Amor de mãe
Carminho, é a Dona Matilde. Já deste de comer ao Tomás hoje? A voz do outro lado do telemóvel soou com aquela urgência de uma mãe preocupada, como se perguntasse se eu tinha esquecido um gato bebé fechado na varanda, e não um filho de trinta e dois anos, engenheiro informático.
Fechei os olhos por um instante, apertando o telefone ao ouvido. Na mesa da cozinha fumegava o salmão acabado de sair da vaporera, acompanhado de brócolos ao vapor. O Tomás enxugava as mãos depois do banho, fresco e enxuto, com um brilho nos olhos ainda da corrida de fim de tarde.
Boa tarde, Dona Matilde. Claro que sim, já dei de comer. Estávamos agora a sentar-nos para jantar.
E o quê? Seguiu-se logo o segundo interrogatório. Outra vez esses verdes e peixe sem gosto? Homem precisa é de carne! Calorias! Ouviste o que disse o médico na televisão ontem? Homens magros morrem mais cedo. Queres vê-lo a ir parar ao hospital com essas tuas dietas?
O Tomás revirou os olhos, já reconhecendo o tom, e gesticulou em silêncio: Diz que não estou. Mas ele estava ali, mais do que nunca a sua nova presença, o corpo renovado, a escolha consciente. Essa transformação pairava entre nós como um peso invisível.
Dona Matilde, é ele que quer assim. Sente-se muito bem. Até o médico elogiou os resultados das análises.
Médicos só sabem passar receitas! protestou ela. Eu sou mãe. Vejo logo. Está com as bochechas encovadas, os ossos à mostra. Antes era um homem de respeito, agora Olha ao menos faz-lhe uma sopa rica, uma feijoada à portuguesa! Amanhã levo eu um tacho aí. Ou já te custa gastar dinheiro na carne?
Era isto, todos os dias. Às seis em ponto, o meu telemóvel vibrava e eu sabia quem era: Dona Matilde, a minha sogra. Inspetora de refeições, juíza do desempenho da nora. E pensar que tudo começou tão bem.
***
Há oito meses, o Tomás chegou de um check-up à empresa, lívido. Sentou-se no sofá, desapertou o cinto das calças e suspirou com o peso de quem acaba de correr uma maratona.
Carminho, tenho um problema disse ele, com a voz baixa.
O meu coração gelou. Pensei logo em coisas graves: o coração? O fígado? Diagnósticos horríveis passaram-me pela cabeça.
O que foi?
Tenho tensão alta. O médico avisou que, se continuo assim, aos quarenta estou a tomar comprimidos. O colesterol está alto. O açúcar também quase.
O Tomás tinha trinta e dois anos. Um metro e oitenta, noventa e cinco quilos. A barriga já passava do cinto, o rosto arredondado, papada a formar-se. Depois de anos de trabalho de secretária, almoços rápidos e sedentarismo, o meu marido estava longe do rapaz atlético com quem casei.
Estou farto. Ele balançou a cabeça. Canso-me só de subir as escadas. Já me irrita ir à praia. Chega.
Abracei-o. O peso dele nunca me incomodou. Amava-o, fosse como fosse. Mas se a ele magoava e fazia mal Tinha de mudar.
Vamos juntos disse-lhe. Aprendemos sobre alimentação, procuramos um ginásio. Eu cozinho saudável.
E assim fizemos. O Tomás arranjou inscrição no ginásio do bairro, “Ginásio Lusitano”, contratou um personal trainer. Eu instalei apps de receitas saudáveis, comprei balança de cozinha, vaporera. Íamos juntos às compras, liamos rótulos, aprendíamos a somar calorias e proteínas.
O primeiro mês foi duro. O Tomás andava rabugento, descontente, implicava com a sopa e o peito de frango grelhado sem gordura. Mas o corpo acostumou-se. Sentiu-se mais leve, mais desperto, passou a subir as escadas sem bufar, as calças largavam-lhe na cintura.
Comecei a fazer-lhe papas de aveia de manhã, com frutos secos e bagas, só água. Ao almoço, levava uma marmita de peru com legumes. Ao jantar, peixe, saladas, às vezes uma tarte de requeijão light. Adeus maionese, fritos, fast-food. Ao início, parecia tudo insípido, mas depressa nos habituámos ao real sabor dos alimentos. Descobrimos até que os brócolos podiam saber deliciosos.
Os quilos começaram a cair. Devagar, depois mais rápido. Três meses: menos sete quilos. Seis meses: doze. Ao fim de oito, oitenta quilos na balança: menos quinze!
Por fora, o Tomás era outro. Rosto definido, olhos vivos, postura erguida. Um homem seguro, cheio de energia. No trabalho, os colegas perguntavam o segredo, pediam dicas. As mulheres olhavam-no na rua. Eu estava orgulhosa. O Tomás venceu.
Dona Matilde, nesse verão, foi passar umas semanas à casa da irmã no campo. Três meses sem ver o filho. Falavam por telefone, mas o Tomás nunca pegou na câmara. Voltou em setembro.
***
Lembro esse dia como se fosse hoje. A campainha soou de surpresa aos sábados de manhã. Ainda estávamos na cama. O Tomás abriu a porta, só de t-shirt e boxers.
O grito ouviu-se do corredor.
Tomás! Santo Deus, o que te aconteceu?
Apressei-me a sair do quarto. A minha sogra estava pálida, sacos na mão, a olhar o filho como um fantasma.
Olá, mãe disse ele, bocejando. Vieste cedo.
O que foi isso? Estás doente? Perdes-te quê quantos quilos? largou os sacos, apalpou-lhe os ombros, quase a ver se ainda respirava. Só ossos! Estás depenado! O que é que lhe fizeste?
A pergunta era para mim. Fiquei ali, à porta do quarto, a sentir uma onda de acusações.
Mãe, está tudo ótimo sorriu o Tomás. Só emagreci. Estou a fazer desporto, comendo certo.
De propósito?! Ela recuou, apavorada. Mas estavas tão bem! Agora pareces um varapau!
Dona Matilde, ele está ótimo. Até o médico ficou satisfeito. As análises melhoraram todas.
Olhou-me como se eu desse veneno ao filho.
Esta mania veio toda de ti? Mataste-o à fome?
Mãe! O Tomás já se irritava. Chega. Foi escolha minha. Estou farto de estar gordo.
Gordo?! Exclamou como se a palavra fosse insulto. Um homem a sério tem corpo! Não pode ser só pele e osso!
O Tomás não era uma vareta por ter oitenta quilos e um metro e oitenta. Era um homem saudável, no peso ideal. Mas para a mãe parecia impossível.
Ela trouxe tupperwares de feijoada, batatas à murro, empadão. Espalhou tudo pela mesa, obrigou-o a comer.
Obrigado, mãe, mas já tomámos o pequeno-almoço tentou recusar ele.
O quê? Papa de aveia? Isso não é de gente! Senta-te e come.
O Tomás olhou para mim, resignado, e lá se serviu de um prato de feijoada, para lhe fazer a vontade. Ela só sossegou quando viu a tigela vazia.
É assim que um homem come ditou, levantando-se. Carne, comida de verdade! Eu agora venho cá mais vezes. Para ver como te alimentas.
Ela saiu. O Tomás caiu no sofá, de barriga a rebentar.
Vou passar o dia inteiro a digerir isto suspirou. Já nem estava habituado.
No dia seguinte, começaram os telefonemas.
***
O primeiro foi às seis em ponto.
Carminho, é a Dona Matilde. O que foi o almoço do Tomás?
Fiquei atónita.
Olá. Ele almoçou no escritório, levou peru com legumes.
Peru?! Isso seca tudo! Devias era fazer-lhe entrecosto, ou uma boa vitela. E legumes, quê? Alface? Isso é para coelhos! Onde está a batata, o arroz?
Ele tem hidratos noutras coisas, bolachas, arroz integral, tudo equilibrado, o nutricionista aprovou
Silêncio. Depois:
Eu sei como alimentar um homem. Criei o Tomás robusto e saudável, e olha o que tu fizeste num semestre. Amanhã levo uns bifes de cebolada, feitos por mim.
No outro dia ligou outra vez. Perguntou pelo pequeno-almoço. Respondi: três claras e uma fatia de pão de centeio.
Só as claras? E as gemas? É lá que estão as vitaminas! Vais-lhe poupar nos ovos agora?
Não, só que está a cortar colesterol, precisa de cuidar do coração.
Ai, isso são invenções dos médicos! O meu pai comia meia dúzia de ovos por dia e viveu noventa anos.
Discutir era impossível.
Ao terceiro dia, perguntou pelos treinos.
Sim, vai ao ginásio quatro vezes por semana.
Quatro?! Isso é um exagero! Assim ainda te deixa viúva mais cedo, com tanto exercício! O coração não aguenta!
Ele tem acompanhamento, está tudo controlado
Esses PTs querem é ficar com o dinheiro. Devia era descansar e comer bem, não andar a levantar pesos!
Eu rangei os dentes. O Tomás, acabado de chegar do ginásio, brilhava de saúde. Mas para a mãe, estava sempre em risco.
No dia seguinte, ligou às oito da manhã, enquanto tomávamos café.
Carminho, pensei e se o Tomás tem minhocas? Há quem emagreça assim
Quase larguei o telefone.
Não tem, Dona Matilde.
Já fizeram análises?
Não, porque está perfeitamente saudável!
Devem fazer. E à tireoide também. E ao estômago!
Passei-lhe o telefone. O Tomás lá lhe explicou tudo. A mãe respondeu:
Tu não percebes nada disso. Eu à tarde passo aí.
E apareceu, com arroz de pato e empadas de carne. O Tomás não teve coragem de negar comeu só um pouco.
Desculpa, pediu ele, só para ela não ficar triste.
Se não a pôs em sentido já, nunca mais ela se cala avisei eu.
Oh, ela habitua-se.
Mas não se habituou. Começaram as chamadas diárias, vezes duas. Perguntava de tudo.
“A água aí é quente? Só assim ele emagrece tanto, é da água fria!”
“E ele pede comida à noite? Ou tu não lhas dás?”
“Protes? Ele toma dessas bebidas químicas?”
Contou às amigas, à família, pintou-me de carrasca. Um dia, uma tia ligou ao Tomás no trabalho.
Precisas de ajuda, filho? Diz a tua mãe que estás tão mal, temos de ajudar!
O Tomás ficou furioso. Ligou à mãe:
Por favor para! Eu não estou doente. Não andes a dizer estas coisas a toda a gente.
Ela chorou. Disse que não dormia, que ele ia causar-lhe à morte de desgosto.
Ele cedeu. Prometeu visitá-la mais, para lhe tirar dúvidas.
***
Uma semana depois, fomos lá jantar. O Tomás, numa camisa velha que agora lhe pendia no corpo. Mesa farta: frango no forno, batatas, salada russa, bolo caseiro.
Anda, Tomás, come. Tens de engordar, filho.
Olhei para a mesa: a verdadeira armadilha. Se recusava, vinha escândalo. Se comesse, arruinava meses de esforço.
O Tomás serviu-se de frango grelhado, salada sem maionese. Recusou as batatas e o bolo. A Dona Matilde permaneceu de rosto fechado.
Nem provas a minha tarte? sussurrou, já quase a chorar. Levantei-me às seis só para te fazer!
Mãe, não posso. Estou numa alimentação controlada.
Alimentação? Isso é fome! Olha para ti! virou-se para mim. É tudo por tua causa! Agora ficaste magra, levaste-o contigo!
Engasguei-me no chá.
Dona Matilde, foi ele que quis
Quis nada! Os homens não decidem o que comem, as mulheres é que cozinham! Tu dás-lhe relva! Só vejo folhas e frango seco nessas marmitas!
Não faltam carnes, nem hidratos
Não me ensines! Criei-o bem durante trinta e dois anos. Em menos de um transformaste-o nisto!
O Tomás levantou-se da mesa.
Chega, mãe. A Carminho não tem culpa nenhuma.
Protege a mulher e despreza a mãe! Exclamou ela. Dei-te tudo, criei-te sozinha depois de perder o pai! Agora já não me precisas!
Fomos embora. Calados no carro. O Tomás conduzia com os maxilares duros. Olhei pela janela, a ferver.
À noite, ela ligou-me.
Carminho, desculpa o que disse. Mas custa-me ver o Tomás assim. Ele antes era tão bonito. Agora é só pele e osso. Fica mal, parece que passam necessidades aí.
Nós temos tudo, Dona Matilde.
Então porque não come em condições?
Já não tinha força para me justificar.
***
A tensão entre mim e a minha sogra foi aumentando. Todos os dias ligava. Perguntava tudo: o que cozinhava, quantas vezes o Tomás comia, se estava tonto, se tinha dores. Controlava ao pormenor.
Um dia ligou até ao meu trabalho. A minha colega entregou-me o telefone com uma expressão curiosa.
Carminho, é a Dona Matilde. O Tomás não atende. Está tudo bem?
O meu coração acelerou.
Não sei, estou a trabalhar. Vou tentar ligar-lhe.
Telefonei-lhe de imediato.
Olá, amor. Que se passa?
É a tua mãe. Está preocupada, não te ouviu.
Ah! Tinha o telefone em silêncio por causa da reunião.
Telefonei à minha sogra, acalmei-a.
Ainda bem. Já achei que lhe tinha dado um fanico. A fome faz dessas coisas.
Dona Matilde, ele não está a passar fome!
Vi num programa que perder peso rápido faz mal. Fica a pele a cair, os órgãos deslocam-se. Já o viste no médico depois disto tudo?
Sim, está tudo bem.
Mas foi a que médico? Ao de família? Não devia era ir ao especialista? Gastroenterologista, cardiologista, endocrinologista?
Não precisa
Agora não, mas depois aparece. Conheço quem emagreceu assim e ficou doente.
Desliguei com a cabeça em água. Uma colega olhou para mim em simpatia.
Sogra controladora? adivinhou.
Acenei.
Tive uma assim. Acabei por dizer: ou ela, ou eu. O meu marido ficou do meu lado. Passados seis meses, a velha acalmou.
Eu não podia fazer isso. Dona Matilde estava sozinha, sem família. Tomás era tudo para ela. No fundo, temia perder o filho, temia que ele mudasse e a deixasse para trás. Mas já não aguentava aquela intromissão.
Temos de falar disse ao Tomás nessa noite.
Ele olhou-me de lado.
Sobre o quê?
Tua mãe. Já não aguento. Controla tudo, acusa-me de te deixar a pão e água. Basta!
Ela preocupa-se.
E a nossa vida? Vais deixar que se meta até ao fim? Esta pressão faz-me sentir uma má nora, como se eu não cuidasse de ti.
Ela não quer dizer isso
Então porque quer saber se te alimentei? Porque traz tachos, como se eu não soubesse cozinhar? Porque me liga no trabalho?
O Tomás baixou os olhos.
Diz-lhe que não quero mais chamadas destas. Se quer saber, que fale contigo.
Está bem. Falo com ela.
Falou. Dona Matilde calou-se dois dias. Depois recomeçou, mas só para o Tomás. Ele começou a irritar-se, respostas secas, atirou o telemóvel para o sofá num desses serões.
Chega! Não aguento!
O que foi?
Ela agora liga-me de hora a hora. Quer saber sempre se me dói a cabeça, se estou bem. Como se eu fosse doente!
Abracei-o.
Tem de ser uma conversa séria. No frente-a-frente. Temos de explicar que estás bem, que isto é opção tua, que ela precisa de respeitar.
Ela nunca vai entender.
Tentamos.
***
Marcámos encontro para sábado. Fomos lá juntos. Dona Matilde pôs a mesa, como de costume. Só que desta vez o Tomás falou logo.
Mãe, tens de nos ouvir. Sobre as tuas chamadas, sobre a Carminho, sobre não aceitares as minhas escolhas.
Dona Matilde ficou a meio de pousar uma travessa de rissóis.
Não estou a perceber
Mãe, tu ligas-me todos os dias. Queres saber tudo. Trazes comida que eu não como. Acusas a Carminho de me deixar doente. Isto tem de acabar.
Ela empalideceu.
Sou tua mãe. Preocupo-me. Tenho direito.
Preocupares-te, sim. Mandar na minha vida, não. Tenho trinta e dois anos, uma família. Sou eu que decido o que como e como quero viver.
Falas tu, ou fala ela? apontou na minha direção.
Mãe!
Diz! Nunca viraste a cara à minha comida, aos meus bolos! Agora foges, tudo culpa dela!
Ninguém me obrigou a nada. Quis mudar, melhorar. O médico disse que estava mal. Estou muito melhor agora. Tenho energia, as análises ótimas. Não vês que me sinto bem?
O que vejo é que perdeste quinze quilos! Ficaste magro, de cara diferente!
Estou saudável, como nunca. Antes era obeso, ofegava por tudo. Isto é que era anormal.
Nunca foste gordo, tinhas corpo. Os homens têm de ser assim.
Estava acima do peso. Corrigi.
Ela chorou. Sentou-se numa cadeira, a chorar.
Eu só tenho medo Se te acontece algo, não me aguento. És tudo para mim.
O Tomás aproxima-se, toma-lhe as mãos.
Estou mais saudável agora. Se não mudasse, o médico dizia que podia cair para o lado antes dos quarenta. Assim, poupo-me.
E se emagreceste de mais? Isso também é perigoso.
Estou no peso certo para mim. Sinto-me confortável.
Ela não dizia nada, só olhava as mãos.
Para quê essas novas manias todas, ginásio, pratos estranhos? Antes todos comiam de tudo
Antes mexiam-se muito, andavam sempre de um lado para o outro. Hoje estamos o dia todo sentados diante do computador, a comida mudou Para ser saudável, é preciso outra vida expliquei.
Ela olhou-me, olhos cheios de mágoa.
Tu tiras-me o filho
Fiquei parada.
Não tiro nada. Ele é o seu filho, sempre.
Antes vinha cá, comia da minha comida. Sentia-o meu. Agora vem, recusa tudo. Fico sozinha.
Não é pela comida tentei. O Tomás adora estar consigo. Passeiem, vão ao cinema, venham jantar sem pressão. Mas sem controlar, sem culpa.
Ela olhou-me longamente.
Nunca te quis magoar disse enfim. Só queria vê-lo bem.
Está, acredite. Só diferente.
O Tomás apertou-a num abraço.
Se quiser cozinhar para mim, siga receitas que a Carminho lhe dá. Venha cozinhar connosco. Mas par stop, por favor, com as ligações diárias a perguntar se já comi. Isso rebaixa a Carminho e a mim.
Ela acenou, enxugando os olhos.
Vou tentar.
Saímos de lá com alguma esperança. O Tomás apertou-me a mão.
Obrigado por aguentar.
É difícil, mas deve ser ainda mais para ela. Ela tem é medo de já não ser precisa.
Não vai deixar de ser.
Prova-lho tu.
***
Durante uma semana, silêncio. Ao oitavo dia, chamada às cinco e meia.
Carminho, é a Dona Matilde.
O coração saltou-me.
Sim?
Pensei se não querem vir cá domingo. Vou preparar salmão no forno com legumes. Vi receita na internet. Quase sem azeite, salada fresca. Pode ser?
Fiquei sem palavras de emoção.
Claro que sim.
Ela hesitou.
Desculpa tudo, Carminho. A sério. Só estava assustada. Pensei que ia perder o meu filho.
Ele nunca vai deixar de ser seu, Dona Matilde.
Agora percebo melhor.
Desligou. Fiquei na cozinha, telemóvel na mão. O Tomás apareceu, sorriu.
O que se passa?
A tua mãe convidou-nos, prato saudável.
Ele sorriu largo.
Está a tentar.
Sim, está.
Sábado à noite ela voltou a ligar. Voz preocupada.
Carminho, só confirmar: salmão pode? Ou é melhor pescada? E cenoura, pode? E beterraba, ouvi dizer que tem muita açúcar
Respirei fundo.
Pode tudo, em porções normais.
E quanto é porção normal, cem gramas? Duzentos?
Cem chega.
Azeite quase nada, certo? E manteiga, pode um bocadinho?
Se quiser, só uma colher de chá.
Pronto, tomo nota Obrigada, não te zangues pelas perguntas.
Não me zango.
Quero mesmo que fique bom.
Vai ficar.
Desligámos. O Tomás, que ouvira tudo, riu.
Agora ficas nossa nutricionista oficial?
Antes isto do que sermões.
Longe melhor, sorri.
***
Domingo fomos jantar. Mesa modesta: salmão de forno com limão e ervas, legumes grelhados, arroz integral de acompanhamento, salada. Pequeno bolo, só para não faltar.
Esforcei-me disse ela. Se não gostarem, digam.
O Tomás provou o salmão e cerrou os olhos de prazer.
Está ótimo, mãe.
Ela iluminou-se.
A sério?
Perfeito acrescentei eu.
Ela sorriu, mexendo no cabelo.
Até gostava de aprender essas panquecas de aveia Aquelas, sem farinha, que fazes ao pequeno-almoço.
Explico, claro!
Foi um jantar tranquilo. Falámos de tudo dos vizinhos, da jardinagem, da novela nova. Não pressionou, não vigiou as porções. Só esteve connosco. Falou, escutou.
No fim, abraçou-me com força.
Obrigada por não desistires de mim. Por me ajudares.
Vai correr tudo bem.
No carro, o Tomás segurou-me a mão.
Isto parece um novo começo.
Acho que sim.
Mas três dias depois ligou às seis.
Carminho, já deste de jantar ao Tomás?
Parei, serenando.
Dei, sim.
O quê?
E foi nesse momento que percebi: talvez isto nunca acabasse. Talvez as chamadas nunca parassem, talvez ela nunca deixasse de querer saber tudo. Porque era a sua maneira de continuar presente, de ser mãe, de amar.
Dona Matilde respondi com firmeza. Se quiser saber, pergunte ao Tomás. Ele explica-lhe.
Mas
Basta. Não posso continuar a responder todos os dias. Venha cá sempre que quiser, fale com o seu filho. Mas pare com os interrogatórios diários.
Silêncio. Ouvia o respirar do outro lado.
Tens razão disse ela, quase sussurrando. Desculpa. É o hábito.
Os hábitos mudam.
Eu vou tentar.
Desligou. O Tomás apareceu, ansioso.
Tudo bem?
Não sei confessei. Mas disse-lhe o que tinha de dizer.
Ele abraçou-me.
Tenho orgulho em ti.
E eu só estou cansada desta luta eterna pela minha família.
Agora vou estar a teu lado.
Faz isso.
Passou uma semana sem chamadas. Depois outra. Acreditei que compreendeu. Sexta-feira à noite, tocam à porta. Era a Dona Matilde com um saco.
Olá, querida. Venho chatear?
Nunca. Entre.
Foi directa à cozinha. Tirou um tupperware.
Fiz um ratatouille para vocês. Quase sem azeite. Quero ver se gostam.
O Tomás abraçou-a.
Obrigado, mãe.
Ainda estou a aprender a cozinhar à vossa maneira. Não critiquem muito.
Jantámos. Estava delicioso. A Dona Matilde olhava-nos feliz.
Gostam?
Muito.
Então valeu a pena tentar.
Ficou um pouco connosco. Não inspeccionou o frigorífico, não cobrou. Só esteve.
Quando saiu, o Tomás envolveu-me nos braços.
Está mesmo a mudar.
Está.
Mas eu sabia: era um armistício frágil. Haveriam recaídas, perguntas, medos e tentativas de controlar. A luta pelo marido, por espaço, pelo respeito dos limites nunca acaba depressa.
Mas agora sabia dizer não. Sabia onde pôr uma linha. Sabia que, ao fim do dia, era a minha casa, a minha família e o Tomás do meu lado.
Segunda-feira, seis em ponto, tocou o telefone.
Dona Matilde.
Carminho, olá. Só queria perguntar: vêm cá no fim de semana? Ensinas-me a fazer bolinhos de requeijão sem farinha? A sério, são saudáveis?
Respirei fundo.
Claro que sim, Dona Matilde. Vamos, sim.
Obrigada. És uma querida.
Desligou.
O Tomás olhou-me.
Progresso?
Pequeno, mas progresso.
Sorriu e beijou-me na testa.
Ela está a tentar.
Está, reconheci.
E, no fundo do coração, desejei que um dia as suas chamadas fossem só isso: chamadas. Sem medo, nem controle, nem acusações. Só conversa entre quem ama. Só gente a tentar entender-se numa família diferente.
Hoje, ao ver a noite a cair lá fora e o jantar arrefecer na mesa, soube: a luta não terminou, mas também não foi perdida. Há uma fronteira, e por fim, do nosso lado, estamos juntos.







