O anjo que pesava cem quilos e cheirava a café barato
Na sala de atividades do serviço de oncologia, reinava um silêncio de vidro, só quebrado pelo sussurrar de papel e pelo ranger dos marcadores de feltro. Era um silêncio denso, frágil, pesado de uma atenção adulta pouco comum em crianças com menos de dez anos. O exercício era simples: desenhar o Anjo da Guarda. Os meninos e meninas empenhavam-se a fundo.
Para Margarida, jovem voluntária, aquele dia era um teste à alma e aos olhos. Ela cresceu rodeada do belo certo admirava a estética dos frescos de igreja, onde anjos são jovens etéreos de caracóis dourados e olhos de céu limpo. Percorria as mesas encantada: ao Pedro, o anjo empunhava uma grandiosa espada; à Inês, as asas tinham a maciez de nuvens. Tudo era bonito, comovente e, no fundo, muito igual.
Depois aproximou-se da mesa da Laurinda.
A menina, de sete anos, tinha a cabeça lisa e a pele translúcida como nunca ninguém devia ter, depois de tanta quimioterapia. Laurinda desenhava com uma concentração quase sagrada, a ponta da língua de fora, segura de si.
Margarida espreitou o papel e quase deixou escapar um suspiro de espanto.
No lugar do esperado mensageiro celeste, havia desenhado uma figura singular: um homem redondo, largo, ocupando quase todo o espaço da folha. Sem asas visíveis. Barriga enorme, apertada por uma bata branca, cabeça calva que parecia uma batata, e uns óculos grossos, desajeitados no nariz.
Laurinda arriscou Margarida, agachando-se ao lado , quem é esse? Supostamente estamos a desenhar um anjo…
É um anjo respondeu a menina com naturalidade, sem desviar o lápis branco da barriga do boneco.
Mas… parece diferente, não tem asas E é grande
Tem asas, sim! corrigiu Laurinda , só que as esconde debaixo da bata, para não sujar. Aqui fica muito sujo.
Margarida sorriu, indulgente. Ah, esta imaginação das crianças…
Lá fora, no corredor, ouvia-se frequentemente um rumor surdo, arfante um respirar pesado, vindo de longe, quase como um comboio a aproximar-se. Passos arrastados que faziam tremer o soalho.
A porta da sala de atividades rangeu e apareceu ele.
António Marques, o diretor de reanimação. Era uma presença volumosa, imensa. Obeso, de batas sempre demasiado justas e mal apertadas, rosto lustroso de suor, pele acinzentada, óculos grossos a escorregar no nariz, que ajeitava de forma automática com o dedo gordo. O cheiro era uma mistura de tabaco, suor e café instantâneo forte e barato. Há três dias que não saía dali, dormindo na sala de descanso, no sofá já afundado pelo tempo.
Aos olhos de Margarida, era apenas um homem exausto, desleixado, que há muito já devia estar reformado ou, pelo menos, tomado banho.
Então, artistas? trovejou, numa voz de peito, como vinda do interior daquela barriga , Continuamos vivos?
Continuamos, senhor doutor! responderam vozes desalinhadas.
Passou entre as mesas, apoiando-se pesadamente nos encostos das cadeiras.
Deteve-se junto de um rapaz pálido, ligado ao soro. Pousou a enorme mão no alto da sua testa.
Força aí, campeão, os resultados chegaram. Estamos juntos nisto.
Poi seguiu para Laurinda. Margarida notou o brilho de alegria nos olhos da miúda, viu-a abrir os braços para aquele homem pesado, que cheirava a tabaco.
Estás a desenhar? perguntou-lhe. E atrás das lentes espessas, Margarida percebeu de repente um azul profundo, aceso pelo cansaço das noites sem dormir.
Estou… a desenhar-te sussurrou Laurinda.
Ele bufou, ajeitando os óculos.
Isso não, rapariga! O papel não aguentava!
Nesse momento, soou um alarme agudo no corredor. Do tipo que faz tudo parar.
António Marques transformou-se de imediato. O cansaço, a respiração ruidosa, tudo se evaporou. Virou-se na direção da porta com uma agilidade surpreendente, e saiu a correr.
Todos quietos! bradou já fora da sala , Rita, kit de reanimação, já!
Margarida ficou, mãos no peito, a tremer. Do lado de lá da parede, ouvia-se o rebuliço, ordens curtas, o tilintar metálico, a voz dele agora dura como aço, não bondosa.
Respira! Vá, não nos deixes! Respira!
O grito doía: conjurava desespero e comando em simultâneo. Margarida fechou os olhos. Tinha medo.
Quarenta minutos passaram arrastados, densos no silêncio. Nenhuma criança desenhava. Todas fitavam a porta.
Ela abriu-se. António Marques voltou, agarrando-se ao batente. Estava encharcado, bata manchada de suor, uma nódoa de sangue no punho. Tremeu, tirou os óculos, passou a mão pela cara, espalhando ainda mais o cansaço. Depois, deixou-se cair com um gemido numa cadeirinha de criança, que protestou sob o peso.
Conseguimos está a dormir.
Margarida olhou para ele. De repente, como se caísse um véu dos olhos, viu.
Olhou para o desenho da Laurinda, para aquele boneco desastrado, gorducho. E depois para António, o real.
Já não via só gordura ou suor. Via uma densidade. Um peso certo de amor, forte, que servia de âncora às almas frágeis destas crianças, evitando que se soltassem da vida. Um anjo de asas douradas e leves não teria ali lugar voava quando elas voassem.
Aqui precisavam de alguém assim pesado, maciço, de odor terrestre e café, pronto a agarrar a vida que foge e a garantir, rouco: Não te deixo.
A careca brilhava sob a lâmpada como auréola. Mas não era de ouro era suada de esforço.
Laurinda desceu da cadeira. Aproximou-se do médico, que se sentava cabisbaixo, e abraçou-lhe a perna grossa não alcançava mais alto.
Eu disse murmurou, fixando Margarida com olhos de gente adulta , ele esconde as asas… Para não termos frio.
António pousou a mão enorme sobre a carequinha dela.
Os dedos tremiam.
Aguentem, meus queridos murmurou , só mais um bocadinho.
Margarida virou-se para a janela, porque não conseguia continuar a olhar.
As lágrimas, que tanto queria evitar, acabaram por correr. Chorava de vergonha pela própria cegueira. Buscava beleza no esplendor, e a verdadeira Beleza estava ali: sentada numa cadeira a ameaçar ruir, limpando suor à manga pesada, nada elegante, mas a coisa mais sagrada do mundo.






