Nunca vou esquecer a noite em que a minha sogra decidiu oferecer-me algo muito especial. Era uma terça-feira tranquila e a velha cozinha cheirava a pão acabado de sair do forno. Cheguei mais cedo do trabalho e estava a arrumar a loiça quando o meu marido, Tomás, disse que a mãe dele ia passar cá por uns minutos.
Só vem deixar uma coisa acrescentou.
O tom dele era estranho. Um pouco tenso, um pouco culpado.
A minha sogra, Dona Amélia, apareceu ao fim de dez minutos. Trazia uma caixinha embrulhada num papel castanho, antigo, como se guardasse um tesouro.
Trouxe-te uma prenda disse ela.
Olhei para o Tomás. Ele encolheu os ombros e ficou a fingir que estava distraído com o telemóvel.
Para mim? perguntei.
Claro sorriu ela. Já fazes parte da família.
Essa frase, vinda dela, soava sempre estranha.
Sentámo-nos na sala. A luz do candeeiro iluminava, suave, o velho aparador onde repousava uma fotografia já amarelada do nosso casamento.
Abre lá insistiu Amélia.
Rasguei com cuidado o papel e tirei uma pequena caixa de metal. Dentro, estava uma chave antiga.
Olhei para ela, confusa.
É a chave da arrecadação do prédio explicou-me.
Fiquei calada, sem perceber muito bem.
E?
Amélia recostou-se e sorriu de lado.
Achei que era melhor guardares lá algumas das tuas coisas.
Instalou-se um silêncio na sala.
Que coisas? perguntei.
Ela deu de ombros.
Sabes, as tuas tralhas O apartamento é pequeno, não é?
Olhei para Tomás. Ele estava encostado à janela, a olhar para a rua.
Tomás? chamei baixinho.
Ele suspirou.
A minha mãe só está a tentar ser prática.
Algo em mim partiu naquele momento.
Prática? repeti. Queres que ponha as minhas coisas numa arrecadação?
Amélia franziu os lábios.
Não dramatizes. Só precisamos de mais espaço.
Olhei para a chave na minha mão. Era antiga, levemente enferrujada.
Subitamente, lembrei-me de algo.
Há dois meses ela dissera o mesmo à nora da vizinha do quarto esquerdo. Uma semana depois, a mulher foi-se embora.
O coração apertou-se-me no peito.
É assim que me queres dizer que não me queres aqui? perguntei.
Não digo nada respondeu Amélia, calma. Só te estou a dar uma solução.
Tomás virou-se finalmente para nós.
Talvez estejamos todos a exagerar.
Olhei para ele. Seis anos de casamento e ainda ficava plantado entre as duas, como espectador.
Tomás disse suavemente. Também achas que devo fazer as malas para a arrecadação?
Ele ficou quieto durante uns instantes.
Depois respondeu:
Só queria evitar discussões.
Essas palavras magoaram mais que tudo o resto.
Levantei-me do sofá e deixei a chave em cima da mesinha, ao pé da foto antiga.
Sabes o que é estranho? perguntei.
Amélia observava-me atentamente.
As pessoas acham sempre que quem não levanta a voz vai aguentar tudo.
Fui até ao corredor e peguei no casaco.
Onde vais? perguntou Tomás.
Para um sítio onde ninguém me arrume como se fosse uma caixa qualquer.
Ele deu um passo na minha direção.
Não precisamos de fazer isto já.
Olhei para ele com calma.
Precisamente agora é o momento.
Amélia riu-se baixinho.
O drama é mesmo contigo.
Virei-me para ela.
Não. Drama é quando nos tentam apagar da nossa própria vida.
Abri a porta de entrada e saí para as escadas.
Atrás de mim ficaram o silêncio, a chave velha e uma fotografia de família onde sorríamos todos.
Às vezes, o sinal mais claro de que não pertencemos a nenhum lugar é o presente que nos dão.
Digam-me sinceramente se alguém vos desse a chave da arrecadação em vez de um lugar ao seu lado ficavam?.







