Meias Encantadas

Meias

Ó meu docinho! Meu lindo! Santa Maria, porque é que os bebés são todos tão doces, hã? Dona Graça despejava mimos sobre o neto, exibindo-se para a câmara como uma atriz da televisão.

O meio ano do pequeno Tomás celebrou-se em grande. Animadores, balões, um bolo magnífico coberto de creme com bonecos de pasta de açúcar. Os avós fizeram questão. Beatriz nunca ficou muito convencida com tamanha festa. Não que não apreciasse o esforço dos pais em alegrar o neto, mas tal como em criança, a confusão rápida a cansava. Tomás era igual à mãe bastaram trinta minutos de festa e disparou no choro. Beatriz levou-o para dentro de casa, fechou as janelas e sentou-se com ele numa poltrona antiga, enquanto o filho se aninhava e adormecia em segundos.

Fartou-se de tanta folia, meu amor. És tão pequenino para festas assim.

Dona Graça entrou no quarto, agarrada ao presente que deixara em cima do aparador.

Já dorme?

Está exausto. Mãe, eu disse que era cedo para aquele rebuliço todo.

Ora, não faz mal, habitua-se! Minha filha, temos possibilidades para celebrar o nosso netinho e torná-lo feliz. Esperámos tanto por ele! Olha só o que comprei! Não é uma coisa amorosa?

O barulho do papel do presente acordou o bebé, que se mexeu, incomodado.

Mãe, deixa isso para depois, está bem? Beatriz levantou-se, embalando Tomás, num vaivém pela sala.

Olha a minha filha, nem quer ver o que escolhi! Pensei tanto, levei horas a decidir e tu nem tens curiosidade! Dona Graça pousou a caixa na mesa, magoada.

Não digas isso, mãe! Tenho a certeza de que é maravilhoso. Só tenho uma sede terrível, trazes-me um copo de água, por favor?

Pousa o bebé e desce tu.

Ele acorda.

Qual é o problema? Depois voltam ao jardim!

Ó mãe, se ele acorda agora, vais ver o berreiro E dura, acredita.

Beatrizinha, os filhos educam-se desde pequeninos. O que é isso de chorar? Criança educada não faz dessas figuras!

Beatriz hesitou, mas retomou o seu bailado adormecido. Os passos curvados, os pés firmes, tudo ecoava disciplina antiga. Crianças bem-educadas não incomodam os adultos. E as meninas perfeitas nem ousam pestanejar. Costas direitas, queixo levantado, primeira posição! Sem réplicas!

Pronto. Eu vou aos convidados. Não é bonito deixar as pessoas sem a dona da casa.

Substitui-me, por favor, mãe.

Dona Graça saiu, Beatriz afundou-se com o filho no colo. Que caminho comprido até Tomás nascer!

Beatriz viera de uma dessas famílias respeitáveis. O avô era académico famoso, a avó cirurgiã num hospital privado de Lisboa. O pai, sem fugir à tradição, tornou-se médico; mas Beatriz nunca entendeu como um homem tão seguro se deixava moldar pela mão exigente da mãe. Dona Graça mal tinha paciência para a ciência. Com um curso tirado a custo, arrumou o diploma e foi tratar de casamentos mais do da filha do que do seu. A avó, Leonor, tomou as rédeas, supervisionou amas e horários, planeou os dias de Beatriz a régua e esquadro. Dois idiomas, escola de ballet, e professor de música particular.

Uma menina perfeita, desde o cabelo aos sapatos!

Sobravam-lhe os fins-de-semana nos museus e teatros; os pais só via ao longe. O pai sempre ocupado, a mãe com apenas o tempo suficiente para largar um beijo e ir a uma soirée.

E a avó conseguiu: Beatriz entrou no conservatório logo cedo, depois foi aceite no Teatro Nacional. A carreira estava encaminhada até conhecer o marido, Miguel. Ninguém gostou dele, exceptuando o pai.

Santa Mãe! Que disparate! exclamava Leonor, mãos nas têmporas. Menina, pensa bem! O que vais fazer com um tipo desses? Nem sabe fazer conversa!

Avó, não seria fácil para ninguém falar à tua frente. Beatriz ali sentada, pernas cruzadas na poltrona, pecado capital noutro tempo. Mas Leonor só tinha olhos para o caso amoroso da neta.

O que queres dizer com isso?!

Que poucos há no mundo ao teu nível intelectual.

Olhos desconfiados, Leonor escutava atentamente.

E mais, o Miguel não é só de quem gosto, avó. Amo-o. E o amor não é ele o alimento da arte?

Arte que se lixe! Como vais viver tu com ele?

Muito tempo. E se puder, feliz.

Beatriz defendeu o direito à sua escolha com unhas e dentes, apesar das críticas e apelos para repensar. Dizendo sim ao olhar do futuro marido, calou as vozes, menos a do amor. Para Miguel, Beatriz era deusa em carne e osso, sobressaía pela beleza frágil e pelo coração exposto. Sentiu nela força, mas também um medo constante. Queria protegê-la do mundo inteiro.

Não tenho nada para te dar além de amor e prometer a tua felicidade.

Bastou. Beatriz percebeu que tinha finalmente alguém a quem podia mostrar fraquezas, alguém que não exigia ser à altura.

O caminho nunca foi fácil. Miguel não herdara fortuna, nem influências. O pai morrera cedo, e foi a mãe, Conceição, quem o criou. Professora do ensino básico, depois directora de escola, era idolatrada pelos alunos e pelo filho, cujo orgulho era visível. Graças a ela, entrou em engenharia e formou-se com distinção. Com fé inabalável, Conceição trocou de casa para ajudar Miguel a investir no futuro. Em poucos anos o negócio prosperou e até Dona Leonor se calou, especialmente após o nascimento do bisneto.

Ter um filho era o desejo mais profundo de Beatriz. Não queria ser grande, bastava-lhe ser mãe feliz. Mas parecia que a natureza contrariava o seu sonho. Anos de exames, duas operações e nada. Beatriz chorava em silêncio para não afligir Miguel, pensando que ele merecia ser pai. Quando decidiu libertá-lo, escutou apenas o riso divertido do marido.

Desculpa, Bia! Apertando-a, ele soluçou: Achas que te amo só pelo sangue que deixas para trás? És a minha vida! Porque razão não entendes?

Beatriz deu-se ao alívio e chorei abraçada a Miguel.

Aceitar que a maternidade era um luxo impossível parecia lógico; resignar-se era insuportável. Tentava preencher o vazio. A mãe lamentava-se das amigas todas já serem avós e ela continuar leve e livre. As amigas organizavam festas infantis e Beatriz esforçava-se nos presentes para os filhos delas. O tempo passou, acalmou a dor, e Beatriz abriu o próprio atelier de ballet.

Preciso de fazer qualquer coisa ou enlouqueço!

Miguel não entendia totalmente, só Conceição a acalmou.

Miguel, sabes quão duro é para ela? Para uma mulher, dar um filho ao homem que ama é tudo. Ajuda-a no que puder.

E Miguel ajudou: encontrou uma sala ampla. Beatriz bateu palmas ao ver o espaço.

É mesmo isto! Que maravilha!

Entre preparar o salão, receber crianças e lecionar, distraiu-se. Mal percebeu os primeiros sintomas de gravidez, atribuiu a indisposições normais.

Beatrizinha, se não quiseres não respondes perguntou Conceição, um dia no café favorito da nora. Estás à espera de um bebé?

Beatriz gelou por dentro, sentindo o toque naquela ferida. Tentou sair dali, mas quase desmaiou.

Conceição foi buscar água e entregou-lhe uma caixinha:

Para quê adivinhar?

Ninguém no café entendeu por que duas mulheres se abraçavam a chorar e a rir no meio da sala. Mas aquela felicidade era tão genuína que todos sorriram.

Tomás nasceu saudável, provocando admiração à equipa médica.

Bailarina? perguntou a neonatologista.

Sim, disse Beatriz, suspirando.

Este rapaz é excelente. Quase não há problema algum. Parabéns!

Beatriz acordava agora todas as manhãs com medo de merecer tamanha felicidade.

Não estás sozinha, amor. Divide comigo. Somos dois. Miguel contemplava o minúsculo rosto, afogado no enxoval de rendas comprado por Dona Graça.

A saída da maternidade para Beatriz foi como um pesadelo. Apesar das tentativas, Miguel não conseguiu que a cerimónia fosse discreta. Havia fotógrafos, festa, casa cheia. Beatriz mal se aguentava, sonhava só com banho e descanso.

Mãe, era preciso isto tudo?

Ó filha! Tem de ser! Uma avó tem de festejar. Estou tão feliz!

Discussões eram inúteis. Cambaleou pelas escadas acima e suspirou vendo o mar de pessoas. Nem toda a família tinha ido ao hospital.

São só os mais chegados!

No canto, Conceição percebeu o desconforto. Não havendo espaço para recusar visitas, ela própria resgatou Beatriz, levando-a para o quarto.

Vai deitar-te. Eu preparo tudo e vais ao duche. Comida? Tenho sopa, compota, pão quente. Descansa! Se não te importares fico cá uns dias.

Beatriz aninhou-se e chorou em silêncio. Viu Conceição cuidar do seu bebé e sentiu-se grata.

Dorme, filha. Vigio o Tomás.

Mas Dona Graça não tardou a chegar, indignada por ver a filha a dormir em vez de receber.

E chama-se a isto quê?

Chama-se mãe recente a precisar de descanso para dar de mamar. Só assim o Tomás terá força.

Tolices. Nunca amamentei a Beatriz. Cresceu saudável. Dona Graça ia entrar para acordar a filha, mas Conceição travou-a, conduzindo-a para a cozinha.

Vamos celebrar. Esperámos tanto! Somos duas avós, afinal. Como prefere ser chamada: avó ou pelo nome?

Miguel fechou a porta atrás delas, agradecido. Com a sogra, era mais difícil: Ilda aproveitava todos os confortos, mas nunca dava espaço à opinião do genro em nada. Com o sogro a relação era fácil gostava da competência de Miguel, evitava mexer com o matriarcado.

Nem pensar em mudar esse feitio, mas arranjar problemas em casa… Não, obrigado.

Quando acordou, Beatriz teve um momento de confusão. O choro de Tomás e as gargalhadas vindas de baixo trouxeram-na de volta. Amamentou o filho, esperou Miguel e, finalmente, foi ao duche. Sentada à janela com sopa fumegante feita por Conceição, licenciou-se em primeiras dúvidas maternas.

Disseram-me qualquer coisa no hospital, mas é tudo tão pouco. Tenho medo.

Come, Beatriz. Nada de pânicos. Os bebés aguentam mais do que imaginas. E tu vais aprender. Quando Miguel nasceu, estava sozinha. Errei, claro. Mas ninguém sabe melhor do que tu o que Tomás precisa. Confia.

E o tempo ensinou que a sogra tinha razão. Aos poucos o medo esbateu-se e a confiança cresceu.

Os meses primeiras passaram num sopro. Conceição vinha ajudar, mas acabava sempre a cozinhar ou a pôr a casa em ordem. Beatriz sentia-se frustrada; Conceição acalmava-a:

Este início é tão curto! Aproveita cada olhar, cada sorriso. Logo acaba. Não desperdices nada. Eu ainda aguento limpezas, não te preocupes.

Já Dona Graça vinha menos, mas cada visita era um acontecimento.

Vê lá esta cadeira de passeio que encontrei! Nunca vi igual!

Temos uma ótima!

Não compares! Anda, vamos experimentar na rua!

E Dona Graça recusava-se a chamar Tomás pelo nome durante meses.

Que nome foste tu arranjar? Não havia mais nenhum? Tomás! Uma pessoa fica sem saber se é santo ou miúdo!

Mãe, é nome real! Não percebo a tua implicação.

O miúdo com isso vai ser gozado na escola!

Se for, vai para uma escola normal! E desde quando os pais não escolhem os nomes?

Olha, o teu dei-to eu, com a avó. Imagina se te chamasses outra coisa!

Ainda bem que escolhi o nome do meu filho sozinha.

Dona Graça bufava, agarrava o neto e saía, satisfeitíssima porque os vizinhos confundiam o menino com seu filho próprio nas caminhadas. Rapidamente a vila percebeu o engano, e os passeios acabaram. As visitas resumiram-se a um café, um beijo ao correr, e mais uma prenda de cores berrantes.

Vou ser a avó festa! E acumulavam-se brinquedos na estante do quarto da criança.

Cada um ficou com o seu papel e tudo sossegou.

O aniversário de seis meses, organizado por Dona Graça, quase terminou em discussão.

Beatriz sorriu ao filho enquanto abria a caixa deixada pela mãe. O chocalho prateado era lindo.

Olha, Tomás, que bonito!

O bebé mordeu a sua nova diversão e sorriu, mostrando os dentinhos a nascer.

E o que te deu a avó Conceição? Beatriz abriu o saquinho deixado discretamente pela sogra.

Um conjunto branco, tricotado à mão, tão macio que Beatriz encostou à face.

E as meias! Que trabalhadas! Tua avó é uma artista, filhote!

Nessa altura, Dona Graça entrou radiante:

Que coisa mais delicada! É de alguma marca?

Não. Foi a Conceição que fez.

Dona Graça virou a camisola de um lado ao outro.

Não podia ter arranjado um presente melhor? Uma data importante destas Podia ter comprado algo decente. Que mesquinhez, senhores!

Mãe!

Que foi? Não estou a dizer a verdade?

Beatriz não sabia onde se enfiar. Conceição, quieta à porta, ouviu tudo. Sem dizer palavra, pousou o copo de sumo para Beatriz e saiu devagar. Entre acalmar o filho e controlar os pensamentos, Beatriz perdeu-se, e ao descer, descobriu que Conceição já tinha ido embora.

Miguel! Sinto-me mesmo mal, é uma vergonha.

Não foste tu quem falou, não tens culpa.

Mas devia ter evitado! Faltou-me coragem.

Não te preocupes. A minha mãe percebeu tudo.

Beatriz quis remendar a relação, mas Conceição tranquilizou-a sempre que tentou pedir desculpa.

Não ligues a isso, não fiquei ofendida.

Mas Beatriz sentia que algo subtil havia partido. Tentava em vão costurar, mas nada encaixava.

O pior chegou num dia morno estava só em casa com Tomás a dormir no quarto. Uma pontada aguda torceu-lhe as entranhas. Tentou ligar a Miguel, sem sucesso; estava reunido, com o telemóvel desligado. Sabendo o pai a operar no hospital, ligou à mãe que lhe respondeu alegre:

Beijinho, está tudo bem? Como está o Tomás? Essa festa foi um sucesso!

Mãe

Não agradeças! Estou sempre aqui! Olha, tenho outra chamada! E desligou com pressa.

A dor agravou, deixou-a tonta. Com esforço, ligou para o INEM e depois para Conceição.

Beatriz?

Por favor murmurou, sentindo a sala a rodopiar.

Conceição nunca correra tanto ainda de chinelos, a mala na mão, deitou-se à estrada a pedir boleia.

Ó senhora, quer morrer? exclamou um taxista travando a fundo.

Por favor! A minha nora está mal! Rápido!

Entre!

A viagem pareceu um rodopio, com Conceição a repetir:

Não se preocupe! Trinta anos a conduzir! Chegamos lá.

Quando o INEM parou à porta, Conceição já esperava.

Aqui, venham! comandou, correndo para os médicos.

Beatriz acordou minutos depois, já a ser transportada.

Onde vou?

Bia, tem de ser. Não te preocupes! Eu fico com o Tomás. O Miguel já vem.

A operação correu bem e duas semanas depois recebeu alta. Quis voltar logo, mas o pai insistiu na recuperação.

Nada de brincadeiras! O teu filho precisa que estejas forte!

Em casa, abraçou Tomás e telefonou à mãe.

Mãe!

Beatriz Estás bem?

Preciso de ti cá uns tempos. Não posso pegar em pesos. Ajuda-me com o Tomás?

Claro, claro! Mas sabes tenho a viagem marcada, voo depois de amanhã. Era para ser as férias da minha vida

Beatriz fechou os olhos e desligou. Teria de se aguentar. Deitou-se, dando de mamar, cansada. Quando a dor passa?, pensou. Os médicos diziam que já devia passar, mas os pontos teimavam em doer.

Acordou com passos ligeiros na divisão.

Ups, não queria acordar-te! Conceição embalava o Tomás, sorrindo. Fome? Fiz-te o teu creme favorito. Há sumo e bolachas. Deixa o Tomás com o pai, eu trago tudo. Descansa! Se não te incomodar, fico cá duas semanas até estares bem!

Beatriz olhou para a sogra e chorou.

Vá, deixa lá isso! Conceição sentou-se ao lado. O doutor mandou emoções positivas, não foi? Vê o que temos para ti.

Conceição pôs Tomás no chão, deixou-o apoiar-se nas perninhas e largou-o devagar. As lágrimas de Beatriz secaram; o filho vinha já a gatinhar direito a ela. Pegou-o, aninhou-o, e sorriu à sogra.

Então? Boas emoções?

Muito boas respondeu Beatriz, a rir. Agora vamos comer! Rápido, que quando esse rapaz resolver correr, vais precisar de toda a energia!

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