Nem penses em trazer a tua mulher para o meu apartamento declarou a mãe de António.
Manuela Rodrigues preparava-se para esta conversa há três semanas.
Via-se logo. Limpou o serviço de porcelana, aquele que estava guardado desde os 15 anos de António. Fez um bolo, com maçã e canela, o mesmo que António adorava em criança. Arrumou as chávenas.
António chegou ao domingo à tarde, como tinham combinado. Entrou, olhou à volta. Isto vai dar em conversa séria, pensou. Tirou o casaco, foi até à cozinha.
Mãe, porque é que estás tão cerimoniosa?
Senta-te disse Manuela Rodrigues. Queres chá?
Quero.
Ela serviu-lhe o chá, colocou o bolo perto. Ficou em silêncio por uns instantes, aquele silêncio longo de quem vai mergulhar em água fria. Depois levantou-se, foi à sala e voltou com uns papéis.
Pousou-os na mesa.
Aqui tens disse. Os documentos do apartamento. Decidi passá-lo para teu nome.
António olhou para a pasta. Depois para a mãe.
Mãe…
Deixa-me acabar ela ergueu a mão. Já não estou nova. O apartamento é grande, é demais para mim. Fica para ti. Vamos tratar de tudo direitinho, já me informei.
António olhou para a mãe e, no rosto dela, percebeu: estava para vir um mas.
Esse mas não tardou.
Só com uma condição disse Manuela Rodrigues. Voz calma e sóbria, como se falasse sobre o tempo. Não tragas a Sofia cá a casa.
António pousou a chávena.
Estás a brincar?
Não.
Mãe. A Sofia é a minha mulher.
Eu sei bem quem ela é Manuela Rodrigues cruzou as mãos na mesa. António, este é o nosso lar de família. O teu pai viveu aqui. Tu cresceste aqui. Eu vivi cá a vida toda. Não quero que ela venha aqui mandar. Não quero, pronto.
Ela não manda nada. É minha mulher, só vem visitar.
Podes vir sozinho. Acenou para a pasta. O apartamento passa para ti. Vais vivendo aqui quanto quiseres. Mas sem ela.
António encarou a mãe.
Ela fala a sério percebeu. Preparou-se semanas para isto. Até fez bolo.
Ela fez-te alguma coisa? perguntou ele, voz mais baixa.
Nunca me agradou disse Manuela, simplesmente, como se isso explicasse tudo.
António demorou a chegar a casa.
Não era longe um quarto de hora de carro, sabia de cor todos os semáforos. Mas foi devagar, até entrou noutra rua sem necessidade, parou à porta do supermercado sem sair do carro e seguiu depois. A cabeça andava pesada, como frigorífico velho nos dias quentes, fazia barulho e não resolvia nada.
Três quartos. Tetos altos. A estante do pai, que ocupava uma parede inteira. A cozinha onde a mãe fazia bifes de cebolada aos domingos, onde ele estudava quando era miúdo. Um apartamento destes já não se constrói.
Estacionou ao pé do prédio. Ficou mais um bocado no carro. Depois subiu.
Em casa, cheirava a estufado Sofia, na cozinha, cantarolava baixinho, nota desafinada, sem reparar. António descalçou-se, foi até à porta da cozinha.
Chegaste cedo disse ela, sem se virar. Pensei que ficasses até à noite na tua mãe.
Não deu.
Algo na voz dele denunciou-lhe qualquer coisa. Sofia virou-se, olhou-o com atenção, como fazem as pessoas que não precisam de perguntar muito para perceber tudo.
Senta-te disse ela. Vamos jantar.
Jantaram. António contou o que se passara, sem grandes detalhes.
Sofia ouviu, sem o interromper, sem franzir o sobrolho. Só uma vez, ao ouvir o nem penses em trazer lá a tua mulher, abanou levemente a cabeça, como quem confirma o que já suspeitara.
Já sabia que ela pensava assim disse Sofia, quando António se calou.
Sabias?!
Não, mas calculava. Pôs o prato na pia. Ficou calada. António, o apartamento é bom. Percebo.
Mas isso agora interessa pouco.
Claro que interessa Sofia virou-se para ele. Três quartos num bairro tão bom, isso vale muito, é casa, é dinheiro, é futuro… parou um pouco. Não quero que percas isso por minha causa.
António fixou-a.
Sofia…
Espera. Levantou a mão, segurando-lhe a resposta. Falo a sério. Se for importante para ti, desenrascamos outra solução. Não me importo. Não preciso viver lá e pronto. O apartamento será para ti, será para a nossa família. Hei de arranjar solução.
E António calou-se. Por muito tempo.
É que aquela resposta não era a que esperava. Vinha para casa preparado para tudo lágrimas, mágoa. Teria entendido tudo, ela tinha razão.
Mas ela limitou-se a dizer: hei de arranjar solução.
Sem drama, como quem nunca se põe a jeito para ser moeda de troca na vida dos outros.
António ergueu-se. Deu umas voltas na cozinha, três passos para um lado, três para o outro, cozinha pequena. Parou à janela.
Sofia disse ele tu percebes o que a minha mãe fez?
O quê?
Ela propôs-me uma troca António falou devagar, como se só naquele instante entendesse o que lhe doía. A casa, se tu lá não puseres os pés? Queria comprar a minha escolha. Percebes? Não era oferta nenhuma. Era compra. E o preço eras tu.
Sofia olhou para ele.
António, é a casa dela. Tem o direito…
Tem concordou António. Pode dispor da casa como quiser. Mas não de mim.
Sentou-se de novo. Serviu-se de chá.
Sofia, tu não tens de arranjar saída nenhuma disse ele porque isto nem tem a ver com a casa. Tem a ver com a minha mãe ainda achar que mando nela. São 38 anos sem nunca lhe fazer frente. Assim se habituou.
Sofia ficou em silêncio. Depois, baixinho, disse:
Eu sei.
Como?
António, há quatro anos que tento dar-me com ela. Ligo-lhe nos anos. Trago-lhe o doce que gosta. Pergunto-lhe como está. Sofia falou serena, cansada, como quem finalmente se permite dizer o que sente. Ela nunca me viu. Não sou pessoa para ela. Apenas alguém que lhe tirou o filho.
António fitou a mulher.
Nunca reparou.
Vais lá falar com ela? perguntou Sofia.
Sim respondeu António. Daqui a uns dias, preciso pensar no que dizer.
Está bem.
Não perguntas pelo que vou decidir?
Sofia olhou para ele, admirada.
Não respondeu simplesmente. Confio em ti.
E foi precisamente isso o mais difícil. Não a condição da mãe mas ouvir da mulher: confio em ti, e perceber que tinha de estar à altura disso.
António telefonou à mãe sábado de manhã.
Manuela Rodrigues recordaria depois: pelo telefonema notou logo que era diferente não era o costumeiro Olá mãe, está tudo? Domingo passo aí. Era outra voz. Sem o tom hesitante habitual com que António lhe falava nos últimos vinte anos.
Mãe, vou hoje aí. Três horas. Pode ser?
Pode respondeu ela. E esperou.
Às três em ponto tocou à porta.
Manuela abriu-a e logo reparou: sem flores, sem sacos de compras, como era hábito. De casaco, chaves na mão. Entrou, descalçou-se, sentou-se à mesa da cozinha. Manuela foi logo deitar água ao bule, quase automaticamente.
Não precisas, mãe disse ele. Não fico muito.
Ela pousou o bule. Sentou-se. Olhou para o filho.
Então, disse ela, já decidiste?
Já.
Não teve pressa.
Mãe, deixa-me antes perguntar algo.
Pergunta.
Se o pai fosse vivo começou António, devagar punhas-lhe uma condição assim? Faz como eu quero ou perdes o mais importante?
Manuela abriu a boca, fechou-a.
Isso é diferente murmurou.
Porquê?
O pai… é o pai. Tu és meu filho. Preocupo-me contigo.
Mãe António disse suavemente, quase com carinho não é preocupação. É querer controlar. É diferente.
Silêncio espesso na cozinha.
Quatro anos disse António. A Sofia há quatro anos esforça-se para dar contigo. Alguma vez lhe respondeste como gente?
Manuela ficou calada. Olhou para a mesa.
Sabes o que ela me diz depois de cada telefonema frustrado? continuou António. Nada. Só pousa o telefone, sorri, diz: O importante é que ela esteja bem.
Calou-se.
Perguntei-lhe se não se sente magoada. Ela respondeu: só quero que ela goste de ti, é suficiente.
Manuela ergueu os olhos.
António…
Ela ofereceu-se para não viver no teu apartamento, se isso ajudar. Imagina! Para me facilitar a vida.
A voz de António tremeu por um instante.
O apartamento é teu, mãe.
Estás a recusar disse ela. Não era pergunta era constatação, baixa e confusa. Não acreditava. Pensava que ele ia aceitar. António sempre aceitara o que ela dava. Porque pensava que sabia o que ele precisava.
Não recuso o apartamento disse António. Recuso a condição. São coisas diferentes.
Então pronto, ela vale mais para ti que eu agora sim, a voz de Manuela saiu dura, último cartucho.
António suspirou, longo como quem queria mesmo era gritar:
Mãe, isto não é uma balança. São as duas a minha família.
Pausa.
Só tu é que achas que isto é competição. E achas que tens de ganhar.
Manuela calou-se.
Amo-te, mãe disse António. Isso não muda. Nunca.
Levantou-se, pegou no casaco.
Liga quando quiseres. Eu venho.
Manuela não respondeu.
António saiu. Fechou a porta devagarinho, sem estardalhaço.
Manuela ficou sozinha. Foi até à janela.
Lá em baixo, viu António entrar no carro. Olhou-o de cima costas largas, um pouco curvadas, abriu a porta, fez meia volta, por acaso, sem a procurar, e foi-se embora.
Manuela ficou ali à janela muito depois do carro sumir na esquina. Pensava. Em quê, não saberia dizer. Apenas pensava. Aquela quietude fazia-lhe arder os olhos.
Durante três semanas, quase não se falaram.
António escrevia, curto: Mãe, tudo bem? Manuela respondia: Vai-se andando. Só isso. A frase portuguesa que pode querer dizer tudo: estou óptima ou não durmo há noites, mas fica para mim.
Depois aconteceu o seguinte.
Manuela vinha da farmácia, não da do lado, mas da mais longe, ali na esquina, que é mais barata. E vinte cêntimos fazem diferença quando se recebe uma reforma envergonhada. Vinha pelos pátios, cortando caminho. E de repente viu o António.
Estava junto do carro. Capô aberto. Ao lado, Sofia, num velho casaco, manga suja de óleo, dizia qualquer coisa. Manuela não ouvia as palavras, longe, mas via-lhe o riso. António respondeu. Depois Sofia riu-se alto, genuína, cabeça para trás, riso de quem é mesmo feliz.
António também riu.
Manuela ficou parada.
Olhou-os de longe aquela cena banal: pátio, outono, capô aberto, dois a rirem-se com mãos sujas. Nada de especial.
Ele não foi embora com ela. Está apenas a viver.
Foi um pensamento estranho. Simples até à dor.
Achava sempre que Sofia lho roubara. Levava-o. Mas ele está ali, a viver, a arranjar o carro um sábado, a rir ninguém afastou ninguém. O filho sempre teve outra vida. Sempre. Manuela é que não quis ver.
Virou-se devagar e foi-se para casa.
Pousou o saco da farmácia na cozinha. Sentou-se muito tempo à janela, olhando para fora.
Depois ergueu-se. Foi buscar a farinha.
O bolo demorou hora e meia a sair. Mais do que o normal, porque as mãos tremiam-lhe e o açúcar caiu-lhe duas vezes. Fez de groselha preta. Daquela que Sofia lhe trazia e que ela sempre guardou, por teimosia, sem abrir.
Dessa vez, abriu.
Dois dias depois ligou a António.
Fiz bolo disse ela. Muito, é demais para mim.
Pausa.
Vêm cá? perguntou. E acrescentou, num fio de voz: Os dois.
António hesitou um segundo. Só um.
Vamos respondeu.
Quando tocaram à campainha, Manuela abriu e viu-os juntos. António com flores, Sofia com um saco. Olhou a nora. Ela também olhou, serena, sem expectativas ou queixas.
Entrem disse Manuela.
A cozinha era pequena para três, mas arranjaram-se.
Então disse ela, a cortar o bolo contem-me lá como têm passado.
Sofia ergueu o olhar.
Contamos disse, sorrindo.
Manuela pôs-lhe um pedaço no prato. Era um começo. Pequeno, um pouco hesitante, mas com cheiro a bolo de groselha preta.
E assim aprenderam todos que por vezes é preciso deixar o amor respirar e acreditar porque amar não é possuir, é saber partilhar.







