Ninguém os enxotou respondíamos sempre aos dois lados eles é que não quiseram ficar! Que venham! Ficaremos felizes!
Fica quieta! Faz de conta que não estamos em casa diz António com toda a calma.
Estão a tocar à campainha! suspira Vitória, levantando-se do sofá.
Deixa tocar responde António.
E se for alguém importante? pergunta Vitória. Ou algum assunto urgente?
É sábado, meio-dia diz António. Não convidaste ninguém, eu não espero por ninguém! Qual é a conclusão?
Só vou espreitar pelo olho mágico! murmura Vitória.
Senta-te! há firmeza no tom. Não estamos em casa! Seja quem for, que vá embora!
Mas tu sabes quem é? Vitória está inquieta.
Tenho uma ideia… por isso é que insisto para te sentares e não apareceres à janela!
Se for quem estou a pensar, não vão desistir tão facilmente! Vitória encolhe os ombros.
Depende de quanto tempo aguentamos sem abrir a porta António responde sereno. Mais cedo ou mais tarde desistem. E não é agora que vão dormir no vão das escadas
No fim de contas, não temos nada para fazer fora de casa. Senta-te, põe os fones, pega no telemóvel e vê um filme.
António, é a minha mãe a ligar diz Vitória, mostrando o telemóvel.
Então é a tua tia Rosa e o seu filho desajeitado lá fora conclui António.
Como sabes? Vitória estranha.
Se fosse o meu primo, era a minha mãe a ligar! António pronuncia “primo” com um tom irónico e desagradável.
Nenhuma outra hipótese? pergunta Vitória.
Se é vizinho, não tenho vontade de conversar. Se é amigo, depois de tocar à porta vão embora. Amigos a sério teriam avisado antes de aparecer! E não ficariam meia hora à campainha.
Só familiares chatos fazem tamanha pressão!
António, é a minha tia Rosa diz Vitória, resignada. A mãe mandou mensagem. Pergunta onde andamos, que a tia vai ficar cá uns dias, tem coisas para tratar em Lisboa!
Diz-lhe que há muitos hotéis na cidade António sorri.
António! Não posso escrever isso!
Então, diz que não estamos em casa, que tivemos que ficar num hotel porque estamos a desinfestar a casa dos baratas!
Perfeito! Vitória escreve e envia a mensagem.
António, agora diz que devíamos reservar dois quartos para a tia e para o filho, o Mário! Vitória está perplexa.
Escreve que não temos dinheiro. Mais: diz que estamos num hostel, dividindo quarto com quinze estrangeiros António sorri ávido pela sua criatividade.
A mãe pergunta quando voltamos Vitória olha para o marido.
Diz que daqui a uma semana António despacha.
Os toques à porta cessam. O casal suspira de alívio.
António, a mãe disse que a tia Rosa vem daqui a uma semana Vitória já nem tem forças na voz.
Nesse dia, também não estaremos em casa António responde.
António, sabes que isso não resolve, não é? Não podemos fugir deles para sempre! E se vierem num dia de semana? Se nos esperam à porta depois do trabalho? Tanto a minha tia como o teu primo são bem capazes!
Pois António fica cabisbaixo. Quem nos mandou comprar T3?
António, foi para a nossa futura família grande lembra Vitória.
Isso mesmo, devíamos já ter filhos! diz António, decidido. Aliás, dois, de uma vez!
E achas que não quero? Vitória revolta-se. Sabes bem que já tentei. Não está fácil.
Parar de nos chatearmos e tudo resolve António fala sério. Ora é a tua família a moer-nos, ora é a minha! Se pudéssemos mandá-los todos de volta de onde vieram Por causa deles, nada anda para a frente!
Vitória não discute. Sabe que António tem razão.
Antes de casarem, fizeram exames caros de compatibilidade, saúde, genética. Até a fertilidade conferiram.
Na altura, tudo maravilhoso. Mas logo pós-casamento, o projeto de filhos foi adiado para juntar dinheiro para a própria casa.
De herança não contavam. Antes do casamento, viviam ambos com as mães, cada um num T1. Só podiam contar consigo próprios.
Cinco anos de trabalho e poupança rigorosa deram-lhes a chance de comprarem o apartamento grande.
Não era novo, compraram usado, investiram em obras, mobília quase toda nova. Mas a felicidade era imensa!
Nem tiveram tempo de festejar a mudança: a tia Rosa apareceu logo, ainda por cima com o filho Mário, e para garantir, veio acompanhada da sogra.
Vocês aqui com espaço! Nós, eu e a Vitória, sofremos anos num quarto só!
Muito conveniente aprovou a tia Rosa. Guarda-se já um quarto para mim e outro para o Mário!
Aqui na sala não se dorme avisou António. É área de lazer!
Eu não venho cá trabalhar! riu-se a tia Rosa. Vitória, explica ao marido que não fica fácil com o meu filho, ele ressona! E nem sequer puseram a mesa para os hóspedes!
Não estávamos à espera Vitória, envergonhada.
E o frigorífico está vazio António apoia a mulher.
Fica combinado então tia Rosa faz charme António, corre ao supermercado, Vitória à cozinha!
Parecem estátuas! ralha a sogra. É assim que recebem visitas?
Mas isto é falta de respeito António começa, mas Vitória arrasta-o para outra divisão.
Quando António se liberta do abraço da mulher, pergunta:
Vitória, não há aqui nenhum engano? Podes crer que os coloco todos na casa da tua mãe! Já que vieram visitar, comportem-se como visitas! Isto é demais!
António, é simples! Ela veio do interior, é costume na família!
Conheço gente do interior, nunca vi cara de pau assim!
Meu amor, não vamos arranjar guerra com as mães nem com a tia! Senão depois escavacam-me os nervos! E tu vais virar inimigo, servir-te-ia de quê?
Olha, não me interessa o que pensam! Se não me respeitam, não me custa nada ignorar e nunca mais ver! Que desapareçam, vou dormir tranquilo!
António, querido! Tem dó de mim! Se correr com a tia Rosa, a mãe amaldiçoa-me! Não tenho ninguém além dela…
Esse argumento funciona. António cerra os dentes e vai ao supermercado.
A estadia da tia Rosa, que era para ser três dias, prolonga-se para duas semanas. António já está dependente de chá de camomila ao fim do segundo dia.
Quando enfim vão embora, Vitória e António celebram com esfregona e vassoura. Três dias de limpeza profunda.
Logo depois, surge a situação do outro lado.
Mana, só venho tratar de uns assuntos! diz o primo Alexandre, abraçando António que até os ossos estalam Faço o que preciso e depois voltamos!
Não resolvias sozinho? pergunta António.
Ora essa! Tenho família! Como os deixava no interior e vinha para Lisboa? Imagina se me meto em aventuras? A minha mulher vigia-me!
Por isso trouxeste os miúdos? António interroga.
Ia deixá-los com quem? Alexandre ri, dando uma palmadinha nas costas do primo. Eles podem divertir-se! Vamos aproveitar a cidade!
Alexandre! grita Catarina, mulher do primo Ou te comportas ou vai tudo correr mal!
Meia hora depois, Vitória cai de dor de cabeça.
Os miúdos correm pelo apartamento aos berros, Catarina só comunica a gritar, e Alexandre quer sair para a noite, o que faz Catarina gritar mais.
António, não eras filho único? Vitória geme, quase aflita.
Primo por parte de mãe resmunga António. Eu até lhe digo primo.
Pede-lhe para ir embora?
Bem que queria António põe a mão no peito mas aí é igual, como com tua tia. Depois a minha mãe não me larga!
Mal o casal recupere de uma visita, aparece outra. Tia Rosa e Mário surgem sempre com novos motivos para ir à cidade.
Alexandre e família aparecem de tempos a tempos para “tratar de assuntos”. As mães também não esquecem. A sogra moí o genro, a mãe faz o mesmo com a nora.
O nervosismo constante mina a saúde física e mental do casal jovem.
Numa vida de carrossel de visitas, impossível sequer pensar em filhos. A saúde vai ficando comprometida, e nem se sabe como seria com uma criança ali no meio.
E se trocássemos de casa? sugere Vitória.
Por uma acolhedora, com paredes almofadadas? sorri António Dão-nos uma à borla brevemente!
Não Vitória sorri um pouco. E se trocássemos por outra igual, noutro bairro? Há quem procure trocar! Mudamos e ninguém sabe para onde!
Eles acabam por descobrir António encolhe os ombros. O meu primo, a tua tia, vão perguntar aos novos donos. Somos apanhados e crucificados!
Então, talvez dê tempo para engravidar? Vitória espera.
Não só engravidar, mas pôr ao mundo! Isso já permite recusar visitas, será alguma desculpa…
Só mudando para casa dos amigos… Dávamos uma fugida.
Estás a falar da Rita e do Paulo? pergunta António.
Sim, eles têm um quarto livre!
Tem a Tera lá a viver António recorda. Esqueceste?
Prefiro viver com a cadela do que com os nossos parentes! Vitória deixa-se cair.
Espera! António agarra no telemóvel.
Paulo, empresta a cadela!
Ó meu, sou teu eterno devedor! Eu e a Rita vamos de férias, a Tera não gosta de estranhos, mas confia em vocês! Levo comida! Cama, brinquedos, taças! Ainda te dou algum dinheiro!
Traz tudo! António feliz.
Vira-se para a mulher:
Liga à mãe, a tia pode vir amanhã! E eu ligo ao primo, que venha cá durante a semana!
Tens a certeza? Vitória pergunta.
Recebemos todos de braços abertos! Uma pena, se não gostarem do novo “morador”…
Alexandre e família fugiram para um hotel só de ouvir o “au-au” da Tera.
A tia Rosa quis resistir: Trancem essa besta! gritava, escondendo-se atrás do filho.
Tia, está a brincar? António sorri. Quarenta e cinco quilos de puro músculo! Não é um caniche, é um pastor alemão! Até as portas ela arromba!
Porquê essa cara feia para mim? Rosa treme na voz.
Não gosta de estranhos Vitória responde com indiferença.
Livrem-se dela! Não aguento viver com esse animal!
Como assim, livrar? António indigna-se. Esta menina é nossa agora! Não temos filhos, mas precisamos de dar amor! E amamos muito a Tera!
E não a vamos deixar! Vitória reafirma.
Depois ambas as mães ligam a perguntar porque recusam receber família.
Ninguém os enxotou respondem os dois. Eles é que não quiseram ficar! Que venham! Ficamos felizes!
Mas e a cadela?
Mãe, nunca recusamos ninguém!
Mas as mães também pararam de aparecer.
Um mês depois, Tera voltou para Rita e Paulo, mas ficou pronta para regressar à primeira chamada.
Nem foi preciso. Vitória estava grávida de gémeos.







