Não Vai Haver Casamento
Recordo-me tão bem daquele dia longínquo em Lisboa, quando a Leocádia entrou no quarto e ficou imóvel à porta. Diante dela, trajando um vestido de noiva esvoaçante, estava Mafalda e como ela estava deslumbrante! O vestido abraçava o seu corpo com perfeição, e havia um brilho delicado de felicidade nos seus olhos. Leocádia não conseguiu esconder o entusiasmo:
Oh meu Deus, tu brilhas, Mafalda! exclamou, sem tirar os olhos da amiga. Que alegria imensa por ti! Finalmente conseguiste fechar aquele capítulo e abrir o coração a novos sentimentos, esquecendo o Tiago! És uma leoa!
Mafalda esboçou um sorriso nervoso que logo desapareceu, e começou apressadamente a desapertar os minúsculos botões do vestido, evitando olhar Leocádia.
Se calhar, é melhor tirá-lo murmurou, concentrando-se nos fechos. Faltam só duas semanas para o casamento e se acontecer alguma coisa ao vestido, nem vale a pena pensar
Leocádia mordiscou o lábio, apercebendo-se que tinha falado demais. Para quê lembrar o Tiago, logo agora que o futuro de Mafalda parecia finalmente sorrir-lhe? Depois de tudo o que Tiago lhe fez, ele não merecia sequer um pensamento!
Houve um tempo em que Mafalda julgava que ele era o homem da sua vida. Acreditou apaixonadamente que estariam juntos para sempre mas tudo começou lentamente a desmoronar. Primeiro, tornou-se distante, arranjando pretextos para não estarem juntos, depois começou a criticar abertamente as escolhas dela, os amigos, os sonhos. Convenceu Mafalda a largar um projeto promissor no emprego, a desistir de um estágio em Paris, até obrigou-a a mudar de carreira.
Os pais de Mafalda não compreendiam o que se passava. Vi-a perder o fulgor, a transformar-se, a apagar aos poucos mas nada podiam fazer. As tentativas de conversar só geravam discussões; Tiago enchia-lhe a cabeça, dizendo que a família não o aceitava e só queria destruir o amor perfeito deles. O conflito cresceu, e de repente Mafalda quase não falava com os pais.
E depois Ele desapareceu. Pura e simplesmente foi embora, sem um bilhete, sem uma palavra de explicação. Ficou apenas a ferida profunda e o filho que Mafalda decidiu criar sozinha, custasse o que custasse.
Agora, vendo Mafalda despir a roupa de noiva à pressa, Leocádia sentiu-se esmagada pela culpa. Só queria ver a amiga feliz, finalmente em paz. Nunca quis trazer fantasmas do passado para o presente.
O pequeno Tiago, agora com quatro anos, era um miúdo cheio de energia e curiosidade. Passava o tempo a perguntar por que é que o céu era azul, para onde iam as nuvens, a observar minúsculos insetos no jardim da avó. No jardim-de-infância, as educadoras diziam que era um verdadeiro espertalhão: aprendia rápido, decorava poema sem esforço e adorava ouvir histórias de encantar.
Quase sempre, era criado pelos avós os pais de Mafalda , que o mimavam e davam-lhe tudo o que podiam. Foram eles que escolheram a escola com inglês, o levaram ao natação e o inscreveram em aulas de dança. Mafalda visitava-o várias vezes por semana, mas nunca ficava muito tempo; raramente passava de uma hora.
O motivo era cruel: Tiago era assustadoramente parecido com o pai. O mesmo cabelo escuro e ondulado, o mesmo olhar, até aquele sorriso trocista. Cada vez que olhava para o filho, Mafalda era atirada de volta ao tempo em que acreditava numa família feliz. Amava o filho acima de tudo, aplaudia o seu crescimento e vibrava com as suas conquistas. Mas junto com o amor vinha uma dor lancinante, difícil de disfarçar. Quantas vezes disfarçou a lágrima, fingindo procurar qualquer coisa na mala, para poder chorar escondida
Certa noite, Mafalda foi buscar o filho a casa dos pais. O menino montava um puzzle, a testa franzida de concentração. Quando a viu, saltou de alegria e puxou-a para junto do tapete.
Mamã, olha! convidou, radiante. Falta só pôr aqui o cão ao lado do moinho!
Mafalda sentou-se ao seu lado, esforçando-se por sorrir.
Está lindo, querido. Estás a fazer um trabalho excelente!
O rapazinho hesitou, fitando a mãe em busca de algo mais.
Mamã onde está o meu pai? Na escola, todos os meninos têm pai, eu é que não tenho
Por dentro, Mafalda sentiu-se a desfazer. Fez um esforço para soar serena:
Não sei, filho. O papá está muito longe agora, mas pensa muitas vezes em ti.
Mas ele nunca telefona insistiu Tiago, numa tentativa de resolver o grande enigma. Se calhar, já lhe podia contar como já sei dar nós nos atacadores sozinho!
Ele Ele tem a vida muito atarefada, murmurou Mafalda, sentindo o nó na garganta apertar. Mas vai ficar orgulhoso de ti.
O menino aceitou a explicação, aninhou-se de novo no puzzle e declarou com convicção:
Pronto. Quando acabar esta quinta, ele há de ver como sou esperto!
Mafalda ficou ali sentada, olhando-o com ternura e um travo amargo, fazendo força para não chorar. Pegou-lhe nos cabelos macios, sentindo aquele cheirinho a shampoo infantil e desejando fixar aquele instante um momento em que tudo parecia certo, apesar das perguntas que não tinha coragem de responder.
No fundo, Mafalda continuava a tentar arranjar desculpas para Tiago, o pai. Talvez lhe tivesse acontecido alguma desgraça? Ou não podesse contactar? Isso impedia-a de tombar no mais fundo desespero.
Os familiares tentavam abrir-lhe os olhos. A mãe dizia-lhe baixinho que não podia viver no passado, tinha de pensar no filho. As amigas, como Leocádia, eram mais diretas: Ele abandonou-te, Mafalda. Tens de seguir em frente. Mas ela não queria ouvir. Defendia-se contando como tinham sido felizes, relembrando promessas. As conversas acabavam quase sempre com Mafalda a isolar-se, enquanto quem a amava suspirava e desistia.
Ainda assim, não desistia de agir. De vez em quando espreitava as redes sociais, perguntava o paradeiro dele a amigos, escrevia mensagens a pedir notícias. Tudo em vão. Parecia incapaz de aceitar a ideia de que Tiago tinha ido embora de livre vontade e não pensava regressar.
Até que, passados cinco longos anos, um novo homem surgiu na sua vida, conseguindo enfim aquecer-lhe o coração. O encontro deu-se por acaso, num jantar de aniversário de uma amiga em comum. O Henrique prendeu-lhe a atenção de imediato. Havia nele uma aura de confiança, de solidariedade verdadeira. Um homem bom. E, o mais importante, genuíno.
Mafalda sentiu-se bem do início: com o Henrique podia ser ela própria. Ele não cobrava felicidades forçadas nem exigia conversas quando o silêncio era necessário; se estivesse cansada, ele só sugeria voltar a casa. Era um homem equilibrado e apaixonado, e Mafalda, pela primeira vez em anos, sentia-se protegida.
O carinho de Henrique via-se nos detalhes: sabia qual café ela preferia, recordava os nomes dos seus colegas, arranjava soluções para tudo o que era prático. E Mafalda aproveitou, sem grandes pudores, o mimo e a dedicação.
Mas o que mais a tocou foi ver Henrique conquistar Tiaguinho. Logo na primeira visita, sentou-se ao nível do menino e perguntou sobre desenhos animados e carrinhos. Pouco depois, estavam os dois a construir uma torre de blocos, com Tiaguinho a exibir os brinquedos ao amigo grande.
Com o tempo, Henrique passou a frequentar a casa dos pais de Mafalda, levando Tiago ao parque, ensinando-o a andar de bicicleta e contando-lhe histórias para adormecer. Uma tarde, surpreendeu Mafalda dizendo: Gostava de ser mesmo o pai dele. Se concordares, adotava Tiago de coração. Mafalda viu nos olhos dele tanta ternura, que sentiu esperança de novo.
Leocádia enchia-se de alegria ao ver a amiga florescer aos poucos: o olhar da Mafalda ganhara brilho e a velha inquietação desaparecera. Mas nesse dia, Leocádia teve o azar de mencionar Tiago, o antigo companheiro, reabrindo uma ferida ainda dorida.
Contudo, Mafalda sorriu com uma serenidade nova:
Cresci, disse baixo, alisando o vestido na cama. Percebi que os meus sentimentos pelo Tiago têm de ficar arrumados lá atrás. Às vezes arrependo-me de ter chamado o rapaz Tiago também. Fui teimosa e cabeça-dura. Não sei como é que me aturaram
Leocádia tocou-lhe no braço, com cuidado:
E vais trazer o Tiaguinho para viver contigo?
Sim, respondeu logo Mafalda, séria. O Henrique insiste nesse ponto. Até sugeriu mudarmos o nome do menino, para ser mais fácil para mim. Teremos de refazer o registo civil de qualquer forma, quando acontecer a adoção.
Fez uma pausa, olhando lá para fora, onde a chuva escorria pelas vidraças.
Antes tinha medo de que o Tiaguinho fosse sempre uma lembrança do passado. Agora vejo que é só meu filho. Tem direito a uma infância feliz com dois pais que o amam, de verdade! Os avós fazem tudo, mas não substituem os pais. E o Henrique quer mesmo ser pai dele. Devias ver como já se adoram!
Acho ótima ideia! animou-se Leocádia. Talvez possas escolher o nome novo com o Tiaguinho. Vai ajudá-lo a adaptar-se.
Ainda não sei, tenho de pensar. O tempo dirá.
Na verdade, Mafalda estava a esconder-se atrás dessas palavras. Ainda amava Tiago, mas esse amor só lhe trouxe dor. Os pais já lhe negavam ficar com o filho, pois Mafalda chorava em todas as visitas, assustando o miúdo. Os amigos já nem conseguiam ouvir falar no assunto, duvidando da sua sanidade. Era hora de largar o passado e olhar para a frente.
Para o casamento, por exemplo.
Só que isso era tão difícil.
Henrique era, sem dúvida, bom homem. Mas não era Tiago. Mafalda não sentia por ele verdadeira paixão, limitando-se a aproveitar-se do seu afeto.
Se Tiago voltasse Daria tudo para estar ao seu lado.
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Não vai haver casamento! anunciou Mafalda, os olhos a brilhar, quase dançando de alegria. Cada um segue o seu caminho, como navios no mar!
Henrique olhou para ela, incapaz de entender as palavras. Só faltava uma semana: já tinham escolhido o serviço de catering, as flores, enviado convites. Estava tudo preparado, real, quase palpável. E agora, de repente, Mafalda dizia aquilo?
Como assim não vai haver? tentou confirmar, acreditando que fosse uma brincadeira de mau gosto. Mafalda, o que se passou?
Mafalda ignorou as perguntas. Corria de um lado para o outro, apanhando roupas, enchendo a mala. Os seus olhos brilhavam e os lábios esboçavam um sorriso genuíno, diferente.
O Tiago voltou! atirou sem olhar para Henrique. O seu tom era um tal de felicidade que ele sentiu um vazio crescer cá dentro. Chegou ontem, tivemos uma longa conversa Ao início nem acreditei!
Parou de repente e olhou-o de frente. No seu olhar só havia entusiasmo e pressa.
Agradeço-te tudo deste últimos meses, continuou, mais meiga. Deste-me tranquilidade, serenidade. És uma ótima pessoa, Henrique. Mas nunca te amei como ele. E agora que tenho uma hipótese de ser verdadeiramente feliz, não vou desperdiçá-la.
Henrique sentiu o peito gelar. Tiago, sempre Tiago. O nome que Mafalda dizia com aquele fascínio, tornando-o sempre um estranho na própria relação. Tinha esperança que, com o tempo, Mafalda esquecesse, mas iludiu-se.
Já falaste com ele? arriscou, tentando manter o controlo. Deu-te alguma razão desta vez?
Não deu desculpas nenhumas, respondeu Mafalda com certa aspereza. Disse que percebeu o erro que cometeu. Que nunca deixou de pensar em mim.
Virou-lhe costas para continuar a arrumar acessórios. Henrique sentiu a vida a desbotar.
Falámos ao telefone, continuou ela, remexendo nas gavetas. Os pais obrigaram-no a estudar fora. Nem sequer teve como avisar. Mas agora tudo vai ficar bem vamos finalmente ter a vida que devíamos!
Mafalda recordou as palavras daquele telefonema, depois de tanto tempo:
Mafalda, não imaginas o que passei. Fui obrigado pelos meus pais a estudar Direito em Londres, diziam ou vais, ou não queremos saber de ti. Cortei cartões, contas, tudo. Nem telemóvel tinha
Mas nunca ligaste uma vez! respondeu ela, tentando não soar magoada.
Com que cara ligava? Para dizer que fui um fraco e obedeci aos meus pais?
Naquele momento, Mafalda sentiu o ressentimento desaparecer ao som da sua voz. Esperara por aquela chamada todos os dias. Agora, Tiago regressava. E prometia nunca mais partir.
Estas memórias ecoavam nela, ali diante de Henrique.
De repente, verificou se não esquecia nada e só então reparou como Henrique estava branco, imóvel, fitando o vazio.
Vai correr tudo bem. disse Mafalda, suavizando, mas firme. Avisei toda a gente da anulação do casamento. Expliquei tudo, pedi que não te incomodassem. Vais receber telefonemas de amigos solidários, mas tu és forte.
Levou a mala, endireitou-se e, já à porta, sem sombra de dúvida explicou:
E, por favor, não me ligues nem escrevas. A minha decisão é definitiva, não vai mudar!
Ergueu-se, agarrou a mala, cambaleou com o peso, corrigiu a postura e saiu para o corredor, sem olhar para trás.
Henrique ficou parado, o peito a apertar-se de dor e incompreensão. Quis gritar, exigir explicações, mas calou-se. Fechou as mãos e depois abriu-as, dominando o impulso da emoção.
Estarás a precipitar-te? perguntou ele, voz calma, quase sem vida.
Mafalda hesitou na porta, de costas para ele, ombros tensos.
E se ele não quiser voltar a juntar-se? Ou se recusar o filho? Ou tu pensaste em tudo?
Ela girou, o rosto ardente de excitação e impaciência. Deu dois passos em frente para vincar o seu argumento.
Ele chamou-me para uma conversa séria! Isso basta! E não digas mal dele o Tiago não é assim!
A voz tremeu-lhe, mas não vacilou. Aproximou-se da mala e saiu.
Bem podias ajudar! atirou, tentando levantar a mala.
Henrique deu um passo, mas conteve-se. Afinal, porque ajudaria quem agora já pertencia a outro? Viu que, mentalmente, Mafalda já estava longe.
Mas a realidade seria outra. Tiago não tencionava casar ou prometer amor eterno. Queria apenas fechar um ciclo. Até porque, na verdade, já tinha alguém.
Mafalda, afogada nas suas ilusões, recusava ver. Quis tanto acreditar, que tomou a fantasia como verdade absoluta.
À porta, parou um instante, pensou em falar mas desistiu, abriu a porta bruscamente e partiu.
Henrique ficou no centro da sala, olhando o vazio. O perfume subtil dela ainda pairava, e ecoavam-lhe as últimas palavras: O Tiago não é assim!
Aterrando numa cadeira, sentiu-se afogado. Tudo foi rápido. Agora teria de aprender a viver sem Mafalda, sem sonhos, sem ilusões
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Tiago abriu a porta, surpreso pela visita àquela hora. Mafalda surgiu com malas e olhar radiante, cheia de esperança. Ele ficou mudo de espanto. Pensou apenas: Como é que ela pôde enganar-se tanto?
Tiago julgava o assunto encerrado. Ao saber do namoro com Henrique, sentiu um alívio; podia voltar para Coimbra com a esposa, sem mais dramas nem telefonemas desgastantes. Chegara a agradecer a Mafalda, em pensamento, por seguir em frente.
Sim, fizera-lhe uma chamada para explicar que queria encerrar o passado, sugerir um último encontro apenas por cortesia.
Agora, via Mafalda à sua porta com malas, obviamente a nutrir expectativas. Deu um passo atrás, à procura de uma solução educada.
Tiago! exclamou ela, tomada de emoção Decidi tudo. Vim para ficarmos juntos!
A convicção dela era desconcertante. Deu um passo à frente, mas Tiago parou-a com um gesto.
Mafalda, espera disse, gentilmente. Se calhar, não sabes tudo.
Ela franzia o sobrolho, sorrindo menos.
Como assim? Viemos falar do futuro!
Tiago suspirou, aceitando o inevitável.
Estou casado, Mafalda. Vai fazer dois anos. Eu e a minha mulher somos muito felizes.
Mafalda parou, olhos rasos de choque. Demorou segundos a reagir, sem acreditar no que ouvia. O rosto enrubesceu numa mistura de raiva, pânico e incredulidade.
Não pode ser Ligaste-me a dizer que tudo tinha mudado!
Liguei para me despedir decentemente, respondeu Tiago, num murmúrio. Queria que percebesses que cada um de nós tem agora a sua vida. Se calhar entendeste mal.
Mafalda recuou, as mãos a tremer. Tentou controlar-se, mas era difícil.
Andaste a mentir-me este tempo todo! Deixei tudo por ti!
Tiago sentiu-se irritado. Não queria discussões, mas Mafalda não largava o tema.
Eu nunca te prometi o que pedias. Foste tu que decidiste que estaríamos juntos. Nunca quis magoar-te, por isso tentei ser sempre delicado. Mas agora acabou, não achas?
Ela gritou, atirou uma das malas ao chão, espalhando roupa. Exigia explicações, repetia acusações, cada vez mais alterada.
Tiago, paciente, conduziu-a até à porta do prédio e fechou a porta, esperando que fosse a última vez. Mas Mafalda continuou, batendo, gritando o nome dele, não se calando. Os vizinhos começaram a espreitar, alguns indignados até ameaçaram chamar a Polícia.
Depois de uma hora, quando as reclamações aumentaram e a ameaça de Polícia se tornou real, Mafalda retirou-se finalmente. Antes de desaparecer, olhou para trás, o rosto banhado de lágrimas:
Eu hei de voltar! Vais arrepender-te!
Tiago fechou os olhos, exausto. Sabia que Mafalda não desistiria facilmente. Tinha de agir: ficar ali era impensável ela podia aparecer, arranjar problemas com vizinhos, criar escândalos. Abriu o site das imobiliárias:
É vender o apartamento e procurar outro, de preferência longe, pensou.
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Mafalda caminhava pelas ruas de Lisboa sem dar conta do mundo. As lágrimas escorriam, a cabeça fervilhava, sentia o peito vazio, sem rumo. No seu coração, Tiago deveria ter aberto os braços, sorrido e a realidade mostrou-se dura e cruel.
Vagou pela cidade, tentando recompor-se, e acabou por se dirigir para casa de Henrique. À porta, limpou as lágrimas, ajeitou o cabelo, fez um esforço para parecer minimamente digna. Respirou fundo, subiu e, já sem coragem, tocou à campainha.
Henrique demorou a aparecer. Quando abriu a porta, o rosto estava fechado, distante. Olhou-a em silêncio, sem a convidar a entrar.
Henrique por favor, começou Mafalda, a voz trémula. Sei tudo o que fiz. Percebo como fui tola e injusta. Mas eu eu gostava de remediar as coisas.
Calou-se, procurando palavras. As lágrimas tornaram a aparecer.
Nunca mais falo no nome do Tiago, nunca, prometeu, encarando-o. Juro. Só contigo posso ser feliz. Dá-me mais uma oportunidade.
Falava com sinceridade, sentindo mesmo tudo o que dizia naquele instante. Se Henrique a perdoasse, talvez tudo voltasse a ser bom.
Henrique abanou a cabeça lentamente. Não ia embarcar no mesmo erro.
Mafalda, disse baixo, tu fizeste a tua escolha. Há poucas horas, estavas na minha casa de malas feitas, a dizer que ias viver com ele. Tinhas todas as certezas do mundo.
Enganei-me! interrompeu ela. Estava em choque, já não sabia o que fazia, estava
Henrique passou a mão pelo cabelo, determinado.
Não foste só embora de mim foste para ele. Fizeste a tua escolha, aceitei. Agora, que as coisas não correram bem, procuras-me de novo?
Pois procuro! Porque percebi que és tu que amo. Só tu.
Ficou um momento calado, depois sorriu triste e disse com espantosa lucidez:
Já não acredito em ti, Mafalda. Adeus.
Ela sentiu o mundo desabar. O olhar de Henrique não expressava rancor ou ódio, apenas uma distância definitiva.
Por favor suplicou, mas a voz ficou-lhe presa na garganta.
Desculpa, respondeu Henrique. É melhor assim para os dois.
Fechou a porta, deixando Mafalda sozinha no corredor. Ela ali ficou parada, até se deixar cair nas escadas, o rosto nas mãos, a soluçar. Desta vez, as lágrimas eram de perda perdera Tiago, perdera Henrique, perdera-se a si própria nesta história absurda E agora, não sabia como seguir em frente.







