O Destino Repete-se: Uma História de Ciclos na Vida Portuguesa

Diário, 15 de janeiro

O inverno chegou a Lisboa mais cedo este ano. Mal era cinco e meia da tarde, e o céu já se fechava de escuridão enquanto os candeeiros da rua acendiam a sua luz morna, pintando a calçada de tons dourados. Em casa, o conforto tomava conta de tudo: o abajur iluminava a sala com aquele brilho meloso, desenhando formas suaves nas prateleiras e nas estantes. Sobre a mesa baixa da sala, mesmo ao lado de uma tigela com broas de mel, fumegavam duas canecas de chá o vapor levava consigo o aroma do limão e da hortelã-pimenta, enchendo o ar de aconchego. Do lado de fora, as raras pingas de chuva miudinha colavam-se à janela, escorrendo devagar pela vidraça até desaparecerem no parapeito, já coberto com uma camada húmida que anunciava o frio lá de fora.

Acabara de terminar de pôr a mesa para o chá da tarde, escolhendo cuidadosamente as minhas canecas preferidas, arrumando as broas e acendendo uma pequena vela perfumada para criar aquele ambiente de tranquilidade que adoro. Nesse instante, tocaram à porta. Fui até ao corredor de pantufas, o coração ainda leve, e abri do outro lado estava o Pedro, ligeiramente despenteado, as bochechas vermelhas pelo vento gélido.

Estou completamente gelado murmurou ele, sacudindo energicamente o sobretudo antes de entrar. O colarinho estava coberto de pequenas gotículas e as pestanas ainda guardavam alguns vestígios de chuva.

Vieste mesmo a calhar! respondi-lhe com um sorriso, tirando-lhe o casaco e pendurando-o no bengaleiro. Entra, a Maria está na cozinha a fazer torradas. Vamos lanchar juntos, vais ver que aquece o corpo e alma.

Na sala, o Pedro atirou-se logo ao cadeirão junto à janela, de olhos postos nas chávenas fumegantes, ansiando pelo calor. Aconchegou a caneca nas mãos, fechando um instante os olhos como se saboreasse não só o chá mas também a sensação de estar protegido do mundo lá fora.

Mas então, o que é que se passa de tão importante para vires ter comigo numa sexta-feira destas? Achei que ias à casa da tua sogra com a Carolina e o Tomás lançou ele, meio a rir-se, mas com verdadeiro interesse no olhar.

Pois… era suposto, mas afinal não fui disse Pedro, encolhendo os ombros antes de dar outro gole longo no chá.

Entendo… Então e a Carolina, o Tomás?

Pedro ficou calado, os dedos inquietos a rodarem o bordo da caneca. O olhar fugia-me, explorando o velho relógio de parede, as fotografias da família pegadas à parede, o tapete de retalhos. Percebi logo que havia ali algo mais do que o tudo bem com que tentara disfarçar.

Enfim, suspirou fundo. Quando falou, a voz saiu-lhe pausada, como quem corta um nó antigo:

Pedi o divórcio.

Fiquei paralisado por um segundo o meu próprio chá parecia estremecer na chávena, o leve tremor das mãos traía-me. Olhei-o, atónito:

A sério? Com a Carolina?

Pedro anuiu, olhos fixos no vidro embaciado da janela, como se buscasse lá fora respostas para as perguntas que rodopiavam cá dentro.

Sim. Conheci uma rapariga… a Filipa. Com ela sinto que estou finalmente a viver. Como se fosse uma luz que se acende numa casa fria e escura, percebes?

Tens a certeza de que não é só uma paixão fugaz? arrisquei, a voz mais dura do que queria. Vocês têm um filho pequeno! O Tomás só tem dois anos… Não te lembras do que passaste quando eras miúdo?

Pedro endireitou-se, e vi-lhe nos olhos uma força que nunca lhe vira antes. Já estava decidido, pensei.

Tenho a certeza, Hugo, acredita. Ponderei muito. Já não consigo viver todos os dias a fingir, a acordar vazio, como se usasse o casaco de outra pessoa! Com a Filipa sinto-me diferente. Quero acordar, quero ter sonhos, lutar por algo que me faz sentido. E não vou abandonar o Tomás… Não sou como o meu pai.

Fechei os olhos, a memória levou-me de volta à escola primária na Amadora: estávamos sentados no recreio, ele de rosto decidido, a jurar que nunca seria como o pai dele, que partira sem dizer nada, deixando mãe e filho para trás. Se algum dia casar, vou lutar pela família até ao fim, dissera-me na altura.

Agora, o homem feito, sentado diante de mim, parecia distante desse miúdo. Arrisquei, num murmúrio:

Tu disseste-me, quando éramos putos, que nunca ias fazer o que ele fez.

Pedro ficou tenso, punhos cerrados nos joelhos. O queixo saiu para a frente em posição de defesa.

Disse, sim. O que é que isso interessa agora?

Pedro, estás a fazer igualzinho encarei-o com firmeza. Vais embora, deixas a Carolina e o Tomás. Repete-se a história.

De repente, Pedro levantou-se quase a atropelar o tapete. Caminhou nervoso, os olhos flamejantes de raiva ou medo. Virou-se:

Não é o mesmo! O meu pai desapareceu, não explicou nada. Eu estou aqui, dou a cara! Falei com a Carolina, fui honesto. Não fujo, só quero ser verdadeiro, mesmo que custe. E ao Tomás, não o vou deixar! Vou buscá-lo aos fins-de-semana, vou estar presente. Não quero que ele viva o que eu vivi!

Fiquei calado a história dele veio-me à cabeça: a mãe a trabalhar até tarde, a solidão de esperar no portão da escola, o vazio nos aniversários, a ausência do homem que prometera nunca faltar. Recordei também a diferença do meu próprio pai: as idas à praia, os fins-de-semana a mexer na bicicleta, o orgulho simples de quem sabe estar presente. Lembro-me do Pedro, adolescente, a comentar: O teu pai é um super-herói!. E eu respondia: Não, ele só gosta de mim.

Agora vejo o quão verdade era.

Quando voltei ao presente, o Pedro ainda me lançava aquele olhar fechado da defesa de quem não quer ouvir o que dói:

Não faças de conta que entendes murmurou, a voz a tremer. Eu não sou como ele. Não vou embora, só estou a tentar recomeçar.

Observando-o, tentei tocar-lhe a alma:

Mas tentaste mesmo salvar o vosso casamento? Floriar a relação? Surpreender a Carolina, levá-la a jantar sem razão nenhuma, oferecer-lhe uma flor só porque sim?

A resposta do Pedro foi brusca, ferida:

Tu é que tens família perfeita! Pai exemplar, tudo no sítio. É fácil falar assim

Sentado no sofá, suspirei fundo, já cansado daquele argumento. Não há famílias perfeitas, só escolhas. Só a coragem ou não, de não fazer aos outros o que sabemos que dói. Repeti, calmo:

Não se trata de perfeição, Pedro é sobre crescer. Não repetir erros antigos.

Ele pareceu quase zangado, desabando:

Para mim é impossível perceberes, Hugo. Cresceste com tudo o que eu não tive. Não sabes o que é sentir que o teu pai não te quer.

Levantei-me devagar. Não me aproximei, mas procurei olhar para ele sem julgamento, apenas querendo que visse quem lhe queria bem:

Então porque obrigas o teu filho a sentir o mesmo? Dizes que nunca serias como o teu pai, mas olha para o que fazes…

Pedro ficou parado junto da porta, a mão na maçaneta, perdido nos próprios pensamentos. Vi o rosto dele desarmado, triste parecia mesmo não saber como sair dali, ou sequer o que fazer a seguir.

Não vais perceber nunca murmurou.

O que custa a compreender é como consegues deixar um filho tão pequeno porque uma rapariga te apareceu à frente. Desculpa, mas não consigo aceitar… abanei a cabeça, já cansado.

Pedro agarrou nas chaves.

Chega, Hugo, já não tenho paciência para os teus sermões! E saiu, a porta fechou-se atrás dele com um estrondo.

Fiquei parado, olhando para o sofá vazio onde minutos antes discutíamos. Esperei, quase desejando que ele voltasse atrás, dissesse foi só o nervosismo, desculpa, mas o silêncio manteve-se inteiro.

Deixei-me cair para trás no sofá, esfregando o rosto, tentando arrumar os pensamentos soltos. Não estava zangado, estava só desiludido.

Pouco depois, a Maria entrou na sala, vestida com o roupão e o cabelo ainda húmido da casa de banho. O rosto trazia preocupação genuína enquanto olhava à volta, demorando-se na porta aberta e parando o olhar em mim.

O que se passou? Ouvi gritos

Escolhendo cuidadosamente as palavras para não lhe passar toda aquela confusão, acabei por confessar:

O Pedro vai divorciar-se. Diz que conheceu outra mulher. Vai deixar a Carolina.

Ela ficou boquiaberta, levando a mão ao peito:

Mas… o Tomás é tão pequeno ainda! E sempre pareceram uma família tão unida… nós vimos nos aniversários, pareciam felizes!

Pois agora está a repetir o que o pai dele fez, e nem percebe. Parece que há histórias que se colam de geração em geração.

A Maria calou-se. Não quis dar opiniões rápidas. Simplesmente disse, depois de pensar um pouco:

Às vezes as pessoas não sabem o que querem, baralham-se, acham que fugir é inventar uma solução. Talvez o Pedro só precise de tempo mas que é triste, é.

Assenti, olhando para ela:

Triste porque nem tentou realmente. Achava que era impossível acontecer-lhe aquilo que sempre condenou. Mas agora é ele… e não vê.

A Maria sentou-se ao meu lado no sofá. Não tentou consolar-me com frases feitas ficou ali, só comigo, deixando espaço para que o silêncio ficasse confortável.

Lá fora, a chuva continuava a cair suavemente, abafando o resto dos sons. E eu, ali parado, só pedia à vida que não deixasse o Tomás crescer com o mesmo vazio que o Pedro carregou a vida inteira.

***

Já passou uma semana. Eu e a Maria fomos ter com a Carolina a casa dela, num daqueles fins de tarde frios de fim de janeiro. A Maria trouxe o seu melhor bolo de laranja numa caixa com uma fita simples um gesto modesto, que servia de ponte para quebrar a distância criada pela tristeza.

Esperei um pouco entre o aperto do cachecol e o leve toque na campainha. Quando a Carolina abriu, trazia nos olhos um ar surpreendido e cansado não esperava visitas.

Hugo? Maria? O que estão aqui a fazer? a voz dela saiu quase perdida.

Só queríamos ver como estás disse a Maria, sorrindo com gentileza enquanto lhe entregava o bolo. Podemos entrar?

A Carolina hesitou antes de nos deixar entrar, depois recuou, abrindo a porta. A casa estava muito silenciosa, um silêncio estranho vindo de um sítio antes cheio de gargalhadas de criança.

O Tomás está no infantário, hoje têm teatro. Vou buscá-lo mais tarde, explicou, tentando soar despreocupada.

A Carolina pôs o chá e sentou-se connosco, mexendo a caneca mecanicamente. Falámos de trivialidades trabalho, tempo, saúde. Eu arrisquei:

Como é que tens aguentado?

Ela encolheu os ombros, o olhar perdido na chávena de chá.

Vai-se andando O trabalho ajuda-me a distrair, como sempre. E com o Tomás, é ir explicando devagar. Às vezes pergunta pelo pai e eu digo que o pai está a trabalhar. Vai tentando aceitar, mas vejo-lhe nos olhos que já percebe qualquer coisa…

A Maria afagou-lhe a mão; bastou aquilo. Não houve frases feitas, só aquele pequeno toque de solidariedade e presença. Ficámos assim uns instantes, até a Carolina conseguir dizer:

Se precisarem de mim para alguma coisa eu estou aqui.

Calada, só deixou cair uma leve lágrima, rápida, mas não de mágoa de alívio.

Obrigada por virem. Às vezes olhamos à volta e achamos que há montes de amigos, mas quando as coisas apertam vemos que sobra pouca gente. Obrigada.

Sempre podes contar connosco, Carolina prometi-lhe. A sério, sem cerimónias.

A Maria abriu a caixa do bolo e, com um sorriso leve, tratou de servir fatias e chá. As nossas vozes tornaram-se mais calmas, a conversa fluiu com naturalidade e pela primeira vez em dias vi a Carolina sorrir, ainda que brevemente.

***

Hoje, três anos depois

O parque da Estrela parece o palco de uma cena feliz. O Tomás, agora com cinco anos, corre atrás de uma bola vermelha, soltando gargalhadas que fazem sorrir toda a gente. Maria está ao meu lado na esplanada embala ternamente o carrinho onde dorme a nossa bebé, a Leonor, enquanto o sol de abril brinca nas suas bochechas.

Observo o Tomás. Sinto-lhe o riso alegre, a energia infinita, e percebo quanto cresceu desde que a vida lhe mudou tão cedo. Nunca larguei o menino, nem ele a mim. Com o tempo, tornou-se quase um filho não de sangue, mas de afecto, desses que a vida põe nas nossas mãos por carinho e escolha.

Ele está tão crescido comenta a Maria com ternura. A Carolina tem sido incrível.

Concordo, mas o sorriso apenas dura um instante. Recordo as vezes em que o Pedro avisa à última hora que não pode vir, as promessas de passeios ao Jardim Zoológico que se somem em esquecimentos, as prendas caras que não substituem o tempo partilhado.

O Tomás perguntou-me ontem o pai já não gosta de mim? confidenciou-me um dia destes a Carolina, os olhos húmidos. O Pedro acha sempre que está a recomeçar, mas o filho é que paga

Aperto o punho, mas contenho a raiva por respeito a ela e ao menino. Já tentei tudo com o Pedro, explicar-lhe o que significa realmente ser pai, o quanto importa estar lá não só aos domingos, mas todos os dias, nos momentos pequenos.

Ainda bem que o Tomás tem a ti diz-me a Maria, pousando a mão na minha perna. Sabe que pode contar contigo.

Faço um aceno. Prometo a mim mesmo que aquele menino nunca vai sentir o vazio que o Pedro sentiu. Não vai ouvir portas a fechar nem frases vazias de desculpas. Vou estar presente. A história não se vai repetir.

O sol aquece-nos as costas, o Tomás volta a correr, e a certeza cresce em mim: mais do que passado, o que importa é o presente que oferecemos às crianças. Ser quem fica, quem escuta, quem não desaparece nunca da vida delas.

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