O dia em que ele me disse: “Sem mim, tu não és ninguém…”

O dia em que ele me disse sem mim não és nada

Eu já passava meses a planear a minha saída.
Sempre que discutíamos, apontavas para a porta e gritavas: se não gostas, vai-te embora para o raio que te parta!
Estou farta de viver com medo, com a mala feita, como se fosse uma hóspede na minha própria casa!
Já arrendei um apartamento e hoje é o dia.
O quê, achavas que eu não tinha para onde ir?
Que ia suportar para sempre os teus ares de superioridade?
Estás muito enganado, Tomás.
Fica tu sozinho no teu precioso apartamento!
E a caixa dos cabos que estava na prateleira de baixo?
Tomás plantou-se no meio da sala, mãos na cintura, como um juiz pronto para decretar sentença.
Observava tudo em redor, à caça de sinais de invasão do seu território.
Catarina continuava sentada no sofá, a bater no portátil.
Nem sequer levantou os olhos.
Sentia o olhar dele a perfurar-lhe as costas: pesado, frio, como metal molhado.
Antes, esse olhar fazia-a encolher-se de medo e inventar desculpas.
Agora, só lhe provocava uma indiferença glacial, como se por dentro já tivesse desligado.
Deitei-a ao lixo, Tomás.
Era só tralha, cabos velhos, carregadores que não usamos há anos.
Respondeu tranquila enquanto clicava no botão de enviar.
Deitaste ao lixo?
Repetiu ele baixo, com aquele tom que sempre precedia problemas.
Aproximou-se lentamente, bloqueando a luz do candeeiro.
Quem te deu autorização para decidires as coisas NESTE apartamento?
Não me lembro de veres o teu nome na escritura.
Ou já te achas a dona só porque pagas alguma coisa?
Catarina fechou finalmente o portátil.
No olhar dela não havia raiva nem mágoa.
Só desprezo gelado.
O mesmo que ele lhe lançava, quando se achava no comando.
Durante cinco anos, já tinha aprendido a reconhecê-lo.
Era lixo.
Disse, fitando-o.
Pedi-te três vezes.
Arruma aquele canto.
E as três disseste já vou.
Pois esse já vou chegou agora.
O já vou chega quando eu mando!
Explodiu Tomás, vermelho, e pontapeou a mesa.
Neste apartamento mando eu.
Estás cá porque eu deixo.
SÃO AS MINHAS paredes, AS MINHAS janelas, O MEU chão!
A tua função é não atrapalhar e lembrares-te do teu lugar.
Circulava pela sala, roçando com os ombros nas paredes, como se medisse o terreno conquistado.
O apartamento, herança da avó em Lisboa, era o seu troféu, a sua trincheira.
Em todas as discussões acabava sempre no mesmo ponto: a metragem.
Era assim que tentava esmagar qualquer argumento.
Estás-te a comportar como um maluco, e só por uns cabos velhos.
Disse Catarina, com a voz serena.
Já não era a de antes.
Alguma coisa se tinha quebrado lá dentro.
O medo desaparecera.
COMPORTO-ME COMO DONO!
Urrou, apontando para o chão.
E tu, como uma intrusa, já te esqueceste de quem te deixou entrar.
Queres que te lembre de onde vens?
Daquele quarto partilhado, onde tudo era desorganizado.
Deviam agradecer estas paredes, em vez de deitares fora as minhas coisas.
Abriu o armário e pousou uma caneca, marcando o território.
Sabes o que mais me irrita?
Cerrou os lábios.
A tua ingratidão.
Eu dei-te conforto e tu ages como se o merecesses.
Não tens direito a nada, Catarina.
Só a estares calada e a não mexeres.
Chega.
Disse ela, levantando-se devagar.
E de repente parecia maior, mais sólida.
Já disse tudo!
Berrou ele, apontando para o corredor.
Ou fazes como eu digo, ou pegas nas tuas coisas e desampares-me a loja.
Já estou farto das tuas ideias de independência.
Não andei a partir as costas com esta remodelação para uma oportunista vir dizer-me do que preciso.
Soltou um suspiro triunfante.
Na sua cabeça, ela devia chorar, fugir para a cozinha arrependida.
Mas Catarina não se mexeu.
Olhava-o como se já não lhe tocasse.
Já acabaste?
Perguntou calma.
Já.
Murmurou ele, tenso, com um nó no estômago.
E amanhã quero cabos novos.
Catarina assentiu.
Passou ao lado dele, sem hesitar, e entrou no quarto.
Tomás ficou a ouvir o silêncio.
Não havia lágrimas, nem berros, nem portas batidas.
Apenas silêncio.
E isso irritava-o mais que mil discussões.
Abriu a porta do quarto.
És surda? Ainda não terminei!
Gritou.
Mas estacou.
Catarina estava de joelhos diante do roupeiro, tirando malas e sacos.
Duas mochilas, duas malas.
Cheias.
Prontas.
O que é isto?
Trocou Tomás, trocista.
Vais de férias ou quê?
Ou para casa da mãezinha, toda ofendida?
Ela ergueu-se e olhou-o, gélida.
Não vou para casa da minha mãe.
Só estou a arrumar as minhas coisas.
O som da mala a fechar ecoou pelo quarto.
Tomás cruzou os braços e riu, venenoso.
Achaste mesmo que eu ia implorar?
Que não sei viver sem os teus dramas?
Nem me faças rir.
Não estou a pensar em ti.
Tenho de chamar uma carrinha de mudanças, respondeu.
Carrinha?
Riu-se com desdém.
Força.
Mas quando voltares de rastos, não digas nem uma palavra.
Eu faço as coisas à minha maneira.
Catarina hesitou só um instante.
Não vou voltar.
Arrendei um apartamento há duas semanas.
Tenho as chaves aqui na mala.
E passei meses a preparar-me, a levar uma coisa de cada vez quando gritavas desaparece daqui.
Nem deste por isso.
Tomás ficou branco.
Tudo reverteu: já não tinha controlo sobre nada.
Não acredito.
Sussurrou, aproximando-se.
Ou seja andavas a preparar isto, aqui?
Catarina manteve-se imóvel.
Prefiro dormir num colchão no chão
do que com alguém que me trata por intrusa.
Mas nessa noite, o final ainda não tinha chegado e Tomás não estava pronto para deixá-la ir assim tão fácil.
Estás a arruinar-me a vida! berrou Tomás, agarrando-a pelo braço. Sem mim, não és ninguém! Sem mim, estás perdida! Completamente sozinha!
Catarina soltou-se, leve, como quem se livra de uma teia peganhenta.
Posso até perder-me, mas será no meu abismo, não na tua prisão. Agarrou o casaco e o telemóvel. Os da mudança chegam em dez minutos.
Ele avançou, como para lhe arrancar o telemóvel, mas travou a meio. O olhar de Catarina firme, gelado, inabalável gelou-lhe o sangue. Sentiu algo dentro a ceder: impotência. Antes bastava um grito e ela partia-se. Agora, nada.
Não vais conseguir rosnou quase para si. Vais ter medo. Vais chorar. Vais voltar. Eu vou esperar.
Não faças isso respondeu, sem elevar a voz. Quando notares o vazio do outro lado da cama, lembra-te: foste tu que me empurraste para fora.
Saiu pelo corredor.
O barulho das malas os fechos, as rodas no chão, pancadas surdas fazia-se ouvir. Lá fora chovia em Lisboa. À entrada, cheirava a rua molhada, ar fresco: o primeiro sorvo de liberdade.
Tomás ficou ali, entre a porta e a sala, sem acreditar.
Tudo aconteceu demasiado sereno. Quando a porta do prédio, em Alvalade, se fechou, caiu um silêncio pesado, um buraco na cabeça.
Ficou sozinho.
O relógio era o único a marcar o tempo da derrota.
Viu-se ao espelho do hall: cara tensa, olhar vazio. Quis gritar, mas não saiu som. Nem percebeu quando se deixou cair no chão.
Na cabeça só soava uma coisa: ela não vai embora.
Ela voltava sempre
Mas agora já não estavam as chaves dela na mesa. O armário vazio.
Catarina estava debaixo da chuva, algures na Avenidas Novas. As gotas escorriam-lhe no rosto, como a apagar a vida antiga. Um táxi parou. O condutor, já com idade, cara cansada, ajudou-a com as malas.
Para onde a levo? perguntou.
Para Campo de Ourique, porta dezenove.
A voz dela quebrou-se por um segundo. Depois saiu firme.
Vou recomeçar.
O carro arrancou. Da janela, Catarina viu as luzes de Lisboa a dissolverem-se no cinzento.
Pela primeira vez em anos, não pensava em explicações.
Havia calma.
Não vazio, mas leveza.
Como depois de uma cirurgia: dói, mas respira-se melhor.
O novo apartamento cheirava a tinta fresca e humidade, numa rua sossegada de Lisboa.
Pequeno, paredes nuas. O eco dos passos era diferente.
Depôs as malas, sentou-se devagar numa cadeira. O corpo tremia-lhe, mas por dentro nascia uma certeza: era ali que começava a sua vida.
Sem ele. Sem o apartamento. Sem o isto é meu de todas as discussões.
O telemóvel vibrava: Tomás.
Não atendeu.
Volta. Precisamos de falar.
Perdoo-te.
Sozinha não vais conseguir.
As mensagens vinham uma atrás da outra.
Catarina silenciou o telemóvel.
Deitou-se um chá de um termo antigo, comprado com euros que mal chegavam.
A chuva acentuou-se sobre Lisboa.
Com cada gota esfumava-se o medo, os gritos, o controlo.
E ficava o silêncio.
Mas agora era dela.
Livre.
Uma semana depois.
Tomás acordou no apartamento vazio em Alvalade.
No início, o silêncio incomodava-o. Mais tarde, corroía-lhe o interior.
Poeira nos móveis. Loiça suja. Coisas que já ninguém mexia.
Sentia-se à escuta do nada, à espera de passos que não chegavam.
Telefonava aos amigos. Mandava mensagens. Ninguém respondia.
Percebeu algo que não queria: numa cidade enorme, ela tinha desaparecido.
E com ela, o seu controlo.
Sentou-se no sofá onde ela costumava sentar-se.
No chão, uma caixa empoeirada de cabos.
Abriu-a.
Eram só cabos velhos.
Lixo.
Por aquele lixo, perdera tudo.
Entretanto, Catarina regressava do trabalho em Lisboa.
Cansada, mas tranquila.
Tirou o casaco, pôs água ao lume, ligou a música.
Sem gritos. Sem ordens. Apenas uma canção qualquer de liberdade.
Aproximou-se da janela.
A chuva continuava a cair sobre a cidade, desenhada no vidro.
Mas já não era cinzenta.
Era apenas chuva.
E podia andar debaixo dela para onde quisesse.
O telemóvel acendeu: mensagem não lida de Tomás.
Vais arrepender-te.
Apagou sem abrir.
Escreveu nas notas:
Nunca me arrepender.
Guardou.
Sorriu.
Acendeu um candeeiro pequeno.
E começou a pintar a nova vida: uma Lisboa lavada de chuva, o alcatrão a brilhar, e uma mulher de mala a caminho do desconhecido.
Viva.
E livre.

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O dia em que ele me disse: “Sem mim, tu não és ninguém…”