– Nadinha, cheguei a casa, vem receber-me! – L-Leonel?! Mas o que fazes aqui tão cedo? Só devias vo…

Madalena, cheguei a casa, venha receber-me!

João?! Mas que surpresa! Não estavas previsto chegar senão daqui a três dias

Madalena, uma mulher nos trinta, saiu apressada para o corredor, ajeitando o roupão de seda, um ar confuso no rosto ao ver o marido à porta.

Queria fazer-te uma surpresa, Madalena. Ao que parece, consegui! Não ficaste contente? João, homem alto e de ombros largos, sorria de orelha a orelha, satisfeito com a reacção.

Muito feliz, sim senhor Vai já até à cozinha, vou aquecer o jantar.

Satisfeito, João acenou à esposa e encaminhou-se para a cozinha. Lá esperava-o uma mesa farta: morangos, chocolate, prato acabado de sair do forno Como se tudo fosse preparado para ele.

Bem, Madalena, deste-te mesmo ao trabalho! Como soubeste que vinha hoje? És mesmo uma mulher de visão!

Colocando uma generosa porção no prato, João mal começara a saborear tudo aquilo; a esposa não aparecia, mas ele imaginava-a a vestir um bonito vestido para o receber.

João, eu nós

Madalena, que delícia este assado! E a salada, e as farófias É de lamber os dedos António?!

Virando-se, João deparou-se com Madalena de braço dado ao seu irmão António. Madalena lançava um olhar culpado para o chão, enquanto António, de calções e t-shirt, coçava o nariz, ainda com sono.

Sim, João. Sou eu Olá, mano.

Olá. Agora expliquem-se, se faz favor. Apesar de já estar tudo muito claro

João, eu Já devia ter-te dito. Amo o teu irmão António. Quero ficar com ele. Desculpa. Madalena largou tudo de rajada, o olhar fixo no ex-marido.

A louça escorregou das mãos de João e soou pelo chão da cozinha.

Portanto, vocês Acabaram de

Sim, João. Agora mesmo estávamos juntos.

Perfeito, maravilhoso, Madalena! E tu também, António, parabéns! Agora já percebo porque preparaste este banquete e para quem era!

Madalena não ousava encarar o marido; sentia que, se levantasse os olhos, toda a coragem desapareceria.

E a Inês? O que será da nossa filha? Ela sabe?

Não, ela não sabe.

E onde está agora?

Está na vizinha, a ver desenhos animados.

Costumas deixá-la lá muitas vezes?

Já faz quase meio ano

João ficou sem mais perguntas. Também lhe faltavam forças exausto da viagem e sem nenhum desejo de escândalos. Era-lhe natural ser calmo; sempre preferira evitar conflitos.

Quando o faziam perder a paciência, no entanto, poucos o reconheciam… mas isso raramente acontecia.

Agora surpreendido pela traição de dois dos seres mais próximos, João hesitou apenas um segundo.

Quero que saias desta casa em dez minutos. O teu tempo começa agora. João bebeu o seu chá, sem sequer olhar para o irmão.

O que terá António de especial? Em aparência, somos iguais, até temos o mesmo sinal Não tem mão para o trabalho, nem cabeça… Vai ela acabar por perder com esta escolha, mas é a sua vida! pensava João, serenamente.

António então levantou-se:

Não saio sem ter a tua permissão.

E que permissão é essa que procuras?

A permissão para o divórcio Deixa Madalena ir, ela já não te ama!

Não é preciso dizeres Eu já percebi. Querem o divórcio? Pois terão. Mas só pelo tribunal! Quero ver como gastam o vosso dinheiro em advogados.

João Madalena pousou a mão no pulso do marido João, por favor, vamos separar-nos sem guerras. Tu não és assim, és bom, sempre foste

João abanou a cabeça.

Está bem. Mas fica sabendo, António, para mim deixaste de ser irmão!

João, ainda há mais um favor que queremos pedir.

Qual é?

Deixa-me ficar com a casa depois do divórcio, João! Madalena sorriu com doçura, acariciando o pulso dele.

A Inês está tão apegada a este bairro, tem muitos amigos na escola E se vendermos, não há dinheiro para outra, teremos de ir para a aldeia dos meus pais

João encostou o queixo às mãos entrelaçadas, pensativo. Madalena, vendo dúvidas, insistiu com voz melosa:

João, meu querido Seria um presente para a tua filha! És um trabalhador, vais arranjar dinheiro facilmente! Por favor, a Inês é tua única filha. Pensa nela

Sossega, Madalena interrompeu João, tirando a mão. Tenho uma ideia melhor.

Qual? Pensavas também em deixar-nos o carro? Ia ser uma alegria para a Inês

Inês vai viver comigo.

O quê?! João, estás louco? Não sabes tratar de crianças! Passas a vida em trabalho Ela nem se lembra do teu nome!

Vamos ver isso já disse João, dirigindo-se à porta.

Pouco depois, João regressou de mão dada com a filha. Era uma menina de dez anos, recém-chegada ao quarto ano, sorridente e agarrada ao pai.

Para que a trouxeste? Para ela entrar na discussão?! perguntou Madalena, irritada.

João não respondeu. Sentou-se à mesa, pôs a filha no colo e falou:

Inês, filha, posso fazer-te umas perguntas?

Claro! respondeu sorridente.

Só tens de prometer que vais responder com sinceridade. Porque agora falo contigo como a uma crescida.

Como com os senhores lá do escritório?

Exactamente.

A menina acenou cheia de expectativa.

Diz-me: a mãe tem-te tratado mal? Alguma vez te bateu esta semana?

Inês desviou o olhar, nervosa, mexendo sem querer no vestido.

Como te atreves? gritou Madalena Estás maluco? Deixa a miúda em paz!

Cala-te, Madalena. Estou a falar com a nossa filha respondeu João seco, fazendo-lhe uma festa no cabelo. Coragem, Inês. Prometeste honestidade.

A menina começou a chorar, abraçou-se ao pescoço do pai e murmurou-lhe ao ouvido:

Sim, bateu-me três vezes! Primeiro por um três no teste, depois por entornar o leite, e depois porque gritei com o tio António. Ela estava a beijá-lo enquanto tu estavas fora.

Calma, filha, não chores! Eu estou aqui, nada de mal te vai acontecer.

Está a mentir! berrou Madalena Jamais lhe pus a mão!

Então querias a casa e o carro para o bem da filha? sorriu João, astuto. Inês, responde a mais uma coisa.

Diz, pai

Se pudesses escolher, querias viver comigo ou com a mãe?

A menina calou-se. Olhou de um para o outro. Madalena estendia já os braços numa tentativa de seduzir a escolha.

Prometes que não vais faltar mais?

Prometo! assegurou João sem hesitar.

Então quero viver contigo, pai.

Sua ingrata! gritou Madalena, ameaçando Inês, mas João apertou-a contra si, protegendo-a. António, ao fundo, nem se mexeu.

Está decidido, Madalena. Não a verás mais disse João, serenamente, levando a menina para o quarto.

Minutos depois, João ajudava Inês a fazer as malas. Graças a Deus tinha ainda tudo do trabalho preparado. Foram juntos para um hotel do outro lado de Lisboa, que João conhecia de tantas viagens.

Passados meses, chegou o julgamento. Sem estabilidade nem rendimentos, Madalena e António perderam a guarda. O tribunal decidiu que Inês ficaria com o pai.

Ela confirmou a sua vontade com toda a firmeza.

João vendeu a sua parte do apartamento. Madalena pôde ver a filha nos fins-de-semana, mas Inês foi viver com o pai para a nova casa.

João mudou radicalmente de vida para estar presente. As deslocações longas no seu trabalho acabaram. Em breve, Inês reaprendeu a sorrir e isso, para João, valia mais que todo o dinheiro.

E vocês, o que pensam disto tudo? Deixem os vossos comentários e pôr um gosto se gostaram.

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