Manuel guardava para si aquele arrependimento típico de quem divorciou demasiado rápido. Homens sábios fazem das amantes um feriado ele fez da dele uma esposa. Um génio!
O entusiasmo do Manuel da Silva esfumou-se mal estacionou o carro e entrou no prédio. Lá dentro esperava-o o habitual pantufas prontinhas à entrada, cheiro de comida boa a inundar o ar, a casa um brinco de limpa, flores frescas na jarra.
Nem piscou: a mulher em casa, o que haveria de fazer uma senhora de idade o dia inteiro? Bolos de maçã ou couves, meias de lã, essas coisas. Vai na volta exagerei na parte das meias, mas o essencial não muda.
Eis que Maria aparece no corredor, sorriso habitual:
Estás cansado? Fiz uns bolos de couve e de maçã, como gostas
Cala-se, vendo a cara pesada do marido. Estava vestida com umas calças práticas, um casaco caseiro, cabelo metido sob um lenço mania de cozinheira, que sempre foi.
A mania de prender o cabelo ficou-lhe do tempo em que geria a cozinha do restaurante O Veleiro. Os olhos discretamente pintados, brilho nos lábios. Mais uma rotina, que hoje pareceu a Manuel um exagero. Pintar-se aos sessenta, francamente!
Talvez não devesse, mas largou:
Isso de maquilhagem à tua idade é um disparate! Não te fica bem.
Os lábios da Maria torceram-se, ficou calada, mas também não foi pôr a mesa. Melhor assim. Os bolos estavam cobertos por um pano, chá feito ele que se virasse.
Depois do banho e do jantar, Manuel começou a sentir alguma ternura regressar, misturada com os acontecimentos do dia. No seu robe felpudo favorito, afundou-se na poltrona pronta para ele e fingiu ler qualquer coisa. Lembrou-se do que dissera aquela colega nova:
Você é um homem bem interessante… e charmoso.
Manuel já ia nos seus 56 e chefiava o departamento jurídico de uma empresa grande, ali em Lisboa. Embaixo tinha um recém-formado e três senhoras já na casa dos quarenta. Outra colega estava de baixa de maternidade. Para o lugar, entrou a Inês.
Manuel estava em reunião quando ela foi contratada. Só hoje a viu pela primeira vez.
Chamou-a ao gabinete, para se apresentarem. Com ela entrou um cheiro suave de perfume e aquela energia fresca de juventude. Rostinho delicado, cabelos claros, olhos azuis determinados. Lábios carnudos, pinta na bochecha. Ele não lhe dava 30 talvez 25, vá.
Solteira, mãe de um rapazinho de oito. Ele, sem saber porquê, achou: Olha, isto até é bom!
Enquanto conversavam, fez um pouco de charme: Agora vais aturar um chefe velhote… Inês piscou pestanas imensas e retorquiu com aquelas palavras que andavam agora a ecoar-lhe.
A mulher, já mais mansinha do que magoada, apareceu ao pé da poltrona com o seu chá habitual de camomila. Ele franziu o cenho Sempre na hora errada, pensou. Mas bebeu com gosto. E numa dessas, imaginou o que estaria a fazer aquela jovem e bonita Inês. O coração picou-lhe de ciúmes.
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Inês, saída do trabalho, passou no Pingo Doce: queijo, pão, kefir para o jantar. Chegou a casa sem sorriso, neutra. Abraçou o filho Vasco, que veio a correr, mais por hábito do que por ternura.
O pai tratava da bricolage na varanda, a mãe tinha as panelas ao lume. Inês pousou as compras, avisou logo que tinha dor de cabeça e queria descanso. Na verdade, sentia-se era desalentada.
Desde que se separou do pai do Vasco, há anos, que tenta sem sucesso ser a mulher principal de alguém.
Todos os sérios estavam casados e só queriam aventuras rápidas.
O último parecia apaixonado à seria trabalharam juntos, foram dois anos de fogo. Ele até lhe alugou casa própria… digamos, mais para conveniência dele. Mas quando pressentiu problemas, disse logo para terminar tudo, ela que voltasse atrás e se despedisse do emprego.
Arranjou até novo trabalho, do qual ela acabou a regressar à casa dos pais com o filho. A mãe dela dava-lhe consolo, o pai achava que uma criança devia crescer pelo menos com a mãe não só com avós.
Maria, mulher do Manuel, há muito notava que o marido atravessava a crise dos cinquenta. Têm tudo, mas falta qualquer coisa. Maria tentava contornar: cozinhava o que ele gostava, estava sempre arranjada, evitava conversas profundas, mesmo precisando delas.
Distraía-se com o neto, a horta. Mas Manuel andava entediado, cheio de nuvens.
Talvez por esse desejo de mudança dos dois, o romance de Manuel e Inês acendeu num instante. Duas semanas depois de ela começar, ele já a convidava para almoçar e dava boleia até casa.
Ao sair do carro, tocou-lhe na mão. Ela olhou com bochechas coradas.
Não quero que te vás embora… Vamos para a minha casa de campo?, disse ele com voz rouca. Inês acenou e arrancaram.
Às sextas, Manuel largava o trabalho mais cedo, mas só às nove da noite Maria recebeu uma SMS lacónica: Amanhã falamos.
Manuel nem suspeitava da precisão. Maria sabia que é impossível arder em paixão após 32 anos de casamento.
Mas perder o marido, assim de repente, era perder um pedaço de si. Irra, que ele tivesse os seus maus humores que ficasse ali naquela poltrona, a jantar consigo e a respirar ao lado dela.
Maria, à procura de palavras que travassem esta derrocada (da vida dela, sobretudo), ficou acordada até ao amanhecer.
Desesperada, pegou no álbum de casamento, vendo-se jovem, linda, esperançada. Tantos quiseram casar-se com ela! O marido devia recordar isso. Apostava que, vendo aquelas fotos, ele repensava.
Só que Manuel só voltou no domingo. Ela percebeu: terminou. À frente dela estava outro Manuel. Energizado, sem constrangimento ou vergonha. Ele queria mudar, e não hesitava.
A partir daqui, Maria era livre. Ele próprio pediria o divórcio. O filho e família iriam morar com Maria. Tudo dentro da lei… A casa de dois quartos que o filho ocupava era, pelos papéis, herança de Manuel.
A mudança para o T3 da mãe não piorava nada e ao menos Maria teria a quem dedicar carinho. O carro ele ficava, a casa do campo ficava para si.
Maria sentia-se miserável, mas não conseguiu evitar chorar. As lágrimas dificultaram o discurso: pediu-lhe que parasse, que recordasse o passado, pensasse na saúde, nela ao menos… Isso irritou-o. Aproximou-se, sussurrando alto:
Não me arrastes para a tua velhice!
… Seria parvo dizer que Inês amava Manuel, aceitando casar, e logo na primeira noite na casa de campo.
Ser casada atraía-a. Sentia aquele sabor especial de ter vencido o ex que a tinha descartado.
Já estava farta do pai sempre a dar ordens em casa. Queria estabilidade, futuro. Manuel podia oferecer-lhe. Confessava: podia ser muito pior.
Apesar dos sessenta, não era um velhote. Bem-disposto, chefe competente, charmoso e amável. Até na cama elogiava, não só pensava em si. Não haveria mais casas alugadas, stress de dinheiro, nem preces aos santos. Só vantagens? Tinha dúvidas: era mais velho.
Mas ao fim de um ano, Inês começou a acalmar. Sentia-se ainda jovem e ansiava por experiências: praia, concertos, teatro, jantares com amigas.
Pela idade e pelo temperamento, conciliava tudo com o lar, o filho, a rotina. Até Vasco, que vivia com ela, não era impedimento.
Mas Manuel cedia. Estava cansado no fim do dia, apreciava sossego, respeito às suas manias. Recebia amigos, ia ao teatro, mas tudo com conta, peso e medida.
No sexo, não recusava, mas acabava a dormir cedo.
E ainda, tinha o estômago sensível nada de fritos, enchidos, comidas de supermercado. A ex-mulher mimou-o. Por vezes, até tinha saudades dos seus pratos a vapor. Inês cozinhava para o filho, e não entendia como uma costela de porco lhe podia causar azia.
Nem memorizava as milhentas pílulas diárias achava que homem adulto trata disso. Assim, uma parte da vida dela era sem ele.
Começou a sair com o filho, amigas. O velho Manuel só a empurrava a viver ainda mais apressadamente.
Já não trabalhavam juntos a direção achou eticamente estranho, daí Inês ter passado para um escritório de notariado. Até suspirou de alívio, sem o marido a fiscalizar cada dia.
Respeito era esse o sentimento principal. Seria suficiente para a tal felicidade?
Aos 60 de Manuel, ela queria festa grande. Mas ele reservou mesa num restaurante discreto, dos que não mudam nem com os anos. Estava aborrecido, claro. Inês pouco se preocupou.
Os colegas homenagearam o aniversariante. Os casais da era de Maria não eram convidados. A família estava longe. Ao casar com uma jovem, perdeu as antigas simpatias.
O filho desapareceu. Nem queria saber. Mas não será possível decidir sobre a própria vida?! Imaginava que isso ia ser diferente.
O primeiro ano com Inês foi uma lua de mel. Gostava de estar com ela, de a ver feliz, aceitava as compras (moderadas), as amigas, o fitness.
Aguentava concertos barulhentos e filmes tresloucados. Até fez de Inês e do filho donos de casa, e passado pouco tempo, passou-lhe em doação a sua parte da casa de campo, aquela que tinha com Maria.
Inês, pelas costas dele, pediu à Maria para lhe vender a outra metade. Chegou a ameaçar dar a casa a malandros ou vender às partes. Comprou tudo claro, com o dinheiro de Manuel e passou a casa para seu nome. Justificava-se: rio, campo, para a criança era bom. Assim, todo o verão ficavam lá os pais dela com Vasco. Não fazia mal: Manuel não era grande fã do esfuziante filho da mulher. Casou por paixão não para criar filhos alheios e barulhentos.
A família antiga ficou ressentida. Venderam o T3 e cada um foi para seu lado. O filho, com família, arranjou T2; Maria, ex-esposa, mudou-se para um estúdio. Como viviam, Manuel nem perguntava.
Chega o dia dos 60. Muitos desejam-lhe saúde, amor, sorte. Mas ele sentia-se sem energia há anos. Cada ano trazia a velha insatisfação.
Amava Inês, sem dúvida. Mas não a acompanhava. Não conseguia controlá-la vivia à sua maneira, sempre com sorrisos, mas sem concessões. Sentia, irritava-o.
Ah, se pudesse juntar a alma da ex-mulher nela! Para lhe trazer chá de camomila, dar a manta quando adormecesse, passear devagar no jardim. Conversar à noite, mas Inês não aguentava papo longo. E já parecia entediada na cama. Isso deixava-o ansioso, atrapalhado.
Manuel sentia mesmo: talvez tivesse sido precipitado no divórcio. Homens inteligentes fazem das amantes uma festa, ele fez casados!
Inês, com aquela energia, dura uns dez anos como poldra mas aos quarenta ainda será nova, e aí aumentará o fosso entre eles. Se tiver sorte, parte desta para melhor num instante. Senão…
Pensamentos pouco dignos de aniversário martelavam. Procurou Inês com o olhar estava a dançar, linda e brilhante. Era bom acordar ao lado dela, sim.
Mas quando pôde, saiu do restaurante. Quis respirar, arejar as ideias. Só que os colegas vieram atrás. Sentindo o desconforto crescer, apanhou logo um táxi. Siga, rápido. Depois pensaria na direcção.
Queria ir onde fosse importante onde bastasse entrar e alguém já esperasse por ele. Onde o tempo contado junto valesse a pena, sem receio de parecer velho ou cansado.
Telefonou ao filho e, quase suplicando, pediu-lhe a nova morada da ex-mulher. Ouviu umas palavras amargas, mas insistiu: É questão de vida, ou de… coisa.
Deixou escapar que era, afinal, aniversário. O filho acalmou, avisando que a mãe podia não estar sozinha. Não é homem, só amigo, explicou.
A mãe disse que estudaram juntos. Tem um apelido engraçado… parece-me Pãozinho.
Pãozinho? Ah, Pãozito!, corrigiu Manuel, picado pelo ciúme. Sim, era concorrente. A Maria foi muito cortejada. Linda, atrevida.
Ia casar com ele, Manuel desviou tudo. Era há tanto tempo, mas sentia mais recente que a própria vida nova com Inês.
O filho perguntou:
Para que queres isso, pai?
Manuel comoveu-se com o pai e percebeu a falta que todos lhe faziam. Respondeu sinceramente:
Não sei, filho.
O filho deu-lhe a morada. O taxista parou. Manuel saiu, não queria ter testemunhas para a conversa com Maria. Viu as horas quase nove. Mas ela era uma coruja, para ele um misto de cotovia.
Carregou o código do intercomunicador.
Mas quem respondeu não foi Maria era uma voz masculina, um pouco rouca. O homem disse que ela estava ocupada.
Que se passa?! Ela está bem?, perguntou Manuel, ansioso. A voz pediu-lhe para se identificar.
Sou o marido dela, está bem entendido! E você deve ser o tal Pãozito, disparou Manuel.
Senhor, corrigiu o outro, tu és ex-marido, não tens direito de a importunar. Não explicou que ela estava no banho.
Pois, a velha paixão nunca enferruja?, picou Manuel, pronto para guerra verbal com Pãozito. Mas este respondeu seco:
Não, só fica prateada.
A porta nunca se abriu…







