro, que parecia perdido nas ruas da aldeia.

Beatriz viu da janela.

Primeiro pensou: gente de fora, enganaram-se.

Mas saiu Dona Amélia, de sobretudo comprido, botas de salto, já a enterrar no lodo. Às voltas, veio também Miguel, mãos nos bolsos, ar perdido.

Beatriz não foi abrir. Abriu o pai, ficou à porta.

Boa tarde disse Amélia. Podemos falar com a Beatriz?

Está em casa disse o pai.

Chama-a por favor?

Ele não virou a cara.

Bia! Tens gente.

Ela saiu, ficou ao lado do pai. Puxou o velho casaco, trança, mãos nodosas dos bastidores.

Beatriz começou Dona Amélia. O tom já não era o do restaurante era outro, leve, quase a pedir desculpa. Viemos falar contigo. De coração.

Diga.

Podemos entrar?

Beatriz olhou para Miguel, que só fixava a vedação torta.

Fale aqui.

Dona Amélia suspirou, apertou as ancas, arrastando os saltos no barro.

Eu reconheço, aquele dia correu mal. Posso ter dito de mais. Mas tu és inteligente, sabes que há noites assim. Palavras a mais. Não se deita tudo a perder por isso.

Tudo o quê?

O que tinham tu e o Miguel. O apartamento está pronto, sabes. Mobilado. Emprego para ti arranjado, num atelier, não como costureira fazias design, tens jeito.

Beatriz ficou calada.

E carro rematou a sogra. Último trunfo.

Miguel olhou-a então.

Bia, pensa bem. Podemos voltar ao início.

Ficaste calado disse ela.

Ham?

Lá no restaurante. Ficaste calado. Baixaste os olhos.

Ele abriu a boca. Fechou. Tentou outra vez.

Não soube o que dizer.

Eu soube. Disse. Por mim.

Silêncio. Ao fundo, um corvo gritava. O pai mantinha-se ao lado, firme, seguro como a vedação recém-feita.

Dona Amélia disse Beatriz, desejo-lhe saúde. O mesmo ao Miguel. Não volto. Não por mágoa, nem orgulho. Sei o que quero.

E o que queres tu? soltou a sogra, com aquele veneno antigo.

Viver à minha maneira.

Ela ficou uns segundos calada. Depois acenou não de cima, mas aceitando.

Pronto, então.

O jipe deu voltas para sair, quase tocou na sebe, e foi-se.

O pai resmungou,

Já está. Siga.

Voltaram todos para dentro. A mãe espreitava do corredor, de mão na ombreira.

Fizeste bem, filha. Mais nada.

Beatriz voltou ao bastidor. Pegou na agulha. Procurou o sítio onde tinha parado. Ponto depois de ponto.

Em Dezembro e Janeiro não parou o trabalho; em Fevereiro, já eram vinte e três encomendas, de todos os cantos do país. Uma senhora de Trás-os-Montes escreveu-lhe dizendo que o pano dela foi o melhor presente de família em vinte anos porque é feito de verdade, misturado com vida.

Nicolau aparecia religiosamente à quinta-feira ora sozinho, ora com a Matilde. Nunca de mãos vazias: às vezes leite, outras vezes mel, outras lenha para o inverno. Conversavam demoradamente: sobre a filha, sobre o que ela quase não lembrava da mãe, falecida de doença, tão rápido, tão silencioso como uma vela. Sobre a horta, sobre projectos. Sobre uma feira nova de artesanato em Torres Novas aceitavam artífices.

Deviam ir lá dizia ele. A malta compra coisas assim.

Dá-me vergonha.

Vergonha de quê?

Acham que sou só a da aldeia…

Ele olhou-a com aquela calma simples.

Quem disser isso é que é ridículo. O teu trabalho vale mais que qualquer palavra.

Em Fevereiro, lá foi à feira.

Levou oito trabalhos. Arrumou-os em cima da mesa de linho, ficou à espera.

A primeira compradora apareceu rápido: mulher velhota de kispo, mala a tiracolo. Mexeu demoradamente no pano.

Fez isto você?

Eu mesma.

Nota-se. Isto tem vida.

Comprou dois panos e um quadro.

Ao fim do dia, Beatriz só trazia três trabalhos de volta. O bolso ia cheio de euros não salário alheio, mas preço merecido no suor dos dedos.

No regresso, no camião do Nicolau, ele perguntou:

E então?

Soube-me a liberdade e riu-se, sem prever. Um riso nascido do nada.

Ele riu-se também.

Matilde ao meio deles, roía um croissant comprado na feira.

Beatriz, ensinas-me a fazer passarinhos?

Ensino, claro.

Lá fora, um nevão sem fim, estrada branca até ao negrume. Beatriz mirava ao longe o farol e sentia-se acesa por dentro como lume em chaminé.

Na primavera, aconteceu o que não se diz para não dar azar.

Nicolau apareceu num final de dia estranho. A mãe arranjou logo motivo para ir para dentro mães sabem isto.

Ele sentou-se de frente.

Sou homem simples. Gosto de ser directo. Vou falar claro.

Diz.

Gosto de ti. A Matilde sente-se bem contigo. Não peço pressas. Só queria que soubesses.

Beatriz olhou para as mãos dele. Firmes, pacientes.

Eu sei.

E tu?

Também me sinto bem.

Ele acenou. Levantou-se, pegou na boina.

Amanhã passo. Se não te importares.

Passa.

Em Maio, Beatriz mudou-se para Vale da Ribeira.

Casaram em Junho, exactamente um ano depois daquele outro. Beatriz reparou, mas calou. Era só dela.

Festa foi à beira-rio. Mesas fora, em cima da relva, toalhas de linho. Comida feita por todos mãe de Beatriz levou pastéis de bacalhau e queijadas, vizinhas trouxeram arroz doce, folares. A mãe do Nicolau, Dona Rosa, baixinha, de olhos alegres, mexia nos tachos desde manhã, sempre bem-disposta.

Poucos convidados. Os pais da Beatriz, alguns vizinhos do Limoeiro, família do Nicolau. Matilde ia com vestido azul, flores do campo ao peito.

O acordeonista Sr. António veio de longe. Tocou tantas modinhas que até as pernas doíam.

Beatriz estava num vestido branco, simples, de linho, bordado por ela todo o inverno penas, folhas, a flor de oito pétalas. O véu era dela, de tule fino, orlado a pequenas borraginhas azuis não aquele que ficou abandonado na mesa do restaurante de Lisboa.

O do seu mundo.

Manuel foi levá-la até ao noivo, junto ao rio. O rosto dele dizia tanto que a mãe teve de procurar o lenço na mala.

Dona Rosa, recebendo a nora, sussurrou:

Ele precisa de ti. E a Matilde também. Mas sobretudo, não te esqueças: tu precisas de ti mesma.

Beatriz abraçou-a.

Sr. António tocou lento, antigo. As pessoas dançaram na relva. Nicolau segurou Beatriz delicadamente, como quem segura algo precioso. A Matilde dançava sozinha, séria, fora de compasso.

O rio cintilava, o pôr-do-sol dourava toda a paisagem tudo tão quente e real.

Dona Teresa sentada ao lado do marido, de mão dada, como há trinta anos. Assistiu à filha sem chorar. Só a ver.

Foi uma história que não se planeia, só se vive.

No Outono, Beatriz abriu o seu atelier.

Nicolau transformou o velho anexo em oficina: grande, soalheiro, janelas viradas a sul. Mesa comprida, prateleiras de linhas, boa luz. Matilde desenhou um passarinho vermelho na porta, torto mas cheio de vida.

Beatriz aceitou duas aprendizes: Mariana, filha da vizinha, 15 anos, olhos brilhantes de curiosidade; e Dona Olinda, 52, professora reformada, que sempre quisera aprender mas nunca tivera tempo.

Montaram uma lojinha na oficina. Encomendas vinham da internet, turistas paravam, os vizinhos também.

Um dia chegou a TV local, filmaram, depois apareceu num canal de Lisboa. Dona Zélia telefonou gritando: Bia, estás na televisão! Liga!

Mas Beatriz ficou no atelier, entre alunas, e disse: vejo depois. Tinha uma encomenda urgente para um pano de altar, a acabar até sexta.

Nessa altura, a duzentos quilómetros dali, numa penthouse lisboeta, uma mulher via televisão.

Apartamento imenso, daqueles de imobiliária de luxo, com vista de cortar o fôlego, mobília toda escolhida por décor. Orquídeas frescas na mesa substituídas semanalmente.

Dona Amélia sentava-se no cadeirão, roupão cashmere, pantufas. Erguia um copo de vinho caro, nem o bebia, só segurava.

Miguel estava de viagem. Ou talvez não ela já nem perguntava sempre. Depois daquela noite, Miguel mudara. Ficara estranho, distante.

Nada. Há de passar.

A televisão passava um programa sobre artesanato. Ela via sem ver, por hábito o silêncio ali incomodava.

De repente ouviu uma voz, a falar como só Beatriz sabia: calma, quase a cantar.

Olhou.

Lá estava Beatriz, ao fundo do ecrã. Num espaço claro, à mesa de trabalho, bastidor à mão, mangas arregaçadas, trança atrás. Ao lado, aprendizes. Numa esquina, a Matilde desenhava no bloco.

Como começou no bordado? perguntou a jornalista.

Pela minha avó disse Beatriz, sorrindo Ela dizia que a agulha era conversa.

A câmara abriu o plano: ao lado, Nicolau pousava-lhe a mão no ombro, natural. Matilde, lá ao fundo, fazia um adeusinho. Beatriz ria-se mesmo, de alma aberta.

Dona Amélia ficou imóvel.

O copo não saiu da mão.

O programa virou para os motivos tradiconais, para outros artesãos. Ela não ouviu mais.

Desligou a TV.

Veio o silêncio. Um silêncio espesso num apartamento assim, caro, certo chegou a pensar que gostava. Agora parecia demais.

Pousou o copo de vinho. Olhou para as mãos. Usava um anel caro, com diamante tinha-o comprado para si mesma nos cinquenta anos. Porque sim. Porque ninguém lhe dava essas prendas.

A pedra brilhou à luz, um reflexo solitário no tecto.

Pensava em Beatriz? Não. Não verdadeiramente.

Pensava em como, há muitos anos, foi também jovem. Em como queria… o quê? Já não se lembrava. Só sabia que acreditar que, chegando o dinheiro, vinha tudo o resto. Vieram os negócios, o tempo livre, o apartamento grande e o tempo sobrava, sobretudo à noite, quando Miguel não estava e as orquídeas reluziam falsas.

Amigas? Tivera. Colegas, sócias, conhecidas. Agora só contactos de parabéns e Natal.

Recordou o brinde no restaurante. Aquelas frases tão bem feitas, dito com satisfação. As risadas tímidas.

Depois levantou-se aquela rapariga de vestido branco comprado e disse, simples, o que lhe ia no peito. E foi-se embora.

Na altura pensou: galinha. Rapariga tonta que rejeita o que se lhe oferece.

Agora… o que pensava?

Não era arrependimento. Era outra coisa.

Mas cheguei onde quis pensava. Fiz tudo direito. Lutei, ganhei, fui acima, comprei tudo. Tenho tudo. E agora sento-me na casa vazia com o meu anel de diamantes e o silêncio a pesar-me.

A orquídea branca olhava para ela como porcelana gelada.

Andou pelos quartos, espreitou pelas janelas. Era tudo perfeito, limpo, bem decorado. Perfeito mas vazio.

Parou à janela. Viu a cidade em baixo. Milhares de luzes, vidas. Em algum ponto, alguém ria, ralhava, brincava, chorava. E, noutra aldeia, uma rapariga segurava uma agulha e falava com o linho.

Que tonta disse Dona Amélia. Não sabia se a ela ou a Beatriz.

Sentou-se, sorveu um mini-gole do vinho caro, pousou de novo o copo.

E então? disse ao silêncio. E então?

Viveu tudo correcto. Sempre de pé, sempre sem deixar ninguém olhar de cima. Comprou tudo o que dizia sucesso.

E agora, no robe de luxo, só via o reflexo do vazio.

O anel ainda brilhou, como uma faísca fria.

O que é que tu celebras? perguntou ao anel. Sem maldade, sem esperar resposta.

Do lado de fora, alguém na rua ria, vozes novas, descuidadas. Nem olhou.

Pensou na mãe.

A mãe morrera cedo, quando Miguel era rapaz mulher simples de aldeia, que viera para Lisboa e trabalhou sempre no supermercado, mãos grossas, cheias de gretas, envergonhadas. Dona Amélia recordava aquelas idas ao Alentejo mãe oferecia tudo o que havia, batatas, azeitonas, pão e olhava a filha cheia de orgulho.

És uma campeã. És uma vencedora.

E foi.

E agora?

Talvez a mãe não dissesse nada: só punha o chá ao lado.

Sentiu um aperto na garganta. Não lágrimas já nem sabia como. Só um nó seco.

Pronto murmurou. Pronto.

Levou o copo para a cozinha. Viu o rosto reflectido no vidro rosto cansado, sábio, sozinho.

Nem feliz. Nem triste. Só alguém que percebeu o preço das coisas, mas não sabe quanto valem as que não se compram.

Desligou a luz. Foi-se deitar.

Na oficina de Vale da Ribeira, ardia a última vela. Beatriz arrumava a mesa, recolhia linhas, dobrava tecidos. Por trás da parede, voz de Nicolau a deitar a Matilde risos de menina pronta para dormir.

Beatriz apagou o lume.

O escuro era casa. Cheirava a linho, cera, e a campo.

Ficou à janela.

As estrelas de Outubro eriçavam o céu, cada uma no seu lugar, cada uma a brilhar como pode.

Foi para dentro para o marido, para a filha, para aquela vida que foi ela a escolher.

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