O Casamento Vai Ficar por Uma Gota

Não Vai Haver Casamento

12 de abril, Lisboa

Entrei no quarto de Inês e fiquei parado à porta. Diante de mim, vestida de noiva, estava a minha irmã, Beatriz e parecia absolutamente deslumbrante. O vestido assentava-lhe de forma perfeita, destacando-lhe cada curva, e os olhos brilhavam-lhe com uma felicidade suave, quase etérea. Não consegui conter o entusiasmo:

Minha nossa, estás radiante! exclamei, sem conseguir desviar o olhar dela. Estou mesmo feliz por ti! Finalmente estás a seguir em frente, abriste o coração a novos mundos e deixaste o passado para trás, esquecendo o Rafael! És uma mulher de coragem!

Beatriz torceu ligeiramente o lábio o sorriso esvaneceu-se-lhe de imediato. Apressou-se a mexer nos fechos do vestido, evitando olhar na minha direção.

Mais vale tirar já murmurou, muito prática, enquanto soltava os ganchos do lado. Faltam só duas semanas até ao casamento. Se algo acontecer ao vestido, não arranjo outro igual.

Mordi o lábio. Percebi logo que tinha dito mais do que devia. Para quê trazer à baila o Rafael? Agora, que finalmente outro homem digno fazia parte da sua vida, não havia espaço para pensamentos antigos! O Rafael não merecia uma única lágrima da minha irmã não depois de tudo o que lhe tinha feito!

Durante anos, a Beatriz acreditara que o Rafael era o tal. Pensava que iam ser felizes, até que a morte os separasse. Mas aos poucos tudo começou a desmoronar-se ele começou a afastar-se, arranjava desculpas para não aparecer, criticava-lhe o círculo de amigos, desvalorizava-lhe as aspirações. Acabou por convencê-la a largar um ótimo projeto no escritório, dissuadiu-a de aceitar uma proposta de estágio em Madrid e, no fim, pressionou-a a mudar até de carreira.

Os nossos pais não percebiam o que se passava com ela. Viam-na perder-se aos poucos, mas não conseguiam fazer nada. Tentar conversar virava discussão o Rafael alimentava nela a ideia de que a família não o aceitava e queria destruir o amor perfeito deles. E assim, de discussão em discussão, quase deixou de falar connosco.

Até que ele desapareceu. Levantou-se e foi embora, sem dar explicações, nem sequer uma carta. Ficou-lhe apenas uma ferida enorme no peito e uma filha, que Beatriz decidiu criar sozinha, custasse o que custasse.

Hoje, ao vê-la apressada a tirar o vestido de noiva, senti-me envergonhado. Só queria vê-la feliz menos ainda magoá-la com recordações que nunca deviam ser acordadas.

A pequena Rafaela já tem quatro anos. É uma miúda cheia de energia, curiosa, que não passa um dia sem fazer mil perguntas. Um dia quer saber porque o céu é azul, noutro pergunta para onde vão as nuvens, e fica fascinada a observar as formigas no jardim. No infantário dizem sempre que ela aprende rápido, decora facilmente as cantilenas e fica vidrada a ouvir histórias de encantar.

Quase todo o tempo, está com os avós maternos os meus pais. Deram tudo para ajudar a filha e a neta, acompanhando-as sempre: foi com eles que a Rafaela começou a ir à piscina, foi deles a ideia de a inscrever na escolinha bilingue e nas aulas de dança criativa. Beatriz vai ver a filha algumas vezes por semana, mas nunca se demora.

A razão era triste e simples: a Rafaela lembrava demasiado o pai o mesmo cabelo castanho encaracolado, o mesmo sorriso traquina, o mesmo olhar de quem nunca revela tudo. Cada vez que a Beatriz olhava para a filha, era como reviver o passado os tempos em que pensava que teria uma família feliz. Amava a Rafaela, orgulhava-se dela, ria-se com cada disparte; mas em cada abraço, vinha sempre aquela pontada de dor, sem aviso. Pegava-lhe ao colo e, logo a seguir, desviava o olhar, dizendo que tinha de arrumar qualquer coisa, só para chorar em silêncio, longe da vista da miúda.

Numa dessas tardes, Beatriz foi buscá-la aos meus pais. A menina estava a montar puzzles de animais no chão, a língua de fora pela concentração. Quando viu a mãe, ficou em êxtase.

Olha, mãe! puxou a mãe até ao tapete. Faltam só as duas peças! Aqui é a casa, e ali ali vai ficar o cão Viriato!

Beatriz ajoelhou-se ao lado, esforçando-se por sorrir.

Está lindo, filha. Que mãos de fada tens tu!

A menina ficou pensativa, depois olhou para cima:

Mãe onde está o meu pai? Todos lá no jardim da infância têm pai, menos eu

A Beatriz congelou. O mundo deu-lhe uma volta. Tentou manter a voz calma:

Não sei, amor O teu pai está longe, mas pensa muito em ti, prometo.

Então porque não telefona? franziu o sobrolho, tentando perceber o mundo. Eu queria contar-lhe que já sei dar nós nos ténis!

Ele deve ter muito trabalho, filha. a voz da minha irmã tremeu, engolindo em seco. Mas acredita que ele está muito orgulhoso de ti.

A Rafaela ficou a mastigar o assunto, depois assentiu, olhos já postos no puzzle:

Pronto. Vou acabar a casa bonita para ele ver como sou esperta!

A minha irmã ficou ali sentada, a afagar-lhe o cabelo em silêncio, a absorver o momento o cheiro do champô, a mão pequenina, a simplicidade daquele amor.

Ainda assim, Beatriz não conseguia deixar de pensar em Rafael. Ia arranjando desculpas: talvez algo grave lhe tivesse acontecido? Talvez tivesse sido impedido de dar notícias? As dúvidas eram o seu salva-vidas. A mãe tentava chamá-la à razão: não podes viver do passado, foca-te na tua filha! Os amigos, mais diretos: ele meteu-te à margem, aceita e segue em frente! Mas Beatriz não ouvia. Argumentava, contava os momentos felizes, as promessas. As conversas acabavam em becos sem saída, e os amigos, com pena, deixavam-na.

Ainda assim, não ficou de braços cruzados. Iam-lhe dando esperanças, ela consultava perfis nas redes sociais, ia a sítios onde o Rafael podia aparecer, até pedia ajuda nos grupos do bairro. Nada. Recusava-se a aceitar que ele simplesmente quisesse desaparecer da vida delas.

Até que, cinco anos depois, apareceu alguém capaz de derreter o gelo à volta do seu coração. Parecia coisa do acaso conheceram-se num aniversário de uma colega. O Tiago chamou-lhe imediatamente a atenção. Era de uma honestidade desarmante, calmo, disponível, carinhoso sem excessos.

Desde o início, Beatriz sentiu-se à vontade com o Tiago, não precisava de máscaras, nem de forçar o otimismo. Quando estava cansada, ele sugeria regressar a casa. Se ela queria silêncio, não pressionava. Era genuíno, dedicado sabia que café ela gostava, interessava-se pelos colegas dela, resolvia pequenos dilemas do dia a dia.

O que mais a tocou foi a relação entre Tiago e Rafaela. No primeiro encontro, a menina olhou-o de lado, agarrada ao casaco da mãe. Mas o Tiago, com um joelho no chão para ficar à altura dela, perguntou-lhe logo que desenhos animados ela mais gostava. Meia-hora depois, já brincavam juntos no parque, e a Rafaela mostrava-lhe orgulhosa os cadernos.

O Tiago passou a ser presença regular em casa dos meus pais. Levava a Rafaela à Tapada das Necessidades, ensinava-lhe a andar de bicicleta, lia-lhe histórias à noite. Um dia, quando a Beatriz entrou no quarto e os apanhou a desenhar, ele anunciou com serenidade: Quero ser mesmo o pai dela. Se concordares, quero avançar com a adoção da Rafaela.

Eu estava mesmo contente pela minha irmã. Era palpável a transformação: voltava a ter brilho nos olhos, desaparecia a expressão de ansiedade, o sorriso era de verdade. Hoje, porém, fragilizei-a sem querer, toquei no nome do Rafael. Só esperava que não se deixasse abater.

Mas surpreendeu-me revelou serenidade.

Cresci, disse baixinho, ajeitando o vestido na cama. Sei que o que senti pelo Rafael tem de ficar onde está: no passado. Às vezes até penso que foi erro ter dado esse nome à Rafaela. Fui teimosa, não ouvi ninguém Como é que me aturaste estes anos?

Acariciei-lhe o ombro:

Pensas mudar-te para casa dos pais com a Rafaela?

Sim respondeu, de imediato mais séria. O Tiago fala disso todos os dias. Até sugeriu mudar-lhe o nome. Achas que ela ia estranhar? Vamos ter que tratar da nova certidão de nascimento quando a adoção avançar.

Olhou para a janela, onde a chuva escorria pelo vidro.

Dantes, achava que a Rafaela ia ser sempre só um espelho do passado. Agora sei que me enganei. Ela é minha filha, merece tudo: amor, rotinas, os dois pais a apoiá-la. Os avós são maravilhosos, mas nunca substituem os pais. O Tiago percebe isso, quer mesmo assumi-la. Tinhas de ver como ele adora a miúda.

É uma ideia fantástica entusiasmei-me. Podes perguntar-lhe que nome ela preferia. Assim sente-se incluída.

Não sei Tenho de pensar. Ainda há tempo.

A verdade é que a Beatriz mentia um pouco: ainda amava o Rafael, e esse amor não se desfez com o tempo. Mas reconhecia cada vez mais o vazio de viver de memórias. Os pais começaram a afastar-se dela, a achá-la instável, porque cada visita terminava em lágrimas e, muitas vezes, a Rafaela assustava-se. Os amigos já nem queriam ouvir falar nas dores dela. Estava na hora de soltar o passado e abraçar o presente.

O casamento era o início. Mas não era nada fácil

O Tiago era claramente um homem bom, mas não era o Rafael. Por muito que tentasse, a Beatriz nunca sentiu com ele o mesmo fogo, apenas aproveitava o carinho e a atenção.

Se o Rafael voltasse Daria tudo para o ter a seu lado.

**********************

O casamento acabou! anunciou a Beatriz, olhos a brilhar, quase a saltitar no quarto. Cada um segue o seu rumo, como barcos em alto mar!

O Tiago olhou para ela, sem acreditar no que ouvia. Ali a uma semana do casamento: já haviam acertado o menu, os arranjos, os convites estavam todos enviados. Parecia tudo tão certo, tão à porta E agora ela dizia aquilo?

Como assim, acabou? tentou confirmar, a pensar se seria uma piada de mau gosto. O que é que aconteceu, Beatriz? Explica-me.

Ela ignorou-o, a deitar roupas para a mala, apressada e sorridente, quase eufórica, como já não a vira há meses.

O Rafael voltou! atirou, enquanto remexia nas gavetas. Havia tanto gozo naquela voz Ontem apareceu. Falámos Nem queria acreditar! Foi como se nunca tivesse ido embora!

Virou-se finalmente para ele, sem um pingo de remorso só ânsia e uma alegria eléctrica.

Agradeço-te tudo: foste correto, cuidaste de mim. Com o Tiago era fácil, previsível És uma ótima pessoa. Mas nunca consegui amar-te verdadeiramente. Agora tenho uma segunda oportunidade e não a posso desperdiçar.

Ao ouvir aquilo, senti que o Tiago gelou por dentro. O Rafael sempre o Rafael. Sabia que a Beatriz continuava agarrada à ideia dele, mas tinha esperança que o tempo mudasse tudo.

Já falaste com ele? forçou-se a perguntar, a voz presa e tensa. O que é que ele tem para te dizer agora? Já tem desculpa para tudo?

Não pediu desculpa, respondeu a Beatriz, seca. Disse só que percebeu finalmente o erro. Pensou em mim todos os dias!

Continuou a arrumar roupas. O Tiago ficou parado, a ver o chão fugir-lhe dos pés.

Conversámos por telefone explicou ela, perscrutando a gaveta do escritório. Os pais obrigaram-no a estudar em Londres, tiraram-lhe o acesso às contas. Ele não podia avisar-me do que se passava. Agora voltou e nada nos vai afastar, vamos ser felizes!

Veio-lhe à mente o telefonema com o Rafael a voz trémula dele, as justificações, as promessas:

Beatriz, sei que tudo parece mal, mas os meus pais obrigaram-me disseram-me: ou vais para Londres, ou esqueces a família. Queria resistir Mas cortaram tudo. Nem telefone tinha!

Porque não ligaste ao menos uma vez? a Beatriz chorava no silêncio da linha.

Não aguentava ouvir-te. Que ia dizer? Que fui fraco?

O calor que sentiu ao ouvi-lo dissolveu-lhe as mágoas todas isto é que esperava, e agora, finalmente, estava a acontecer.

Agora está tudo mudado dizia o Rafael ao telefone. Larguei o curso, regressei. Não volto a sair de Portugal.

Quando me lembrei desse tom, acreditei que a minha irmã estava mesmo cega pela esperança.

Ela olhou uma última vez à volta do quarto, reparou então no Tiago, pálido como nunca.

Não fiques zangado pediu, num tom quase maternal. Já expliquei a todos que anulei o casamento. Claro que vais ser alvo de muita pena, mas és forte, aguentas.

Arrastou a mala, puxou a alça, conferiu as bolsas. Depois olhou para o Tiago com uma frieza definitiva.

E não tentes ligar-me, nem mandes mensagens. Não vou mudar de ideias.

Deixou a sala, atravessando-a como se cada segundo ali fosse uma ameaça à decisão tomada.

O Tiago ficou parado, as mãos cerradas, revoltado por dentro, mas sem ceder à tentação de explodir. Inspirou fundo não ia mostrar-se derrotado. Controlou a voz para soar normal:

Não achas que estás a precipitar-te? arriscou.

Ela hesitou, já com a mão na maçaneta.

E se ele não quiser? chamou-o para a dúvida, aproximando-se mais E se ele não admitir ser pai da Rafaela? Já te pediu em casamento pelo menos?

A Beatriz rodou furiosa e aproximou-se:

Chamou-me para um encontro a sério! Isso basta! E não permito que fales assim dele o Rafael é diferente!

A voz fraquejou por um segundo, mas não recuou. Empurrou a mala, murmurando:

Podias ao menos ajudar com isto

O Tiago avançou, parou de repente. Para quê ajudar a pessoa que acabava de lhe partir o coração? Via nos olhos dela alguém que já ali não estava já só tinha o Rafael na cabeça, pronta para começar toda uma nova vida, acreditando em milagres.

E a verdade era que, desta vez, tudo era só ilusão. O Rafael só queria encerrar o passado sem compromissos.

A Beatriz não viu os sinais queria tanto ser feliz que acreditou em tudo. Puxando com esforço a mala até à porta, suspirou uma última vez mas não disse nada. Saiu sem olhar para trás.

O Tiago ficou sozinho, sentindo o cheiro dela na sala e a frase dela nos ouvidos: O Rafael é diferente!

Deixou-se cair na cadeira e, de olhos fechados, deixou a dor abafar tudo.

**********************

O Rafael abriu a porta, surpreendido com uma visita tão inesperada àquela hora. Era a Beatriz, com duas malas, e os olhos a brilhar de excitação. Ele parou, sem saber o que dizer. Só lhe ocorria uma coisa: Como é possível ela ter entendido tudo tão mal?

O Rafael achava tudo resolvido. Quando a ex dele começou com outro, sentiu-se aliviado podia voltar a Vila Nova de Gaia, viver com a esposa, longe de dramas.

Sim, ligou à Beatriz, tentou explicar-lhe que tinha uma nova vida, até sugeriu um encontro para fechar o capítulo, mas só isso não queria nada mais.

E agora ela ali cheia de esperança no olhar, carregada de sonhos. O Rafael recuou instintivamente.

Rafael! exclamou, a sorrir. Está decidido, vim para ficarmos juntos!

Fez menção de entrar, mas ele travou-a.

Beatriz, por favor começou, cauteloso. Acho que não percebeste tudo.

Ela ficou tensa, a expressão fechada.

Mas combinámos falar! Finalmente, podemos ser felizes!

O Rafael respirou fundo era agora ou nunca.

Sou casado, Beatriz. Já faz dois anos. Estou bem, feliz.

A Beatriz vacilou, os olhos arregalados, em choque. Depois o rosto contorceu-se: pânico, mágoa, revolta.

Estás a gozar? Ligaste-me, deste-me esperanças!

Liguei para conversar, encerrar o passado. Cada um segue o seu caminho estamos em capítulos diferentes.

Ela recuou, as mãos trémulas.

Mentiste-me, enganaste-me! gritou, a voz amarga. Deixei tudo por tua causa!

O Rafael perdeu a paciência.

Nunca prometi nada, Beatriz. Foste tu que imaginaste um final diferente. Só quis ser cordial. Está resolvido?

Ela explodiu atirou as malas ao chão, gritou, exigiu explicações, chorou. O Rafael, com calma e firmeza, acabou por acompanhá-la até à rua, fechando a porta.

Ela continuou a bater, a chamar por ele. Os vizinhos espreitavam, uns suspiravam, outros resmungavam.

Quando as birras subiram de tom, e com ameaças de polícia incluídas, Beatriz acabou por se afastar. Antes de ir, gritou para a porta fechada:

Vou voltar! Vais arrepender-te!

O Rafael baixou a cabeça, dorido de tanta confusão. Sabia que ainda agora começava o verdadeiro desafio. Teria de vender a casa, mudar de zona; não lhe iam dar paz enquanto ficasse ali.

********************

A Beatriz caminhou por Lisboa sem ver nada à frente. Os olhos toldados de lágrimas, a cabeça num turbilhão sombrio. No imaginário dela, o Rafael abraçava-a, jurava-lhe amor eterno e seguiam juntos a vida. A realidade batia-lhe impiedosa.

Andou sem rumo, até parar junto ao prédio do Tiago. Limpou os olhos, endireitou-se, tocou à porta.

O Tiago demorou, apareceu sério, de rosto fechado.

Tiago, suplico-te quase sussurrou, em lágrimas. Sei que errei, que te tratei mal. Quero corrigir tudo.

Tentou encontrar palavras manteve o olhar fixo, sincero:

Juro-te nunca mais menciono o nome do Rafael. Tudo isto foi um erro, só contigo sou feliz. Dá-me uma última oportunidade.

O Tiago abanou a cabeça, calmo, sem rancor.

Fizeste a tua escolha, disse, baixo. Deixaste-me para trás por ele. Agora, só porque falhou, queres voltar?

Sim! implorou ela. Porque quem eu amo és tu, só tu.

Ele sorriu, resignado, e disse, seguro:

Não acredito mais nas tuas palavras. Adeus.

A Beatriz tremeu, percebeu que nada havia a fazer. Ele fechou-lhe a porta, sereno. Ela ficou ali, de olhos perdidos, depois sentou-se na escada a chorar baixinho. Desta vez, era choro de quem sabe que deixou escapar tudo o passado que não volta, o presente que nunca existiu.

***

Lição do dia: não se constrói futuro nenhum a viver das sombras do passado. E quem não aprende isso, arrisca-se a perder tudo o que tinha, o que podia ter tido, e até a si mesmo.

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