Massa Silenciosa

Massa Silenciosa

Leonor, tu percebes mesmo quem vem cá no sábado? Francisco ficou parado à porta da cozinha, a olhar para ela como se ela tivesse feito de novo alguma coisa errada. Só olhava.

Leonor estava a transferir a massa para a banca. As mãos cobertas de farinha até aos cotovelos.

Sei sim. Os teus colegas e as esposas. Já disseste isso três vezes.

Disse-te que não são só colegas. É o Dr. Moreira e a mulher. Ele é sócio na empresa. E o doutor Cardoso. Sabes quem é o Cardoso?

Francisco, estou a cozinhar. Fala-me disso depois.

Ele entrou mesmo na cozinha, coisa rara. Normalmente passava o mínimo possível por ali. Aquela gente que vai entrando e saindo, os aromas, os panos sempre húmidos pendurados nos ganchos, tudo isso o irritava.

Não é depois. Quero que percebas já. Essas pessoas passam férias em Paris. As mulheres compram roupa nas lojas do Chiado e dos estilistas de Lisboa. Vão a restaurantes onde nem existem listas em papel.

E queres que faça o quê com isso? Leonor levantou os olhos.

Não tragas os teus bolos. Ordem minha. Pede algo decente, há entregas que vêm em caixas bonitas, como nos restaurantes. Dou-te dinheiro.

Leonor calou-se. Olhou para a massa, depois para ele de novo.

Já preparei.

Leonor.

Francisco, já levantei-me às seis, fui ao mercado, comprei carne. Vai correr bem, não stresses.

Ele abanou a cabeça, como se ela tivesse dito algo ingénuo, infantil.

Não percebes aquelas pessoas disse, saindo.

Ela ficou algum tempo a olhar pela janela. Março lá fora, cinzento, húmido. Um pombo na ramada a olhar para longe. Baixou de novo para a massa, voltou a amassar.

***

Tinha cinquenta e dois anos e vivia com Francisco há vinte e oito. Tinham-se conhecido no Porto, quando ela era contabilista numa empresa de construção e ele acabara de ser promovido a chefe de secção, ainda com aqueles fatos largos que ele herdara do tempo antigo. Ela recordava-o novo, um pouco desajeitado com as mulheres, sempre a mexer no botão do punho quando estava nervoso. Apaixonou-se por isso mesmo, por esse pormenor humano, vivo e desastrado.

Depois vieram mudanças. Para Coimbra, depois Lisboa. Sempre ela a arrumar a casa, a levar o gato, a descobrir lojas, a meter conversa com vizinhos. Francisco subia na carreira e, a cada degrau, algo nele se alterava. Não de rompante, mas de mansinho, como o contorno da falésia que muda a cada ano.

Não tiveram filhos. Primeiro disseram-lhe que sim, depois que talvez, depois não se falou mais. Leonor sofreu em silêncio, e encontrou uma paz possível. Toda a energia que lhe sobrava, ia para a casa. Para a comida, para a horta na varanda, para os gerânios, para os meninos do prédio, a quem dava bolinhos.

Os bolos e as empadas eram a sua linguagem. Não falava disso, mas sabia. Quando faltavam palavras ou elas não chegavam, refugava-se na cozinha. Se estava alegre, era ali que ia. Sentia a massa nos dedos melhor que qualquer receita. Sabia quando estava pronta, pela consistência, pelo calor, pelo modo como ela respondia à sua palma.

Francisco comeu a sua comida durante vinte e oito anos. Sempre em silêncio. Agora é que via que aquele silêncio, afinal, nunca foi consentimento.

***

Na noite de sexta-feira ficou de pé até à meia-noite. Fez empada de carne de vaca e cebola, receita da avó, crosta dourada a estalar e a cheirar o prédio inteiro. Fez pastéis de batata com queijo fresco. Da panela saiu um aspic de cabeça de porco, tinha de ficar no frio até de manhã. Salada com couve em vinagre, cenoura e arandos. No forno, uma perna de porco com alho e alecrim.

Francisco entrou em casa às onze, viu a fartura e não disse nada. Enfiou-se no quarto.

Leonor limpou, pendurou o avental, sentou-se um pouco ao pé da janela. Tomou chá. Amanhã iriam chegar, sentar-se à mesa e ela ia alimentá-los do melhor que sabia fazer no mundo. Parecia-lhe simples.

Deitou-se perto da uma e adormeceu logo.

***

Os convidados chegaram às sete. Seis o Dr. Moreira com a esposa Clara, o Dr. Cardoso com a mulher Isabel, e mais um senhor que Francisco apresentou como Sr. António Ferreira, sem profissão ou apelido, mas com tanto respeito na voz que Leonor percebeu que era o mais importante.

A esposa de Moreira, Clara, parecia ter quarenta e poucos, magra, num vestido preto que devia custar quase o valor da reforma mensal de Leonor. Ao entrar, tudo olhou e imediatamente pôs as coisas, e Leonor, em ordem. Casa, cortinas, móveis, Leonor.

Isabel, a de Cardoso, era mais nova, pintada de loiro, com um perfume doce que Leonor já sentira no corredor. Sorria muito, demasiado, como se alguém a tivesse ligado à corrente à entrada.

António Ferreira era um homem de uns sessenta anos, largo, mãos grandes, olhar atento. Único a apertar a mão a Leonor e dizer:

A dona da casa? Muito gosto.

Leonor levou-os à sala, mesa posta com a toalha de linho com bordado, pratos arrumados, velas no centro. O aspic já no prato com salsa, os pastéis numa travessa, a empada fatiada já, dourada, bem estaladiça.

Todos sentaram. Francisco abriu vinho francês que Moreira trouxera, algo com nome extenso.

Clara olhou para a mesa e disse baixo, mas o suficiente:

Ah, aspic. Não via disso há anos.

Na frase, qualquer coisa que Leonor percebeu, mas não logo. Um cheiro a gás que nos faz ir abrir a janela.

Sirvam-se disse Leonor. Empada, pastéis, perna de porco aqui.

Perna! Isabel trocou olhares com Clara. Meu Deus, não como disso há quinze anos. Tanto colesterol.

Robusto, emendou Clara, rindo. Aquele riso que nos faz olhar para os pés para ver se pisámos algo.

Os homens serviram-se. Moreira pôs aspic no prato, provou, assentiu com a cabeça. Cardoso pegou um bocado da empada. António serviu-se de água e observou, pensativo.

Francisco, cozinhas? perguntou Isabel inclinada.

Não, quem faz é a Leonor respondeu Francisco, num tom de quem explica algo insignificante, mas tolerável.

Leonor, és de família pequena? perguntou Clara, beliscando uma folha de salada. Província?

Do Porto respondeu Leonor.

Pois! exclamou Clara, revelando que resolvera o puzzle. Lá ainda há estas comidas, empadas, aspics. É coisa da terra, não é ofensivo. Os citadinos já deixaram isso. E os médicos já dizem que a gelatina é péssima para as artérias.

Leonor olhou-a nos olhos.

Gelatina, bem feita, é colagénio, disse com calma. Faz bem às articulações.

Isso são dados antigos. Clara acenou a mão. Há três anos que não comemos carne. Só peixe e superalimentos. Francisco, devias experimentar. Temos uma amiga nutricionista brilhante.

Francisco riu, leve, para parecer de dentro do grupo.

A Leonor é conservadora explicou.

A palavra conservadora ficou na mesa como moeda que ninguém apanha.

Depois Isabel disse que a massa era pesada, que a linha já não ia para essas coisas. Clara contou de um restaurante na Avenida, comida molecular, chef vindo de Barcelona. Depois falaram de dinheiro, imóveis, e Leonor notou que estava ali a fazer de cenário a dona da casa, posta para sorrir.

Sorriu. Serviu vinho. Foi buscar pratos, recolheu vazios, perguntou se faltava algo. Ninguém agradeceu.

Perto das nove, Clara apontou para a empada, quase untouched, e disse:

Vou ser franca porque somos todos de casa. Isto é muito… rústico, Leonor. Fica deslocado num certo meio, percebe? É outro patamar.

Houve silêncio. Leonor olhou para o marido.

Francisco olhava o copo.

Enfim, cada um com as suas tradições disse António Ferreira, o único onde se ouviu firmeza.

Mas Francisco logo falou:

Leonor, pedi-te para encomendares comida normal. Voltaste ao teu.

Leonor levantou-se, recolheu pratos, caminhou devagar até à cozinha com o peso nas mãos. Deixou tudo na banca, parou junto à janela. Lá fora, chuva miudinha, candeeiros acesos.

Ouviu-se gargalhada na sala, o som dos copos.

Tirou o avental, pendurou no gancho, logo tirou de novo, dobrou com cuidado e pousou na cadeira.

Voltou à sala.

Com licença. Dói-me a cabeça. Sirvam-se, está tudo à mesa.

Ninguém ligou.

***

Guardou tudo pela uma da manhã, quando já estavam sós. Francisco deitou-se sem uma palavra. Apenas fechou a porta.

Empadou num tabuleiro, tapou com película. Os pastéis no tacho. O aspic em papel vegetal, perna de porco à parte.

Levou tudo à rua, já quase duas. Havia uma obra a terminar junto ao prédio; lá, num contentor improvisado, a luz acesa.

Três homens de colete refletor, chá em termos, um a fumar, dois a aquecer as mãos.

Boa noite disse Leonor. Desculpem a hora, trouxe comida, se quiserem.

Olharam-na como se tivesse caído do céu.

O que traz aí? disse o fumador.

Empada de carne. Pastéis. Perna de porco. O aspic se calhar precisa de frigorífico.

Os homens entreolharam-se.

Ena! Um deles levantou-se. Ajudo a trazer.

Arrumaram tudo na banca. Alguém destapou logo a empada, apanhou um pedaço, e a cara dele iluminou-se de tal forma que Leonor sentiu o calor subir ao peito.

Isto é caseiro disse ele, a mastigar. Meu Deus, caseiro.

A minha mãe fazia assim disse outro, a pegar num pastel. Iguais.

É daí? perguntou o terceiro, apontando o prédio. Festa?

Tive gente cá, não comeram.

Que pena. Que boa comida.

Eu sei disse ela.

Ficou uns minutos a vê-los comer de verdade, com gosto, sem cerimónias. Um repetiu.

Obrigado disse alguém.

Obrigada eu respondeu Leonor, voltando para casa.

***

Não dormiu nessa noite. Deitada no sofá da sala, a olhar o tecto. No quarto reinava silêncio, Francisco, portanto, dormia bem.

Pensava que vinte e oito anos era muita vida. Quase a vida toda adulta. E pensava naquele ao teu que o marido dissera. Não está mal ou discordo. Ao teu. Como se ter um modo próprio fosse vergonha.

Pensou nos trabalhadores que comeram em silêncio, agradecidos. Que disseram boa comida como se disso dependesse o mundo.

Pensou que naquela casa não havia lugar para si. Para ela mesma, não. Para aquela que mete as mãos na massa, vai ao mercado às seis, segue a receita da avó, fala em forno baixo e massa tenra. Esse espaço estava ocupado há muito.

Por outras coisas.

Por volta das quatro da manhã tomou uma decisão. Sem dramas, como quem decide marcar consulta que tem adiado anos.

***

Escreveu um bilhete, letra grande, limpa, sempre cuidadosa.

Francisco. Vou-me embora. Não é por mágoa. É porque, finalmente, entendi. Obrigada por tudo. As chaves ficam na mesa. Leonor.

Largou as duas chaves, a da porta e a da caixa do correio.

Enfiou numa mochila só o essencial: documentos, muda de roupa, telemóvel, carregador, dinheiro da conta. Não levou comida, e isso pareceu-lhe simbólico: saía sem o seu alimento, deixava ali uma parte dela, ia leve ver o que seria a seguir.

Eram cinco da manhã. O sol a querer romper, o chão húmido a brilhar nos candeeiros. Apanhou um táxi, pediu para ir a casa da amiga Rosa, do outro lado da cidade.

Rosa abriu a porta de robe, meia despenteada, e não perguntou nada. Só se afastou:

Pões água para o chá?

Põe.

Beberam chá quase em silêncio, na cozinha de Rosa. Rosa olhava-a com perguntas, mas sem pressionar. Era dessas amigas, raras, que sabem calar ao nosso lado.

Foste embora? perguntou por fim.

Fui.

Definitivamente?

Leonor pensou.

Mesmo.

Rosa assentiu. Serviu mais chá.

***

As primeiras semanas foram estranhas. Francisco ligava. Primeiro breve: “Onde estás, volta.” Depois mais longos: “Podemos conversar.” Depois: “Percebes o que estás a fazer?”. Depois calou-se.

Leonor ficou em casa da Rosa. Dormiam parede com parede, tomavam pequeno-almoço juntas, às vezes via televisão à noite. Rosa não aconselhava. Por isso Leonor lhe agradecia mais.

Na terceira semana, Leonor começou a tratar de assuntos. Ela sabia de papéis, a contabilidade nunca lhe saía do sangue. Tratou do divórcio sem pressas nem dramas. A casa era dos dois, Francisco sugeriu dar-lhe a parte em dinheiro. Ela aceitou. Não queria juízos nem discussões.

O dinheiro entrou na conta. Olhou para os dígitos e pensou: vinte e oito anos. Que se diga? Muito? Pouco? Só sabia que dava para o tempo necessário.

Procurou emprego depois de um mês. Sentia que precisava de respirar. Andava a passear por Lisboa, a entrar em cafés pequenos, a ver pessoas. Tinha cinquenta e dois anos e, pela primeira vez em muito tempo, era ela mesma, seja isso o que for.

Um dia entrou num café de bairro, daqueles com árvores e prédios antigos. Chamava-se À esquina. Nada de decoradores, mesas de madeira, menu a giz, uma televisão a dar novelas sem som. Mas cheirava bem, a pão fresco e café.

Pediu chá e uma queijada de cereja. Veio comercial, não caseira. Sentia-se logo.

Ao balcão, uma senhora de sessenta, rosto redondo e cansado, de avental azul-claro.

Está boa a queijada? perguntou.

Um bocadinho seca, Leonor foi honesta.

A mulher suspirou.

Eu sei. O padeiro foi-se no início do mês. Compramos na padaria ao lado, mas é industrial. Nota-se.

Leonor hesitou.

Está à procura de padeira?

A senhora olhou para ela, atenta.

Sabe fazer?

Sei.

***

Chamava-se D. Teresa. Abrira o café há oito anos, na reforma, incapaz de ficar em casa parada. O café era a vida dela, não dava sempre lucro, mas era de verdade. D. Teresa tomava decisões rápidas, baseando-se na intuição.

Venha amanhã cedo disse . Experimentamos.

Na manhã seguinte, Leonor às sete. Vestiu o avental. A cozinha pequena, mas arrumada, tudo no sítio.

Fez pastéis de batata e cebola, caracóis de canela. Pôs a levedar a massa para tarte de maçã.

D. Teresa entrou às oito e ficou à porta a olhar.

De onde é que vem você? perguntou.

Da vida, Leonor respondeu.

Os primeiros fregueses provaram as empadas às oito e meia. Uma senhora comprou duas, voltou dez minutos depois para mais. Um homem de capacete de obra levou uma dúzia. Um estudante indeciso acabou por levar uma de maçã e uma de batata.

D. Teresa foi fazendo contas ao balcão.

Ao almoço já discutiam condições. Leonor ficava todos os dias das sete às três, excepto domingos. O ordenado era modesto, mas logo D. Teresa disse: Se correr bem, revemos.

Correu.

***

Três meses depois, toda a zona conhecia o café À esquina. Não por anúncios, mas porque se passava palavra. Vai lá, têm uns bolos caseiros que só provando.

Leonor organizou um menu por dias. Segunda: empadas de peixe. Terça: folhados de cogumelos. Quarta: pão de fermentação lenta, e era ver a fila à porta logo cedo. Quinta: crepes com compota e natas, as senhoras adoravam ir conversar. Sexta: empada grande de carne, acabava antes do meio-dia.

Ao fim-de-semana, no seu único descanso, ia ao mercado. Não por obrigação, mas por gosto. Escolhia maçãs a cheirar, falava com as velhotas do queijo, comprava manteiga à mulher do costume.

Agora vivia só. Arrendou um T1 perto do café, modesto, janela para um páteo sossegado, mobília velha mas boa. Pendurou uns cortinados em linho na cozinha. Pôs um vaso de gerânios na janela. Tinha conforto.

Rosa ia lá duas vezes por mês. Tomavam chá. Rosa dizia:

Olhaste-te ao espelho ultimamente? Estás com melhor cara.

Durmo bem respondia Leonor.

Nota-se.

Às vezes lia ao serão, às vezes via cinema, às vezes limitava-se a ouvir, à janela, o baloiçar dos ramos do álamo no pátio. Isso era precioso: poder estar sentada e não precisar de fazer nada por ninguém.

***

Conheceu José Pedro em outubro. Apareceu numa quarta-feira, dia do pão, chegou atrasado, já não havia.

Cheguei tarde? D. Teresa no balcão.

Tarde, confirmou ele, com um sorriso. Amanhã há?

Só às quartas, mas há empadas amanhã.

Ele olhou para o menu, pediu café e pastel de couve. Sentou-se à janela a ler um livro já gasto.

Na semana seguinte, chegou cedo e levou duas broas. Leonor estava a servir ainda.

Agora acertei disse ela.

Ele riu. Tinha o rosto cansado, mas com as rugas boas, das que vêm de viver e pensar.

Para a próxima venho dormir à porta, não arrisco não apanhar.

A D. Teresa não deixa, fecha às oito.

Então acampava.

Foi assim o início. Através do pão, do riso, das pequenas coisas autênticas.

José Pedro tinha cinquenta e oito. Engenheiro num gabinete, vivia na zona, divorciado há sete anos, filhos criados, independentes. Calmo, sem pressas.

Começaram a conversar. Primeiro ao balcão. Depois ficava pelo café, depois deram passeios juntos.

Perguntava sobre o trabalho. A sério, não por cortesia. Ela falava de massas, temperaturas, de pão que dura mais por ser feito com mãe. Ele escutava mesmo, nunca a interrompia.

Um dia disse-lhe:

Disseram-me um dia que isto era antigo. Bolos, aspic, comida de casa.

José Pedro ficou calado.

Depende do que se chama velho. Para mim, velho é fingir. Isso sim.

Ela sorriu.

Boa resposta.

Tento.

***

A vida de uma mulher não segue linhas direitas. Leonor sabia. A felicidade não se mostra inteira num dia, é como poço a encher depois da chuva: devagar, sem darmos por ela, mas real se olharmos depois.

Em março, começaram a sair. Sem pressas, nem explicações. Um dia ele perguntou se queria ir ao cinema. Quis. Depois comeram num restaurante simples, ele pediu sopa e pão.

O pão aqui presta? perguntou ela.

Ele mordeu e pensou.

Nada. Não é do teu. Não era elogio, era factos.

Ela sorriu, ficou consigo.

O café já era outro. D. Teresa alargara o menu, metera pratos do dia. Contratou uma ajudante. Falava com Leonor em pôr mais mesas na rua de verão.

Leonor sonhava com seu próprio café. Pequeno, numa rua calma, cheiro a pão sempre. Era sonho ainda esfumado, mas já era.

Não apressava nada. Aprendera a não ter pressa.

***

Francisco reapareceu no fim de abril.

Viu-o da janela do café. Parado debaixo do letreiro, parecia perdido, envelhecido, olhar incerto.

Entrou.

D. Teresa estava na cozinha, dois clientes espalhados. Leonor ao balcão.

Olá Leonor disse Francisco.

Envelhecera. Ou talvez assim sempre tenha sido, só agora notava. Rugas mais fundas, olhar cansado, perdido.

Olá Francisco.

Descobri por Rosa. Disse-me que trabalhavas aqui.

Trabalho sim.

Ele olhou em volta. Mesas de madeira, menu a giz, as vitrinas de bolos. Um olhar que Leonor não soube decifrar. Talvez pena, talvez surpresa.

Queres café?

Pode ser.

Ela serviu-o. Ele bebeu em silêncio.

Ouvi dizer que isto corre bem.

Corre, sim.

Estás recomendada. Dizem que ninguém faz bolos como tu na zona.

Fico feliz.

Ele pousou a chávena.

Leonor, a minha vida está difícil. A empresa do Moreira está em crise, eu fiquei de fora, a firma mudou. Está complicado.

Leonor olhou para ele. Não sentiu rancor. Só compaixão, distante, como por alguém que se vê cansado num comboio.

Lamento, Francisco.

Quero que voltes para casa.

O café ficou mais calmo.

Podemos recomeçar. Tenho ideias. Penso mudar de cidade, de vida.

Francisco.

Espera. Falo a sério. Devia ter sido diferente. Pensei muito.

Ainda bem.

Ouves-me, não ouves?

Leonor pousou as mãos na banca.

Ouço. Mas diz-me uma coisa: lembras-te daquela noite, quando disseste ao teu à frente de todos?

Ele hesitou.

Lembro.

Não disseste ela tem razão ou a comida está boa. Disseste ao teu. É uma palavra pequena, mas pesa anos.

Ele baixou os olhos.

Estava nervoso. Gente importante, queria que corresse bem…

Importante, repetiu Leonor. Lembro. Mas aqueles trabalhadores lá fora, que comeram a minha empada naquela noite, também eram importantes, só que tu não os conheces.

Ele fitou-a.

Por vezes não te entendo.

Eu sei. E isso é a resposta à tua pergunta.

O cheiro do café misturava-se. Entraram dois fregueses. Leonor virou-se para eles.

Só um instante, e voltou a Francisco. Tenho de trabalhar.

Leonor…

Francisco, não estou zangada. Juro. Mas não volto. Não é por raiva, é porque aqui sinto-me no meu lugar. Pela primeira vez em muito tempo, estou onde devo.

Ele olhou-a mais um pouco. Depois assentiu, devagar, como quem aceita o inevitável.

Pronto disse.

Pegou na gabardina, foi porta fora. Antes de sair, virou-se.

Ficas mesmo melhor disse. E não era tentativa de consertar, era só verdade.

Obrigada.

A porta fechou-se.

***

Serviu os clientes. Um levou pão caseiro. Outro perguntou pela sopa só ao meio-dia, explicou.

Foi à cozinha, tirou água, bebeu um copo de pé. Olhou o relógio. Onze menos um quarto, era hora de amassar para amanhã.

Pegou na farinha. Pesou. Juntou fermento vivo, aquele que guardava e alimentava todos os dias, como algo precioso.

As mãos sabiam o resto.

***

Nessa tarde, José Pedro apareceu por volta das três, fim do turno dela. Às vezes fazia isso, sem avisar.

Como foi o dia? perguntou ele.

Fora do usual.

Contas-me?

Foram passear à rua. Dia luminoso de primavera, sombras compridas das árvores. Caminharam devagar.

O meu ex veio cá.

José Pedro nem parou, continuou ao lado.

E então?

Queria que voltasse.

Disseste que não.

Disse.

Ele ficou calado.

Custou-te?

Leonor pensou.

Menos do que julgava. Por acaso, só senti pena. Ele parecia alguém que caminhou muito e encontrou vazio.

Cabe-lhe a ele ter escolhido assim.

Pois.

José Pedro acenou. Um aceno bom, de quem ouve e respeita.

Sabes, queria-te dizer uma coisa, mas nunca encontrei palavra certa.

Diz.

Não conheço mãos como as tuas. Não é só pelo pão, é por tudo. Entendes?

Ela olhou de lado.

Acho que sim.

Queria só que soubesses.

Seguiram, passaram bancos com reformados, crianças a brincar, céu alto e azul-claro, nuvens distantes.

José Pedro?

Diz.

Aprendi este ano que esperei muito ser reconhecida, alguém que dissesse está bem, fizeste bem. Depois deixei de esperar. Ficou mais fácil.

Primeiro que tudo, tens de saber que vales tu mesma.

Exacto. Só fui perceber tarde.

Nunca é tarde. Alguns nunca percebem.

Leonor sorriu, para si.

***

O café, no verão, era casa cheia. Puseram mesas na esplanada e não chegavam. D. Teresa negociava alugar o espaço ao lado. Ofereceu uma parte a Leonor.

Leonor pensou pouco. Aceitou.

Foi aí que percebeu a lição, não de livro, mas tirada à mão: nunca temas aquilo que fazes bem. Não escondas, não peças desculpa. Procura o sítio onde o teu dom faz falta, e fica.

E ficou.

***

Certa noite de junho, já de janelas abertas, sentada na cozinha, escrevia no bloco. Não era diário, só pensamentos, às vezes receitas, outras memórias. Fazia sempre assim.

Cá fora dançavam ramos de álamo. Gerânios floridos na janela. No frigorífico, a massa-mãe à espera da alvorada.

Escreveu: Estranho é que a vida começa sempre quando achamos que terminou.

Riscou.

Escreveu: A empada sai boa quando se tem tempo.

Sorriu, fechou o bloco.

***

Rosa ligou domingo de manhã.

Estás bem?

Durmo até às oito.

Olha, até às oito! Fico feliz.

Vem cá. Fiz empada.

De quê?

Maçã com canela.

Vou já disse Rosa e desligou.

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