Nem penses em cantar

Não te atrevas a cantar
Estás a sorrir da maneira errada.

No início não percebi que era comigo. Tinha os olhos pousados nas minhas mãos, pousadas em cima do vestido azul-escuro que nunca teria escolhido. Apertado demais nos ombros. Brilhante demais. Demasiado alheio.

Teresa. Eu disse: estás a sorrir da maneira errada. Muito forçado. As pessoas notam.

Rui falava em voz baixa, sem sequer virar a cabeça na minha direção. Olhava para o salão, onde já se sentavam os convidados do aniversário da empresa dele. Vinte anos de empresa. Uma grande festa. Uma noite importante. O meu papel estava combinado há semanas, como uma cláusula de contrato: estar ao lado dele, apresentar-me bem, não falar desnecessariamente, não beber mais do que uma taça, não meter conversa com parceiros sem explicita permissão dele.

Desculpa, murmurei.

Não peças desculpa, corrige.

O restaurante era dos tais sítios onde se sentem os euros no ar. Não se exibem, sentem-se. No peso das toalhas, na luz morna dos lustres, no modo como os empregados deslizavam como sombras. Já tinha ali estado algumas vezes, mas em todas me invadia a sensação de não pertencer. Não como mulher de empresário de sucesso, mas como pessoa. Como mulher com nome, com história, com tudo o que um dia foi meu.

Ia com cinquenta e seis anos. Vinte e oito deles casada com Rui Dias. Conhecêmo-nos no final do meu curso no Conservatório. Eu era viva, cheia de voz, apaixonada por Ravel e Fauré. Ele era empreendedor, olhos de fogo, convicção de que tudo se compra ou molda. Via-me como se fosse o próprio mundo. Com o tempo, percebi: queria era moldar-me.

Rui, posso ir ter com a Ângela? Ela estava sozinha ali.

A Ângela espera. Não tens de ir falar à mesa dos Costas.

Conheço-a há vinte anos.

Teresa. Sem raiva, apenas cansaço. Cansaço de quem repete a mesma lição a uma criança. Esta noite é importante. Senta-te e sorri.

Sorri. Da forma certa. Como mandam.

A sala enchia-se de gente. Sócios, clientes, políticos, mulheres de políticos. Todos bem vestidos, todos com a euforia certa, todos a falar dos assuntos dignos da ocasião. Ouvia frases soltas. Pensava que já não me recordava da última vez em que falei de algo que me importasse mesmo. Música. Como se constrói uma fuga. Porque é que um concerto a dois pianos ainda me rasga por dentro, mesmo só de ouvi-lo na rádio.

Rui gostava pouco de música clássica. Dizia que o deixava nervoso.

Na mesa ao lado, uma senhora de vermelho ria alto de uma piada. Riso solto, rouco, vivo. Senti, estranhamente, inveja daquela gargalhada. Não pelo vestido, nem porque era mais nova. Pela liberdade. Ria porque simplesmente lhe apetecia. Sem pedir licença.

O jantar seguia o curso: brindes, palmas, discursos. Rui fez o seu, conciso como de costume. Era bom a dominar a sala, isso era certo. Palmas. Senti que talvez também já o tivesse conseguido. Segurar as pessoas. Ficar em frente delas e cantar de tal forma que implicava silêncio.

A última vez que cantei em público foi há vinte e quatro anos, no Conservatório, numa noite em que ele me trouxe e de onde me tirou apressado, chamado por negócios.

O apresentador anunciou um concurso de talentos já depois da sobremesa, num ambiente descontraído. Quem quisesse podia subir ao pequeno palco mostrar algo: piada, truque, canção. Vi Rui franzir o sobrolho.

Trapalhada, resmungou baixo.

Fiquei em silêncio. Olhava para o palco. Lá estava um microfone. Junto ao piano, via-se um rapaz novo, rosto afável, já tinha acompanhado partes da noite. Notei-lhe os dedos longos e o corpo a embalar no ritmo, mesmo baixinho.

Foram dois ao palco. Um contou uma anedota, outro tocou harmónica. Palmas amáveis, sem entusiasmo. O apresentador voltou a abrir espaço. Na sala gerou-se um pequeno murmurinho.

Senti, dentro de mim, qualquer coisa mexer. Não um choque, antes como se uma porta antiga se destrancasse com um sopro. Pousei o guardanapo. Levantei-me.

Para onde vais? perguntou Rui.

À casa de banho.

Não fui à casa de banho. Fui ter ao apresentador. Disse-lhe algo ao ouvido. Ele ergueu as sobrancelhas, acenou. Falei depois com o pianista, em voz baixa. Fez sinal de sim. O seu olhar ganhou um brilho diferente.

O apresentador anunciou o meu nome. Talvez Rui não percebesse de imediato. Mas logo percebeu. Vi-lhe o rosto de relance, evitei encará-lo de frente. Olhei apenas para o microfone.

Três degraus e estava lá em cima. No salão, gente bem vestida, caras maioritariamente desconhecidas, copos nas mãos. Alguns olhavam apenas com cortesia: Vamos lá ver o que sai.

Acenei ao pianista.

Ele lançou os acordes, e um silêncio cresceu. Não era nada popular, nada de moda. Era Ravel. Era o Vocalise. Uma das peças mais belas e difíceis, que me acompanhara no Conservatório. Sem palavras. Apenas voz e piano.

Cantei. E, nos primeiros instantes, nem eu própria acreditei: o timbre estava lá. Não morreu em tantos anos de silêncio, não secou, não se apagou. Mudou mais escuro, preenchido, mas vivo. Real.

O salão calou-se ao terceiro compasso. Não gradualmente: quase de repente. As conversas morreram, copos pousaram-se, cabeças ergueram-se na minha direção. Eu quase não notava o ambiente. Só me importava controlar o fôlego, aguentar a linha, não pensar em Rui, no que sentiria, no que viria a seguir.

Nada mais importava agora. Só isto.

Quando terminei, pairou um silêncio de alguns segundos. Depois, começaram os aplausos. O público levantava-se devagar, mas de verdade. A senhora de vermelho gritou bravo!. O pianista olhava para mim como quem vê qualquer coisa rara.

Desci do palco com as pernas a tremer, o coração calmo mas acelerado. Caminhei até à mesa, onde já via o rosto de Rui.

Ele não aplaudiu.

Senta-te, mandou ele.

Obedeci.

Sabes o que fizeste?

Cantei.

Não sejas esperta. A voz era fria, cortante. Exibiste-te, no meu evento, sem permissão. Compreendes como isso parece?

Parece?

Parece que a minha mulher tem falta de atenção. Que não lhe basta nada. Largou o copo, devagar. Vamos. Dentro de dez minutos saímos.

Rui, a festa ainda não

Dez minutos, Teresa.

Ainda vieram ter comigo três pessoas. A senhora de vermelho, Amália, apertou-me a mão e disse: Extraordinária! Onde canta? Um homem, já nos seus setenta, disse, com uma inclinação da cabeça: Magnífico. Teve formação em Lisboa? E a Ângela veio do outro lado da sala e abraçou-me. Cheirava a perfume e a bolo, e quase desatei a chorar no momento.

Teresa, onde é que estiveste estes anos todos? Tu cantavas como

Ângela, temos de ir, interrompeu Rui, surgindo ao lado. Pegou-me no braço não rude, mas os dedos apertaram-me por cima do tecido. Desculpem, a Teresa está com dor de cabeça. Vamos ter de sair.

No carro, silêncio. Não disse nem uma palavra durante o caminho pior do que qualquer discussão. Fui olhando as luzes da cidade, montras, reflexos. Senti uma serenidade estranha. Não era alegria nem medo. Era, talvez, memória de quem acabou de se lembrar do próprio nome.

Em casa, tirou o casaco, pendurou-o com precisão, virou-se.

É assim: percebo que estejas farta da rotina. Que queiras algo para ti. Mas tens de perceber os limites. Há o que é próprio, o que não é. Hoje, puseste-me numa situação difícil diante de muita gente importante.

Cantei. As pessoas gostaram.

Fizeste figura de artista num momento impróprio. Percebes a diferença?

Não, surpreendi-me com a calma da minha voz. Explica.

Ficou a olhar para mim. Depois:

Tens tudo. Casa, dinheiro, prestígio. Não percebo o que te falta. E já nem sequer quero perceber.

Falta-me eu.

O que isso quer dizer?

Tu sabes.

Fui direta para o quarto. Deitei-me vestida, a olhar para o teto. Branco, impecável, como tudo cá fora. Ouvi passos dele pelo apartamento, portas que batiam, depois silêncio.

Não dormi. Pus-me a pensar. Lembrei como, há quinze anos, aceitei sair do conservatório, onde ensinava canto. O Rui dizia que era pouco respeitável para a mulher dele, que não se ganhava nada ali. Concordei. Achei que encontraria outra ocupação, outro sentido. Mas sempre que tentava, Rui descobria razões para ser impróprio, inútil ou desnecessário.

Nunca me bateu. Não gritava. Era só esta calma constante a ditar-me o certo e o errado. Em vinte e oito anos, habituei-me tanto a ouvir as suas razões que deixei de escutar a minha própria voz. Literalmente.

Pelo menos, até àquela noite.

De manhã, enquanto ele tomava banho, peguei na mala velha da prateleira de cima. Juntei documentos, passaporte, o diploma do Conservatório, encontrado no fundo da gaveta, algumas fotografias. Telemóvel. Uns euros que fui guardando ao longo de três anos, caso algum dia precisasse. Não sabia para quê. Agora já sabia.

Vesti-me simpesmente. Jeans, camisola de malha, casaco. Quando saiu da casa de banho, eu estava com a mala ao ombro na porta.

Onde vais?

Vou-me embora.

Um silêncio longo.

Não digas disparates.

Não são disparates. Estou a sair.

Teresa. Pegou na toalha, olhava-me como quem está cansado de birras alheias. Estás sensível. Vai deitar-te, conversamos à noite.

Já conversámos.

Não tens dinheiro. Não tens emprego. Onde vais?

Logo vejo.

Teresa, não sejas ridícula. Tens cinquenta e cinco anos. Vais para onde

Abri a porta e saí. Ainda ouvi Rui gritar, mas já não decifrei as palavras. O elevador demorou uma eternidade. Olhei para o meu reflexo: amarrotado, desfocado. Quase lhe sorri.

Segui a pé. Pelas ruas frias, cheirando a castanhas e café fresco de uma esplanada. Entrei num café, pedi uma chávena, sentei-me junto à janela e liguei à única pessoa possível:

Ângela, preciso de ajuda.

Meu Deus. O que aconteceu?

Saí de casa. Deixei o Rui.

Silêncio. Depois:

Onde estás?

A Ângela vivia sozinha num T2 nos Olivais. Os filhos já voaram, o marido morreu cedo. Abriu-me a porta, viu-me só com a mala, não perguntou nada. Deu um passo atrás:

Entra. O chá está pronto.

Ficámos na cozinha até tarde. Ia-lhe contando tudo. Ela só ouvia, tranquila, sem interromper, sem cenas. Só enchia mais chávena. Quando me calei, disse:

Saíste. Já é o principal. O resto resolve-se.

Ele vai bloquear tudo. As contas, os meus cartões, já me avisou mais que uma vez.

Bloqueou?

Sim. No ano passado, numa discussão, largou: Sai, e vê o que te acontece.

Vamos ver o que lhe acontece a ele, respondeu Ângela, séria.

Não demorou. O telefone começou logo a tocar ao fim da tarde: primeiro Rui, depois lábia da secretária, depois a minha mãe preparada, via Rui, para o show. Chorava e dizia que Rui telefonou, explicou que eu tinha tido um ataque de nervos na noite da empresa, saí de casa sem rumo, precisava de apoio.

Mãe, não tenho ataque nenhum.

Teresinha, ele está tão preocupado. Disse que te portaste de modo estranho, que devias consultar um médico

Mãe, cantei em palco. Só cantei. Isso não é um surto.

Ele diz que não era suposto, que lhe estragaste a noite.

Estou bem, mãe. Estou na casa da Ângela. Ligo-te amanhã.

Os cartões, realmente, não funcionavam. O dinheiro da mala ia acabando. Ângela não aceitava que lhe pagasse nada, mas sabia que não podia abusar para sempre.

Três dias depois, Rui enviou as minhas coisas. Não trouxe ele: dois tipos deixaram vários sacos à porta. Revi logo ali. Roupas de verão em outubro, saltos altos, bugigangas de decoração. Nada de quente, nada de importante. Era outra mensagem.

No dia seguinte, a minha mãe ligou: Rui tinha-lhe feito visita. À mesa de chá, contou que eu sempre fui instável, que fez tudo por mim, que o desiludi. A mãe ouvia, sempre teve queda para quem discursa bem.

Teresa, se voltasses a falar, talvez resolvessem

Mãe, ele fechou-me as contas e anda a dizer a todos que estou louca. Percebes o absurdo?

Silêncio.

Ele é homem, filha. São todos assim, quando magoados.

Desliguei e fiquei a olhar pela janela. Fui à mala e peguei no diploma. Capa azul-escura, letras douradas: Teresa Gomes Martins. Licenciada em Canto. Não lhe tocava há mais de uma década.

No dia seguinte, telefonei ao Conservatório. Procurei pelo Professor Álvaro Mendonça, meu mestre de voz. Tinha medo que já tivesse partido. Mas não: continuava, já nos setenta, mas firme. Deram-me o número dele.

Professor Álvaro? É a Teresa Gomes. Lembra-se de mim?

Uma pausa.

Gomes? Do quarto ano?

Sim.

Lembro, claro. Porque desapareceu, Teresa?

Desapareci, tem razão, professor. Preciso de ajuda.

Dois dias depois encontrámo-nos num estúdio velho do Conservatório. Tal como lembrava pequeno, magro, olhos atentos, mãos cruzadas no colo.

Está mais velha.

O senhor também.

É normal. Esboçou sorriso. Cante.

Agora?

E que espera?

Cantei. Hesitante, pulmões sem força, voz fugidia nos agudos. Ele permaneceu calado o tempo todo. Quando acabei, disse:

A voz está aí. A técnica está enferrujada. Falta fôlego, mas a voz não morreu. Isso é tudo. O resto trabalha-se.

Em quanto tempo?

Depende de si. Se for a sério, em dois meses voltamos a ter espetáculo. Esboçou sorriso de lado. Porque deixou?

Casei.

E o marido proibiu cantar?

Não proibiu. Simplesmente foi acontecendo.

Ele ficou a olhar.

Foi deixando, repetiu. Bem, Gomes. Vamos trabalhar.

Todos os dias. Entrava no Conservatório às nove, saía às duas ou mais tarde. A voz reaprendia, devagar, aos solavancos uns dias fluía, outros parecia tudo perdido outra vez. O professor não perdoava idade nem desculpas: A voz não tem idade. Tem treino e vontade. O resto é desculpa.

A Ângela arranjou-me um part-time: liderar o grupo coral sénior no centro cultural do bairro. Pagavam pouco, mas era meu. Três vezes por semana. Mulheres de sessenta ou setenta, que cantavam porque sim pelo prazer, sem pressa, sem ambição. Ver aquilo era remédio.

Rui, entretanto, não parava. Por conhecidos, chegaram-me boatos: que eu tinha uma paixoneta pelo professor, que sofria de fragilidade emocional, que ele me aguentara anos e foi obrigado a largar-me. As versões mudavam com o público, mas mantinham a essência: ela é louca, ele é mártir. Uns acreditavam, outros nem por isso. A minha mãe ligava pouco, medindo sempre palavras.

E o futuro, Teresa? E onde vais viver?

Já pensei, mãe.

Ele diz que está pronto a conversar, se tu voltares.

Não volto.

Mas podem falar como adultos: divorciar, partilhas

Mãe, ele bloqueou o meu dinheiro, espalha que surtei. Não se negocia com pessoas assim. Termina-se de vez.

A mãe suspirava, muda de assunto. Não consigo zangar-me com ela. Veio de outro tempo. Ficar ressentida seria como pedir-lhe fluência numa língua que nunca estudou.

Um mês mais tarde, o professor Álvaro anunciou:

Dentro de dois meses há grande concerto solidário no Coliseu. Clássicos. Procuram solistas. Posso recomendar-lhe o seu nome.

Parei.

Professor não atuo há vinte e quatro anos.

Sei bem.

O público é sério?

Transmissão local, casa cheia. É sério, sim.

Pensei.

Preciso de pensar.

Não há muito tempo.

Aceitei dois dias depois. O professor acenou, parecia que nem esperava outro desfecho.

Seis semanas das mais intensas da minha vida desde a juventude. Trabalhámos repertório: árias de ópera, lieder, e no fim, por insistência dele, novamente Ravel, outra peça, mais longa e difícil. Chegava a casa da Ângela tão exausta que adormecia no sofá sem jantar. Mas a fadiga era boa, não arrastada como a dos anos de casamento. Aquela era viva.

A Ângela cuidava de mim, vigiava por meias palavras, insistia que comesse mais, reclamava da minha entrega. Só ria e dizia ser assim que tem de ser. Ganhei mais amizade dela nestes meses do que em duas décadas antes: conviver sem artifício aproxima às pressas.

Três semanas antes do concerto vieram as chatices. Ligou o produtor do espetáculo, nervoso, a dizer que haviaquestões sobre a minha atuação. Fugiu a respostas. Perguntei eu:

Foi o Rui que ligou?

Pausa.

Não posso pronunciar.

Já percebi.

Falei com o professor Álvaro. Ele ouviu tudo:

Venha cá amanhã. Eu trato disso.

Assim foi. Mas não ficou por aí. Uma semana antes do concerto, Ângela ligou, aflita:

Teresa, vieram cá dois homens. Dizem-se enviados do Rui. Perguntaram por ti.

Disseste-lhes o quê?

Que não conhecia nenhuma Teresa. Mas eles ficaram pelo quarteirão. Tem cuidado.

Senti gelo na barriga. Não era medo. Era o pressentimento de quem sabe que ele não ia largar. Sempre gostou de controlar, de impor ordem. Sair da vida dele não foi uma questão de afeto, mas de quebrar o mundo dele e isso ele não aceita.

Contei ao professor. Limpou os óculos, pensou.

Logo, tentará sabotar o concerto.

Parece que sim.

E tem medo?

Reflecti lentamente.

Não. Cansa-me mais do que me assusta.

Bem. Pausa. O promotor, Carlos Mendes, vai estar lá. Produtor consagrado, parceiros em todo lado. Contei-lhe de si depois daquele jantar. Mandaram recados. Ele quer ouvi-la. Prepare-se, Gomes.

Olhei-o, espantada.

Fez tudo isto por mim?

Dão quarenta anos de aulas, disse calmo. Tive três alunas com verdadeira voz. Uma foi para França e fez carreira. Outra morreu cedo. A terceira perdeu-se no casamento. Sempre pensei nela. Estou contente por tê-la reencontrado.

O grande dia era cinzento. Cheguei cedo à Casa da Música, caminhei no palco vazio, sorvi o silêncio à frente de oitocentas cadeiras. Gostava desses momentos em que o palco já espera.

A uma hora da abertura, veio o produtor, voz baixa, embaraçado:

Senhora Teresa Gomes, há dois senhores lá fora. Dizem ser do seu marido. Pedem que vá com eles.

Não é meu marido. É ex-marido.

Trazem papel de um hospital, alegando necessidade de internamento.

Demorei a responder.

Podem dizer o que quiserem. Vou atuar. Se quiserem, entrem, sentem-se na plateia.

O gestor hesitou. Olhei-o, decidida:

É a minha noite. Ninguém me tira isto.

Compreendo. Mas

Chame o professor Álvaro, por favor.

Ele tratou do assunto. Os homens do Rui ficaram fora. Antes do concerto, vi ao longe o tal Carlos Mendes, apresentava-se elegante. O professor falava com ele. Fiquei tranquila.

Fui a terceira a atuar. Sala cheia, câmaras. Vesti um simples vestido escuro escolhido por mim, sem brilhos. Pus-me ao microfone, procurei o público com o olhar.

E cantei.

A primeira peça correu fácil, quase feliz. A segunda exigiu tudo de mim; quase tropecei num compasso, mas recuperei. Na última, já só existia música. Era ali que sentia: é aqui o meu lugar.

Ravel começou, e o silêncio caiu. Aquele silêncio onde todos escutam, mesmo. Cantei e senti o que talvez alguém sente após longa enfermidade quando percebe que o céu continua ali, azul e intocado.

Na frase final, vi Rui à entrada do salão.

Vi-o avançar pelo corredor, falar com um segurança, gesticular. O rosto tenso, quase vermelho. Outro homem atrás.

Terminei até ao fim. Nota por nota.

O público levantou-se.

Rui parou no meio do corredor. O Carlos Mendes aproximou-se dele e falou, sereno, quase sem gestos. Vi o Rui responder, depois a expressão dele mudou. Partiu-se qualquer coisa. Discretamente, não como nos filmes: percebeu que ali já nada controlava.

Saiu dali.

Nos bastidores, Carlos Mendes deu-me um aperto de mão:

Já ouvi falar de si. Agora ouvi-a. Vamos conversar.

Sobre o quê?

Contrato. Recitais. Começamos por Portugal, depois exportamos. Tenho salas e conheço quem procura vozes assim. Sorriu. E não deixo mais ninguém interferir. Palavra minha.

O professor observava à distância. Cruzei olhares. Ele acenou uma vez, de contentamento.

Mais tarde, consegui enfim falar com a minha mãe. Visitei-a. Sentámo-nos na cozinha. Ela demorou a dizer algo. Depois:

Vi-te na televisão. No concerto.

Viste?

A Ângela ligou a avisar. Eu pus no canal. Mexeu na toalha. Não sabia que cantavas assim.

Ouviste-me no Conservatório.

Era há tanto tempo Lá, era tua mãe, nervosa. Aqui, vi-te ali, sem nada meu. Ergueu o olhar. Desculpa, filha.

Porquê?

Por ter acreditado mais nele do que em ti. Ele fala bem. Tu calavas Achei que silêncio era sinal de paz. Não percebi.

Peguei-lhe na mão.

Mãe, percebeste quando importava. Não foi tarde.

Não ficas chateada comigo?

Não.

Chorou calada. Senti-lhe a mão, pensei que o perdão não apaga tudo. Só nos deixa levar connosco só o que é preciso.

Passou um ano.

Estava agora nos bastidores de uma sala de concertos em Viena. Ouvi o público chegar. Ruído igual em todo o lado: roupa, risos, tosses comedidas. O salão pequeno, antigo, com estuque e janelas altas. Lá fora nevava.

A minha vida agora era isto: um apartamento alugado em Viena, pequeno, mas meu. Contrato profissional, recitais na Europa. Malas, transições de cidades. O professor ainda me telefonava, víamos repertório pelo computador. A minha mãe vinha uma ou outra vez, pasmada como faço tudo.

Do Rui, pouco mais soube. Disseram que o negócio perdeu força. Meses depois casou de novo: uma jovem recatada, quase desconhecida. Quando ouvi isso, só senti compreensão cansada. Não dói, não faz rir só percebi. Há gente que não muda. Procura apenas o próximo conveniente.

Pena dela. Mas é outra história.

A minha, agora, era diferente. Com as suas cansativas viagens, discussões com maestros, lapsos de línguas, solidão de hotéis. E outras coisas: pequenos prazeres de liberdade. Aplausos só meus. Vestido escolhido por mim. Telefonemas a quem quiser. Porta fechada sem explicações.

Às vezes penso nos anos perdidos. Não com mágoa. Penso de frente. Vinte e oito anos. Tantos. Poderia ter cantado, ter sido outra pessoa ou a mesma, mais cedo.

Mas pensar no se é tarefa vã. Agora estou. A voz está. O palco está.

Uma assistente espreitou:

Dona Teresa, faltam três minutos.

Já vou.

Endireitei o vestido simples. Fiz uns exercícios de respiração. Fechei os olhos, só um instante.

Lembrou-me o rosto de Rui naquele restaurante. Estás a sorrir mal. O meu desculpa. O sorriso certinho, com silêncio dentro.

Sorri agora. Não como mandam como me apeteceu.

E entrei em palco.

A sala calou-se.

E cantei.

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