O anjo que pesava cem quilos e cheirava a café barato
Na sala de brincadeiras do serviço de oncologia reinava um silêncio raro, entrecortado apenas pelo farfalhar do papel e pelo ranger dos marcadores nas folhas. Era um silêncio delicado, como se fosse feito de vidro. Tinha-se a impressão de que havia ali concentração adulta demais para crianças que ainda não tinham completado dez anos. A tarefa era simples: desenhar o Anjo da Guarda. E as crianças empenhavam-se com afinco.
Para Mariana, jovem voluntária, aquele dia era um teste. Acostumada ao belo como ensinado nos vitrais das igrejas anjos leves, quase etéreos, de caracóis dourados e olhos cheios de um azul celestial , ela percorria as mesas admirada: o anjo do Rafael empunhava uma espada enorme, o da Inês tinha asas fofas como nuvens. Tudo era canonizado, comovente e… demasiado semelhante.
Então, Mariana aproximou-se da Clara.
A menina tinha sete anos. A cabeça lisa como uma bola de bilhar, graças à quimioterapia, e a pele translúcida como papel de arroz. Clara desenhava com uma concentração teimosa, o biquinho da língua quase a sair da boca.
Mariana espreitou por cima do ombro e quase não conteve uma exclamação.
No papel, em vez de um mensageiro celeste, estava algo estranho: um homem redondo, massivo, ocupando quase toda a folha. Sem asas à mostra. Exibia uma barriga imensa, apertada num avental branco, cabeça sem um pêlo, assemelhando-se a uma batata, e uns óculos enormes e tortos empoleirados no nariz.
Clarinha perguntou Mariana, tentando não soar surpresa, ao se agachar ao lado da menina. Quem é esse? Não devíamos desenhar um anjo?
É um anjo respondeu Clara com toda a segurança, sem levantar os olhos, enquanto pintava a barriga com a cor branca.
Mas… é um pouco diferente, não achas? Por que não tem asas? E… porque é tão grande?
Tem asas retorquiu Clara. Esconde-as debaixo do avental. Para não sujá-las. Aqui fica-se sujo facilmente.
Mariana sorriu com indulgência. Imaginação de criança, pensou.
No serviço, era comum ouvir uma respiração pesada, quase como um rosnar, ecoando pelo corredor, aproximando-se como um comboio. Passos arrastados, tão pesados que parecia que o soalho tremia.
A porta da sala de brincadeiras abriu-se com dificuldade, dando passagem a ele.
Paulo Rocha, chefe do reanimador. Era um homem enorme. Obeso, com duas ou três pregas no queixo, sempre com o avental desafivelado, pois nunca lhe servia. O rosto brilhava de suor e a pele tinha um tom acinzentado. Os óculos grossos, de aros escuros, escorregavam para o topo do nariz, e ele ajeitava-os repetidamente com um dedo grande e macio. Cheirava a tabaco, suor e café solúvel barato, daqueles que só há em máquinas automáticas de hospital. Já ia para o terceiro turno seguido, sem sair do gabinete de serviço, dormindo num velho sofá afundado.
Mariana só via nele um homem exausto e desleixado, que devia estar reformado ou, pelo menos, tomar um banho.
Então, meus artistas? retumbou o seu grave, com uma voz que parecia sair de dentro das próprias entranhas. Ainda por cá andamos?
Ainda, senhor doutor! responderam algumas vozes, todas diferentes e frágeis.
Caminhou pelo meio das mesas, amparando-se nos encostos das cadeiras.
Parou ao lado de um rapaz pálido, ligado ao soro. Pousou a mão pesada-lhe na testa.
Aguenta, campeão murmurou. Os exames chegaram. Vamos dar conta do recado.
Depois, aproximou-se da Clara. Mariana viu os olhos da menina brilharem. Estendeu-lhe as mãos para este homem grande, que cheirava a tabaco.
A desenhar? perguntou ele. E, por detrás das pernas grossas dos óculos, Mariana já não viu olhos cansados, mas um azul intenso, aceso pelo cansaço.
A si sussurrou Clara.
Ele bufou, ajeitando de novo os óculos.
Eu? Para quê? Até o papel se rasgava.
Nesse momento, o alarme da equipa de reanimação soou no corredor. Estridente, urgente.
Paulo Rocha transformou-se num segundo. Desapareceu o cansaço, cessou o arrastar dos pés. Moveu-se com agilidade inesperada para o tamanho que tinha e correu porta fora.
Todos quietos! gritou já do corredor. Cátia, o kit de reanimação, rápido!
Mariana ficou, apertando as mãos ao peito. Do outro lado da parede instalou-se o caos: ordens rápidas, o tilintar de metal, a voz dele, já não bondosa, mas implacável:
Respira! Vá! Fica connosco! Respira!
O grito era aterrador.
Ao mesmo tempo súplica e comando. Mariana fechou os olhos. Sentiu medo.
Quarenta minutos passaram uma eternidade. Na sala, silêncio absoluto. Ninguém desenhava. Todos olhavam para a porta.
Ela abriu-se. Paulo Rocha apareceu, escorado no batente. Estava ensopado em suor, o avental mais escuro do que antes, uma nódoa de sangue na manga. Tirou os óculos, passou a mão pela cara, espalhando cansaço, e sentou-se, com um gemido, numa minúscula cadeira de criança que quase cedeu sob o peso.
Conseguimos suspirou para o vazio. Está a dormir.
Mariana olhou-o. E de repente, como se alguém lhe tirasse a venda dos olhos, viu.
Olhou para o desenho da Clara. Aquele homenzarrão trapalhão, desajeitado. Depois para o verdadeiro Paulo Rocha.
Não viu gordura ou suor. Viu massa. Uma presença, densa e certa, de amor. Necessária como uma âncora para manter aquelas almas frágeis e leves presas à Terra, quando tentavam voar. Um anjo dourado, daqueles dos vitrais, não serviria era leve demais, voaria com eles.
Era preciso alguém assim: forte, maciço, com cheiro a Terra e a café, capaz de apanhar a vida a fugir com as mãos grandes e prometer num sussurro rouco: Daqui não sais.
A cabeça careca brilhava sob a luz, como uma auréola. Mas não de ouro uma auréola de esforço, húmida de trabalho.
Clara escorregou do banco. Aproximou-se do médico, que estava de cabeça descaída, e abraçou-lhe a perna não conseguia alcançar mais alto.
Eu disse murmurou, olhando Mariana com a maturidade de quem já viu tudo. Ele esconde as asas. Para o vento não entrar.
Paulo Rocha pousou a mão grande e trémula sobre aquela cabecinha careca.
Aguentem, meus queridos murmurou. Só mais um bocadinho.
Mariana virou-se para a janela, incapaz de continuar a ver. E, por mais que tentasse, não conseguiu bloquear as lágrimas. Chorou, envergonhada pela sua cegueira. Procurava a beleza nos brilhos e nas subtilezas, mas a Beleza estava ali, sentada numa cadeira partida, limpando o suor à manga pesada, pouco graciosa e a coisa mais sagrada do mundo.






