O Avô Já Não Está Entre Nós

O Avô Já Cá Não Está

Beatriz mal tinha regressado de mais uma deslocação de trabalho e nem sequer teve tempo para se despir e desfazer a mala, quando lhe telefonou a mãe.

A voz de Dona Maria do Céu estava agitada, mas Beatriz não lhe deu verdadeira importância. Talvez fosse o cansaço, pensou ela.

Bé, filha, já estás em casa?

Olá, mãe. Sim, cheguei agora mesmo. Acabei de entrar no apartamento. Aconteceu alguma coisa?

Ainda bem que já estás em casa.

Beatriz percebeu logo que a mãe queria dizer-lhe algo, mas evitava ir direta ao assunto. Parecia não saber como começar, ou talvez por outra razão qualquer.

De certeza que recolheu mais mexericos do prédio todo e não vê a hora de mos contar… pensou Beatriz. Mas naquele momento só queria era tombar na cama e dormir profundamente. Na viagem de comboio, nem um olho conseguiu fechar: no compartimento ao lado ia um grupo de jovens que, desde o início da noite, não parava de cantar e tocar viola, fazendo algazarra. Até chegaram a cantar uma música antiga, mudando-lhe o nome:

As cerejeiras estão em flor, corre o nevoeiro pelo Tejo. À beira-rio lá vai Beatriz, por entre as margens com desejo. ecoava a canção do outro lado da parede.

Em outras circunstâncias, talvez risse, mas naquela noite só desejava que as cordas da guitarra partissem de vez. Não partiram…

Mãe, vou descansar um pouco da viagem, tomar um banho, e depois ligo-te de volta para conversarmos, pode ser?

Receio que não vai dar, suspirou a mãe.

Não percebi… Que não vai dar o quê? Só nesse momento Beatriz se apercebeu de que a voz da mãe soava diferente.

Descansar, filha. Não vais conseguir descansar…

Mas porquê? Estive fora em trabalho, tenho esse direito. Não estou à espera de visitas, nem vou visitar ninguém. Ou há alguma coisa que eu não sei? Não vais aparecer cá sem avisar, pois não?

Bé, o avô já cá não está…

Beatriz empalideceu, apertou o telemóvel contra o ouvido e deixou-se cair devagarinho no sofá. Tal notícia era a última coisa que esperava ouvir.

A vizinha dele, Dona Amélia, telefonou-me hoje de manhã. Foi lá levar-lhe leite, e encontrou o seu Manel tombado à entrada, agarrado ao peito, já sem respirar. Deve ter ficado ali a noite inteira… Temos de ir à aldeia, filha, tratar do funeral. Os vizinhos vão ajudar, se for necessário. Ouves-me, Beatriz?

Beatriz ficou tão atordoada que nem sabia o que responder. Mas lá arrastou um Hmm quase imperceptível.

A Dona Amélia ainda ligou aos outros familiares dele, mas ninguém quer vir. Disseram-lhe logo que, se ele lhes tivesse deixado alguma herança, talvez pensassem nisso, mas assim qual é o sentido de gastar dinheiro e tempo? E o casebre onde o avô vivia, sabes bem, já não serve para nada a ninguém, Dona Maria do Céu fez uma pausa, depois continuou: Olha, sinceramente, também não tenho vontade nenhuma de ir àquela aldeia, ainda por cima porque o teu avô bem me disse que não queria ver-me lá em casa dele. Nem ao funeral queria que eu fosse. E prometi-lhe que assim seria. Por isso, só posso contar contigo, filha. Consegues ir, Bé? Despedes-te do avô por nós?

Maria do Céu calou-se. Beatriz também ficou em silêncio, olhando para a cómoda onde estava a carta do avô. Uma carta recebida com o carimbo dos Correios de há um mês, perdida na avalanche dos dias e das viagens.

Nos últimos seis meses aquela era já a terceira deslocação que fazia, e a empresa onde trabalhava tinha acabado de abrir uma filial no Porto. Ela era a única escolhida para pôr tudo a funcionar: uns colegas não podiam por causa da saúde, outros por causa dos filhos, outros por motivos de família… Só ela era livre como um passarinho.

Bé? a voz materna voltou a soar do altifalante. Só não quero que pensem por aí que nos esquecemos do teu avô. Era uma pessoa difícil, sim, mas era gente. E contigo, até se dava bem. O que devo dizer à Dona Amélia? Vais à aldeia?

Vou sim, mamã. Claro que vou. Mas

Beatriz levantou-se do sofá, aproximou-se da cómoda onde estava a carta, pegou nela e voltou a pousá-la.

Mãe, não entendo como é possível. O avô estava bem da última vez que lá estive, no Natal. Parecia cheio de vida, não se queixou de nada.

Filha, lá isso não sei murmurou Maria do Céu. Ele já era velho, não te esqueças. Muitos homens já nem chegam à reforma, e o teu avô já ia nos oitenta. Não nos podemos queixar… Que descanse em paz.

Beatriz estava em choque. Gostava muito do avô, e era quase a única que ainda falava com ele. Nenhum dos outros familiares de Manuel da Silva mantinha contacto, nem a mãe. No caso da mãe, era fácil de perceber: a zanga entre ela e o avô vinha de muitos anos, desde a morte do pai de Beatriz.

O avô nunca perdoou à nora a morte do seu único filho, e acusava-a de o ter esgotado a trabalhar até ele morrer novo, num daqueles casos em que, segundo ela própria dizia, os homens não chegam à reforma. De facto, Maria do Céu tinha convencido o marido a sair do antigo emprego e andar em trabalhos sazonais para renovar a casa, comprar uma terreno e oferecer uma vida mais desafogada. André, o pai de Beatriz, era professor de profissão, mas andava meses fora, para voltar sempre com presentes e euros suficientes. Até que o coração parou e não voltou mais. O avô chorou como nunca, e muitos dividiram a sua dor porque nenhum pai devia enterrar um filho.

Desde esse dia, nunca mais falou com a nora e proibiu-lhe a entrada em sua casa. Só com Beatriz mantinha ligação. Gostava imenso da neta, ela dele desde criança passava as férias grandes na aldeia com o avô, já adulta escreviam-se cartas, já que o avô não queria nada com telemóveis nem computadores.

Talvez por isso os outros familiares se tivessem afastado: em pleno século XXI, quem é que escreve cartas? No entanto, o avô fazia questão do papel e da caneta. Os vizinhos até o achavam um pouco excêntrico:

Já não bate bem diziam as velhas na praça. É natural, coitado, primeiro ficou sem mulher, depois perdeu o filho…

Ultimamente, diziam, falava sozinho ou melhor, com um gato. Nisto já nada havia de estranho, não fosse ninguém nunca ter visto tal gato! Nem a fiel vizinha Dona Amélia.

Com vontade nenhuma de ouvir mais, Beatriz deixou-se cair na cama e chorou. Queria tanto ter ido ao encontro do avô naquele verão, mas as deslocações trocavam-lhe as voltas. O patrão não tinha piedade com as viagens, mas perante qualquer reclamação, sorria-lhe displicente:

A lei está do meu lado, Beatriz. Se não gosta, há mais quem queira ganhar bem como a menina. Não se esqueça quanto é que aqui lhe pagam.

Beatriz resignava-se, pois o ordenado era de facto bom. Algum dia, pensava, voltaria tudo ao normal. Mas magoava-lhe o trato desumano. As pessoas são pessoas, não engrenagens. Também ela merecia ter vida própria, embora o trabalho lhe ocupasse tudo.

*****

No cemitério, tudo decorreu com a solenidade esperada. Após um minuto de silêncio e de cravarem o último prego na tampa do caixão forrado a veludo vermelho-escuro, os homens baixaram-no cuidadosamente ao túmulo com cordas.

Cada um atirou um punhado de terra, e, depois de cobrir a sepultura com as flores frescas e coroas, sobrou apenas o tradicional almoço fúnebre, regado com aguardente e palavras sobre o defunto. E nestas conversas e memórias agora e nos próximos anos Manuel da Silva continuaria a viver, mas apenas nas recordações de quem o conheceu. Quando as pessoas acabaram de comer e beber, despediram-se de Beatriz:

Força, menina. Era bom homem.

Ficou sozinha, com uma tristeza pesada. Nem consegui despedir-me antes de ele partir… Para não sucumbir ao desespero, meteu mãos à limpeza: ventilou a casa, lavou o velho soalho de tábuas, tirou o pó, varreu as teias de aranha, guardou no frigorífico o que sobrou.

Logo o ar se tornou mais leve.

A casa do avô, grande e robusta, era muito acolhedora, à moda antiga, apesar da decoração simples. Beatriz olhou da janela, reparou que já era noite. Foi à rua, respirou o cheiro a terra fresca.

Passeou pelo quintal. Nada de especial: as hortas arrumadas, semeadas noutros tempos, agora vazias porque Manuel da Silva não teve tempo ou ânimo para plantar naquele ano. Talvez sentisse o fim chegar.

No pomar, as macieiras e as groselheiras estavam em flor. O avô nunca deixava a terra sem se cultivar. Esforçava-se por manter tudo limpo e arranjado.

Quem irá tratar disto agora? pensou Beatriz, suspirando.

Sentou-se no banco debaixo da macieira e ligou à mãe, contando-lhe que já tinha cumprido a última homenagem.

Fizeste bem, Bé. Por mais complicado que fosse, era uma pessoa.

Mãe, o avô era normal. Só teve muita dor na vida. Não guardes rancor, está bem? Ele amava o papá acima de tudo, por isso disse o que disse.

Deixa lá, filha Que ele repouse em paz. Diz-me: quando pensas voltar? Hoje? Amanhã? Não deves gostar de estar aí sozinha.

Nem hoje, nem amanhã, mãe. Tirei uns dias do trabalho, quero ficar aqui um pouco na aldeia. Preciso respirar longe do barulho da cidade. E são os nove dias, ainda. Não queres vir?

Ui, filha, tão longe? E com a horta, quem é que trata dela? E depois, sabes bem, nunca gostei dessas terras.

Está bem, mãe. Só te lembro: aqui também está o túmulo do papá. Nunca vieste aqui desde o funeral.

Disse várias vezes que preferia tê-lo enterrado na cidade, mas nunca me deram ouvidos. Olha, Bé, começou o meu programa favorito. Depois voltamos a falar, sim? Vai ligando se precisares.

Beatriz sorriu. A mãe era sempre assim: fugia aos assuntos difíceis com qualquer pretexto. Voltou para dentro, fez chá de folhas secas de groselha, hortelã e lúcia-lima que encontrou nas reservas do avô, bebeu e foi dormir.

Antes, pegou na carta. Já a tinha lido, mas voltou a relê-la.

Era estranha. O avô, em vez de falar dele, só falava de um tal gato Preto…

Imagina, minha netinha, o Preto afinal gosta tanto de leite! Dizem que gatos adultos não devem beber leite, mas o Preto ontem lambuzou-se com meia taça. Vou ter de pedir à Amélia que traga mais vai ficar admirada. Normalmente um litro dava-me para a semana, mas já acabou tudo. Pelo menos ela ganha com isso: pago-lhe sempre certinho. Mas o Preto está cheio de fome. E ainda por cima esconde-se de mim, mal o vejo. Só, às vezes, de relance, meio negro a fugir para o barracão. Já o procurei de dia e de noite, lanterna na mão, mas nada. Só sinto aqueles olhos nas costas. Fico à espera que venhas, neta. Talvez contigo ele confie. Ou juntos havemos de conseguir apanhá-lo. Pressinto que foi maltratado, tem medo das pessoas

E por aí fora. Mas nunca houve gato nenhum. Pelo menos, Beatriz não viu qualquer sinal dele em dias de estadia. Nenhum gato preto, nem sequer vestígios.

Seja como for, aquele olhar nas costas, que o avô descrevia, ela sentiu nitidamente, naquele mesmo dia. Virou-se mais do que uma vez, mas nada viu.

Havia de perguntar à Dona Amélia pelo Preto…

*****

Beatriz acordou com os primeiros raios de sol a esgueirarem-se pelas cortinas, os pardais chilreando, galos a cantar nos quintais vizinhos uma típica manhã de aldeia portuguesa.

Levantou-se, abriu a janela de par em par e ficou de olhos fechados a escutar o silêncio.

Lembrou-se do tempo em que era criança e passava férias ali. Lembrou-se dos ninhos feitos com o avô. E lembrou-se da promessa de perguntar à vizinha pelo tal gato Preto.

Gato? Qual gato? admirou-se a vizinha.

Pois também não entendo. Diz que é Preto. No penúltimo bilhete nem o mencionava, mas no último só falava dele, suspirou Beatriz.

Ok, acho que percebo. Há coisa de um mês comecei a ver o teu avô a falar com qualquer coisa invisível. Passava pelo muro e ouvia-o suplicar aparece lá, deixa-te ver! Olhei: sozinho. No dia seguinte, igual. Depois começou a dizer que estava a conversar com o amigo Preto. Só que ninguém, ninguém mesmo, viu gato nenhum. E eu até ia a casa dele com frequência. Perguntei-lhe, ele só dizia quando conseguir apanhá-lo, mostro-to. Acho que, enfim, já não estava a bater bem, querida. Ou então um bichano muito tímido!

O avô não estava maluco, tenho a certeza. Talvez nos escapou alguma coisa, ou então o gato era mesmo mestre em esconder-se. Mas por aí não andam gatos pretos?

Por acaso, não. E nunca desapareceu nenhum. Olha, estranho

De volta a casa, Beatriz pôs-se a organizar o quintal, mas não conseguia tirar o tal gato da cabeça.

Se o Preto existia, para onde teria ido?

Entretanto, escondido no mato, olhos muito atentos, estava o tal gato preto. Caminhava de mansinho pelo quintal, de olho na rapariga da cidade. De todas as pessoas que tinham passado pelo enterro, só aquela o atraía, havia nela alguma coisa de familiar.

Timidamente, acompanhou-a ao longe, sem nunca se mostrar. Era exatamente como o avô escrevera: depois de tantas humilhações, tanto medo das pessoas, doía-lhe confiar em humanos. Mesmo assim, com o avô sentira outra coisa: escutava-lhe a voz, tinha-lhe pena, encontrou um amigo. Só que nunca chegara a sair completamente do esconderijo, e quando finalmente se encheu de coragem, já era tarde tinha chegado a morte.

Pressentindo o fim, o Preto tentou entrar, mas as portas estavam fechadas. Sentou-se junto à entrada e chorou baixinho, na noite do falecimento do seu humano.

Agora, sentia que talvez fosse altura de mudar. Observando Beatriz, via nela a mesma bondade do avô. Mas não se aproximava. O medo, esse velho companheiro, ainda o travava.

Só no nono dia, apanhado desprevenido, foi que Beatriz se voltou de repente e deu de caras com ele.

Então é você, Preto! Afinal o avô não inventou nada… Venha cá, quero conhecê-lo!

Mas mal ela fez menção de se aproximar, o gato fugiu lesto, desaparecendo nos arbustos.

Não tenha medo, Preto sorriu Beatriz. Amanhã já volto para Lisboa, gostava de o conhecer antes. Prometo não morder!

Por acaso, Dona Amélia ouviu Beatriz a falar alto e, ao espreitar à esquina da vedação, viu a rapariga. Não viu foi gato nenhum.

Valha-me Deus, agora é ela a falar sozinha com um gato invisível, isto pega-se? pensou, apressando-se para casa.

Depois do almoço, nuvens negras cobriram o céu. Ouviam-se trovões ao longe e galinhas alarmadas. Ia rebentar uma tempestade das grandes, e as primeiras gotas começaram a cair antes de Beatriz conseguir trazer o Preto para casa.

No seu esconderijo, Preto percebia a aproximação da trovoada. Tinha medo, mais até do que das pessoas.

*****

A chuva escorria no telhado, e Beatriz rebolava na cama sem conseguir dormir. Foi então que uma trovoada descomunal rebentou: relâmpagos iluminavam todo o quarto e as janelas batiam subitamente. Beatriz pensou em fechar a janela, quando viu dois olhos brilhantes à janela.

Assustou-se. Mas, no instante seguinte, um vulto negro, molhado, entrou disparado, saltou para dentro do armário e depois se escondeu debaixo da cama.

Preto, só pode! pensou Beatriz, espreitando debaixo da cama, onde um gato preto, encharcado e a tremer de medo, se encolhia.

Custou, mas lá conseguiu atraí-lo para fora, secou-o com uma toalha e deitou-o consigo na cama. Ali, aconchegados, já nada parecia assustador.

*****

De manhã, acordou com o som insistente de unhas na janela.

Então, amiguinho, já queres ir passear? disse Beatriz ao ver o preto empoleirado no parapeito.

O gato pareceu hesitar, como que a pedir desculpa por se ter deixado apanhar pelo medo na noite passada.

Miauu… queixou-se baixo, como se pedisse licença para sair.

Não vais antes do pequeno-almoço! Depois, escolhes: ficas ou vens comigo para Lisboa. Acho que o avô queria que te levasse. Eu também. Mas a decisão é tua, espero que escolhas bem.

Depois do pequeno-almoço, Beatriz abriu-lhe a porta. Quando chegou a altura de partir, com a mala nas rodas, encontrou o Preto já à porta, a aguardá-la. Encostou-se às pernas dela, decidido: ia com ela para a capital. Afinal, os medos podem ser superados, se encontrarmos alguém de coração bom.

Assim, debaixo do olhar de aprovação de Dona Amélia, que recebeu a chave da casa para ir olhando por ela, Beatriz disse-lhe:

Não inventaram nada sobre o avô. Não estava maluco. O Preto é só um gato cheio de medo, mas todos temos receios até que alguém nos dá confiança.

A vizinha ofereceu-lhe um saco de bolos para a viagem.

No autocarro, enquanto Lisboa ficava mais perto, Beatriz olhou para o céu, e por um momento julgou ver, no recorte de uma nuvem, o rosto sorridente do avô. Até o Preto, aninhado ao seu colo, pareceu ver também. E ambos sentiram fosse imaginação ou não que a presença do avô continuava ali, nos pensamentos, nas memórias e no coração de quem nos amou.

Na vida, muitos partem antes de cumprirmos tudo o que desejávamos. Mas nunca partem de verdade enquanto deles nos recordarmos e seguirmos o carinho que nos deixaram.

Às vezes, também nós, como o Preto, temos medo de confiar, de enfrentar o mundo. Mas a bondade, o carinho e a aceitação podem transformar o mais assutado dos seres em nosso amigo. Vale sempre a pena abrir o coração para quem parte e para quem chega.

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