O Destino Repete-se: Histórias de Vidas Portuguesas Entrelaçadas Pela História

O destino repete-se

A tarde de inverno caiu cedo sobre Lisboa antes das seis, o céu já estava completamente escuro e os candeeiros das ruas lançavam a sua luz amarela uniforme, desenhando brilhos suaves nos passeios molhados pela chuva miudinha. O apartamento do Diogo estava particularmente acolhedor: a luz morna do candeeiro de pé espalhava-se pela sala num tom dourado e reconfortante, traçando sombras longas nos cantos da divisão. Na mesa de centro, mesmo ao lado de um pratinho de broas típicas de canela, esperavam duas chávenas fumegantes o vapor aromático de hortelã e mel enchia o espaço de um perfume caseiro, envolvente. Pela janela, as gotas de chuva escorriam em fios, traçando riscos irregulares sobre o vidro, enquanto lá fora o vento afagava as ramagens nuas das árvores.

Diogo acabava de preparar tudo com cuidado: escolheu as suas canecas preferidas, arrumou as broas com esmero e acendeu uma vela aromática, querendo criar ainda mais calor humano no ambiente. Nesse instante, a campainha tocou. Dirigiu-se apressado ao hall de entrada e abriu a porta do outro lado estava o Rui, todo despenteado e com o rosto vermelho do frio da rua.

Fiquei gelado, pá resmungou Rui, entrando apressado, sacudindo vigorosamente o casaco e batendo os pés no tapete. O colarinho estava salpicado de gotas de água e nas pestanas ainda resistiam minúsculas gotas. Este tempo só dá mesmo para ficar em casa.

E é mesmo isso que estamos a fazer, respondeu Diogo, sorridente, aceitando-lhe o casaco. Entra, que eu e a Leonor estávamos mesmo para tomar um chá. Vais ver que é mesmo o que precisas.

Foram até à sala. Rui avançou sem hesitar para a mesa, ansioso pelo calor de uma bebida quente. Afundou-se na poltrona, agarrou a chávena com as duas mãos e suspirou de alívio ao sentir o calor atravessar-lhe os dedos. Por um instante, fechou os olhos e deixou-se estar, sentindo o peito a relaxar-se.

Então, o que é que te trouxe cá numa sexta à noite? Não era hoje que levavas a tua mulher e o teu filho à casa da tua sogra? perguntou Diogo, com um esgar maroto mas genuíno interesse nos olhos. Proveitou o chá, testando a temperatura, e assentiu satisfeito: estava perfeito, do jeito que gostava.

Era, mas não fui replicou Rui, com um sorriso meio torto, sorvendo outro gole.

Percebo. E a Sónia? E o Tomé?

Rui hesitou por uns segundos, como se arranjasse coragem para começar. Depois encolheu os ombros, fazendo um gesto vago.

Vão andando disse, esforçando-se por parecer despreocupado. Mas Diogo percebeu logo, pela forma como o tom oscilou, que ali havia mais do que o discurso deixava ver.

Rui mexia mecanicamente na chávena vazia, rodando-a nervosamente entre os dedos. Evitava olhar Diogo nos olhos, deixando o olhar perder-se pela sala: ora nos livros da estante, ora num quadro de azulejos na parede, ora no recorte do móvel.

Só depois de inspirar fundo falou, primeiro baixo mas com firmeza:

Pedi o divórcio.

Diogo ficou imóvel. A chávena que segurava tremeluziu quase imperceptivelmente e o chá agitou-se. Olhou para o amigo com autêntico espanto, como que à procura, no rosto dele, da confirmação do que acabara de ouvir.

Estás a falar a sério? Tu e a Sónia? perguntou, a voz a sair-lhe trepidante.

Rui só acenou, sem desviar o olhar da noite escura, como se tentasse encontrar, além da cortina de chuva, alguma resposta para tudo aquilo.

Sim, murmurou após um silêncio. Conheci uma rapariga Filipa. Com ela sinto-me vivo de verdade pela primeira vez. Ela é como aquela luzinha acesa num apartamento, sabes?

Tens a certeza de que não é só uma paixão passageira? quis saber Diogo, esforçando-se por manter o tom calmo, mas não conseguindo disfarçar a amargura. Tens um filho! O Tomé ainda mal fez dois anos. E ele sem pai? Lembra-te da tua infância!

Rui ergueu de repente a cabeça, e Diogo notou uma firmeza inesperada no olhar. Notava-se que não era uma decisão súbita: aquela resposta já tinha sido amadurecida por dezenas de noites.

Tenho, Diogo. Pensei muito. Não consigo mais acordar todas as manhãs sentindo que estou só a fingir. Isto não é vida é sobreviver por hábito. Com a Filipa é outra coisa! Sinto vontade de levantar-me, de fazer planos, de voltar a sonhar. E não vou abandonar o Tomé. Eu não sou como o meu pai.

Diogo caiu num pensamento. Imagens do passado, muito antigas, emergiram: o recreio do liceu numa manhã fria de outubro, eles dois sentados num banco durante o intervalo. Nessa altura, Rui, ainda miúdo cheio de certezas, jurava com convicção que nunca seria igual ao pai: Ele foi-se embora, nem tentou arranjar as coisas eu nunca faria isso. Se alguma vez casar, luto até ao fim pela minha família.

Estas palavras, tão distantes e convictas, ecoaram agora na consciência de Diogo. Voltou-se para o homem adulto sentado na poltrona oposta e murmurou a medo:

Lembras-te de quando dizias na escola que jamais cometerias os erros do teu pai?

Rui enrijeceu. Apertou os punhos e ergueu levemente o queixo, num reflexo defensivo.

Claro que sim. E então? o tom denunciava nervosismo, uma espera por censura.

É que agora estás a fazer precisamente o mesmo, contrapôs Diogo serenamente. Vais deixar mulher e filho entregues ao destino.

Num ímpeto, Rui levantou-se, cruzou a sala a passo rápido e virou-se para Diogo. Havia fogo nos seus olhos uma mistura confusa de zanga, frustração e desejo de justificação.

Não é igual! exclamou, esforçando-se por dominar o tom. O meu pai fugiu. Nem uma palavra. Eu estou a ser honesto. Não escondo nada da Sónia, falámos, discutimos tudo. Não estou a fugir só quero fazer as coisas certas, mesmo que doa. E não vou perder o Tomé! Vou buscá-lo aos fins de semana, vou estar presente! Não é o mesmo, não sou o meu pai!

Diogo não respondeu logo. Passou devagar a mão na madeira da mesa, como se o gesto o ajudasse a ganhar tempo. Quando falou, a voz saiu-lhe calma, carregada de preocupação:

Percebo que queiras ser honesto, Rui. Mas julgas que para o Tomé faz diferença se foste honesto com ele, quando já não voltares a casa para lhe contares histórias ou jogares à bola? Achas que a tua honestidade vale mais do que essa dor?

Rui ficou parado como se as palavras de Diogo tivessem congelado o tempo. Baixou os olhos, como quem procura nos padrões do tapete uma resposta impossível.

De repente, as memórias precipitaram-se: Rui, com sete anos, sentado ao portão da escola primária, o casaco roto, esperando pela mãe que trabalhava noite dentro. O vento cortava, mas o miúdo não arredava pé, ansioso por avistar aquela silhueta familiar. Depois, já com treze anos, encostado à janela da sala de aula enquanto os colegas troçavam: O teu pai não vem buscar-te? Pois, fugiu, não foi? Rui contornava as lágrimas fingindo ter mais que fazer do que dar atenção ao grupo. Por fim, aos dezasseis, recebendo uma guitarra barata no aniversário, oferta tardia do pai. Atirou-a contra a parede, partindo-lhe o corpo e, com ele, os últimos restos de esperança.

Em contraste, Diogo teve uma infância fundamentada na presença firme do pai: pescarias, arranjos de bicicletas, presenças em reuniões de escola. Rui sempre invejou isso em silêncio.

O teu pai é um herói, chegou a comentar um dia, ao vê-los a montar um avião de madeira.

O meu pai só me ama, respondeu Diogo, distraído da tarefa.

Agora, estas palavras ganhavam novo sentido para Rui.

Sentado defronte do velho amigo, Rui sentiu-se submergir num turbilhão de sensações desgarradas. Estava perdido num passado tão real quanto doloroso. O tom de Diogo trouxe-o de volta.

Não percebes a voz de Rui tremeu, denunciando a luta interior. Engoliu em seco, tentando explicar o inexplicável. Eu não sou igual a ele. Eu não fujo, não abandono nada! Quero uma vida nova, não fugir da antiga.

Diogo olhou-o fundo nos olhos, atento, sem julgamento, mas com aquela perspicácia crua que sempre marcou as melhores conversas entre os dois.

Mas lutaste, Rui? inquiriu, gentil, Tentaste mesmo salvar o que tinhas? Ou achaste simplesmente mais fácil começar do zero?

Rui empalideceu, apertando as mãos. Olhou para o chão em busca de respostas.

Tentei, respondeu decidido, erguendo a cabeça. E tentei muitos anos. Conversámos, fizemos promessas, mas voltava sempre tudo ao mesmo. Era uma rotina cansada, onde já não vivíamos, só passávamos os dias.

Diogo inclinou-se na sua direção, exigente mas não agressivo:

E o que fizeste? Quando foi a última vez que lhe deste flores? Não por aniversário ou data especial, mas só porque sim? Ou a convidaste para jantar? Disseste-lhe uma palavra bonita?

Chega! interrompeu Rui, mais alto do que pretendia. Tu cresceste com uma família perfeita, pai perfeito! É fácil seres juiz, não sabes o que é lutar todos os dias com uma solidão destas!

Não havia raiva nas palavras, só mágoa, acumulada durante anos. Soltou lentamente os dedos, tentando acalmar-se.

Diogo não reagiu. Limitou-se a inspirar fundo e passou a mão pelo rosto, com um olhar cansado. Falou baixo, mas firme:

Não se trata da perfeição, mas de escolhas. De tentar não tropeçar nas mesmas pedras.

Rui voltou-se de rompante, transtornado.

Para quê isso tudo? quase gritou. Tu nunca vais saber o que é crescer sem pai, sentir que não fazes falta para ninguém! O desabafo escapou-lhe, a velha ferida aberta, exposta.

Diogo levantou-se devagar. Manteve a distância, mas abriu os braços num gesto apaziguador.

Então porque condenas o Tomé ao mesmo? respondeu suavemente. Dizes que és diferente, mas ages exatamente como o teu pai.

Rui parou junto à porta. A mão na maçaneta, mas sem energia para girá-la. Virou-se, já sem raiva, só desconforto e confusão.

Não queres perceber

Perceber o quê? Que trocas a tua família só porque apareceu outra mulher? Diogo abanou a cabeça. Isso não vou, não.

Guarda as tuas lições para ti! atirou Rui, finalmente abandonando o apartamento com uma estrondosa batida da porta.

O estrondo ecoou por todo o espaço, ressoando nas paredes e no silêncio pesado. Diogo ficou imóvel, olhando para a poltrona onde Rui estivera. Por breves instantes, esperou o regresso do amigo; uma palavra de desculpa, um olhar arrependido mas não veio nada.

Sentou-se no sofá, esfregando o rosto como quem tenta limpar as emoções violentas que se tinham instalado. Encostou-se, fechou os olhos, mas os pensamentos agitavam-se, dispersos e impossíveis de arrumar.

Poucos minutos depois, entrou a Leonor. De robe de algodão e o cabelo ainda húmido, acabou de sair do banho. O rosto denotava preocupação genuína: franziu o sobrolho, olhou para Diogo e para a porta ainda entreaberta.

O que aconteceu? Ouvios a voz levantar-se, murmurou, sentando-se a seu lado. Falou baixinho, de forma carinhosa, mas sentia-se a ansiedade.

Diogo hesitou, procurando as palavras certas. Não tinha vontade de recontar o episódio era tudo demasiado recente, as emoções estavam à flor da pele.

O Rui saiu de casa resumiu, fitando em frente. Apaixonou-se por outra pessoa. Pediu o divórcio.

Leonor tapou a boca numa reação instintiva, o olhar incrédulo e ferido.

Mas o Tomé? E a Sónia? Pareciam feitos um para o outro murmurou, tentando em vão dar sentido ao sucedido. Estavam tão felizes no aniversário do Tomé…

Pois, amargurou-se Diogo, deslizando a mão no braço do sofá. Agora faz igual ao pai dele. E nem percebe! Como se a história se repetisse. Só que agora é ele.

Leonor ficou em silêncio. Não emitiu opinião, percebendo que, em situações dessas, as palavras pouco adiantam. Em vez disso, sugeriu suavemente:

Talvez esteja perdido, Diogo. Com medo. Às vezes as pessoas só querem fugir à dor e acreditam que virar a página resolve tudo.

É, pode ser admitiu Diogo. Mas é estranho: sempre prometeu que seria diferente do pai. E agora nem se dá conta.

Leonor pousou a mão no ombro dele, sem precisar dizer mais nada. Bastava estar ali, disponível para escutar ou partilhar o silêncio.

Lá fora, a chuva persistia, a cidade sumia-se sob o manto cinzento. A sala ficou ainda mais silenciosa; só o tique-taque do relógio lembrava que o tempo não para.

**********************

Uma semana depois, Diogo e Leonor estavam à porta da Sónia. O vento varria as folhas das tílias no passeio e arrefecia os ossos. Leonor segurava uma tarte de amêndoa, cuidadosamente embalada numa caixa com laço discreta mas importante, o suficiente para não parecerem invasivos.

Diogo ajeitou o blusão, trocou um olhar rápido com a mulher, garantindo que estava tudo preparado, e carregou no botão da campainha. Ouviu-se o som lá dentro e, segundos depois, Sónia abriu a porta. O rosto era de surpresa genuína: não contava com visitas.

Diogo? Leonor? O que começou, perdida nas palavras.

Só quisemos ver como estavas, explicou Leonor, entregando-lhe a tarte. A voz era suave, contida, repleta de empatia. Podemos entrar?

Sónia hesitou, ponderando, mas depois anuiu e abriu espaço:

Sim, entrem.

O ambiente era estranhamente sossegado. Em tempos, ouvira-se ali risos, música infantil, conversas animadas. Agora, o silêncio era quase estranho, como se o vazio ocupasse demasiado espaço. Leonor olhou em redor, na expectativa do riso de uma criança ou das suas corridas. Sónia percebeu e esclareceu:

O Tomé está no infantário. Hoje foram lá uns marionetistas e ele adorou, por isso só o vou buscar depois.

Foram para a cozinha. Sónia, quase maquinalmente, pôs a chaleira ao lume, tirou as chávenas e pôs-se a arrumar, como se encontrar tarefas a completarem-na ajudasse a manter-se inteira por dentro.

Sentem-se, por favor, ofereceu, gesticulando para os lugares à mesa.

Leonor pôs a caixa pousadamente, abriu-a, libertando o aroma da tarte. Sónia serviu chá, mas não o bebeu, preferindo aquecer as mãos nas paredes da chávena.

E como estás tu a aguentar-te? perguntou Diogo, cauteloso, para não ferir suscetibilidades. Falava baixo, com real preocupação.

Sónia encolheu os ombros, olhando por instantes para a chávena, depois para longe.

Uns dias melhores, outros piores O trabalho ajuda. Nem dá tempo para pensar muito.

Fez uma pausa e venceu o nó na garganta:

O Tomé ainda não percebe tudo Pergunta às vezes pelo pai. Digo-lhe que está a trabalhar, que está ocupado, invento coisas Não sei se percebe, mas pelo menos não chora.

A voz quebrou-se quase impercetivelmente, mas ela recompôs-se logo, esboçando um sorriso frágil.

Leonor tocou-lhe levemente a mão. Não precisava falar o gesto dizia tudo, era calor sem censura. Sónia apertou os dedos dela de volta, agradecida.

Se precisares de ajuda, seja com o Tomé, seja com o que for disse Leonor com firmeza calma. Conta connosco. Sempre.

Sónia ergueu os olhos, já húmidos de lágrimas. Mas eram lágrimas de gratidão, não de desespero. Uma libertou-se pela face, mas não a limpou.

Obrigada sussurrou, tremendo não de fraqueza, mas de emoção. Não sabia a quem recorrer De repente, parece que tudo desapareceu.

Silenciou por momentos, depois prosseguiu:

Julgava que tinha amigos para tudo, mas nestas alturas não há ninguém disponível.

Diogo adiantou-se:

A nós, Sónia. É só dizer. Sabes bem disso.

As palavras foram simples, mas cheias daquela certeza que ela precisava. Voltou a chorar, mas já não era dor, era finalmente sentir-se apoiada.

Leonor apertou-lhe a mão e abriu a caixa:

Vamos lá provar a tarte, senão arrefece. Dizem que ficou boa, só talvez um bocadinho tostada a mais!

A descontração arrancou uma sombra de sorriso a Sónia. Respirou fundo, limpou a cara e aceitou.

Claro. E o chá também está a esfriar.

Comeu um pedaço de bolo, lentamente, sentindo que, a muito custo, ia recuperando alguma normalidade à mesa.

*************************

Três anos depois, um sábado luminoso enchera o Jardim da Estrela. Tomé, agora com cinco anos, corria irrequieto atrás de uma bola vermelha. O riso do miúdo ria-se entre os jacarandás. Num banco de jardim, Leonor embalava a filha bebé, adormecida no carrinho, enquanto o sol desenhava manchas douradas sobre a capota.

Diogo observava o menino, sentindo uma ternura quase paternal. Ao longo destes anos, afeiçoara-se de tal modo ao Tomé que já não sabia bem o que era aquele laço.

Já viste como ele cresceu? sorriu Leonor, mantendo o gesto mole de embalar. Nunca sossega!

A Sónia tem sido uma lutadora, assentiu Diogo, sem tirar os olhos da criança, que, no seu mundo, marcava um golo imaginário, explodindo de alegria. Nota-se que faz tudo por ele.

Leonor suspirou. O seu olhar tornou-se mais sério enquanto ajeitava o cobertor da filha.

Faz. Mas tem sido duro. Sobretudo, quando o Rui falta aos aniversários ou desmarca as visitas à última da hora. Ontem dizia que vinha buscar o Tomé mandou mensagem às seis da manhã a inventar desculpas.

Diogo franziu o sobrolho. Já conhecia aquele padrão: Rui aparecia raramente, presenteando o filho com brinquedos caros nitidamente comprados à pressa , ou com promessas de idas ao Oceanário e ao Parque das Nações, canceladas no próprio dia. Outras vezes aparecia fora de horas, insistindo em conversas de homem para homem, mas ao fim de minutos já queria ir embora.

Já lhe tentei explicar que o Tomé precisa da presença, não só de prendas. Mas só diz que está numa fase complicada.

E assim passa o tempo, tudo é uma fase complicada, murmurou Leonor, triste, mas sem julgamento. Ontem o Tomé perguntou à mãe: O pai deixou de gostar de mim? Não imaginas o aperto A Sónia quase chorava.

Diogo cerrou os punhos, controlou-se. Evitava descarregar a zanga à frente de Leonor.

Parece-me que o Rui só foge à realidade. Já prometeu tantas vezes que nunca seria como o pai. E agora repete tudo.

Agora ainda arranja desculpas. Diz que procura ser feliz, que está à procura de si próprio. E o filho cresce sem ele na mesma, concluiu Leonor, com pesar.

Nessa altura, Tomé correu na direção deles, as bochechas coradas e o cabelo despenteado.

Tio Diogo, olha como eu sei fazer! gritou, antes de voltar a correr louco atrás da bola.

Leonor sorriu-lhe com carinho maternal.

Sorte tem o Tomé de te ter. Pelo menos alguém de nós nunca faltou. Ele sente isso. És o adulto estável, o porto de abrigo.

Diogo anuiu, com ar decidido. Dentro de si, renovava aquela certeza: se Rui não queria ser pai, ele, Diogo, faria tudo para que o rapaz nunca sentisse o abandono ou a ausência. Não deixaria repetir-se aquela dor, não. A história não se repetiria.

O sol brilhava, Tomé ria-se, a filha de Diogo dormia tranquila E ele prometeu a si mesmo que aquilo que as crianças precisam, mais do que um passado perfeito dos seus pais, é um presente seguro, alguém que esteja, que nunca desapareça.

Neste momento percebi que, para um filho, estar presente vale mais do que qualquer desculpa ou honestidade parcial. A verdadeira diferença está em não abandonar quem precisa de nós e é essa lição, simples e essencial, que pretendo guardar e, quem sabe, ensinar pelo exemplo.

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