O Aroma de um Lar de Idosos Português

O cheiro do lar de idosos

Sabes a que cheiras? Cheiras a lar de idosos. A cânfora e velhice. Já não aguento mais isto.

Beatriz estava à janela, a olhar para o pátio onde o gato da vizinha atravessava uma poça cuidadosamente, em pequenos passos ágeis. As palavras de Manuel vieram até ela suavemente, abafadas, como se chegassem por trás de uma cortina de neblina. Só ao fim de alguns segundos é que se virou.

Manuel estava no meio da cozinha, vestido com uma camisa azul clara, a mesma que ela lhe tinha comprado naquele dia de abril no mercado de Sete Rios, depois de ele lhe pedir uma coisa fresca, que não desse trabalho. Ela escolhera demoradamente, sentira os tecidos, conversara com a vendedora sobre os materiais. Ele esperara no carro, a ouvir a Antena 1.

Ouves-me? perguntou ele.

Ouço respondeu Beatriz.

A voz saiu-lhe controlada. Ela própria se surpreendeu.

Manuel pousou no banco do corredor o saco de desporto, grande, azul, com o símbolo de uma marca qualquer. Beatriz conhecia aquele saco ficara anos na arrecadação, por baixo das botas de esqui, que não calçavam há quase sete anos.

Vou-me embora anunciou ele. Tu e eu sabemos que já devia ter acontecido há muito tempo.

Beatriz olhou para o saco. Olhou para as mãos de Manuel. Eram mãos calmas, seguras, não apertavam nervosamente a camisa nem desviavam o olhar. A decisão estava tomada, há muito concretizada. Falava apenas aquilo que já existia.

Há muito tempo repetiu ela.

Sim. Encolheu os ombros. Beatriz, não quero discussões. Simplesmente… não somos iguais. Tu passas todo o tempo aqui, com a tua mãe, as rotinas, esse cheiro… Não consigo viver assim.

O cheiro. Ela pensou no cheiro. Cinco anos. Durante cinco anos acordou às seis, porque Dona Maria Antónia acordava a essa hora, porque o corpo doente, velho e ferido obedece a horários só dele. Cinco anos de óleo de cânfora, de resguardos, sempre chamados de fraldas absorventes com fingido pudor. Cinco anos de tosse ao lado e de chamadas para o INEM nas noites frias. Cinco anos em que o seu trabalho ficara em pastas, na secretária do estúdio, o qual visitava cada vez menos nunca havia tempo, não havia quem pudesse alinhar, e o próprio Manuel dissera: Beatriz, só tu podes.

Ela sabia.

Vais já? perguntou ela.

Sim.

Está bem disse Beatriz.

Ele ainda a fitou, talvez à espera de outra coisa. Talvez lágrimas, um grito, talvez a pergunta para onde vais ou com quem. Não a fez não por não saber a resposta, mas porque agora lhe parecia inútil.

Manuel pegou no saco, ficou uma última vez à porta.

Deixo as chaves no móvel do corredor.

Deixa, sim anuiu ela.

O clique da fechadura, o som seco da porta do prédio a bater, os degraus contados até ao rés-do-chão. Beatriz reconhecia o som tinha-o ouvido vezes sem fim.

Ficou um silêncio especial, de sala em que a televisão esteve ligada tantos anos, só se deu pela falta dela quando se calou.

Beatriz olhou para as chaves no aparador, depois para o lugar vazio no banco, onde estivera o saco. Voltou à cozinha e pôs água no fervedor.

Cinco anos antes, Maria Antónia sofrera um AVC na mesa de jantar, em plena festa de anos de Manuel. Beatriz fizera um bolo de cereja nessa tarde; Maria Antónia ainda lhe dissera Está ótimo, mas a seguir deixou cair o garfo, e, pelo olhar, Beatriz percebeu logo tudo. Chamou o INEM, sentou-se com ela na ambulância e segurou-lhe na mão, já sem reação.

Manuel estava num jantar da empresa. Quando atendeu, só à terceira tentativa.

Os médicos disseram depois: o lado esquerdo parcialmente paralisado, longa recuperação, cuidados permanentes, possível em casa, se estivesse alguém sempre presente. Beatriz, tu agora não trabalhas a tempo inteiro. Aqueles projectos… isso não é o essencial, foi tudo o que Manuel comentou. Ela não respondeu, arrumou os seus desenhos numa caixa e pôs a caixa no estúdio.

A chaleira ferveu. Serviu o chá, ficou à janela, o pátio à sua frente. O gato já tinha ido embora. A poça continuava.

Os primeiros três dias quase não saiu de casa não porque não pudesse, mas porque não sabia para onde ir. O corpo já era só rotina: levantar, dar o remédio, preparar o pequeno-almoço, o almoço à uma, passeio à varanda às quatro, deitar às sete. Agora não havia horários, o corpo não sabia ser sem tarefas.

Passeava pela casa. Viu a cadeira de rodas encostada à parede da sala. Os sacos de fraldas escondidos debaixo da cama. A caixa dos medicamentos, tudo rotulado à sua letra: manhã, noite, quando houver tensão. Maria Antónia morrera pacificamente, três meses antes, mas as coisas continuavam no mesmo sítio: Manuel não mexera, Beatriz não tivera força.

Ao quarto dia, abriu três sacos de lixo e começou.

Fez tudo devagar, sem pressa. Fraldas, sondas, seringas, luvas, absorventes. Depois os medicamentos, caixa por caixa. O mais difícil: a cadeira de rodas. Lembrava-se das tardes em que empurrou Dona Maria Antónia pelo largo, a olhar as árvores como quem sabe ser a última vez. Desmontou o que conseguiu e levou para o lixo em três viagens.

E depois, demorou-se muito tempo debaixo da água quente.

Quando se viu ao espelho, viu o que já não via há anos: a si própria. Não a cuidadora, não a esposa, não a filha. Apenas uma mulher de cinquenta e dois anos, de cabelo molhado e mechas brancas que há muito não pintava para quê, para quem?

Na manhã seguinte marcou cabeleireiro.

A cabeleireira chamava-se Amélia, trinta anos, mãos rápidas e decididas. Quando explicou que queria sacar comprimento e talvez mudar a cor, Amélia não fez perguntas desnecessárias. Só a olhou com atenção, profissional como um bom médico.

O seu tom natural é bonito. Podíamos iluminar um pouco, assim fica moderna e as madeixas cinza integradas. E o corte deixava o pescoço à mostra tem um pescoço muito elegante.

Faça como entender disse Beatriz.

Durante duas horas viu aparecer outra mulher ao espelho. Não era nova; era a mesma, apenas lavada de muitas camadas de cansaço.

Quando saiu à rua, soprava vento frio de outubro. Sentiu o vento nos cabelos curtos, uma sensação que quase não se lembrava. Não ia com pressa; pela primeira vez, fora das tarefas. Comprou um café num gabinete minúsculo e caminhou, por caminhar.

O divórcio demorou quatro meses.

Manuel apareceu no tribunal com advogado, um rapaz novo, fato caro, que falava rápido e nunca olhava para baixo. Beatriz foi sozinha, não por orgulho, mas porque não via sentido em guerras.

Na sessão seguinte, Manuel levou consigo a companheira. Beatriz viu-a no corredor: trinta e cinco anos, talvez menos, cabelo apanhado, sobretudo em xadrez, sapatos altos, o telemóvel colado às duas mãos.

O olhar quase indiferente para Beatriz foi o de quem observa estranhos à espera da senha.

Beatriz disse Manuel baixinho , queria falar do apartamento.

Não preciso respondeu.

Mas…

Manuel. Olhou-o serenamente. Só quero o estúdio, que já era meu antes do casamento. O resto casa, carro, tudo é contigo.

Houve silêncio.

Tens a certeza?

Tenho.

O advogado anotou, Manuel olhou-a com uma decepção estranha, à espera de discutir mais, de ouvir cobranças, lembranças do passado e sacrifícios. Não ouviu nada disso. Não por falta de direito, mas por ausência de vontade. Beatriz não queria ver Manuel defender-se ou atacar.

O estúdio era na Rua das Flores, segundo andar, tecto alto e janela grande para norte. Comprara-o aos trinta e quatro anos, com as economias de três anos de trabalho. Aí dormiu a primeira noite depois do divórcio. Deitada no sofá-cama, a olhar o tecto.

Não sabia o que fazer a seguir. Mas, pela primeira vez, isso não assustava.

O primeiro telefonema foi para o atelier Verde Luz, onde trabalhara antes. A secretária lembrou-se dela e passou à engenheira Helena, que se lembrava especialmente do jardim infantil junto ao hospital. Mas terminou: Beatriz, cinco anos é muito tempo. O mercado mudou, os programas mudaram, precisamos de quem esteja…

Compreendo respondeu ela.

Se surgir algo, ligamos.

Sabia que não ligariam.

O segundo foi para o atelier privado onde Sofia, colega dos tempos do técnico, trabalhava. Sofia ficou contente, genuinamente, mas ao fim de cinco minutos explicou que os tempos tinham outros requisitos, a juventude vem com ferramentas novas, a concorrência era feroz.

Na terceira chamada, já sem grandes expectativas, ligou para os serviços de jardins públicos da Câmara. Disseram que o quadro estava completo.

Beatriz pousou o telefone e olhou pela janela.

Na rua era novembro, árvores nuas e gente com golas levantadas. Pensou que cinco anos eram muito mais por fora do que por dentro: cá fora tudo avançava, e o lugar deixado vago já não a esperava.

Abriu o computador, começou a estudar os novos programas de arquitetura paisagista. Leu até tarde, chá ao lado, bloco de notas cheio de apontamentos. Algumas coisas eram mesmo novas; noutras só haviam mudado os nomes.

Em dezembro encontrou trabalho não o que queria, mas trabalho como auxiliar num viveiro de plantas em Odivelas. A dona, Dona Vera, mulher baixa e despachada, media tudo e todos pela utilidade.

Sabe tratar de plantas?

Sei.

Então está contratada. O salário é pouco, mas isto é vida verdadeira.

E era. Das oito, mexia na terra, transplantava, atendia clientes. Não era o que sonhara, mas era real. As mãos na terra, cheiro a humidade, fileiras de vasos onde crescia qualquer coisa.

Ali no viveiro soube de uma estufa abandonada na rua do Rio, junto ao velho jardim botânico. Dona Vera comentou que o diretor andava a tentar recuperar aquilo, mas não havia pessoal.

Beatriz pensou primeiro, demorou uns dias. No domingo vestiu o casaco, apanhou o autocarro e foi.

A estufa era um mar de vidro pouco limpo, entre árvores. Estruturas de ferro corroídas, algumas placas de vidro trocadas por madeira. A entrada estava tapada de folhas.

Lá dentro era um caos vivo. Plantas cresciam ao acaso: algumas procuravam a luz, outras pendiam para baixo, uma trepadeira já chegava ao tecto. Tangerineiras cheias de frutos pequenos, vasos com palmeiras que já não cabiam nos seus lugares, orquídeas ressequidas mas vivas.

Beatriz ficou a observar. O que estava parado dentro dela, o músculo retraído, começou a abrir-se aos poucos.

Veio com marcação? A voz veio do lado, um homem idoso, camisola de lã, óculos na testa, mãos de quem mexeu na terra a vida toda.

Não desculpe, vi de fora e entrei. Se não for permitido, vou-me embora.

Não há problema disse ele. António, diretor, se assim se pode chamar.

Beatriz Carvalho. Sou arquiteta paisagista.

Silêncio breve.

Com interrupção de cinco anos.

Ele pensou; notou que não avaliava a pausa, só absorvia.

Então venha, mostro-lhe isto.

Caminharam duas horas; António explicou cada setor, o que era e o que pretendia. A estufa fora fechada para obras temporárias há sete anos, mas esqueceu-se. O diretor conseguiu autorização para ali estar, sozinho, a regar, podar, acertar temperaturas.

Posso ajudar disse Beatriz.

Agora não posso pagar.

Eu sei.

Então venha na quinta.

Ela foi. Voltou a ir, depois todos os dias. Deixou o viveiro, Dona Vera aprovou: Faz sentido, tens cabeça para plantas, não só mãos.

A estufa tornou-se o seu primeiro projeto verdadeiro em anos. Organizou tudo: fez inventário, estado de cada planta, necessidades, localização. Uma vez o registo feito, pensou o espaço. Quatrocentos metros quadrados tornados caos vasos, tinas, sem trilhos, sem lógica. Planificou traçados à mão, como nos tempos da faculdade.

Aqui, zona de citrinos. Gostam de secura, e o cheiro…

O cheiro disse António no inverno é outra coisa.

E nesta zona, palmeiras altas, para dar escala. Entre elas, arbustos tropicais e um caminho.

Caminho, sim. Para as pessoas virem.

Elas vão vir assegurou Beatriz.

Dizia-o porque sabia lugares pensados atraem pessoas.

O inverno foi de trabalho intenso. Trazia plantas, procurava fornecedores, gastava o pouco que restava do divórcio. Reparava janelas, encontrava técnicos. António era presença calma e constante.

Em janeiro, ligou à amiga Teresa, dos tempos de faculdade, que deixara de a convidar a partir do segundo ano de doença da sogra. Teresa atendeu ao terceiro toque, calada. Depois:

Estás viva?

Viva.

Graças a Deus! Mas desapareceste, pá…

Aconteceu muita coisa. Olha, estás em casa?

Estou, a jantar sopa. Vem cá.

Beatriz foi. Chá, conversa longa, depois vinho, e Beatriz contou-lhe tudo. Teresa escutou com poucas palavras, mas muita atenção.

O Manuel sabe da estufa?

Para quê?

Curiosidade. Encheu-lhe o chá. E tu, como é que estás?

Normal. Pela primeira vez em muito tempo, normal.

Teresa assentiu, deixaram o assunto.

Fevereiro trouxe surpresa.

Beatriz trouxe novas plantas gerânios e um grande alecrim apanhado em saldo. António ocupava-se noutro lado. A porta abriu-se, ela levantou a cabeça.

Era um homem por volta dos cinquenta e cinco, casaco escuro, pasta debaixo do braço, andar de quem está habituado a obras. Olhar atento.

Desculpe, o senhor António?

Lá ao fundo, perto das palmeiras.

Obrigado. Observou antes de sair, olhando a disposição das plantas.

Isto está bem diferente. Estive cá há meses, estava… diferente.

Sim, diferente.

Foi a senhora?

Eu e o António.

Mas a ideia é sua.

Olhou-o de novo, era profissional que via estrutura, não só beleza.

Quem é o senhor?

João Marques. Engenheiro. Cuido da cobertura, havia infiltrações.

Terceira e sétima secções disse Beatriz.

Agora João olhou-a com outra expressão.

Como sabe?

Estou aqui todos os dias.

Voltou para o trabalho, mas João apareceu mais vezes. Por vezes só para inspeção, outras vezes demorado, conversando com António, ou, por fim, dialogando mais com Beatriz.

Falavam de jardins, da cidade, de livros, partilhavam referências. Um dia trouxe figos para pensar em plantar; António achou boa ideia, Beatriz explicou cuidados, João ouvia com atenção.

Em março, abriram as portas da estufa, informalmente. Puseram um aviso no portão e numa publicação do Facebook. Sete pessoas apareceram no primeiro dia, trinta na semana seguinte. Circulavam, cheiravam citrinos, fotografavam palmeiras. Uma senhora ficou muito tempo junto ao alecrim: A minha avó tinha um assim na Beira.

Isto resulta disse António.

Resulta concordou Beatriz.

Falei com a direção. Dão-lhe um contrato, não grande, mas digno.

De quê?

Especialista de espaços verdes. No fundo, já é o que faz.

Muito bem disse ela.

Muito bem a expressão ganhara peso: significava mesmo bem.

Em abril, João convidou-a para um café, sem pretextos.

Tinham conversas de igualdade. Ele contou que tinha uma filha noutra cidade, fora casado há muitos anos, o trabalho era andar de lado para lado, o que preferia.

Porque reabilitar edifícios antigos?

Porque têm memória. Entro num deles, sinto que muita gente já deixou lá história: uns desenharam, outros construíram, outros salvaram. É um diálogo pelo tempo.

Beatriz ficou em silêncio a pensar.

E as estufas?

São especiais. O diálogo ainda existe. Há vida.

Vida repetiu baixinho.

O olhar dele era apenas atencioso, tranqüilo. Falaram mais um bom bocado. João acompanhou-a até à estufa.

Amanhã venho avaliar a terceira secção.

Está bem.

Beatriz pensou: quando foi que sentiu isto, que a companhia lhe dava um respirar mais leve, só por existir?

Teresa, chamada à conversa em maio, quis logo detalhes:

Isto é sério?

Teresa…

Estou a perguntar.

Não sei. Por enquanto, não sei.

E ele?

Não perguntei.

Beatriz, aos cinquenta e dois…

Cinquenta e três corrigiu ela.

Pronto, até te fica melhor! Pergunta!

Riram juntas. E era bom rir assim, sem motivo nem autorização.

Sobre Manuel, sabia notícias por conhecidos: a companheira saiu de casa, dizem que discordaram sobre filhos. Depois um colega informou que Manuel fora despedido em abril e andava em baixo.

Eu fico feliz por seres amiga dele, António disse ao amigo. Mas por mim está bem assim.

Saiu para a estufa, era junho, nas árvores o aroma da flor de laranjeira; dentro, o ar condicionado finalmente funcionava. As tangerinas já cresciam.

Pensava ela ainda em Manuel? Ocasionalmente. Houve coisas boas, claro; primeiros anos felizes, depois pequenos desvios, distrações, menos perguntas de estás bem. Também ela desapareceu de si própria nos cuidados à sogra.

Mas aquelas palavras o cheiro a lar de idosos.

Colocou o regador junto ao limoeiro e observou as folhas vivas e brilhantes. Dizer aquilo foi cruel; não era partir, era fazer o outro sentir-se culpado.

Avançou para outro vaso.

João aparecia na estufa uma ou duas vezes por semana, às vezes para trabalho, outras para conversar. Um dia trouxe vinho quente em termos: Novembro, já sabes. Sentaram-se junto à porta, detrás dos vidros o parque nu. Cheirava a cravo e laranja.

Mostra-me o projeto de expansão pediu ele.

Ela explicou, com desenhos e esquemas. Ele escutava, tirava dúvidas, debatendo como igual. Falavam de soluções, de vidros, de estruturas.

Aqui, um duplo vidro isolamento dava jeito apontou. Vi isso em Helsínquia.

As fundações aguentam?

Faço as contas, se quiser.

Quero.

Olhou-a nos olhos:

Beatriz, gosto de conversar consigo.

Ela retribuiu:

Também gosto.

Lá fora, neve. Primeiro nevão leve, quase a desfazer-se, mas apanhava bancos, galhos, cantos. O ar ficou branco e doce.

Está a nevar disse João.

Está.

Ficaram os dois, chá nas mãos, o calor a entrar-lhes nos dedos. Por dentro da estufa cheirava a pinho, porque António enfeitou os cantos para o inverno.

Beatriz pensou: do outro lado do vidro está o frio, aqui dentro vive algo quente. Era talvez a melhor descrição do que fizera naquele ano encontrou um lugar onde manter o calor, mesmo com o frio lá fora.

Está a pensar em quê? perguntou João baixinho.

Coisas boas respondeu.

Mesmo boas?

Beatriz olhou as tangerineiras pequenas, as orquídeas à beira-da-parede, as palmeiras altas viradas ao teto de vidro e as pequenas flores a abrir apesar do inverno.

Sim, mesmo boas.

E por dentro, sentiu certeza: as coisas importantes não se medem só pelo que nos retiraram, mas também pelo espaço que nos deixam criar. E, sempre que cuidamos de algo alguém, plantas, sonhos , cedo ou tarde quem somos volta a florescer.

Assim, Beatriz, aos cinquenta e três anos, compreendeu finalmente que a sua vida, feita de tanto cuidado, também merecia ser cuidada. E que, mesmo depois de tudo, era possível encontrar calor enquanto nevava lá fora.

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