Despensa e escalas
Recordo agora esses tempos antigos em Lisboa, quando certa manhã fui à despensa não em busca de lembranças, mas de um frasco de pepinos em conserva para a salada. Na prateleira de cima, atrás de uma caixa cheia de luzes de Natal guardadas há anos, aparecia um canto de estojo que há muito já não devia habitar a minha casa. O tecido era escurecido, o fecho emperrava. Puxei com cuidado, e das profundezas surgiu o corpo estreito, longo, como uma sombra alongada, do velho estojo.
Coloquei o frasco sobre o banco ao lado da porta para não esquecer e, quase sem pensar, sentei-me de cócoras diante do estojo, como se essa posição ajudasse a adiar a decisão inevitável. O fecho só cedeu à terceira tentativa. Dentro repousava o meu antigo violino. O verniz parecia baço nalguns pontos, as cordas frouxas, o arco parecia mais uma vassoura velha que instrumento. Mas a forma era inconfundível, e, ao vê-lo, senti por dentro um estalido abafado, como o clique de um interruptor.
Lembrei-me dos tempos do nono ano, caminhando pelo bairro com o estojo às costas, envergonhada por parecer ridícula. Depois vieram a escola técnica, o trabalho, o casamento, e num dia qualquer deixei de ir à aula de música porque era preciso correr atrás de outra vida. O violino ficou em casa dos meus pais, veio depois comigo na mudança, até repousar ali na despensa, entalado entre sacos e caixas. Não estava abandonado, apenas esquecido.
Peguei no instrumento com delicadeza, quase temendo que desmoronasse. A madeira pareceu-me quente ao toque, apesar do frio da despensa. Os dedos encontraram o braço do violino sozinhos, mas logo senti embaraço: já não sabia como segurar, estranhamente, como se não fosse meu, como se tivesse pegado em algo que não devia.
Na cozinha, a água começava a ferver. Fechei a despensa, mas o estojo não regressei ao seu lugar. Deixei-o encostado no corredor e fui desligar o fogão. Afinal, talvez nem precisasse dos pepinos para a salada. Apanhei-me a procurar desculpas.
À noite, depois de lavar a loiça e restar só migalhas de pão sobre a mesa, levei o estojo para a sala. O meu marido estava diante da televisão, mudando de canal sem prestar real atenção. Levantou o olhar.
O que é que tu encontraste aí?
O violino respondi, surpreendida pela calma da minha voz.
Ainda funciona? sorriu com ironia caseira, sem maldade.
Não sei. Vou ver agora.
Abri o estojo no sofá, debaixo pus uma toalha velha para não riscar o tecido. Retirei o violino, o arco, uma pequena caixa de breu. A breu estava rachada, parecia gelo numa poça. Passei o arco por cima, só uns poucos fios tocaram a superfície.
Afinar foi humilhante. Os cravelhos estavam duros, as cordas rangiam, uma rebentou e fugiu-me ao dedo. Praguejei baixinho, para não ser ouvida pelos vizinhos. O meu marido riu.
Se calhar era melhor levar ao luthier sugeriu.
Talvez assenti, mas lá dentro já fervia uma mágoa, não contra ele, mas por mim, por já não saber fazer nem o básico.
Encontrei uma aplicação de afinação no telemóvel e coloquei-a sobre a mesa de apoio. O ecrã mostrava letras, a seta saltava para todo o lado. Rodava o cravelho, ouvia a nota que caía ou subia demais. O ombro começou a doer, os dedos cansaram com o esforço não habitual.
Quando finalmente as cordas deixaram de soar como cabos ao vento, ergui o violino ao queixo. O descansador de queixo estava gelado, e pareceu-me que a pele ficou mais fina nesse instante. Tentei pôr-me direita, como me tinham ensinado, mas a coluna não obedecia. Soltei uma gargalhada, sozinha.
Vais dar concerto? perguntou o meu marido, sem desviar os olhos do ecrã.
Para ti disse eu. Prepara-te.
O primeiro som foi tão triste que me fez tremer. Não pareceu nota, mas um lamento. O arco tremia, o braço não segurava a linha. Parei, inspirei, tentei de novo. Ficou um pouco melhor, mas continuava a sentir vergonha.
A vergonha era diferente, adulta. Não aquela dos jovens, quando parece que o mundo inteiro te observa. Ali, só olhavam as paredes, o marido, e as minhas mãos, agora estranhas.
Toquei as cordas soltas, como antigamente, contando baixinho. Depois lembrei-me da escala de ré maior, mas os dedos começaram a atrapalhar-se. Já nem me lembrava da colocação de cada um. Os dedos estavam mais grossos e não acertavam com precisão. Não havia a dor habitual nas pontas, só aquela sensação mole de já não sou capaz.
Não faz mal disse o meu marido de repente. Não se volta ao começo de um dia para o outro.
Assenti, sem saber se o não faz mal era para ele, para mim ou para o violino.
No dia seguinte, fui ao atelier que ficava junto ao metro. Não era nada romântico: porta de vidro, balcão, nas paredes guitarras e violinos, cheiro a verniz e pó. O luthier era um rapaz jovem, de brinco, segurou o instrumento com naturalidade, como quem pega numa ferramenta.
É preciso trocar as cordas disse ele. Lubrificar os cravelhos, acertar o cavalete. O arco também merecia ser renovado, mas isso fica mais caro.
Ao ouvir mais caro, fiquei alerta. Vieram-me à cabeça despesas, medicamentos, o presente de aniversário da neta. Ia dizer deixe estar, mas, em vez disso, perguntei:
E se for só as cordas e o cavalete, por agora?
Pode ser. Vai tocar.
Deixei o violino, fiquei com o recibo e guardei-o na carteira. Ao sair, senti-me como se tivesse deixado lá dentro uma parte minha, esperando que me a devolvessem com vida.
Já em casa, abri o computador e procurei aulas de violino para adultos. Ri do termo adultos. Como se houvesse uma espécie à parte, gente a quem tudo é explicado devagarinho.
Encontrei vários anúncios. Uns prometiam resultado em um mês, outros abordagem individual. Fechei as páginas, sentindo-me ansiosa. Depois, reabri e acabei por mandar uma mensagem a uma professora do bairro vizinho: Olá, tenho 52 anos. Gostava de recuperar prática. Será possível?
Mal cliquei em enviar, arrependi-me. Queria apagar parecia um pedido de socorro. Mas já estava feito.
Ao início da noite, apareceu o meu filho. Entrou na cozinha, beijou-me na face, perguntou pelo trabalho. Pus o chá a fazer, servi bolachas. Ele viu o estojo encostado na sala.
Isso é o violino? perguntou, surpreendido.
Sim. Descobri. Acho que vou tentar.
A sério, mãe? sorriu, confuso mas sem troça. Há quanto tempo
Há muito concordei. Por isso quero tentar.
Ele sentou-se, brincando com uma bolacha.
E para quê? Já estás sempre cansada.
Senti a velha vontade de me justificar, de provar que também tinha direito. Mas as justificações sempre soam a desculpas.
Não sei disse, sincera. Apetece-me.
Ele olhou-me com novo olhar, como se visse não só a mãe, mas uma mulher com desejos próprios.
Vê lá, não te exaltes. E compaixão pelos vizinhos.
Ri-me.
Eles aguentam. Só vou tocar de dia.
Quando ele se foi, senti-me mais leve. Não porque ele deixara, mas porque não precisei de pedir licença.
Dois dias depois, fui buscar o violino ao luthier. As cordas brilhantes, o cavalete firme. Explicou-me como afinar, como guardar.
Evite radiadores avisou. E sempre dentro do estojo.
Assenti como aluna. Em casa, abri o estojo no banco, fiquei a olhar o instrumento muito tempo, com receio de estragar de novo.
O primeiro exercício foi o mais básico: arco comprido nas cordas soltas. Em criança achava um castigo. Agora era salvação. Sem melodia, sem julgamento, só o som e o esforço por mantê-lo estável.
Após dez minutos, doía-me o ombro. Passados quinze, o pescoço já não aguentava. Pari, guardei o violino. Senti raiva: do corpo, da idade, de tudo ser mais difícil.
Fui à cozinha, bebi água, olhei pela janela. No parque ao lado, adolescentes davam voltas de trotinetes, rindo alto. Invejei-lhes não a juventude mas o descaramento. Caíam, levantavam-se, voltavam a tentar ninguém lhes dizia que já era tarde para aprender a equilibrar.
Voltei à sala e reabri o estojo, não por obrigação, mas porque não queria ficar com aquela raiva.
À noite chegou resposta da professora: Claro que é possível. Venha, começamos pela posição e exercícios simples. A idade não é limite. Só é preciso paciência. Reli duas vezes. Paciência era honesto, e deu-me confiança.
No primeiro dia de aula fui com o estojo apertado entre as mãos, como se levasse algo precioso. No metro, houve quem olhasse, alguns sorriram. Deixei-os olhar. Que vissem.
A professora era uma mulher miúda, quarentona, cabelo curto e olhos atentos. Na sala havia um piano, partituras na estante, uma pequena cadeira com um violino infantil.
Vá, deixe-me ver pediu, indicando-me que pegasse no instrumento.
Peguei, e logo ficou evidente: ombro rígido, queixo a apertar, mão esquerda presa.
Não faz mal disse ela. Está sem prática. Só vamos sentir a posição. Veja, o violino não é inimigo.
Apeteceu-me rir e foi estranho: aos cinquenta e dois anos, ali estava eu a aprender a segurar um violino. Mas era libertador. Não precisavam que fosse boa. Só que estivesse presente.
Saí da aula com as mãos a tremer como depois da ginástica. Ela deixou-lhe um plano: cada dia dez minutos de cordas soltas, depois escala. Pouco mas todos os dias, explicou.
Em casa, o meu marido perguntou:
Então, como foi?
Difícil respondi. Mas faço bem.
Ficaste feliz?
Pensei. Feliz não era bem o sentimento. Sentia ansiedade, estranheza, vergonha, mas também uma luz nova.
Sim admiti. Como se voltasse a fazer alguma coisa com as mãos, além de trabalhar e cozinhar.
Passada uma semana, tive coragem de tentar uma melodia que sabia desde criança. Encontrei a partitura na internet, imprimi discretamente no trabalho, escondi na pasta dos papéis para ninguém me perguntar. Em casa, arrumei as páginas num improvisado suporte de livros e caixa.
O som saía desigual, o arco tocava às vezes duas cordas, os dedos falhavam. Parava, recomeçava. A certa altura, o marido apareceu à porta.
Olha que nem está mal disse baixinho, como se quisesse proteger-me.
A sério?
Sim. Reconheço a música.
Sorri. Ser reconhecida já era elogio.
Ao sábado veio a neta, seis anos, e logo reparou no estojo.
Avó, o que é isso?
O violino.
Sabes tocar?
Apeteceu-me dizer há muito tempo. Mas para ela existia só agora.
Estou a aprender respondi.
Sentou-se no sofá, mãos compostas nos joelhos, como num espetáculo.
Toca!
Senti logo o medo: tocar para uma criança é mais difícil do que para adultos. As crianças ouvem o que é verdadeiro.
Está bem disse, e comecei a tocar.
Tentei a melodia de toda a semana. No terceiro compasso, o arco escorregou, o som agudo gritou. A neta manteve-se séria, inclinou a cabeça.
Porque fez esse barulho?
Porque a avó ainda não sabe mexer bem no arco respondi e ri.
Ela também se riu.
Toca outra vez!
Toquei outra vez. Não ficou melhor, mas continuei, sem parar por vergonha. Terminei a peça até ao fim.
De noite, quando a casa ficou silenciosa, sentei-me a olhar as partituras impressas sobre a mesa, o lápis ao lado a marcar as notas difíceis. O violino repousava no estojo, o estojo fechado, mas nunca metido na despensa. Ficava encostado à parede sinal de que era agora parte do dia a dia.
No telemóvel pus um alarme de dez minutos. Não para me forçar, mas para não esgotar-me. Reabri o estojo, tirei o violino, confirmei o arco e a breu. Encostei ao queixo, inspirei.
O som saiu mais macio. Depois voltou a falhar. Não me zanguei. Apenas ajeitei a mão e repeti, ouvindo a nota sustentar-se, a vibrar, a crescer.
Quando o alarme tocou, esperei, terminando o arco. Guardei devagar, fechei o fecho, encostei o estojo à parede. Sabia que no dia seguinte seria igual: alguma vergonha, cansaço, uns segundos puros e já era razão suficiente para continuar.







