Olha, deixa-me contar-te uma coisa que tem andado a remoer-me na cabeça: não quero de todo viver com a família da minha filha! Já te explico porquê.
Então é assim, a minha filha e o marido dela ficaram literalmente sem teto. Houve umas cheias enormes em Lisboa e o apartamento deles ficou impróprio para viver, agora vai a obras. Escusado será dizer que vieram logo para minha casa.
Nem tinham alternativa, e claro que os recebi de braços abertos. Mas, a verdade é que depois de conversar francamente com a minha filha, a Francisca, e com o genro, o Rui, decidimos que isto era mesmo só temporário: assim que o apartamento deles estiver pronto, voltam para lá.
A Francisca sempre foi uma miúda espetacular e o Rui também não é nenhum tonto, por isso concordaram comigo sem dramas. No fundo, cada família é um núcleo à parte e os outros, por muito que gostemos deles, acabam sempre por ser um bocadinho de fora. Eu sou mesmo muito firme nisso e passo a explicar porque é que penso assim.
Olha, tenho o meu ritmo de vida já muito certinho muito diferente do da Francisca e do Rui. Apesar de adorar a minha filha por perto, o Rui para mim continua a ser quase como um hóspede. E claro que ele tem direito à privacidade dele! Não vale a pena estarmos a discutir porque eu só consigo adormecer com a televisão ligada, ou porque a Francisca e o Rui decidiram receber amigos aqui em casa. Cada um tem a sua maneira de arrumar e manter a casa, então nem vale a pena começar guerras por um copo mal lavado na pia. Essas pequenas coisas conseguem mesmo estragar as melhores relações.
Depois, temos gostos completamente diferentes à mesa. E nem se fala daqueles momentos em que aparece gente para jantar sem avisar… Nesse momento, nunca se sabe quem vai deitar a mão primeiro às minhas chouriças ou aos pastéis de nata que guardei no frigorífico. Andar a pôr cadeados na porta do frigorífico ainda não é solução para ninguém.
As rotinas também são totalmente diferentes, e às tantas andamos todos aos tropeções pela casa para não acordar ninguém. Toda a gente sabe que privação de sono é receita certa para más disposições e dores de cabeça basta um nada para explodir o ambiente.
Além disso, também não quero andar a dar palpites sobre a forma como a minha filha e o Rui vivem a vida deles. Eu já lhe ensinei tudo o que podia, agora só quero ver o que me querem mostrar, não quero saber mais do que isso. Isso é quase impossível quando se partilha teto.
E a parte mais importante: quero ser eu a decidir se vou, ou não, ajudar, e como e quando ajudo quero sentir que faço por vontade. No fundo, também preciso do meu tempinho para mim.
Pronto, é isto. Gosto muito deles, mas cada um no seu canto vive-se melhor e os laços até ficam mais fortes.







