Na Faculdade de Medicina Militar, lecionava uma doutora chamada Dona Matilde Pereira. Durante toda a sua vida, trabalhou numa enfermaria pediátrica em Lisboa. Lembro-me bem de uma história curiosa que ela uma vez partilhou. Os seus filhos, apesar de ela ser médica, apanhavam todas as doenças infecciosas possíveis. Nem um só ano passava sem que ela tivesse de tratar uma ou outra virose em casa uma verdadeira canseira, pois os pequenos, ainda assim, eram miúdos bem-dispostos e cheios de energia.
Claro que Dona Matilde sempre teve extremo cuidado com a higiene: ao regressar do hospital, tomava logo duche, trocava de roupa, lavava bem as mãos. Mesmo assim, as crianças vinham sempre a adoecer com as doenças que ela tratava nos doentes do hospital. Mais estranho era que adoeciam quase imediatamente, sobretudo quando o caso que ela acompanhava tinha sido particularmente grave. Nem vitaminas, nem duches frios ou idas ao campo resolviam a mãe-doutora chegou mesmo a desesperar.
Certo dia, depois de um turno esgotante, Matilde sentia-se tão exausta que o medo de regressar a casa era quase maior do que o cansaço sabia, ou antes sentia, que os seus meninos adoeceriam outra vez. E assim, de súbito, decidiu não ir imediatamente para casa; foi antes ao cinema Sá da Bandeira, para ver um filme do Indiana Jones. Chegou a casa depois, meio culpada, meio entusiasmada. Para espanto seu, os filhos estavam bem, a brincar e a rir como sempre.
Noutra ocasião, aceitou o convite de uma amiga para um chá com bolinhos de canela ali na baixa. Entre risos e histórias, o tempo voou quando regressou, novamente os filhos continuavam saudáveis como nunca.
A partir desse dia, Dona Matilde ganhou o hábito de, em vez de correr logo para casa após o trabalho (por mais serviço doméstico que houvesse por fazer), passar antes pelo Jardim da Estrela. Caminhava calmamente entre azáleas e jasmins, sentava-se junto ao lago a ouvir o murmúrio discreto da água, respirava fundo… e só então seguia para casa. Espantosamente, os filhos deixaram de adoecer.
Dessa vivência, Dona Matilde tirou uma conclusão simples mas profunda: não era apenas uma questão de micróbios. O importante era também a energia, a informação com que entrava em casa. Era como se o peso das preocupações, o desgaste dos maus momentos, pudesse de alguma forma ser sentido pelas crianças, mesmo sem uma palavra ser dita. E a troca de ambiente ou de estado de espírito parecia ser a chave para manter a alegria e a saúde em família.
Por isso mesmo, chegou a recomendar: depois de um desgosto ou de uma situação difícil, não se precipitem em voltar logo para junto daqueles que mais amam. Por vezes, sem darmos por isso, transportamos connosco uma nuvem do que de mau nos aconteceu. Faz bem quebrar o ciclo passear nos jardins, espreitar um bom filme, ouvir uma anedota e rir com uma amiga. Só depois, cabe voltar para junto dos seus, com o coração mais leve.
Como e porquê isto resulta, talvez os cientistas ainda estejam a estudar. Mas quem já experimentou, sabe bem: uma volta pelo jardim ou uma sessão de cinema pode fazer maravilhas. E, só depois, devemos regressar ao aconchego dos que realmente nos importam.







