Sabes, Catarina, às vezes eu fico para aqui a pensar, de pano na mão, a passar pela mesma chávena até ela brilhar. E hoje disse ao Manel: Diz-me lá já reparaste que nem uma colher de chá é mesmo nossa, tudo vai parar ao quarto deles? Até deito a cabeça na almofada e penso: será que estamos a fazer barulho a mais, com o televisor da sala ligado? Será que os incomodamos na NOSSA própria casa?
O Manel, coitado, encostado à janela com o olhar vazio para o pátio escuro lá em baixo. Respirou fundo do fundo do peito, mesmo daqueles suspiros de quem já não tem palavras.
Somos visitas, murmurou ele, sempre sem me olhar. Donos que passaram a hóspedes. Na sua própria cozinha.
E, como se fosse de propósito, chegou-nos um risinho abafado lá do quarto da Joana, misturado com aquela voz grave do namorado. Estavam a ver um filme na que era a nossa sala.
E é assim que estamos: eu com uma chávena, o Manel a olhar o vazio, e eu só penso: como deixámos chegar a este ponto? Que raio fizemos nós para, de repente, termos medo de carregar no autoclismo à noite, não vá alguém acordar? E tudo começou, acredita, da forma mais inocente possível por família.
O telefonema da minha irmã Isabel foi no fim de agosto, há coisa de ano e meio. Lembro-me bem, estava a tratar dos frascos do tomate, vermelha como um pimento, o avental a cheirar a alho e manjericão. O telemóvel a apitar, limpei as mãos ao avental e atendi:
Olá Lena, como estás? a Isabel com aquele tom cauteloso, logo percebi que vinha pedido . Lembras-te da Joana, a mais velha?
Claro, não sou de esquecer , respondi logo. O que aconteceu?
Nada de grave, antes pelo contrário: entrou em Jornalismo, na Faculdade de Letras, aí em Lisboa. Conseguiu vaga sem pagar propinas. Só que não tem residência para já, talvez só passado um semestre. Estava a pensar… Vocês têm um T3, só são os dois, não se importavam de a pôr na vossa morada? É só para uma declaração para a faculdade, não se preocupe. Ela trata de casa para viver, já combinou com colegas, mas para o papel precisam mesmo. É só um favorzinho, formalidade. Só até ela resolver isso do alojamento.
Fiquei com o telefone na mão a pensar mil coisas. De um lado, era a minha sobrinha, sempre boa menina, a Isabel gabava-a todos os Natais. Mas morar… morada é coisa séria. O Manel avisava sempre: Morada? Nunca, nem a família. Depois nunca mais tiras… Mas era a Joana, miúda, estudante, filha da minha irmã. E dizer não à família, custa, não é? Ainda por cima à Isabel, que apesar de não ser de afetos, sempre foi sangue do meu sangue.
Lá respondi a medo:
Ó Isabel, mas tens a certeza que vai mesmo alugar com amigas? Não vá a coisa sair ao lado… Não era fácil para mim e para o Manel se ficasse cá a viver, tu entendes…
Ó Lena, vê lá! desatou a rir. Tem dezoito anos! Está em pulgas para ter o cantinho dela. Já alinhou com duas raparigas, vão dividir um quarto no Lumiar, já tenho fotos. Precisa mesmo é do comprovativo de morada para a faculdade, sabes como são as burocracias agora. Papeis, carimbos, tudo a exigir morada de Lisboa! Não te preocupes.
Fiquei de pensar. Quando contei ao Manel, à noite, logo fez cara séria:
Nem penses, Lena. Isso custa a sair, não queres problemas.
Manel, é por uns meses, despacho rápido, ela vai para o Lumiar com as amigas. Precisa só da morada para o papel.
Mas no dia seguinte, lá estava eu, coração mole, a ligar à Isabel. Ela ficou de dizer à Joana para me ligar.
Dois dias depois, liga-me a Joana. Voz fininha, polida, quase me tratou por minha senhora!
Tia Lena, é a Joana, obrigado mesmo por receber o meu telefonema. Sei que isto é um incómodo
Vem cá a casa, traz um saco com mel caseiro, geleia de marmelo e uns bombons. Uma educada! Senta-se, falamos do curso, dos sonhos queria televisão, fazer reportagens, olhos a brilhar. Mostrou o quarto alugado num telemóvel minúsculo, mas diz que está bem.
Preciso mesmo só da morada, prometo não incomodar. Às vezes venho buscar roupa ou deixar livros… nada mais.
Quando o Manel chegou a casa, a Joana levantou-se, tratou-lhe por senhor Manuel, cheia de respeito. O Manel lá aliviou, acho eu.
Assinámos tudo no registo, ela ficou com morada temporária, validade de um ano. Duas semanas depois confirmou que já tinha tudo feito. Eu, parva, respirei de alívio: ela tinha o papel, problema resolvido.
Mas não, a vida nunca é como imaginamos
Durante uns meses, nem apareceu. De vez em quando telefonava: Tia Lena, feliz Natal! e tal. Isabel também ligava, tudo bem na faculdade, Joana a estudar muito. Tudo ótimo.
Até que, em novembro, a Joana liga: Tia Lena, posso ir uns dias? No quarto está impossível, uma das raparigas trouxe toda a família, outra põe música até às duas da manhã, não consigo estudar
Lá me apeteceu dizer não, mas era época de exames, nem me passou pela cabeça negar.
Claro, dormes no sofá da sala.
Chegou, sacão às costas. O Manel só resmungou por dentro. A Joana manteve-se discreta, saia cedo, voltava tarde, estudava o tempo todo. Até a televisão desligámos para não fazer barulho!
Uma semana virou duas. Depois vieram os exames. Depois arranjou estágio num jornal local, ficava a contar os trocos: Vou poupar para ir a Madrid na Páscoa, não posso gastar ao aluguer agora.
Propôs logo pagar contas, comprar a comida dela. Eu e o Manel em desacordo para mim era ajudar, para ele era abuso.
A meio de fevereiro, já tinha o roupeiro espalhado, caixas dela até na varanda, a prateleira do frigorífico só com os iogurtes, fruta e tupperwares dela. E às vezes, claro, fazia uso do nosso: o óleo, o sal, aquela manteiga que nunca acaba O Manel cada vez mais calado, entrava e ia direto ao quarto. Eu, já nem conseguia cozinhar à vontade.
Num serão, ela faz chá no bule cor de rosa novo O outro é lento, tia , saca a sua caneca especial e senta-se, natural. Eu nem sei se fico irritada se acho graça.
Pergunto:
Joana, então o quarto? Alguma hipótese de outra residência?
Estou a ver, mas é caro ou longe. Aqui é perto de tudo, tia, e prometo não incomodar. Só fico até arranjar algo mesmo.
Pronto, calo-me. Sou daquelas que não tem coragem de pedir para sair. Ela não faz mal, mas não é a nossa filha, e sentimos que perdemos a liberdade.
O Manel, nesse dia, murmurou-me no escuro:
Lena, em agosto nem penses em renovar a morada. Ela que se arranje.
Está bem, não renovo
Por dentro, sabia que ia ser um filme. E quando chegasse a altura, ia pedir para ficar mais E claro: em junho, precisava de renovar, senão perdia a vaga.
Falei com a Isabel. Só mais uns meses, Lena, anda a lutar tanto! E tu és pessoa de coração. E pronto, lá fui renovar sozinha porque o Manel já não queria saber.
No verão, a Joana foi a Braga visitar os pais. Respirámos fundo, a casa voltou a ser nossa. Fins de tarde na sala, sofá só para nós, conversas sem medo. Mas pois, setembro ela voltou, mala maior ainda, cheia de livros e roupa para o novo semestre.
E em outubro pois vêm os trabalhos de grupo. Chega com o tal do Tiago, rapaz bem disposto, informático. Tia Lena, podemos usar a sala um bocadinho? Precisamos do projetor O Manel já nem refila; recolhe-se ao quarto.
A partir daí, começou a vir mais vezes. E atrasa-se, ficam até tarde. Começo a fumar na cozinha, coisa que já não fazia há anos, para aliviar o nervosismo. Sinto-me uma estranha na minha própria casa. E assim fomos até novembro, com Tiago a visitar, algumas noites dormindo até lá.
Um dia, perdi a paciência:
Joana, prometeste que ias procurar casa. O que se passa?
Ela baixa os olhos:
Está difícil, tia. Só tenho dinheiro para as contas, morada é um pavor.
Mas nós não temos mais paciência, Joana. E essas visitas do Tiago isto é uma casa de família, não é uma república.
Não vejo nada de mal, tia. E eu pago a minha parte, limpo o que sujo Sou oficialmente residente, também tenho direitos! E disse tudo isto ainda com mais segurança, como se estivesse a falar com uma funcionária da faculdade.
Foi aí que percebi já não era favor, era uma exigência. E todas as promessas de gratidão, de respeito, foram-se. Já não pedia, reclamava.
Vem dezembro, e a Joana viaja no Natal. Eu já um farrapo, o Manel passado. Tivemos a noite de consoada sozinhos, com árvore de Natal de plástico minúscula na cozinha, porque a verdadeira já era território da Joana.
Janeiro: eis que volta, mais senhora de si. E com novidades: Tiago vai lá de casa sair do quarto duplo do Instituto, está caótico Vai ficar uns tempos aqui. Só precisa da morada, e prometemos procurar algures o nosso ninho é temporário. Vamos casar, tia, mas não se preocupem, não incomodamos muito!
Lá me caiu o coração aos pés. O Manel bateu com o punho na mesa:
Isso nunca! Isto é nosso! Não entra cá mais ninguém!
Tenho direito! responde a Joana Não podem pôr-me fora! Só um juiz pode tirar alguém da morada. Até lá, ninguém me mexe. O Tiago recebe carta e paga a dele. Podem chamar a polícia. Quero ver!
E pronto: casa cheia, nós a viver entre a cozinha e o quarto. Eles a comprar televisão nova para a sala, a mudar as prateleiras do frigorífico pela milésima vez. O Manel foi a um advogado, percebeu logo que ia demorar, que cá a lei é devagar. E passámos a viver assim, tudo aos poucos nos nossos cantos, eles vida de casal no apartamento dos tios.
As minhas tias souberam, a Isabel também ficou ofendida, já não me atende o telefone. Os nossos filhos e sobrinhos a olharem de lado, porque, coitados, primos são irmãos que a vida oferece.
Agora, à noite, fico aqui na cozinha com o Manel. Às vezes olho para a chávena que já lavei dez vezes e pergunto baixinho: E se puséssemos isto à venda? Comprávamos uma casinha minúscula O que é nosso ao menos voltava mesmo a ser nosso.
O Manel olha, sério:
Era dar o ouro ao bandido Mas, Lena, mais vale ter paz numa casa pequena, do que estar a ser estrangeiro no próprio lar. Porque, aqui, a sensação é mesmo essa
E assim estamos. Ouve-se o riso da Joana na sala, a voz do Tiago, o êxito do seu mundo em que somos apenas figurantes e fico a pensar que perdemos foi a esperança. A esperança de que ajudar alguém desse bom resultado. De que pôr a morada para um familiar fosse apenas um “favorzinho”.
Agora só resta aprender a lição e tentar, um dia, reconstruir um lar mesmo pequeno, mas todo nosso.
E nisto termina o meu desabafo, Catarina. Que fique de aviso: não dês nunca a tua morada. Nem que seja para papelada. Porque ao virar da esquina, deixas de ser dona e passas a ser hóspede. E o pior não é perder a casa, mas a confiança.
Pronto, tinha de deitar isto cá para fora. Amanhã é outro dia. E, quem sabe, talvez comece a arrumar umas caixas escondidas para, quando for altura, irmos embora sem drama. Porque, por muito que custe, já não somos donos disto. E nunca mais voltamos a sê-lo.







