Marido recusou-se a gastar o salário em alimentos e despesas domésticas

Apesar de já estarmos a poupar em tudo cá em casa, ontem a minha esposa anunciou com toda a convicção: Vou começar a juntar dinheiro para comprarmos uma casa para o nosso filho! Senti um aperto no peito. Não fiquei nada satisfeito com o anúncio e preciso desabafar porque, honestamente, há razões de sobra para isso.

Mais de dez anos atrás, vim para Lisboa onde, como operário da construção civil, tinha esperança de conseguir uma vida melhor. Não é trabalho fácil. Antes de nos conhecermos, quase todo o meu ordenado era enviado para a minha mãe, lá em Vila Nova de Gaia. Só guardava uns trocos para mim. Os meus colegas de trabalho insistiam para eu juntar dinheiro para uma casa minha, mas eu queria era ver a minha mãe bem foi sempre o meu maior objetivo. Não era filho único, mas embora também ajudassem, nenhum dos meus irmãos era tão dedicado quanto eu.

Quando casei, fui viver com a minha mulher para o apartamento da mãe e da avó dela, num bairro antigo de Lisboa, onde as paredes já não viam tinta há décadas.

Ao início fui carinhoso, dedicado. Mas com a sogra e a avó dela nunca tive muita proximidade. Achei que com o tempo isso mudava, mas infelizmente mudei, sim, mas para pior. Fui-me apagando, o trabalho era duro, comecei a beber mais, a descarregar frustrações em casa e criticar as condições em que vivíamos. O mais acertado teria sido pedir o divórcio nessa altura, mas a minha mulher insistia que devíamos ter um filho. Eu, enamorado e ingénuo, acreditei que um bebé ia resolver os nossos problemas. Tivemos o nosso filho, o Tomás.

Infelizmente, as coisas só pioraram. Passou a faltar dinheiro a toda a hora. O subsídio de maternidade da minha mulher mal dava para fraldas. Partilhávamos tudo num orçamento comum.

A minha sogra, retirando dum ordenado mínimo, fazia das tripas coração para pagar a luz, água, e até comprava os meus medicamentos caros por causa de uma doença crónica. A avó guardava cada cêntimo da pensão para o funeral, mas no fim ofereceu todas as poupanças para pagarmos o casamento.

Esperava que a minha família do norte mandasse dinheiro para a boda, mas não veio um tostão. Acabámos por fazer uma grande festa com o dinheiro da avó e o meu. Podíamos ter celebrado com muito menos, mas eu insisti numa festa à grande.

Durante sete anos de casamento, sempre ajudei financeiramente a minha mãe. Com o tempo, ela renovou a casa de cima a baixo, comprou eletrodomésticos tudo pago com o meu sacrifício. Na nossa família, quando passámos dificuldades, encontrei por acaso dinheiro que eu próprio tinha separado para enviar à minha mãe. Discutimos muitas vezes por causa disto; sempre prometi não o voltar a fazer.

Quando a minha mãe faleceu, eu e o meu irmão mais velho abdicámos da herança para o irmão mais novo. Foi um gesto nobre, mas não sei se foi sensato. Todo o dinheiro e esforço posto naquela casa ficou para o mais novo, sem que eu pudesse convencer a minha mulher de que devíamos ter ficado com aquilo a que tínhamos direito.

Quando o Tomás nasceu, senti que me transformei noutra pessoa tornei-me azedo, irritadiço, comecei a discutir à toa, até a ser mesquinho com compras essenciais. Discutia com a minha sogra sem razão. Passei a beber demais. Dizer a palavra divórcio está fora de questão para mim; o miúdo ainda é pequeno e a minha mulher está doente, sem garantias de recuperação. Para piorar, há rumores de que pode ser despedida quando acabar a licença, por isso, por mais difícil que seja, sei que ainda precisa de mim.

Ela não perde uma oportunidade para me lembrar que vivemos às minhas custas, mas é um orçamento comum: a reforma da avó, o salário da sogra, o subsídio dela e os meus euros, tudo contado ao cêntimo.

Conversámos muitas vezes sobre a ideia de comprar uma casa para o Tomás, temos esse sonho. Mas é mesmo só um sonho. Não sobra nada ao fim do mês. Agora, o anúncio dela de que devemos guardar um terço do salário para a casa significa viver apertados durante anos, praticamente a passar fome recuso-me. Ela diz que vai ser assim porque é melhor para o nosso filho.

O que suspeito dadas as desavenças e a falta de confiança é que ela quer juntar dinheiro para ela própria. Tenho receio que, mal lhe seja possível, faça as malas e me deixe, sacrificando o essencial do nosso presente. Admiti-lhe esta preocupação. Ela respondeu que também teme que um dia me divorcie e a expulse de casa. Já lhe lancei essa ameaça em desespero, admito, mas não é o que quero. Se ela parar de ser agressiva comigo, nunca lhe faria isso.

Mas até agora nada muda. O ambiente em casa está impossível e todos sofrem com isso. Sinto como se estivesse preso num pesadelo do qual não sei como sair.

O que aprendi desta experiência é que toda a dedicação e sacrifício não valem de nada quando o respeito e o carinho desaparecem a família deveria ser refúgio, não um campo de batalha.

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Marido recusou-se a gastar o salário em alimentos e despesas domésticas