No dia seguinte, a vizinha agarrou-se novamente à nossa cerca. A minha esposa foi ter com ela e diss…

No dia seguinte, a vizinha lá estava ela novamente, pendurada na nossa vedação como se fosse uma roupa a secar. A minha mulher foi ter com ela e disse-lhe, com aquele ar muito simpático que só ela sabe fazer quando está irritada, que tínhamos imenso que fazer e que, ao contrário do dia anterior, não íamos poder meter conversa. E amanhã?, perguntou Bernardete, cheia de curiosidade. Amanhã é igual. No fundo, o melhor é não vir cá mais.

A minha intenção de viver na cidade não trouxe nada de bom.

A minha mulher tem uma casa numa pequena aldeia do Alentejo. Quando os meus sogros ainda eram vivos, íamos lá muitas vezes. Adorava quando eles punham a mesa à sombra do velho limoeiro e passávamos horas a conversar até anoitecer. Era sempre assim quando íamos de visita. E no inverno, a sogra acendia a lareira e fazia broas de mel. Toda a casa cheirava a bolo acabado de sair do forno. Era uma maravilha!

Eu e a minha mulher gostávamos de ir dar umas voltas por entre as vinhas, às vezes até arriscávamos apanhar umas azeitonas. Mas depois os pais da minha mulher faleceram. Não vendemos a casa; planeávamos lá ir tantas vezes como antes. Enfim ficou tudo no papel.

Havia sempre qualquer coisa para fazer na cidade. Mais tarde deixámos mesmo de pensar naquela casa. A vida simplesmente passou. Os anos voaram sem darmos conta. O nosso filho conheceu uma rapariga, a Lúcia nome bem português e casou com ela. A minha nora dizia muitas vezes que seria um sonho viver no campo, nem que fosse apenas no verão.

Foi aí que nos lembrámos novamente da casa. Fomos lá eu e a minha mulher, de propósito, já que fazia uma eternidade desde a última vez. Estava quase tudo igual, só que a casa pedia um valente balde de lixívia.

Arregaçámos as mangas e desatámos a limpar. A Ana ficou dentro de casa e eu dediquei-me ao quintal. Temia que, com os anos, a casa já tivesse ruído mas, depois de um bocadinho de esfregona e umas marteladas nos caixilhos, aquilo ganhou nova vida. No segundo dia chegaram os filhos: também se meteram à limpeza. Ao fim de um dia, parecia que tínhamos contratado uma empresa de limpezas. As mulheres prepararam o jantar, e eu e o nosso filho demos um jeito à mesa e bancos antigos debaixo do limoeiro.

Foi então que reparei numa senhora com um olhar de quem sabe tudo, do outro lado da vedação, a observar-nos com aquele descaramento típico de quem não tem televisão em casa. Disse-nos que tinha comprado a casa ao lado recentemente e veio ali à nossa tertúlia, como se diz cá. Sendo nós gente civilizada, convidámo-la para jantar. Chamava-se Bernardete. Contou-nos que estava sozinha naquela terra, tinha uma filha que já tinha dado três netos, que era divorciada. Falava, falava, e eu já só via a boca mexer Até que de repente sinto assim uma coisa esquisita a roçar na minha perna.

Olho por baixo da mesa e vejo o pé da vizinha, em acção direta no meu calcanhar. Tirei logo o meu pé dali, para não armar escândalo, mas ela continuava, persistente como só uma portuguesa determinada sabe ser. Nunca me tinha visto em tal embrulhada. Tentei sair dali à socapa para nem dar nas vistas. Também não queria que a Ana notasse. E a vizinha sempre a debitar conversa, como se nada fosse. As crianças já choravam pelo cansaço do dia. Só me apetecia que a visita acabasse. Enquanto arrumávamos a mesa, a Ana comentou baixinho que aquela Bernardete era muito despachada. Bem, não havia como discordar. Porém, sobre o que se passara debaixo da mesa, nem respirei. Fiquei até envergonhado. Aposto que aquela senhora já tinha feito aquilo a muitos mais. No dia seguinte, lá estava ela outra vez, a apoiar-se na nossa vedação.

A Ana lá foi explicar-lhe que tínhamos muito para fazer e não podíamos estar à conversa. E Bernardete logo a perguntar do dia seguinte.

Olhe, amanhã é igual. Não vale a pena voltar.

Foi a atitude mais valente do dia. A vizinha ainda resmungou entre dentes, mas nem me dei ao trabalho de ouvir. Sinceramente, acho que a Ana fez muito bem. Somos transparentes, não gostamos dela, e quando é assim, não se força. Afinal, sinceridade acima de tudo e algum sossego, se faz favor!

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No dia seguinte, a vizinha agarrou-se novamente à nossa cerca. A minha esposa foi ter com ela e diss…