Não Vai Haver Casamento
Leonor entrou no quarto e parou à porta. À sua frente, vestida de noiva, estava Carminho e, valha a verdade, parecia saída de uma daquelas revistas caras de casamentos, mas sem precisar de filtro. O vestido caía-lhe que nem uma luva, realçando-lhe a cintura fina, e nos olhos brilhava uma felicidade tão tranquila e leve que até dava vontade de assinar a Vogue. Leonor não conseguiu conter o contentamento:
Ó Carminho, tu brilhas! exclamou, de olhos pregados na amiga. Estou mesmo feliz por ti! Finalmente conseguiste virar essa página da tua vida e deixar o Ricardo em águas passadas! Foste uma valente!
Carminho fez uma careta subtíl, o sorriso apagou-se como luzes no final do concerto. Rapidamente começou a desapertar os colchetes do vestido, evitando encarar Leonor.
Mais vale tirar isto murmurou ela, com destreza de quem já treinou, a libertar os ganchos do lado. Faltam só duas semanas para o grande dia. Se se passa alguma coisa com o vestido, encontrar outro é que nem procurar agulha no palheiro.
Leonor engoliu em seco. Meteu os pés pelas mãos. Porque raio foi ela meter o Ricardo na conversa? Agora que Carminho finalmente tinha encontrado um homem decente, lembrar fantasmas era mesmo desnecessário! O Ricardo não valia nem uma lágrima da Carminho especialmente depois de tudo o que lhe fez.
Houve um tempo em que ela acreditava nele como quem acredita no Pai Natal. Achava mesmo que tinham sido feitos um para o outro. Mas, aos poucos, a coisa começou a descarrilar. Primeiro foi o afastamento, depois críticas atrás de críticas: tudo aquilo que ela fazia estava errado, até a escolha das amigas e os sonhos de vida. Carreira internacional? Só se for brincadeira! dizia ele. Conseguiu convencê-la a largar um projeto promissor, demoveu-a da tal formação em Madrid e, claro, no fim ainda sugeriu que mudasse de emprego.
Os pais viam-na mudar e tentavam intervir. Mas qualquer tentativa acabava em discussão: Ricardo pintava-os como vilões, alegando que não aceitavam o grande amor da filha. A tensão subia e, a certa altura, Carminho quase deixou de falar com a família.
Depois, Ricardo desapareceu. Simplesmente foi à sua vida, sem explicações nem carta de despedida. Só deixou uma ferida aberta e uma criança, que Carminho decidiu manter, custasse o que custasse.
Agora, vendo Carminho a despir apressadamente o vestido, Leonor sentia um peso na consciência. Só queria mesmo vê-la feliz. E lembrar o passado foi um disparate daqueles épicos.
O pequeno Ricardo o Ricardinho já fazia quatro anos. Era um miúdo esperto, cheio de perguntas: porque é que o céu é azul, para onde vão as nuvens, e, claro, porque é que as formigas fazem fila. As educadoras do infantário até diziam que ele era muito curioso, aprendia depressa, guardava as rimas todas e era o miúdo dos porquês.
Quase todo o tempo ficava com a avó e o avô, os pais da Carminho, que pegavam em tudo com gosto: foram eles que arranjaram jardim de infância bilingue, inscreveram o neto nas aulas de natação, e ainda o metiam a bater palmas na iniciação ao ballet. A Carminho visitava-o algumas vezes por semana, mas nunca ficava mais de uma hora.
O motivo? Simples mas doloroso. O Ricardinho era a cara do pai. Mesma cor de cabelo escuro, olhos espertos e a tal sorrisão meio trocista. Sempre que Carminho olhava o filho, voltava a sentir-se no passado, naquele tempo em que acreditava numa família feliz. Amava-o com todo o coração, rejubilava com as conquistas dele, mas o amor vinha sempre acompanhado de uma dor funda. Bastava pegar-lhe ao colo ou encarar-lhe os olhos para as lágrimas quererem saltar. Então, virava a cara, fazia-se de ocupada e só se deixava levar depois, quando o miúdo não via.
Certa tarde, Carminho foi buscá-lo. Ricardinho estava no tapete da sala, muito compenetrado a montar um puzzle. Assim que viu a mãe, levantou-se a correr.
Ó mãe, olha! puxou-a para o tapete. Já só falta a casa e a árvore e depois vem o cão!
Carminho encolheu-se a seu lado, forçando um sorriso.
Que lindo, filhote passou-lhe a mão pelo cabelo. Fazes isso com uma calma…
Ele parou por uns segundos e olhou-a:
Mãe e o meu pai? Os meninos do jardim têm todos pai, menos eu…
O mundo parou, mas Carminho manteve o tom:
Olha, não sei, querido. O pai está longe agora. Mas pensa muito em ti, acredita.
Porque é que ele não liga? franziu o sobrolho, todo sério. Eu queria contar-lhe que já sei dar nós nos atacadores!
Anda demasiado atarefado, sabes? balbuciou ela, sentindo um nó na garganta. Mas tenho a certeza de que ficaria muito orgulhoso.
O menino refletiu mais um bocadinho, depois assentiu e voltou ao puzzle.
Então pronto, faço esta casa e depois o pai vê como sou esperto!
Carminho ficou a observá-lo entre lágrimas silenciosas, a debater-se com o que não conseguia dizer. Em vez disso, passou-lhe a mão pelo cabelo e ficou a cheirar-lhe o champô, a saborear aquele momento: o filho ali ao lado, feliz e confiado, ainda que houvesse perguntas sem resposta.
Mesmo assim, Carminho não conseguia deixar de pensar nos ses do Ricardo, o pai. Por vezes dava por si a inventar desculpas: alguma tragédia? Um acidente? Talvez tivesse sido impedido de a procurar! Era a maneira dela de se aguentar, sem cair em desespero.
Os mais próximos tentaram acordá-la para a vida: A mãe sugeria que era altura de seguir em frente, pensar só em si e no filho; as amigas eram mais diretas: Ele pôs-te de parte. Segue caminho! Mas Carminho não queria saber. Defendia o indefensável, lembrava sorrisos, promessas e as férias improvisadas à beira-mar. Normalmente, acabava calada ao canto e os amigos desistiam, cada um para seu lado.
Não era pessoa de ficar parada. Controlava-lhe as redes sociais, dizia a conhecidos se o tinham visto, colocava apelos nos fóruns online Nada. Mas aceitar de vez que o Ricardo foi, porque quis, isso é que ela nunca conseguia.
Até que, cinco anos depois, apareceu um novo protagonista na peça: Tiago. Aconteceu por acaso, num aniversário de um amigo em comum; bastou trocarem meia dúzia de palavras para Carminho sentir que talvez a vida não fosse só calhaus. O Tiago era estável. Daqueles homens com os pés na terra. Era atencioso, gentil, e ela até se sentia à vontade para ser moça normal, sem precisar de um sorriso colado a fita cola. Se lhe apetecia silêncio, ótimo. Tiago fazia o mesmo.
Em pequenos gestos sentia-se “amada”: ele sabia o café preferido dela, perguntava sempre pelos colegas do escritório e, sem ninguém dar por isso, despachava os recados do dia-a-dia. Era o sonho de qualquer sogra.
O que a conquistou mesmo foi como Tiago conseguiu lidar com o Ricardinho. Logo no primeiro encontro, o miúdo espreitava por detrás das pernas da mãe, atento ao senhor estranho. Mas Tiago baixou-se a altura do rapaz e perguntou-lhe que desenhos animados gostava. Meia hora depois já estavam ambos a construir castelos de Lego.
Tornou-se habitual vê-lo por casa dos pais de Carminho. Ia com Ricardinho ao jardim, ensinava-lhe a andar de bicicleta, lia-lhe as histórias da carochinha. Um dia, enquanto desenhavam juntos, Tiago disse serenamente: Quero ser realmente pai dele. Se me deixares, estou mesmo disposto a adotá-lo.
Leonor estava radiante. Via bem que Carminho começava a brilhar, as sombras iam embora do rosto, o sorriso deixara de ser aquele ar forçado. Mas Leonor foi meter água ao relembrar o ex, e agora só desejava que não tivesse estragado o dia.
Carminho respondeu surpreendentemente serena.
Cresci, Leonor disse com leveza, voltando a compor o vestido na cama. Já percebi que o que sinto pelo Ricardo tem de ficar para trás. Por vezes até penso: onde tinha a cabeça quando decidi dar ao miúdo aquele nome? Não ouvi ninguém… Como é que me aturavam, sinceramente?
Leonor tocou-lhe levemente na mão.
Estás a pensar levar o Ricardinho para tua casa?
É isso. O Tiago acha que faz sentido, queria até mudar-lhe o nome. Diz que seria mais fácil para mim. Em todo o caso, com a adoção vai ser preciso novo registo. Vou pensar.
Olhou distraidamente pela janela, seguindo as gotas de chuva.
Pensei que aquele menino fosse só a lembrar-me dores, mas agora sei: ele é meu filho, precisa de infância normal e de dois pais que gostem dele! Avós são maravilhosos, mas nunca é a mesma coisa. E o Tiago percebe isso ligou-se mesmo ao miúdo, acredita!
Pede-lhe opinião sobre um nome! Assim ele escolhe com vocês.
Logo se vê, vou ponderar.
Na verdade, Carminho continuava presa ao Ricardo, mas sabia que mais valia largar o passado e pegar-se ao presente. Os pais já tinham pouca paciência para ela sempre lágrimas, sempre o mesmo drama. Os amigos davam, por trás, como perdida. Nada como agarrar-se ao que estava por vir: o casamento, ora.
Só que pois, era mais complicado do que parecia.
Tiago era o homem ideal, mas não era o Ricardo.
Se o Ricardo aparecesse ela largava tudo num instante.
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Não vai haver casamento! anunciou Carminho, olhos faiscantes, quase aos pulinhos. Vamos cada um à sua vida, tipo caravelas!
O Tiago olhava sem perceber nada. A cerimónia era dali a uma semana, tudo tratado: lista de convidados, ementa, flores e até a música da nossa vida. E agora, assim de rompante?
O quê, não vai haver? Tentou perceber se era piada de mau gosto ou ataque de pânico. Carminho, o que é que se passa?
Ela só acenou, nem quis saber. Cirandava a apanhar coisas, atirava-as para o saco de viagem. Tinha uma luz nos olhos e um sorriso tão genuíno quanto desconcertante.
O Ricardo voltou! largou ela, a voz cheia de felicidade autêntica. Veio ontem, tivemos aquela conversa nem parecia verdade!
Parou, olhou para Tiago, uma mistela de entusiasmo e impaciência no rosto.
Agradeço-te tudo nestes meses suavizou o tom. Contigo foi calmo, sem dramas. Tu és maravilhoso, Tiago. Mas nunca te amei a sério. Agora que tenho uma oportunidade para ser realmente feliz não posso desperdiçar.
Tiago sentiu um gelo no estômago. O Ricardo. Sempre o Ricardo. Ela falava nele como se fosse o D. Sebastião ressuscitado no nevoeiro Ele sempre soube que Carminho nunca o esqueceu, mas acreditou que o tempo iria mudar as coisas.
Já falaste mesmo com ele? perguntou, a voz presa.
Sim. Não teve de inventar desculpas, explicou-se. Foi sincero, diz que pensou sempre em mim e percebeu a asneira que fez.
Ela encolheu os ombros e voltou a colocar roupas no saco.
Falámos por telefone dizia, abrindo gavetas. Os pais obrigaram-no a fazer o mestrado em Londres, cortaram-lhe o acesso a tudo, nem telemóvel tinha. Mas agora voltou e nunca mais me perde.
Carminho recordava ainda a chamada em que, do outro lado, Ricardo parecia aflito:
Os meus pais puseram-me perante o facto consumado: ou Londres ou morria para eles. Resisti, mas bloquearam-me tudo. Nem telefone!
Podias ter enviado uma carta, ao menos arriscara ela, a conter a mágoa.
Ia dizer o quê? Que fui fraco?
A voz dele apagara todas as mágoas. Era aquilo que ela queria escutar, sempre quis.
Agora é diferente garantiu Ricardo. Voltei.
Os ecos daquele momento entraram-lhe pelo quarto enquanto arrumava coisas.
Reparou que Tiago ficara branco, de olhos perdidos.
Já falei com toda a gente disse finalmente, num tom prático. Avisei que não vai haver casamento, pedi para não te chatearem. Vão dar-te umas palmadinhas nas costas, mas és rapaz forte.
Foi ao saco, puxou-o para si, ajeitou a pega.
E, por favor, não me ligues, não mandes mensagens desesperadas. Não vou mudar de ideias, Tiago.
Ela saiu porta fora, tão direita quanto a alça pesada permitia.
Tiago ficou ali, parado, sentindo um peso a comprimi-lo. Respirou fundo, segurando as emoções. Teve vontade de gritar, mas conteve-se: não ia dar parte fraca. Apertou os punhos, abriu-os. Falou num tom quase monótono:
Não podes estar a precipitar-te, Carminho.
Ela vacilou na porta, mão na mala.
E se ele não quiser voltar para ti? Se recusar o miúdo? Ou já te propôs casamento?
Carminho virou-se de rajada, vermelha de emoção e fúria:
Ele quer ter uma conversa séria. Chega!
E, de saco em riste, lá seguiu.
Ele ainda hesitou para ajudar com a mala, mas parou. Não ia ajudar quem acabara de lhe dar com a porta na cara. Dava para ver que a cabeça dela já estava longe, em modo lua-de-mel imaginária. Sonhava com reencontros apaixonados, com o Ricardo a jurar amor eterno.
Só que o filme ia ter outro final. O Ricardo só pretendia meter os pontos nos is, fechar a porta, seguir outra vida. E até já estava comprometido.
Carminho, embalada na fantasia, não viu nada disso. Demorou-se mais uns instantes a ajustar a mala, abriu a porta e saiu, sem olhar para trás.
Tiago afundou-se numa cadeira. Ecoavam-lhe os últimos protestos: o Ricardo não era assim, dizia ela.
Agora, era só o cheiro do perfume dela a pairar e um futuro a ter que ser reinventado do zero.
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Ricardo abriu a porta, bocejando pelo incómodo de visitas antes das nove. Carminho apareceu-lhe de peito cheio e malas em punho, olhos a brilhar, sorriso triunfante. Ele ficou de boca aberta, só pensava: Em que buraco me fui meter?
Na cabeça de Ricardo, a história deles já era capítulo fechado, principalmente depois de saber que Carminho estava com Tiago. Finalmente respirar, viver no Porto com a mulher dele, sem temer telefonemas ou lágrimas inesperadas. Até agradecia à Carminho ter seguido em frente.
Sim, ainda lhe ligou por cortesia, tentou explicar que agora era passado. Mas foi só isso: cortesia!
E de repente ali está, saída da novela, à porta, malas consigo e um ar de quem vem instalar-se.
Ricardo! exclamou, já com o discurso preparado. Decidi. Estamos juntos e ninguém nos vai separar!
Ela avançou, mas Ricardo travou-lhe o passo.
Calma, Carminho Precisas de perceber uma coisa.
O sorriso dela escorregou rampa abaixo.
Como assim? Viemos mesmo conversar!
Ele respirou fundo, sabia o que custava.
Sou casado, Carminho. Há dois anos. E estou bem assim.
Mudou de cor, olhos enormes, boquiaberta. Demorou uns instantes a encaixar. Depois, a cara deformou-se: pânico, mágoa, indignação.
Não pode ser Ligaste-me a dizer que tudo tinha mudado!
Liguei para nos despedirmos com dignidade respondeu ele em tom baixo. Era para encerrar o assunto. Mas tu ouviste só o que te convinha.
Ela recuou, mãos a tremer.
Mentiste-me este tempo todo! Como foste capaz? Deixei tudo por ti!
A paciência de Ricardo esgotava-se. Não queria barulho, mas Carminho não arredava pé.
Nunca te prometi nada cortou ele. Tu é que fizeste filmes na tua cabeça. Agora percebe, está terminado.
Carminho soltou um grito, atirou a mala ao chão, espalhando roupas no hall. Começou a berrar, a exigir explicações. Ricardo, entre o educado e o desesperado, conduziu-a até à rua, fechando-lhe a porta. Carminho continuou a gritar, cada vez mais alto e dramática.
Os vizinhos espreitavam, resmungavam. Chegada a hora das ameaças, quando um ameaçou chamar a polícia, Carminho lá desistiu. Antes de sair, virou-se, encharcada em lágrimas, e berrou:
Ainda vais arrepender-te! Eu volto!
Ricardo fechou os olhos, sentiu o peso da canseira. Sabia que não ia acabar ali. Carminho não era de desistir facilmente.
Foi sentar-se, abriu o OLX no telemóvel. “Mais vale pôr isto à venda e ir morar para Gaia”, pensou.
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Carminho vagueou pelas ruas do Porto, submersa em lágrimas, sem sentir frio, vento ou miados de gatos. Caminhava automaticamente e de repente estava em frente ao prédio do Tiago. Enxugou os olhos, ajeitou o cabelo, e lá carregou no botão da campainha.
Tiago demorou a abrir. Quando apareceu à porta, estava de semblante fechado. Nem bom dia lhe saiu.
Tiago, por favor sei que fui parva, horrível. Percebi que só contigo posso ser feliz. Dá-me uma segunda oportunidade!
A voz quebrou-se-lhe, lágrimas a roçarem-lhe a maquilhagem dos olhos.
Nunca mais menciono o nome do Ricardo, prometo. Só quero ficar contigo.
Tiago abanou a cabeça lentamente, sem ironia mas sem hesitação.
Carminho, tu escolheste. Foste embora mal podias, e agora voltas porque as coisas correram mal?
Sim! choramingou ela. Porque és tu quem amo.
Ele ficou em silêncio, depois sorriu, triste.
Já não acredito em ti. Adeus, Carminho.
Ela estacou, sentindo-se a afundar. Tiago olhava para ela sem raiva, só fechado num portão intransponível.
Por favor sussurrou ela.
Perdoa, mas assim é melhor. Para ambos.
Fechou a porta. Carminho gelou, deixou-se tombar num degrau da escada, e chorou. Chorou por ter perdido o Ricardo, o Tiago e, acima de tudo, por não saber onde parar de se perder de si mesma.
Nem sempre a vida é como nos romances, pois não? E, ao que parece, no Porto também não há finais felizes de novela mexicana.







