Nora surpreende a sogra na sua própria cozinha e…

Teresa Antunes estava de pé, exatamente no meio da cozinha, segurando com ambas as mãos o vaso de violetas. Era a violeta de Inês. Inês comprara a flor na Feira da Ladra, numa manhã nublada de abril passado, depois de pesar entre três opções escolheu aquela que tinha as folhas mais direitinhas, quase simétricas. Desde então, a violeta morava na janela da cozinha, e recebia agua aos domingos de manhã. Agora, no entanto, a sogra segurava o vaso como quem inspecciona um objeto duvidoso, prestes a decidir se o manda para o lixo.

Dona Teresa, o que está a fazer?

Inês apareceu à porta da cozinha, ainda de camisola e calças de andar por casa. A Leonor dormia, finalmente sossegada depois de almoço, e Inês tinha contado roubar meia-hora de silêncio mas em vez disso ouvira passos, loiça a tilintar e o plastificado dos sacos a roçar-se nas bancadas.

Estou a arrumar respondeu Teresa, sem sequer virar a cabeça. Voltaste a pôr isto no sitio errado. Está a tapar o sol, Inês.

Está onde eu a deixei. Gosto daquele canto da janela.

Pois, mas é mesmo em frente ao nascente. As violetas não apreciam o sol directo matinal.

Esta cresce bem, veja lá, cheia de botões.

Porque ainda é nova. Depois seca-se tudo. Olhe, vou pô-la aqui, ao pé do frigorífico. Tem aí um espacinho.

Inês atravessou a cozinha, pegou no vaso e, calada, pousou-o no lugar de sempre.

Dona Teresa, por favor, não mexa nas minhas coisas.

Teresa olhou-a de lado. Não com raiva, mas com aquele espanto de quem ouve explicações contrárias à lógica do mundo.

Inês, eu não mexo nas tuas coisas, só quero ajudar.

Agradeço, mas esta é a minha cozinha. Eu escolho onde fica cada coisa.

A tua cozinha Teresa ergueu as sobrancelhas e virou-se para o lava-loiças. Começou a esfregar a torneira com determinação, e Inês ficou a olhar para as suas costas largas envoltas num casaco de malha mostarda, a pensar: porque veio hoje, a meio da semana, sem ligar, sem avisar? Ouviu a chave rodar, e logo entrou na casa, entre as coisas dos outros, a ensinar onde se deve pôr cada coisa.

Mas Inês não disse nada em voz alta.

A Leonor acorda a que horas, mais ou menos? perguntou Teresa.

Daqui a hora e meia, talvez.

Então vou dando um jeito por aqui. Vai descansando.

Inês abriu a boca, fechou-a. Disse apenas:

Aqui está tudo em ordem.

Sim, vê-se. Só a torneira é que tinha um bocadinho de calcário.

Inês encheu um copo de água, bebeu de pé, encostada à janela, a ver a violeta. Um botão já se abria, roxo com contorno branco. Leonor, todos os dias, apontava-lhe o dedo e dizia Flôri. Inês corrigia, Flor, Leonor, e ela ria, Flôri.

Pousou o copo, virou costas e foi para a sala. Não fechou a porta. Fechá-la seria um gesto, e não queria discussão. O que mais desejava era que a sogra percebesse sozinha que aquele não era o seu momento, que aquela não era a sua casa, e que ali viviam outras pessoas com outra vida. Mas Teresa não percebia, ou percebia e não se importava.

Vinte minutos depois espalhou-se na casa aquele aroma rico e denso de canja a ferver. Inês voltou à cozinha.

Na panela era a canja que fervia.

O que é isto? murmurou.

Preparei canja de galinha com massinhas. O André chega com fome e o frigorífico está vazio.

Eu tinha lá arroz de pato do jantar de ontem. E ainda umas almôndegas.

Isso já estava velho. Deitei fora.

Inês parou.

Deitou fora as almôndegas?

Tinham de ontem, Inês. Qualquer dia intoxicam-se.

Dona Teresa as almôndegas estavam boas. Ia aquecê-las para hoje. Era comida que eu fiz.

Oh, deixa lá, as almôndegas custam tostões. Agora tens a canja, feita de fresco.

Inês olhou para o tacho. O cheiro estava óptimo e era isto que mais a irritava: cheirava mesmo bem, estava tudo cozinhado ali, não com as suas mãos mas com a sua panela e alimentos que Teresa deve ter trazido da rua, e agora havia que lidar com tudo isto.

Obrigada. Mas peço-lhe, da próxima vez não deite fora o que é meu.

Não foi por mal. Só quero ajudar.

Eu sei. Mas por favor, não volte a fazer.

Teresa mexeu a sopa. Não respondeu.

Inês sentou-se. Viu a sogra arrumar, lavar a colher, esfregar um canto do fogão, segura de cada movimento, sem hesitar nos móveis, sem medo dos armários alheios. Isso só podia querer dizer que ali andava sem ela quando Inês visitava a mãe, ou enquanto dormia, ou ao parque com a Leonor. Entrava na casa como na sua.

Dona Teresa, vem cá muitas vezes?

Só quando é preciso.

Quando é preciso, o que quer dizer?

Teresa virou-se. O rosto, limpo e quase magoado.

Inês, mas que ideia! Eu não sou de fora. O André é meu filho.

E esta também é a minha casa.

Pois, mas não posso cá vir?

Pode, claro. Mas avise, e só se estivermos à espera.

Pausa. O olhar de Teresa era o que Inês já conhecia: meio ofendida, meio chocada, um misto silencioso destinado a transformar-se numa conversa de horas mais tarde com André, ao telefone.

Está bem disse a sogra.

A sopa ficou ao lume. Teresa saiu uma hora depois, sem esperar pela Leonor. Deu um beijo fechado à neta pela porta, cochichou baixinho, está a dormir e partiu. Levou as chaves.

Ao jantar, André entrou e logo inspirou.

Mãe veio cá?

Sim.

Cheira bem.

André.

Ele pousou o casaco, olhou para ela.

O quê?

Veio sem avisar. Deitou fora o jantar de ontem. Mexeu em tudo, fez o que quis, como sempre faz.

Ela só quer ajudar.

Disseste já isso várias vezes. Fala com ela. Explica-lhe que tem de telefonar antes de entrar.

Ele cortou pão, mastigou sem dizer nada.

Falo, sim.

Dizes sempre isso.

Digo outra vez, Inês.

Inês serviu a sopa. Ele provou.

Está boa ela cozinha mesmo bem.

E percebeu que dissera o errado.

Inês jantou em silêncio.

Uns dias depois, Teresa voltou. Era sexta, duas da tarde. Leonor acordava chorosa no berço, quando Inês ouviu a chave na porta.

Acordou, meu doce! A voz de Teresa preenchia o corredor. A avó chegou!

Leonor deixou de chorar imediatamente. Sempre a acalmava a chegada daquela avó, um mistério para Inês.

Encontrou Teresa encostada ao berço, de braços estendidos, a neta a procurá-la com as mãozinhas.

Olá saudou Inês.

Olá, olá! Teresa pegou Leonor ao colo, rodopiou. Tão crescida! Ligaste-me?

Não, estava já aqui perto.

Vim de mansinho. Não incomodo.

Foram à cozinha. Inês fez chá. Leonor, ao colo da avó, comia pão com manteiga que Teresa trouxera, embrulhado num pacote com outras coisas ainda desconhecidas.

Trouxe um bolo de pastelaria. Pão-de-ló para a Leonor, gosta de doces.

Leonor não come bolo.

Então porquê?

Tem dois anos e meio. Não quero dar-lhe açúcar ainda, teve reacção à cobertura de chocolate.

Mas esta tem só creme de baunilha, vê-se bem.

Dona Teresa, agradeço, mas não.

Um bocadinho não faz mal insistiu a sogra, a voz afável, ainda mais do que zangada. O meu André sempre comeu e nunca fez mal.

O seu filho não é a Leonor. Cada um tem as suas reacções.

Gostas de complicar.

Talvez. Mas é minha filha, e não quero que lhe dê bolo.

Pausa. Leonor chegou-se ao pacote; Teresa empurrou discretamente para debaixo da mesa.

Está bem. Sem bolo.

Obrigada.

Chá tomado, Leonor brincava no chão com um tacho e uma colher que Teresa tirara sem pedir da gaveta baixa. Inês reparou mas deixou estar; a colher estava limpa.

E o André no trabalho? quis saber a sogra.

Bem, chega cansado.

Ele sempre foi assim. Dava tudo e depois esgotava-se. Uns dias de férias é que precisava. Não vão sair no verão?

Ainda não sabemos.

Eu ficava com a Leonor. No campo, ao ar livre.

Penso nisso.

Pra quê pensar tanto? Julho fica resolvido.

Dona Teresa, já disse que ainda vou pensar.

Trocaram olhares, compridos, a chávena presa entre as mãos de Inês.

Leonor aproximou-se. Teresa pegou nela, afagou-lhe o cabelo, aspirou-lhe o cheiro.

Tão boa.

Inês lavava as chávenas, espreitando a janela. A violeta estava verde, vistosa, segundo botão quase a desabrochar.

Mas o bolo apareceu quando Inês atendeu o telefone. Ao voltar, viu Leonor com o pão-de-ló na mão gordinha, e Teresa a olhar-lhe com um sorriso pequeno de vitória.

Dona Teresa.

Foi só um bocadinho, Inês. Ela pediu.

A Leonor pede tudo o que lhe derem. É criança.

Pois, é criança. Não dramatizes.

Inês tirou o bolo, deu-lhe uma fatia de maçã. Leonor aceitou, voltou para o tacho.

Pedi que não lhe dessem bolo.

Ela quis. Já expliquei.

Da próxima vez, diga que não. A senhora já é adulta, pode dizer não a uma criança.

Teresa levantou-se, pegou na mala.

Vou andando.

Como quiser.

Estás zangada comigo.

Só lhe peço que siga as minhas regras na minha casa.

As tuas regras está bem.

Saiu. Leonor despediu-se: Tchau, tchau! Teresa respondeu do corredor: Tchau, minha luz. Fechou a porta.

O bolo foi para junto da porta, para relembrar que não queria aquele presente.

Mais tarde, André disse: Ela só gosta da Leonor.

Inês respondeu: Eu sei.

Então qual é o problema?

Inês demorou, antes de responder:

André, percebes que ela entra quando quer, faz o que quer e nem pede licença? Isto é nosso lar. Não devia ter de lutar pelo que é de nossa filha.

Ele encolheu os ombros, agarrado ao telemóvel.

Ela ajudou-nos com a casa, Inês.

Lá estava. Esse peso.

Eu lembro-me.

Sem ela, tínhamos ficado alugados mais uns anos.

Eu lembro, André.

Se calhar devias

O quê? Aguentar? Aceitar que faça o que quiser por ter dado dinheiro?

Ele não respondeu.

Não funciona assim. Uma ajuda não é autorização de entrar a qualquer hora.

Ele voltou ao telefone, silêncio. Inês queria que ele percebesse sozinho, sem palavras. Mas via nos olhos dele o medo da conversa difícil com a mãe, mais forte do que o desconforto das discussões com a mulher.

Nada disse ela. Boa noite.

Levantou-se, foi ver Leonor. A filha dormia de bochechas rosadas, esparramada, cara enterrada na almofada. Inês virou-a devagar, ajeitando-a. Ficou na penumbra, a escutar a respiração miúda.

Passou uma semana, depois outra.

Teresa Antunes ligou no sábado de manhã:

Inês, queria ir aí amanhã. Posso?

Domingo não dá.

Não dá como, o André disse que estavam em casa.

Sim, mas temos planos. Fica noutra altura.

Pausa.

Comprei um brinquedo à Leonor. Queria levar-lhe.

Pode entregar pelo André.

Outra pausa, mais funda.

Está bem.

Ao jantar, André resumiu: A mãe ficou magoada.

Eu sei.

Diz que tu não a deixas entrar.

Só não quero visitas surpresa.

Para ela é tudo igual.

Inês dobrava roupa na cama, sacudiu um lençol, alinhou-o.

André, de quem é a parte que tomas?

De nenhuma, queria que vocês

Não é questão de entendimento. Quem toma decisões nesta família? Ela ou nós?

Nós.

Então explica-lhe que, sem telefonar, não pode. Que tem de respeitar os meus limites com a Leonor. E que deve devolver as chaves.

Ele arregalou os olhos.

As chaves?

Sim.

Isso vai magoá-la.

E a mim, não?

Não é igual.

Porque não?

Silêncio.

Porque é mãe.

E eu sou mãe da Leonor. E mulher desta casa. Não digo que não possa entrar só peço: que telefone. Que respeite.

Ele não respondeu. Saiu para a cozinha. Inês ouviu o bule a ferver.

Pegou num casaquinho da Leonor, o botão solto, guardou para coser depois.

Duas semanas depois, Teresa ligou ao André: tinha anos de um primo, não podia sexta, queria ir sábado. Ele disse: Claro, mãe. Não avisou Inês.

No sábado, Inês abriu a porta: Teresa atolada de sacos pesados.

Olá, André disse que vinhas.

Vim sim.

Entra.

Trouxe compras: batatas, cebolas, frasco de pickles, naco de carne, maça, farinha.

Vim fazer uns folhados, o André adora de couve.

Tem rolo de massa cá em casa? Não trouxe o meu.

Tenho. Mas

Teresa já lavava as mãos, mexia na farinha, conhecia de ginjeira a disposição dos armários.

Inês saiu, encontrou André no quarto.

Disseste que ela podia vir?

Sim. Queria

Nem perguntaste.

Tu ias dizer que não.

Era isto: se fosse pedir, ouviam não.

Ficaram calados, ela escutava as panelas, cheiro a cebola, algo a chamuscar-se, depois cebola de novo.

Da próxima vez perguntas sempre. Sempre. Ouviste?

Ele respondeu qualquer coisa, já não ouviu.

Os folhados ficaram prontos, couve, crocantes. Leonor comeu um inteiro, pediu mais. Teresa brilhava. Inês calada, a pensar em almôndegas, bolo, na violeta da janela.

Ao sair, Teresa indicou uma parede.

Aqui ficava bem uma prateleira para sapatos.

Pensamos nisso murmurou André.

Vi umas boas na feira, posso trazer.

Não é preciso, fazemos se quisermos apressou-se Inês.

Teresa olhou primeiro para ela, depois para o filho, saiu.

Fecharam a porta.

Para quê assim? André irritou-se.

Assim como?

Só quis ajudar.

Quis decidir por mim. Não é igual.

Ele foi à cozinha. Inês ouviu-o mastigar o último folhado.

Abril continuava frio. Inês levava Leonor a passear, depois arrumava, passava a ferro, cozinhava. Às vezes lia, se a Leonor dormia bastante. Vida pequena, mas dela.

Num desses dias, lendo junto à janela, sentiu de novo a chave girar.

Pousou o livro.

Teresa entrou, avistou-a.

Ah, estás cá. Que bom. É só um instantinho.

Dona Teresa

Só vim trocar as cortinas. Trouxe umas lindas. Estas já estão baças.

Desenrolava já o pacote. Dentro, cortinas beges, com florinhas.

Espere disse Inês.

Teresa ficou imóvel.

O que foi?

Por favor, não quero mudar nada. Gosto das minhas.

Inês, são tão simples as tuas. Estas são bonitas, comprei em saldo.

Dona Teresa Inês endireitou-se , já lhe disse para avisar antes de entrar. Não avisou.

Eu pensei que estavas cá.

Não importa. Deviam ter ligado. Deu um passo em frente. E não quero as cortinas. Gosto das minhas. Por favor, leve as suas de volta.

Teresa olhou-a, demoradamente, embrulhou as cortinas.

Está bem. Tu és a dona da casa.

O tom fazia parecer dona outra palavra qualquer. Teimosa. Ingrata.

Sim, sou.

Teresa foi embora sem chá, pela primeira vez, sem deixar nada no fogão.

À noite, André: A mãe ligou ficou sentida.

Eu sei.

Diz que foste rude.

Só a pedi que respeitasse o que combinámos.

Ela queria ajudar.

André. Inês fixou-lhe o olhar. Achas mesmo que quem quer ajudar pode fazer tudo numa casa alheia?

Silêncio.

Se sim, temos ideias diferentes da vida. Se não, então apoia-me. Eu sou tua mulher.

Ele apertou-lhe a mão. Breve.

Vou falar com ela.

Disseste isso cinco vezes.

Inês

Cinco vezes, André.

Ele libertou-se, saiu.

Arrumou a cozinha, limpou, moveu a violeta para a ponta da janela. O segundo botão abriu por fim; o terceiro Inchava, promissor.

Abril acabou. André fazia trinta.

Inês preparou a festa com entusiasmo. Receita nova bolo de mel e natas, tudo comprado de propósito. Fez as bases à noite, montou e pôs a repousar.

Os convidados seriam poucos: dois amigos com esposas, irmã do André e marido. E claro, Teresa.

A mesa posta: salada russa, peixe assado, pepinos em conserva, fatiados, tudo como deve ser.

Teresa foi a primeira. Ligou antes, quis ajudar; Inês disse que estava tudo disponível. Entrou e foi logo à cozinha.

Olha só a mesa Peixe?

Salmão rosado.

O André gosta mais de garoupa.

Hoje é salmão.

Pois Endireitou um garfo distraidamente. Foste tu que fizeste o bolo?

Fui.

O André por regra prefere outro. Já te disse?

Não. Mas temos este hoje.

Eu teria feito o outro, dava tempo.

O que está feito serve.

Vieram os outros, alegria, Leonor corria de colo em colo, toda a gente lhe dava bolachas. Inês velava, discreta.

André feliz. Ria, conversava, bebeu pouco. Inês olhava-o, tão bom homem, ali enredado entre ela e Teresa, sem ver que não era de ambos a decisão, mas dele.

Durante o bolo, Teresa comentou, para a mulher de um amigo:

Este é de mel. Foi a Inês que fez.

Cheira tão bem louvou a amiga.

É um género de bolo pesado. Nem toda a gente aprecia.

Alguém serviu-se. Inês ficou de pé, imóvel.

O André gosta mais de outro, mas pronto, foi este.

A pausa foi breve. Alguém provou, disse que maravilha, o murmúrio dos convidados retomado.

Mas Inês ouvira. Foi arrumar loiça à cozinha. Respirou fundo. Voltou para o convívio.

Já no final, Leonor adormecia e Inês levou-a ao quarto. Teresa seguiu.

Deixa estar, Inês, eu deito-a.

Faço eu, obrigada.

Inês, já estás tão cansada, deixa-me.

Faço eu própria.

Teresa deteve-se. Ruído e risos ao fundo da sala.

Tu és sempre assim baixou a voz , nunca deixas que ajude. Isso dói.

Inês virou-se. Com Leonor aninhada, já quase a dormir no ombro.

Dona Teresa, vou eu deitar a minha filha. Não tem nada a ver com magoar. É meu direito.

Deitou Leonor, afagou-lhe o cabelo. Leonor adormecida logo. Inês fechou a porta.

Os convidados despediam-se. André ria com a irmã, alguém vestia o casaco já na entrada.

Encontro Teresa a guardar algo num tupperware.

Que está a fazer?

Levo o resto da salada, senão estraga-se.

Não estraga nada. Comemos amanhã.

Ainda há meia travessa

Tomo conta, Dona Teresa.

Já estava, ora

Deixe, por favor.

A voz de Inês era firme; Teresa parou, fixou-a, examinando-a profundamente.

O que é que te deu?

Nada. Deixe ficar, agradeço.

Teresa pousou a caixa.

Inês, não sou tua inimiga.

Eu sei.

Amo o André. Amo a Leonor.

Eu também quero viver bem consigo. Mas precisamos de regras iguais para todos.

Queres correr-me daqui?

Quero respeito pela nossa casa.

Eu respeito.

Não, não respeita. Inspirou fundo. Por favor, despeda-se, amanhã falo com o André.

Teresa pegou na mala, olhou-a.

Está bem.

Foi ter com André, abraçou-o, beijou-lhe o rosto, sorriu. Despediu-se dos outros. Passou pela porta do quarto de Leonor, só encostando a porta levemente. Vestiu-se, saiu.

André fechou por fim.

Estou tão cansado esfregou a testa.

Senta-te, precisamos de falar.

Sentou-se. Olhou-a.

A sério?

Sim.

Ela serviu chá.

André, quero que peças à tua mãe as chaves da casa.

Ele baixou a chávena.

O quê?

Diz-lhe que entregasse as chaves, peço eu.

Silêncio. Observou o chá.

Inês, isso vai magoá-la.

Eu sei. Mas posso sugerir: fazermos um crédito, devolver-lhe a quantia que investiu. Assim, fica claro que esta casa é só nossa.

Mas nós vamos saldando devagar, qual é o sentido?

O sentido é não teres mais desculpas para tudo ser permitido porque ela ajudou.

Não digo isso.

Dizes. Sempre.

Ficaram um tempo. Ele olhou a rua escura, uma janela acesa do outro lado.

A mãe sempre resolveu tudo. Desde que o pai morreu, ficou sozinha, eu e a minha irmã. Fez-se a tudo.

Percebo.

Faz por bem.

Eu não quero que deixes de gostar dela. Só peço que faças respeitar a nossa casa. Tens de crescer, André. És homem.

As chaves vão custar-lhe.

Que escolha.

Hoje achaste que a expulsei.

Só a pedi que se fosse após aquela conversa.

Ficou triste.

Eu também, André. Quando deitou fora comida minha. Quando deu bolo à Leonor. Quando criticou o meu bolo e nunca o dela. Levantou-se. Quero que tu trates disso. De uma vez.

Ele demorou, depois:

Vai chamar-nos ingratos.

Talvez.

Vai dizer que a deixei por ti.

Talvez.

Vai doer.

Eu sei.

Já passava das dez. Dormia-se na casa.

Queres mesmo o crédito?

Quero a casa por inteiro.

Já é nossa.

Enquanto ela tiver chave, não é.

Ele foi buscar chá. Bebeu de um trago.

Dá-me uns dias. Falo com ela.

Uma semana.

Depois recolho as chaves.

Uma semana, André.

A noite correu mansa. Leonor ressonava baixinho entre os cubos de madeira.

Inês foi espreitar; ela construía uma torre, com todo o rigor.

Torre, disse Inês.

Torre! repetiu Leonor, juntando mais um cubo. A torre vacilou, manteve-se.

Uma semana passou. Teresa ligou quarta-feira, vinha sábado à hora combinada.

Trouxe um livrinho com animais para Leonor.

Foi à feira, ela gosta de bichos explicou.

Obrigada.

Olá, avó! exclamou Leonor.

Era ternura e algo mais no olhar de Teresa.

Tomaram chá. Falaram do tempo, do campo, disseram que ia ser verão quente. Leonor folheava o livro.

O urso! sorria Leonor.

Urso! ecoava Teresa.

Ao final da tarde, tirou da mala o molho das chaves, separou uma e pô-la em cima da mesa.

Está aqui, como acordámos.

André guardou-a.

Obrigado, mãe.

Ora, nada. Só combinar que dia me querem cá, eu venho.

Claro, mãe.

Não me importo de vir quando combinamos. Sei que já têm vida feita.

É sempre bem-vinda, disse André.

Olhou-lhe nos olhos. Depois a Inês.

Eu sei.

Talvez soubesse mesmo. Talvez não. Inês deixou-se ficar.

Às cinco e meia, Teresa despediu-se. Leonor acenou-lhe da janela na despedida; Teresa respondeu da rua, sumindo ao virar da esquina.

André fechou a janela.

Pronto.

Pronto respondeu Inês.

Leonor desapareceu com o livro. Eles ficaram na janela.

Ficou uns dias sem ligar. Sofreu.

Eu sei.

Estás arrependida?

Inês demorou, sentiu mesmo: Não. Não estou.

Nem eu.

Olhavam pela vidraça. Teresa, na sua camisola mostarda, sumia ao fundo.

Devíamos voltar a pôr o armário no sítio antigo.

Qual?

O do hall. Ela mexeu nele na primavera. Não gostavas.

Lembraste?

Lembro.

Agora?

Porque não?

Foram ao hall. O armário estava encostado, diferente. André de um lado, Inês do outro.

Um, dois, três.

Empurraram. Ficou no sítio antigo. A porta abria solta, sem esforço.

Assim sim, disse André.

Assim.

Leonor apareceu com o livro.

Olha, mamã, a raposa!

Muito esperta assentiu Inês.

Esperta! Leonor foi brincar outra vez.

A mãe foi até à cozinha. Encheu o copo de água, apoiou-o na mesa, olhou para a janela.

A violeta continuava onde ela sempre a pôs. Três botões abertos, intensos, orlados de branco. O quarto a engrossar, fechado, promissor. Folhas viçosas, verde-escuro. Não secou.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Nora surpreende a sogra na sua própria cozinha e…