Beatriz acordou a meio da noite com a estranha sensação de que a barriga pesava mais do que um saco de batatas do mercado. Eram três da manhã. Tudo estava silencioso, só se ouvia o ronco cansado do marido e o tique-taque nostálgico do velho relógio lá do corredor.
Ela tentou mudar de lado na cama, mas o sofá já de certa idade rangeu tão alto que quase parecia querer contar à vizinha do segundo andar. Ricardo, virado para a parede, deu um salto e resmungou sem acordar completamente:
Oh Beatriz, quantas voltas são precisas? Daqui a quatro horas já tenho que acordar para o batente. Tem dó de mim.
Beatriz congelou, como uma estátua. Nos últimos meses, aquela era mesmo a frase preferida do marido. Ricardo parecia ter esquecido completamente que gémeos não são um capricho, mas antes um exercício digno dos Jogos Olímpicos. E tornara-se um homem estranho. Agora controlava todos os cêntimos, revia talões do Pingo Doce e franzia a testa quando ela lhe pedia para trazer fruta.
Já viste o preço das coisas? Come antes maçãs, são nossas e de época. Pêssegos? Isso é luxo. Sou eu que carrego a casa às costas, tu só ficas aí.
Com parcimónia, Beatriz saiu do sofá e arrastou-se até à cozinha, uma mão na anca. Os pés estavam tão inchados que os chinelos já pareciam feitos para crianças. Sentou-se à janela, olhando para a rua deserta. Sentia-se inquieta. Inquieta com a chegada dos bebés, inquieta por voltar para uma casa onde só havia queixas.
De manhã, Ricardo andava a fazer barulho pela casa, numa azáfama louca. Atirava roupa, procurava uma meia, batia com portas.
Passaste a minha camisa? resmungou sem olhar para ela.
Está ali, nas costas da cadeira, Ricardo.
Ao menos podias ter cosido o botão, está quase a cair. Enfim, tenho de sair. Vou chegar tarde, o chefe é exigente e hoje há reunião de direção. Não ligues, ele confisca telemóveis.
E saiu porta fora, sem um único beijo de despedida. Beatriz ouviu o estralo do tranca superior aquele que ainda por cima emperrava por dentro e só abria com o peso de dois lutadores de sumo.
Durante o dia, Beatriz decidiu finalmente limpar o corredor. Tinha de buscar a caixa das roupas de bebé da sobrinha. Empurrou um banco de madeira, convencendo-se a si própria:
Só vou mesmo pela beirinha.
Subiu ao banco, esticou o braço. Uma tontura súbita, barriga tensa, cama de rebuçado. O pé escorregou. Estrondo. Pancada.
Caiu de lado sobre a carpete, a perna entalada. Gritou. E logo uma dor violenta instalou-se no baixo ventre, como se viesse das profundezas do inferno.
Não, por favor Ainda não murmurou, arrastando-se.
O telefone estava em cima da mesa de apoio, a um metro. Beatriz rastejou, deixando atrás de si um trilho molhado. Cada movimento parecia uma maratona.
Pegou no telemóvel. Os dedos tremiam, via tudo aos saltos. Na lista dos contactos, apareceram primeiro os nomes começados por R.
Ricardo.
Logo abaixo: Dr. Ricardo Baptista (Diretor Geral). Fora o número que tinha guardado no mês anterior, quando foi tratar dos papéis da licença, porque o marido nunca atendia.
Beatriz carregou em Ricardo. Toques longos, indiferentes. Nada.
Tornou a ligar.
Este número está temporariamente indisponível.
O pânico tomou conta dela. Estava sozinha. A porta fechada com uma tranca impossível de abrir deitada. Nem os bombeiros conseguiam fazer milagres, se não conseguissem entrar.
Tudo lhe acontecia de seguida, nem para respirar. Quase a perder os sentidos, Beatriz abriu o WhatsApp. Tudo turvo. Pensou que escrevia ao marido.
Preciso ir ao hospital, a porta está trancada! Já começou, caí, não me levanto. Por favor, vem já!
Carregou em enviar e deixou o telemóvel cair. O ecrã apagou-se.
Ricardo Baptista, um homem de negócios respeitado no Porto, liderava uma reunião tempestuosa. Não era pessoa para brincadeiras e se alguém se atrasava, sentia logo o peso do seu olhar. Os colaboradores tremiam-lhe ao passar.
O telemóvel em cima da mesa vibrou. Baptista espreitou. Era um número que conhecia Beatriz, esposa do seu responsável de compras, Ricardo Gomes. Uma senhora simpática, sempre discreta, já ali passara para tratar de papéis.
Leu a mensagem. Pela primeira vez em anos, o rosto endurecido tremeu.
Acabou a reunião! rugiu.
Mas senhor diretor, ainda não arriscou a chefe financeira.
Todos para fora. Já!
Saiu disparado. Pelo caminho ligou a Ricardo Gomes. O cliente não está disponível.
Que bela peça, este gajo rosnou Baptista entre dentes.
Ligou ao chefe de segurança:
Diz-me já onde está o telemóvel do Ricardo Gomes. E mete o carro à porta, vou eu próprio.
Minutos depois, recebeu a localização. Nada de obra. O Ricardo nem perto estava do escritório. O ponto brilhava ali na Foz, pelo meio de um spa chic com nome de resort.
Baptista cerrava os maxilares quem lhe visse a cara, fugia.
Voou até ao apartamento da Beatriz, acelerando como quem não tem nada a perder. Lembrava-se bem do que era perder uma esposa vivera isso há cinco anos, um ataque ao coração tirou-lhe o chão. Sabia o que era esperar por ajuda que não chega.
Subiu os três andares quase a voar. A porta, claro, trancada. Ouviu um gemido do outro lado.
Não esperou pelos bombeiros. Afasta-se da porta, toma balanço e investe. O tranca cedeu a custo. Com a segunda investida, a porta abriu-se.
Encontrou Beatriz caída no corredor, retina fraca, mas viva.
Beatriz!
Ela abriu os olhos, enevoados:
Dr. Ricardo? E o Ricardo?
Venho por ele. Aguenta-te.
Pegou nela ao colo.
No carro, Baptista furava o trânsito sem medo de radares. Beatriz arfava no banco de trás, ele falava com voz de comandante:
Aguenta, estamos mesmo a chegar.
À porta da urgência já esperavam os médicos, ele tratara disso com um telefonema.
É o marido? gritou a enfermeira.
Sou o pai disparou Baptista. E estão sob a tua responsabilidade, ouviste bem?
Ficou a deambular pelos corredores, quase a raspar os sapatos no chão de cerâmica branca. Três horas depois, o médico apareceu.
Pode respirar fundo. São dois rapazes. Tivemos de intervir a sério, mas chegámos a tempo. Estão magrinhos, mas respiram sozinhos. A mãe está fraca, mas vai recuperar.
Baptista encostou a testa ao vidro da janela e finalmente respirou.
Pegou no telemóvel. Voltou a ligar a Ricardo Gomes. Este atendeu, voz carregada de vinho, ao fundo ouvia-se música e conversas soltas.
Alô, chefe? Ligou-me? Estou aqui na obra, a rede é péssima…
Obra? Agora As Termas do Atlântico encomendam cimento também?
Silêncio.
Dr. Ricardo, eu…
Estás despedido, Gomes. Sem cartas de recomendação. Amanhã não quero ver nem o teu fantasma no Porto. E reza para que a tua mulher algum dia te perdoe. Se fosse eu…
Beatriz só voltou a si no dia seguinte. Quarto sossegado, garrafa de água e sumo sobre a mesinha.
A porta abriu-se. Era Baptista, já sem gravata, claramente cansado.
Como te sentes?
Dr. Ricardo tentou sentar-se, mas levou logo uma fisgada. Desculpe Enganei-me no contacto
Agradece ao erro, vá. sentou-se ao lado dela. Beatriz, precisamos de conversar.
Contou-lhe tudo: a mensagem, o spa, o despedimento. Falava direto, sem rodeios.
Ele vai ligar-te a pedir desculpa. O apartamento, é dele?
Dos pais respondeu baixinho. Não temos para onde ir. Só tenho uma tia num aldeamento no interior.
Baptista ficou calado, dedos tamborilando.
Então é assim. Tenho uma casa grande, dois andares. Só lá vou dormir. Há uma parte de hóspedes. Ficas lá com as crianças até estares bem. Preciso de alguém para me dar uma ajuda. Não gosto de estranhos. Considera isto trabalho.
Eu não posso Com dois bebés Eu de empregada?
Aguentas-te. Contrato outra para ajudar. Isto não é caridade, Beatriz. Fico mais tranquilo com gente de confiança por perto.
A alta do hospital foi sem dramas. Ricardo tentou entrar, mas segurança é segurança, acabou a gritar da rua, já bem regado.
Beatriz ouvindo-o, encostada à janela, só sentiu um grande vazio. Nada mais a magoava.
Baptista veio buscá-la pessoalmente. Pôs as coisas no carro, apertou as cadeirinhas.
Vamos para casa, disse, como se sempre lá pertencessem.
A vida na casa de Baptista tornou-se tranquila, quase surreal. O enorme chalé ganhou cheiro a pó de talco e roupa lavada.
O terrível diretor não era nada de assustador. À noite, chegava do trabalho e atrapalhava-se com os bebés, tentando ser amigável embora desajeitado.
Então, campeões? perguntava-lhe, voz grave. A crescer, hein?
Os miúdos, Tiago e Rui, olhavam-no muito sérios.
O ex-marido eclipseu-se. Ao saber que Baptista lhe fechou as portas das empresas da região, fugiu para a casa da mãe. Mandava uns trocos, mas Beatriz já nem ligava. Pela primeira vez em anos, sentia-se segura.
Dois anos depois.
Beatriz arrumava a mesa debaixo do alpendre. Era domingo, calor de julho. Baptista preparava uma grelhada.
Os miúdos corriam pelo relvado atrás de um bicho qualquer.
Pai, olha o escaravelho! gritou o Rui, dedo espetado no ar.
Beatriz congelou, Baptista também. Rui tinha acabado de lhe chamar pai até então era só Ricardo.
Baptista largou tudo, limpou as mãos e foi buscar o miúdo ao colo.
Escaravelho? Isso é um besouro, amigo. Faz bem à horta.
Depois olhou para Beatriz. O olhar de aço já não era de patrão era de homem.
Beatriz, disse, aproximando-se da mesa. Senta-te cá.
Sentou-se ao seu lado.
Não sou pessoa romântica. Palavras bonitas não são comigo. Mas estes miúdos… já não me são estranhos. Nem tu.
Tirou uma caixinha simples do bolso. De cartão, nada de grandes luxos.
Vivemos dois anos como família. Está na altura de oficializar isto. Adoto os miúdos, dou o meu nome aos dois. Para que ninguém se atreva a dizer nada. Aceitas?
Beatriz olhou para ele e chorou. Mas agora de alívio, não de dor.
Aceito, Ricardo sorriu entre lágrimas.
Então está feito. E deixa lá as formalidades, já te pedi.
À noite, já com os miúdos a dormir, sentaram-se na varanda. O chá arrefecia nas canecas. Em algum lugar, o ex-marido de Beatriz provavelmente lamentava a vida e afogava mágoas por bares baratos. Mas naquela casa, tranquila, dois rapazes roncavam baixinho, agora com um verdadeiro pai.
Às vezes, um erro num número de telefone pode mudar a vida inteira. Só é preciso não errar na pessoa.






