Massa Silenciosa: O Segredo da Tradição Portuguesa

Massa Silenciosa

Olívia, tens mesmo noção de quem vem cá no sábado? Miguel estava à porta da cozinha, a olhar para mim como se tivesse feito asneira outra vez. Só olhava, sem mexer uma palha.

Acabara de colocar a massa em cima da bancada. As minhas mãos estavam cobertas de farinha até aos cotovelos.

Tenho, sim. Os teus colegas e respectivas esposas. Disseste-me isso três vezes já.

Não são só colegas. O doutor Barbosa e a esposa. Ele é sócio na empresa. E o Lourenço. Sabes ao menos quem é o Lourenço?

Miguel, estou ocupada. Falamos depois.

Entrou finalmente na cozinha, mesmo não gostando de lá passar muito tempo. A cozinha incomodava-o por aquela azáfama diária, os aromas, tachos ao lume, panos húmidos pendurados nos ganchos.

Não é depois. Quero que percebas já. Essas pessoas vão de férias para o estrangeiro todos os anos. As mulheres vestem-se em lojas de estilistas. Vão a restaurantes onde nem sequer há menu em papel.

E o que é que queres que faça com isso? levantei os olhos para ele.

Não quero os teus bolos. Isso mesmo. Encomenda alguma coisa de jeito. Há serviços de entregas, entregam tudo como num restaurante, tudo em caixas bonitas. Eu dou-te dinheiro.

Fiquei calada. Olhei para a massa, depois para Miguel.

Já amassei.

Olívia…

Miguel, já fiz a massa. Levantei-me às seis. Vou ao mercado buscar carne. Vai tudo correr bem, não te preocupes.

Ele abanou a cabeça com aquele ar de quem pensa que acabei de dizer algo ingénuo. Infantil.

Tu não percebes estas pessoas disse, saindo da cozinha.

Fiquei ali à janela uns segundos. Do lado de fora, março mostrava-se cinzento e chuvoso. Um pombo pousado no parapeito olhava o vazio. Baixei os olhos para a massa e continuei a amassar.

***

Tinha cinquenta e dois anos. Vivia com o Miguel há vinte e oito. Conhecemo-nos em Braga, quando ainda trabalhava como contabilista numa pequena construtora e ele, recém-promovido a chefe de departamento, ainda usava fatos largos que tinham sido do pai. Lembro-me de como ele era, novo, um pouco desajeitado com as mulheres, sempre a mexer no botão do punho da camisa quando se sentia nervoso. Apaixonei-me precisamente por esse lado dele, tão humano e vivo na sua hesitação.

Depois, vieram as mudanças de cidade. Primeiro para o Porto, depois para Lisboa. A cada vez, arrumava malas, levava a nossa gata, procurava novos mercados, centros de saúde, conhecia vizinhos do zero. Miguel subia na carreira e algo nele mudava a cada degrau. Não foi de repente, mas como as margens de um rio vistas com o tempo mudam enfim.

Filhos não tivémos. Não aconteceu. Ora os médicos diziam uma coisa, ora outra, até que deixámos de falar disso. Sofri em silêncio, por dentro, até encontrar uma certa paz. Pus toda a energia maternal que não era possível ali na casa: a cozinhar, a cuidar do jardim da aldeia, nas flores do parapeito, nos filhos dos vizinhos, a quem às vezes dava pão-de-ló.

Os bolos, as tartes, eram a minha língua. Eu sabia isso, sem nunca o ter dito desse modo. Quando as palavras não bastavam ou não serviam, ia para a cozinha. Quando estava feliz, era também para lá que ia. Conhecia a massa pelas mãos sabia quando estava perfeita pelos sinais: pela elasticidade, pelo calor, por como se comportava entre as palmas.

Miguel comeu a minha comida vinte e oito anos. Comia e não dizia nada. Achava eu que era consentimento. Agora percebia que era silêncio.

***

Na véspera do jantar, estive de pé até à meia-noite. Fiz empada de vitela e cebola, receita da minha avó aquela que ficava dourada, a cheirar ao prédio todo. Modelei rissóis de batata e requeijão. Preparei gelatina de porco, precisava de ficar firme para o dia seguinte. Fiz salada de couve portuguesa fermentada, cenoura e arandos. Na fornalha, deixei a perna de porco a assar com alho e alecrim.

Miguel chegou às onze, viu a azáfama, não disse nada e foi para o quarto.

Arrumei tudo, tirei o avental e sentei-me um pouco no banco à janela. Tomei chá. No dia seguinte encheria a mesa com o melhor que sabia fazer no mundo. Parecia-me simples. E certo.

Fui para a cama quase à uma, dormi logo.

***

Os convidados chegaram às sete. Eram seis: o doutor Barbosa e a esposa Regina, o Lourenço e a esposa Sílvia, e mais um homem que Miguel apresentou como António Gonçalves, sem dizer o que fazia mas com um respeito na voz que me fez perceber a sua importância no grupo.

Regina era uma mulher magra, cerca de quarenta e cinco anos, num vestido preto que valeria quase a minha reforma mensal. Entrou, mediu o ambiente com um olhar só, e de imediato catalogou tudo: casa, mobília, cortinados, eu.

Sílvia era mais nova, loira, sobrancelha fina e perfume forte que já sentia no hall. Sorria demasiado e demasiado cedo, como se ligassem um botão ao entrar.

António era homem corpulento, sessenta anos talvez, mãos grandes e olhos atentos. Foi o único que me cumprimentou com um aperto de mão:

A dona da casa? Muito prazer.

Levei-os à sala, a mesa já posta. Tirei a toalha de linho, engomada, com bordados. Coloquei velas, talheres, tudo como a minha mãe me ensinou. Gelatina com salsa no prato de faiança, rissóis empilhados, a empada recortada e colocada na tábua, dourada, apetecível.

Sentaram-se todos. Miguel abriu uma garrafa de vinho do Dão que o Barbosa trouxe. Serviu.

Regina olhou para o que estava na mesa e comentou, baixa mas audível:

Oh, gelatina de porco. Há anos que não via disto.

Nas palavras dela vinha qualquer coisa parecida com o cheiro a gás: sente-se o perigo mas o corpo demora a reagir.

Sirvam-se convidei empada de carne, rissóis, perna assada.

Perna! Sílvia trocou olhares com Regina. Já não como perna de porco há uns quinze anos. Tão calórica.

É de conforto corrigiu Regina, rindo de um jeito que faz encolher os ombros.

Os homens puxavam pelas entradas. Barbosa serviu-se de gelatina, provou, acenou com a cabeça sem palavra. Lourenço pegou na empada, António serviu água e ficou a olhar para a mesa em silêncio pensativo.

Miguel, tu não cozinhas, pois não? perguntou Sílvia a sorrir.

Não, é a Olívia quem faz estas coisas respondeu ele, num tom que parecia quase resignado.

Olívia, tu cresceste numa família pequena? Regina picava uma folha de salada De fora de Lisboa?

De Braga esclareci.

Pois! acenou como quem resolve um quebra-cabeças. Lá ainda se guarda isto tudo: comida tradicional, bolos, gelatinas. É rural, basicamente. Não é crítica. Só que nas cidades as pessoas já puseram isso de lado. Até os médicos dizem que gelatina faz mal às artérias.

Encarei-a.

Gelatina, bem feita, é colagénio, faz bem às articulações.

Dados antigos, Olívia despachou Regina. Nós não tocamos em carne há três anos. Só peixe e superalimentos. Miguel, tens que experimentar. O nosso nutricionista é uma referência.

Miguel riu-se, fácil, aquele riso de quem não sabe o que dizer mas quer pertencer.

A Olívia é conservadora decretou.

A palavra ficou a soar como moeda lançada à mesa. Pesada, não apanhada.

Sílvia comentou que a massa da empada era densa demais e que já se preocupava com o peso “nesta idade”. Regina descreveu um restaurante onde servem cozinha molecular, o chef estudou em Barcelona. Passaram a falar de dinheiro e imóveis. Percebi que era decoração. A dona de casa que serve e sorri.

Sorri. Servi vinho. Troquei pratos. Perguntei o que faltava. Ninguém agradeceu.

Quase às nove, Regina olhou novamente para a empada, ainda intacta, e disse:

Vou ser franca. Esta comida é tão… provinciana. Sem ofensa, Olívia. Só que com este tipo de reunião, não encaixa, percebe? É outro nível.

Fez-se silêncio. Olhei para Miguel.

Miguel olhava para o copo.

Enfim, cada um com as suas tradições disse enfim António Gonçalves, com uma firmeza que calou Regina.

Mas Miguel já disparava:

Olívia, pedi que encomendasses comida normal. Lá está, voltaste ao teu modo.

Levantei-me, recolhi alguns pratos e fui à cozinha. Andei devagar, pesava-me tudo aquilo. Lavei pratos, encostei à janela, lá fora os candeeiros iluminavam a rua, chovia miudinho.

Ouvi risos na sala. Vidros tilintando.

Tirei o avental, pendurei-o. Voltei atrás, dobrei-o e coloquei-o em cima da cadeira.

Voltei à sala.

Peço desculpa, a cabeça dói-me. Sirvam-se à vontade avisei.

Ninguém se importou.

***

Arrumei tudo por volta da uma da madrugada, quando já todos tinham saído. Miguel foi dormir sem uma palavra. Só se fechou no quarto.

Enfiei a empada numa caixa, envolvi com película. Rissóis para uma panela. Gelatina ficou embrulhada em papel manteiga. A perna de porco foi guardada à parte.

Desci à rua às duas menos um quarto. Felizmente, o prédio ficava ao lado de outro em obras; nos contentores a luz ainda estava acesa.

Lá, três homens das obras bebiam chá de garrafa térmica. Um fumava, dois aqueciam as mãos nas canecas.

Boa noite cumprimentei. Desculpem ser tarde. Trouxe comida, se quiserem.

Fitaram-me como se fosse vinda do nada.

Trouxe o quê? perguntou o do cigarro.

Empada de carne. Rissóis. Perna de porco. Gelatina mas essa precisa de frio.

Trocaram olhares.

Ora venha daí disse um, levantando-se. Ajudamos a carregar.

Puseram tudo na mesa junto ao carro de apoio. Um deles abriu logo a caixa, partiu um pedaço de empada. O rosto dele tornou-se outro, sentei um calor dentro do peito.

Isto é mesmo caseiro elogiou de boca cheia. Deus, que maravilha.

A minha mãe fazia assim disse outro, pegando num rissol. Igualzinho.

Você é do prédio? questionou o terceiro. Houve festa?

Havia jantar, sim. Não comeram.

Que pena. Boa comida.

Eu sei acenei.

Fiquei três minutos. Olhei como comiam. A sério, com prazer, sem etiquetas. Um já pedia reforço.

Obrigado, senhora, de coração.

Obrigada eu respondi. E caminhei para casa.

***

Não dormi essa noite. Fiquei no sofá da sala, a olhar o teto. O quarto estava silencioso; Miguel dormia como se nada fosse.

Pensei que vinte e oito anos é muito tempo. É quase a vida adulta toda. Pensei naquele “lá está, ao teu modo”. Não “estás errada” ou “não concordo”. “Ao teu modo”, como se ter um modo próprio já fosse vergonha.

Pensei nos operários, a comer em silêncio, agradecidos. Que disseram “boa comida” da forma mais honesta possível.

Pensei que não era bem-vinda naquela casa. Não eu a pessoa. A mim com todas as minhas manhãs de feira, com a receita da avó, com o meu idioma de forno. Ali já não havia espaço para isso.

Esse espaço já pertencia a outras coisas.

Às quatro da manhã, tomei uma decisão. Silenciosa, calma, como quem vai ao médico depois de adiar: chegou a hora.

***

Escrevi um bilhete num papel do caderno. Letra grande, direita, como sempre tentei escrever para se perceber.

“Miguel. Vou-me embora. Não porque esteja ofendida. Só porque entendi. Obrigada por tudo. As chaves estão na mesinha. Olívia.”

Deixei as chaves ali. Ambas, da porta e do correio.

Peguei numa mala pequena: documentos, uma muda de roupa, telemóvel, carregador, dinheiro do cartão. Não levei comida, e isso pareceu-me simbólico: saía sem nada meu da cozinha. Como quem deixa parte para trás e vai ver o que acontece se andar leve.

Na rua eram cinco da manhã. Já amanhecia, a chuva tinha parado, o chão brilhava à luz dos candeeiros solitários. Chamei um táxi e pedi para me deixar em casa da minha amiga Teresa, do outro lado da cidade.

Teresa abriu a porta de robe, despenteada, nem perguntas fez. Só se chegou para o lado, deixando-me entrar.

Faço chá?

Faz, sim.

Sentámo-nos na cozinha dela, quase em silêncio. Só de vez em quando ela me olhava interrogativa, mas nunca apressou nada. Teresa era dessas amigas antigas, boas no silêncio.

Foste embora? perguntou finalmente.

Fui.

Para sempre?

Pensei por um instante.

Para sempre.

Ela acenou. Serviu mais chá.

***

As primeiras semanas foram estranhas. Miguel telefonava. Primeiro seco: “Onde estás, volta”. Depois, mais comprido: “Podemos falar?” Depois: “Sabes o que estás a fazer?” Até deixar de ligar.

Fiquei com Teresa. Dormíamos paredes meias, tomávamos pequeno-almoço juntas, às vezes víamos novelas à noite. Teresa não dava conselhos. Agradecia-lhe muito por isso.

Na terceira semana, comecei a tratar de papéis. Sendo contabilista, tratei do divórcio sozinha, sem dramas. O apartamento era adquirido em conjunto, Miguel propôs pagar-me a minha parte. Aceitei. Não queria tribunal.

O dinheiro entrou na conta. Olhava para os números: vinte e oito anos. Era muito ou pouco? Não sabia. Só sabia que agora dava para me aguentar um tempo.

Comecei a procurar trabalho ao fim de um mês. Precisava respirar primeiro. Passeava pela cidade, entrava em cafetarias pequenas, bebia café, observava as pessoas. Aos cinquenta e dois, sentia-me eu própria pela primeira vez em muito tempo.

Um dia entrei num café de bairro, onde as casas são baixas e as árvores abundam. Dizia Café da Esquina. Nada de design, mesas de madeira, menu escrito a giz, televisão pousada num canto sem som. Cheirava bem a pão e café acabado de fazer.

Pedi chá e uma tarte de cereja. Era de massa de compra, notava-se.

Atrás do balcão estava uma mulher de cara redonda, já com os sessenta, farda azul-claro.

Gostou da tarte? perguntou.

Um pouco seca fui sincera.

Ela suspirou.

Eu sei. O pasteleiro saiu no início do mês. Compramos na padaria ao lado, mas é industrial. Nota-se.

Fiquei calada.

Está à procura de alguém? perguntei.

Ela estudou-me com atenção.

Sabe fazer destes doces?

Sei. Sei, sim.

***

Chamava-se Helena Silva, e tinha aberto o café há oito anos, depois de se reformar e não saber estar quieta em casa. Era o seu projecto, às vezes dava prejuízo, mas era vida. Helena era daquelas pessoas práticas, que acreditam no instinto.

Venha amanhã cedo decidiu. Experimentamos.

No dia seguinte, apareci às sete, vesti o avental, observei a cozinha pequena, mas funcional, tudo no seu lugar.

Fiz pastéis de batata e cebola. Focaccias de canela. Deixei massa a levedar para tarte de maçã.

Helena apareceu às oito, ficou de pé à porta a olhar.

De onde surgiu você? perguntou.

Da vida sorri.

Os primeiros clientes provaram os pastéis às oito e meia. Uma senhora comprou dois, voltou dez minutos depois para levar mais. Um homem de capacete levou um saco de bolos. Um estudante, indeciso entre maçã e batata, levou ambos.

Helena esteve sempre a contar receitas do outro lado do balcão.

Ao almoço, combinámos condições. Aceitei ficar todos os dias das sete às três, menos domingos. O ordenado não era muito, mas Helena disse: “Se correr melhor, subimos”.

E correu.

***

Três meses depois, no bairro já todos conheciam o Café da Esquina. Não por publicidade nem havia mas porque se falava. Daquelas conversas simples: “Há lá bolos como os da avó, vai, experimenta”.

Criei um menu diferente para cada dia. Segunda, empadas de peixe. Terça, folhado de carne. Quarta, pão de fermentação lenta, filas desde as oito. Quinta, panquecas com doce caseiro as senhoras do bairro adoravam passar a manhã ali. Sexta, queijada grande de carne, voava antes do almoço.

Ao domingo, no meu único dia livre, ia ao mercado. Não era porque precisasse era por gosto. Escolhia maçãs, cheirava-as. Conversava com as senhoras do queijo fresco. Comprava manteiga à Dona Rosa, já conhecida pelo nome.

Agora vivia sozinha. Arrendei um T0 perto do café. Simples, janela para um pátio calmo, móveis velhos mas robustos. Pus cortinas de linho na cozinha. No parapeito, um vaso de gerânio. Era acolhedor.

Teresa aparecia duas vezes por mês. Bebíamos chá, e dizia-me:

Estás com ar mais feliz.

Durmo melhor respondia.

Nota-se.

À noite, lia. Via um filme. Sentava-me só a ouvir o barulho do plátano do pátio. Essa paz valia ouro: sentar-me, não fazer nada para ninguém.

***

Vi o senhor António pela primeira vez em outubro. Entrou numa quarta, dia do pão, chegou tarde, já não havia.

Cheguei tarde? Helena riu do balcão.

Chegou ele, animado. Há para amanhã?

Pão, só à quarta. Mas há tartes amanhã.

Olhou o menu. Pediu café e folhado de couve lombarda. Sentou-se à janela. Lia um livro velho e gasto.

Na semana seguinte, veio antes das oito, levou dois pães. Estava eu a sair com o tabuleiro.

Agora sim, a horas disse.

Riu-se. O rosto cansado, olhos marcados de quem viveu muito ou pensou demais.

Se for preciso, venho de véspera e durmo à porta!

Helena não o deixa, fecha às oito.

Então fico nas escadas.

Assim começámos a conversar. Com pão, com risos, com pequenas trivialidades que se tornam verdadeiras.

António tinha cinquenta e oito, engenheiro numa empresa da zona, divorciado há sete. Dois filhos já adultos, viviam noutro lado. Homem tranquilo, sem atropelo.

Fomos falando; primeiro ao balcão, depois ficava para um café, depois, ocasionalmente, saímos juntos a dar uma volta pela avenida.

Perguntava-me pelo trabalho. Não por educação, por genuíno interesse. Eu explicava como sentia a massa, que a temperatura era mais fácil de adivinhar pela mão do que pelo relógio, porque o pão caseiro dura mais.

Um dia, disse-lhe:

Sabe, disseram-me uma vez que tudo isto é provinciano, ultrapassado. Empadas, gelatina, cozinhar em casa.

António ficou calado.

Depende de quem diz antigo. Para mim, velho é fingir. Fingir é que já está fora de moda.

Olhei para ele.

Bem dito.

Esforço-me respondeu.

***

As vidas das mulheres não seguem linha reta. Eu disso sabia bem. A felicidade não chega de rompante, mas devagar, junta-se em gotas como água no poço depois da chuva. Se olharmos com atenção, a propósito, já se fez presença.

Com António, começámos a sair à noite, em março. Sem pressas, sem explicações. Um dia convidou-me para ir ao cinema. Eu quis. Fomos. Depois jantámos na tasca do bairro. Ele pediu sopa e perguntou pelo pão.

O pão é bom aqui? perguntei.

Ele experimentou.

Não. Não é como o teu.

Dito sem elogio, só constatação.

Sorri-lhe, e nada disse. Mas não esqueci.

O café já funcionava de outra forma. Helena aumentou a oferta, introduziu sopa e prato do dia. Contratou ajuda. Falava comigo sobre alargar o espaço, quem sabe pôr mesas fora no verão.

Eu sonhava com um café meu, pequeno, numa rua sossegada, a cheirar a pão todo o dia. Era um sonho vago, como aguarela antes da chuva, mas era real.

Já não tinha pressa. Aprendi a não ter.

***

Miguel apareceu no final de abril.

Vi-o da janela do café. Estava a olhar a montra, distraído, parecia mais velho, ou talvez apenas mais visível ali quem sempre foi: rugas mais vincadas, olhar esquivo de quem perdeu o norte.

Entrou.

Helena estava na copa. Duas mesas ocupadas. Eu atrás do balcão.

Olá, Olívia.

Tinha envelhecido. Aquela força rígida dele dissipara-se. O olhar de quem se perdeu sem admitir.

Olá, Miguel.

Ele olhou para as mesas de madeira, para a ardósia com o menu, para o expositor de bolos. Qualquer coisa passou-lhe na cara dúvida, pena, não sabia.

Queres café?

Sim, pode ser.

Servi-lhe café, pôs a chávena à frente. Bebeu em silêncio.

Ouvi dizer que isto está a correr bem.

Vai correndo.

Toda a gente diz que tens a melhor pastelaria do bairro.

Ainda bem.

Miguel pousou a chávena.

Não estou numa fase fácil. Saí da empresa do Barbosa, a firma está em mudanças. Enfim… Não está fácil.

Olhei para ele. Não senti rancor, nem pena. Era como ver um desconhecido cansado no autocarro compaixão sem laço.

Lamento, Miguel.

Quero que voltes.

O café ficou ainda mais silencioso.

Podíamos tentar outra vez. Tenho ideias. Podíamos mudar de cidade. Recomeçar.

Miguel.

Espera. Falo sério. Sei que errei. Pensei muito naquilo.

Ainda bem que pensaste.

Então ouves-me?

Cruzei as mãos no balcão.

Ouço. Diz-me: lembras-te daquele sábado, quando disseste diante de todos: “Lá estás tu ao teu modo”?

Ficou calado.

Lembro.

Não disseste está certo nem comida boa. Disseste, ao teu modo. Esse lá pesa.

Miguel baixou a cabeça.

Estava nervoso. Era gente importante, queria as coisas…

Gente importante… Lembro-me. Os operários que comeram a minha empada nesse dia à noite de fato-macaco também eram importantes. Só tu é que não os conheces.

Levantou os olhos.

Às vezes não te entendo.

Eu sei. E é disso que se trata.

O barulho da máquina espresso. Entraram dois clientes. Voltei-me para eles.

Dêem-me um minuto, já venho.

Olívia…

Miguel, não estou zangada. Só não volto. Não é por mágoa. É porque, pela primeira vez em muitos anos, sinto-me em casa aqui. Aqui.

Ele olhou mais uns segundos. Depois acenou, lento e triste.

Está bem.

Vestiu o casaco, foi até à porta, hesitou.

Estás com bom ar disse. Não era para agradar, era constatação.

Obrigada.

A porta fechou-se.

***

Atendi dois clientes. Um levou pão e empada. Outro perguntou pela sopa. Expliquei que só havia ao meio-dia.

Fui para a cozinha, servi um copo de água. Olhei as horas; quase onze, altura de preparar massa para amanhã.

Peguei na farinha. Pesei-a, juntei o fermento natural sempre alimentado com carinho.

As mãos já sabiam o caminho.

***

Nessa tarde, António entrou por volta das três, mesmo no fim do meu turno. Às vezes fazia isso, de surpresa.

Dia bom? perguntou.

Diferente respondi.

Contas-me?

Fomos dar uma volta. Manhã luminosa de primavera, sombras longas, caminhamos em silêncio.

O meu ex-marido veio cá.

António não parou, seguiu.

E então?

Queria que voltasse.

Disseste que não.

Disse.

Ficou calado.

Custou?

Pensei.

Não tanto. Deu-me pena, na verdade. Parecia quem chega a um sítio e não encontra nada.

A escolha foi dele.

Eu sei. Mas custa.

António acenou. Foi um aceno bom, dos que dizem: ouço-te, respeito-te.

Sabes, há tempo que queria dizer-te algo mas nunca calhou.

Diz.

Não conheço outra pessoa com as tuas mãos. Não é só pelos bolos. É por outra coisa qualquer. Percebes?

Olhei-lhe de lado.

Acho que sim.

Pronto. Só queria que soubesses.

Continuámos. Entre bancos, miúdos a brincar, velhotas a rir no jardim. O céu alto, azul claro.

António.

Sim.

Aprendi uma coisa este ano. Passei a vida à espera que me dessem valor. Que me dissessem: “Bem, está certo, fizeste bem”. Um dia deixei de esperar. Ficou tudo mais fácil.

Primeiro tens que te avaliar a ti mesma.

Precisamente. Só percebi isso tarde.

Nunca é tarde respondeu ele. Há quem nunca perceba.

Sorri, para dentro.

***

O Café da Esquina florescia com o verão. As mesas ao ar livre estavam sempre cheias nos dias bonitos. Helena negociava alugar o espaço do lado. Propôs-me sociedade. Pedi para pensar.

Pensei pouco. Aceitei.

Uma sabedoria de mulher simples, dessas que se fazem caladas: não sejas tímida sobre o que sabes fazer bem. Não te desculpes. Não escondas. Procura o lugar onde isto faz falta e fica lá.

E eu fiquei.

***

Num serão de junho, com calor, as janelas abertas, sentei-me na cozinha e escrevi no bloco de notas. Não era diário só ideias, receitas misturadas a pensamentos. Sempre foi assim.

O plátano agitava-se na rua. O gerânio florescia. O fermento natural continuava vivo no frasco à espera de amanhã.

Escrevi: “O mais estranho é que o melhor da vida começa quando tudo parece perdido”.

Risquei.

Escrevi de novo: “O bolo só fica bom quando não se apressa”.

Sorri. Fechei o bloco.

***

A Teresa ligou ao domingo de manhã.

Como estás?

Bem. Durmo até às oito.

Até às oito! Que inveja.

Vem cá, tenho tarte no forno.

De quê?

Maçã com canela.

Já estou a caminho, despacha-te!

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