Modo Conjuntivo: Descubra Como Usar Esta Forma Verbal Essencial na Língua Portuguesa

Modo Conjuntivo

Pediu-te em casamento? Andreia, estás louca! Mas o que há para pensar?!

Carla, não é assim tão simples

Como não? resmungou Carla, largando o casaco na cadeira e sentando-se à minha frente. Fogo! Vim a correr! Tenho meia hora e, depois, tenho de levar a Matilde à ginástica e o Gonçalo ao futebol.

Ó Carla, o miúdo já faz seis anos. Até quando o vais chamar Gugu?

Deixa-o lá! Ainda devia agradecer que não lhe dei alcunhas piores! Imagina, ontem apareceu da creche todo entusiasmado a dizer que está apaixonado pela Leonor do prédio ao lado! Diz que se quer casar com ela! Tens noção?

E então? Muito normal vindo do teu filho. Tu eras igual!

Não compares! Lembras-te do que a mãe fez quando anunciei que ia casar? Carla riu-se, mexendo o cabelo apressadamente. Tinha quê? Quinze anos?

Catorze, nem chegavas aos quinze! A mamã quase ia tendo um fanico! «Mãezinha, já decidi tudo!», dizia tu, toda feita mulher. Como se não soubéssemos que o Paulo nem te via com olhos de casar!

Mesmo assim, acabou por ser meu marido, e vê o que me calhou! A mãe podia ter sido mais dura comigo naquela altura. Passar um ano a lavar a loiça da família não foi grande castigo mais valia ter-me proibido de sair à rua!

Proibir-te? Ah, pois! Ela sabia que, no fundo, eras esperta o suficiente para não te meteres em asneiras. Tinhas cá uma cabecinha!

Cabecinha principalmente quando se tratava de ti! Andávamos sempre à estalada! Isso é que era, a Andreia perfeita e a Carla rebelde!

A mãe nunca disse isso.

A avó compensava por todas! Sempre a dizer que eu havia de dar trabalho. E no fim?

Pois, quem diria! Neste capítulo, fui eu a ingénua…

Afastei a chávena de café e suspirei.

Andreia murmurou a Carla, esticando-me a mão por cima da mesa. O que se passa realmente?

Tenho medo…

Por amor de Deus, de quê?! Encontraste finalmente um homem decente e agora bloqueias com medo? Mas o que te falta?

Acho que o Ricardo nunca vai aceitar o Matias…

A Carla franziu o sobrolho.

Porquê, filha?

Olha, é simples. Ontem, depois das rosas e deste anel, pediu-me para combinar com os meus pais e deixar o Matias com eles uma semana…

Virei-me para a janela, mexendo o anel no dedo.

Era lindo e caro, claro. Nada menos se espera do Ricardo empresário de sucesso, apaixonado por desporto, música e pela vida. A partir do momento em que me conheceu, parecia decidido a dar-me o melhor do mundo. Generoso como a mãe dele sempre lhe ensinou:

Ricardo, uma mulher aguenta tudo com quem ama, até dificuldades sérias. Mas se lhe negas algo que podes dar, pensa duas vezes. Ela vai pensar: Se me nega a mim, negará também à criança?

Mas mãe, o que tem a ver?

Lembras-te da história da pobre Elisa? As mulheres são assim, pensam sempre no futuro. Quem pensa no amanhã, raramente se perde.

O Ricardo levava a mãe muito a sério. E não admira: a Dona Teresa fez tudo sozinha depois do divórcio, criando-o como podia. O marido acabara com tudo mal o miúdo nasceu, deixando mãe e filho de mãos a abanar. Ir para a terra dos pais, tão remota, nunca lhe passou na ideia. Estava farta da aldeia, partira para Lisboa mal pôde, ignorando o passado.

Casou-se por conveniência, nunca por amor, mas ao Ricardo nunca contou isso. Quis que o filho visse o mundo diferente. Quando ficou desamparada, não chorou: procurou emprego o que não foi fácil mas arranjou, ajudada por vizinhas, a trabalhar como empregada doméstica na casa de um professor já viúvo, senhor Mário.

Ó senhor Mário, a comer sopa, sim? dizia-lhe enquanto lhe pousava a tigela.

Daqui a mais pouco, Teresa, daqui a pouco…

Agora, senhor Mário, não se faz cerimónia! Precisa de forças!

O professor acabou por se afeiçoar não só à Teresa, mas também ao pequeno Ricardo. Ao ponto de, um dia, lhe fazer uma proposta inesperada.

Teresa, sente-se um pouco. Disse, nervoso, a olhar para a foto da falecida mulher. Pensei muito nisto. Ofereço-lhe a minha mão e tudo o que isso signifique. Não por amor, mas porque vocês não têm proteção nenhuma. E o Ricardo precisa de estabilidade. Não tenho família chegada e, sinceramente, vocês já são parte da minha vida. Pense bem

A Teresa pensou e aceitou não por ela, mas pelo filho.

Casaram discretamente e, de repente, o Ricardo ganhou um pai. Pouco depois, a Teresa voltou a estudar, tirou um curso superior e abriu a sua pequena empresa de limpezas e eventos. Nunca mais parou. Sabia que o filho estava seguro, com o padrasto a cuidar dele como ninguém.

O pai biológico do Ricardo nunca quis saber mais. «Arranjaste outro? Boa sorte. Não digas ao miúdo quem fui, mais vale assim». Teresa respeitou o pedido. Só muitos anos depois, já o Ricardo com 19, é que soube a verdade.

Mãe, mas ele gostava mesmo de mim…

Gosto como nunca distingui um filho de sangue. O Mário sentia-se pai e tu deste-lhe alegria. Aprendi que o sangue não é tudo. Nem sempre um pai biológico ama. O Mário deu-nos casa, segurança e paz.

A Teresa nunca escondeu que agradecia à vida as voltas difíceis. Não fossem elas, o filho não seria quem é.

Mudou-se para a casa da Ericeira, deixando o apartamento ao Ricardo, esperando netos que teimavam em não chegar.

Ricardo, em quantas raparigas pegaste já? perguntava-lhe.

Já muitas, mãe.

E nenhuma serve? A Catarina, a Lídia? Pareciam tão boas.

Não são para mim, mãe. Boas raparigas, mas não sinto nada. A Catarina só quer saber da carreira, nem quer filhos. A casa dela parece um museu, até tenho medo de sujar um copo. A Lídia? Perfeita, mas não lhe tenho amor. Chega?

Chega.

Quando eu, Andreia, apareci na sua vida, a Dona Teresa ficou radiante. Não lhe preocupava o facto de eu já ter filho.

Estás preparado para isso, Ricardo?

Mãe, não te lembra quem me criou? Mas, e se o rapaz não me aceita?

Tenta! Queres a mãe, conquista primeiro o filho. E não te esqueças, para uma mãe o filho está sempre em primeiro lugar.

Mãe!

Não vale a pena florear onde não precisa. Se queres esta mulher, tens de lutar. Mas pensa bem: mexer na vida de uma criança é coisa séria!

Ricardo levou cada palavra a sério e assim começou tudo. Feita esta parte, faltava-me só decidir.

No café, Carla já me lia a mente.

Então, o que é que ele te disse mesmo?

Quem?

O Ricardo, claro! O que é que te explicou do pedido dele?

Nada de especial. Só pediu para combinar que o Matias ficava uma semana com os avós depois do casamento.

Deitei a colher para a mesa com força. O empregado olhou surpreendido, mas a Carla sossegou-o e depois deu-me um toque na testa, como quem faz um feitiço.

Ai! Estás bem?

Estou, mas daqui a pouco nasce-me um galo!

Não nasce nada. Já tenho prática! Quando cresceste mesmo, Andreia? Quando soubeste que esperavas o Matias? Antes?

Antes, talvez

Pois. Como dizia a avó, jovem e precoce! Mas aprendeste? Nada! Continua sem abrires a boca…

Sobre quê?

Sobre tudo! Se tivesses contado à família o que se passava com o Pedro, pai do Matias, talvez as coisas tivessem sido mais fáceis. Mas agora já não vale a pena.

Deixei cair a colher e respirei fundo. Nunca fui de falar muito do passado. Tinha sido uma paixão de miúda pelo colega mais giro da escola. O Pedro viu-me como viu tantas mas na noite de finalistas, levou-me pela mão para onde sabia que não havia adultos em casa. Aconteceu o inevitável. Eu, sempre certinha, nunca mais falei disso. Esperei, ilusoriamente, que ele mudasse. Quando percebi, já não havia volta a dar.

Foi a Carla quem me apoiou, mesmo a estudar e com a cabeça cheia. Chegou a casa, abraçou-me, e disse: Fez o que tinha a fazer, acabou!. E depois, quando contei à mãe e ao pai, chorámos as três até ele chegar, abrir os braços e dizer: Mas estão malucas?! Um neto é para festejar!

Nunca mais senti um alívio assim.

E o Matias cresceu numa casa sem pai-padrão, mas cheia de amor e apoio. Licenciei-me já com o menino pequeno, e ergui a vida só com ele.

Por isso, agora, com o Ricardo, o receio era real: podia ele alguma vez aceitar-nos a nós os dois?

A minha cara não enganava ninguém. A Carla chamou o empregado:

Traga uma colher grande e duas doses de éclairs, por favor.

Ao empurrar o prato dos nossos bolos favoritos, disse-me, firme:

Andreia, aprende a perguntar e falar das coisas. Especialmente com o Ricardo. Acho que ele é daqueles em quem se pode confiar. Porque não lhe perguntas simplesmente para quê aquela ideia com o Matias? Tão complicado é?

Talvez não Se calhar é simples. Perguntar.

Então, agora mesmo!

Agarrou-me o telemóvel e abanou-o à minha frente.

Liga-lhe!

Não posso, está em reunião!

Então manda mensagem!

O que vai pensar de mim?!

Importa assim tanto? Ele pôs-te um anel no dedo! Aceitaste, ou nem por isso?

Estou a pensar

Andréia, se não disseste não, é porque disseste sim! Como queres construir relação com alguém a quem nem perguntas sabes fazer? Ele não adivinha. Explica-lhe o que sentes. Basta de ses e talvez… Decide-te!

Se ao menos soubesse o que quero…

Peguei o telemóvel e num segundo já a resposta vinha. Sorri.

Vês? Agora mais claro não podia ser! Carla olhou para o relógio. Ih, já me atrasei! Eu só queria ir de férias. Em vez disso, ando nestas correrias Vá, não desanimes! Ele pensou em tudo. Uma semana só vocês, depois todos juntos. Também és mulher, não só mãe. Até te invejo! O meu Paulo nunca pensaria nisso. Ah, e fala com o Matias! Acho que ele até gostaria de chamar Ricardo de pai.

Tu achas?

Sei! Mas nunca te disse isto.

A Carla vestiu o casaco num ápice e saiu, piscando o olho e batendo no lado da cabeça: Pensa bem nisso!

E eu pensei.

O resultado das minhas reflexões apareceu três anos depois, quando o Matias, orgulhoso, recebeu dos braços do padrasto a sua irmã recém-nascida e olhou para ele com um sorriso tímido.

Devagar, filho! avisei, ansiosa, mas o Ricardo segurou-me, impedindo que interrompesse o momento.

Não tenhas medo. Vai correr bem! Não é, filho?

Ó pai! Por quem me tomas? O Matias levantou o laço do enxoval que escolheram juntos durante semanas e sorriu. Mãe, é lindaO Ricardo pousou a mão no ombro do Matias, rindo. Olhámo-nos todos, cúmplices naquele instante que valia por anos de dúvidas. Pela janela já entrava o sol e eu senticomo quem entende finalmente o segredoque família é verbo, e não só substantivo. É o conjunto de escolhas, dos nãos e dos sins ditos com medo ou coragem; é o modo como nos olhamos, trocamos silêncios e dentes à mostra.

O Matias aninhou-se entre nós e disse, num sussurro só nosso:

Agora sim, mãe. Somos mesmo todos família.

O Ricardo piscou-me o olho, cúmplice, naquele jeito meio trapalhão que só ele sabia e eu, sem precisar de promessas, soube que não era preciso prever o futuro, só vivê-lo, um passo de cada vez. Nunca deixaria de ser mãe; mas, naquele abraço, percebi de vez: também podia voltar a ser simplesmente Andreia.

Rimos. Ao fundo, a vida chamavacom gritos, choros de bebé e a alegria simples de um domingo qualquer, que afinal se tornara inesquecível. E nessa casa cheia, entendi que foi no modo conjuntivo que aprendi, mas no indicativo que finalmente decidi viver.

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