“Marido que há dois anos foi viver com a amante no estrangeiro aparece de surpresa à porta: Diz que quer voltar como se nada tivesse acontecido”

Terça-feira. Mais um daqueles fins de dia já tingidos de outono, com Lisboa lá fora mergulhada numa melancolia cinzenta. Acendi o rádio baixinho, preparei-me para um chá quente e o aroma das maçãs assadas invadiu o ar meu pequeno ritual para espantar as sombras das tardes frias. Era para ser um dia igual a tantos outros. Até que a campainha tocou.

Quando abri a porta, por um segundo acreditei que estava a sonhar. Era ele. A mesma gabardina, o mesmo olhar como se tivesse regressado de uma semana a trabalho, e não de dois anos de vida com outra mulher fora do país.

Olá disse ele, na maior das naturalidades, como se ontem tivéssemos jantado juntos.

Não consegui responder. Olhava para ele em silêncio, a tentar juntar na cabeça a imagem daquele homem que partiu, sem olhar para trás, com este que agora surgia na minha entrada, como quem volta de comprar pão.

Há dois anos atrás, fez a mala numa tarde qualquer. Disse que assim já não dava, que tinha de mudar. E a tal mudança era uma mulher mais jovem, que conheceu numa viagem de trabalho. Partiu para fora deixou para trás a nossa casa, a nossa história. Ao início ainda mandava mensagens secas: sobre a casa, o crédito do apartamento, as contas da EDP. Com o tempo, cada vez menos. Até ao silêncio. Depois de alguns meses, já não esperava aquela notificação no telemóvel. Aprendi a fazer compras só para mim. A adormecer numa cama vazia. A viver sozinha.

Agora, cá estava ele. Sem aviso, sem chamada, sem carta. Só ele e a mala.

Estive a pensar. Sobre tudo começou, com um ar de quem se desculpa pouco. Aquilo… foi um erro. Quero voltar.

Aquilo. Falava de dois anos, como se fossem umas férias más.

Queres voltar para onde? perguntei calma. Para o apartamento, para a mesa da cozinha, para os Natais que não tiveste, para a mulher que deixaste há dois anos?

Ficou calado. Encolheu os ombros, como se tudo se resolvesse assim. Está tudo aqui. A nossa vida.

Foi aí que percebi que, para ele, o tempo tinha parado. Achava mesmo que podia entrar, tirar o casaco, sentar-se à mesa onde, durante dois anos, só estive eu sentada.

Mandei-o entrar. Não por saudade, mas por curiosidade queria escutar como alguém explica um regresso destes. Sentou-se à mesa aquela mesma onde, em tempos, sonhámos viagens, pagámos contas, rimos de disparates. Olhou em volta e viu mudanças: cortinas novas, livros que comprei quando voltei a ler à noite, fotografias de viagens feita com amigas.

Vejo que te arranjaste bem disse.

Sim respondi. Tive de o fazer.

Começou então o discurso: que aquela vida não era o que esperava. Que, ao início, até foi bom, mas depois veio a rotina. Conflitos. Diferenças. Que teve saudades. Que percebeu tudo. Que queria voltar a casa.

Ouvi-o. Cada palavra dele soava igual ao tom de sempre, a tentar abafar o que era difícil de admitir. Só que, em dois anos, esta casa mudou. Eu mudei.

Em dois anos não escreveste uma carta. Não vieste no Natal, nem sequer perguntaste como estava disse eu, tranquila. E agora voltas assim?

Sim repetiu. Porque te amo.

A palavra amo ouviu-se estranha. Como se o tempo a tivesse confundido.

Ficou sentado à minha frente, no mesmo lugar onde antes sonhávamos juntos. Agora via-o a procurar algo que já cá não estava este espaço já não era dele. Aqueles olhos a tentarem pertencer a uma casa que já seguiu em frente.

Sabes, eu começou. Aquilo foi diferente do que imaginava. Pensei que ia ser fácil, recomeçar. Mas país novo, língua nova, trabalho complicado Ela tinha a vida dela, eu a minha. Não resultou. Percebi que é aqui que pertenço.

Aqui é o meu lugar, disse, e soou tão ingénuo que até doeu. E quando foi preciso segurar tudo? E nas primeiras festas passadas sozinha, com telefone mudo? E as noites em branco?

Olhei para ele, não como o homem que amei, mas como alguém que se perdeu a meio da frase e agora regressa, achando que ninguém percebeu a ausência.

Durante dois anos desapareceste. Nem uma mensagem no Natal, nem uma chamada nos meus anos. Nem perguntaste. Agora entras e dizes que voltas?

Apertou as mãos na mesa.

Sei que falhei. Mas ainda te amo.

Soou vazio. Como uma chave fora da fechadura.

Não me digas que me amas disse-lhe. Quem ama não some dois anos e não volta como se viesse das férias.

O silêncio foi pesado. Não havia já nada a explicar tudo estava dito nos gestos.

Por fim, levantou-se devagar, foi até à porta, ficou a olhar para mim e para a casa, a tentar gravar tudo na memória.

Vou procurar um quarto para alugar murmurou. Não quero forçar.

Ainda bem respondi. Porque insistir não muda nada.

Foi-se embora sem estrondo. Fechou a porta com cuidado. Ouvi os passos descendo devagar pelas escadas e a cada degrau senti o peso a esvair-se dos meus ombros.

Sentei-me à mesa, o chá arrefecia ao meu lado. O ar parecia mais leve. Não senti nem alegria, nem tristeza só uma calma absoluta.

Levantei-me, abri a janela. Entrou o vento fresco, a espalhar pelo apartamento o perfume doce das maçãs assadas. Olhei para a porta. Finalmente percebi: durante dois anos, mesmo sozinha, inconscientemente segurei este espaço, à espera de algo. Agora sabia não estava mais à espera.

Não chorei. Escolhi. Uma decisão calma, profunda, só minha. Não queria esse regresso. Não por ódio, mas porque deixei de precisar de quem parte acreditando que o lugar estará sempre disponível.

Fechei a porta atrás dele e, pela primeira vez em muito tempo, senti-me inteira por mim mesma. Ainda assim, quando à noite se fez silêncio em casa, uma dúvida teimosa sussurrou-me baixinho: E se me enganei? E se devia tê-lo deixado ficar?Sorri para mim mesma, talvez ainda com um vestígio de receio, como quem assusta as velhas sombras num espelho. Mas a dúvida desvaneceu depressa, sufocada pela paz de finalmente habitar os meus próprios passos. No silêncio que se seguiu, escutei apenas o tilintar suave da colher na chávena, o aroma da canela no ar, e o promissor som de uma cidade que, lá fora, anunciava as promessas de um outono inteiro por desvendar.

Dei um gole no chá já morno, agradecendo por ter aprendido o mais difícil: que há portas que se fecham não para nos aprisionar, mas para garantir que não esquecemos o caminho de volta a nós mesmos. Encostei-me à janela e vi as luzes de Lisboa acenderem, uma a uma tão novas e possíveis como eu. E, dessa vez, soube. Era mesmo o começo.

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“Marido que há dois anos foi viver com a amante no estrangeiro aparece de surpresa à porta: Diz que quer voltar como se nada tivesse acontecido”