Marido levou os amigos para casa sem avisar, então peguei a mala e fui dormir no hotel de luxo com o…

Vá lá, Matilde, não faças disso um drama! Foi só uma ideia dos rapazes virem cá ver o Benfica, não tem mal nenhum! Não nos víamos desde os tempos do liceu. Olha, vai antes cortar uns pepinos e aquela chouriça boa que comprámos para o Natal, sim? Há cerveja fresca, mas não temos nada de jeito para acompanhar gritava o Tomás da sala, abafando o som do relato e as gargalhadas dos três amigos enormes.

Matilde parou no hall, apertando ainda com força as chaves de casa. Tinha acabado de chegar, só sonhava com uma coisa: descalçar os sapatos, que já eram uma tortura depois de nove horas de escritório, tirar a maquilhagem e atirar-se ao sofá com o livro novo. O dia tinha sido penoso. Fecho de contas anual, a chefe a berrar, duas horas presa no trânsito de Lisboa, chuva miudinha a bater nos vidros. Vinha para casa como quem busca abrigo, um porto seguro. E deparou-se com um Cais do Sodré em plena Madrugada do Rock In Rio.

Sentiu logo o cheiro ácido da cerveja barata e peixe seco. No hall, em cima do seu tapete beige preferido, estavam amontoados sapatos nº 45, todos enlameados. Um casaco tresandava de suor e tinha escorregado do cabide para o chão, como um pombinho abatido.

Matilde inspirou fundo, tentando evitar que as mãos se descontrolassem de tanto tremor. Entrou na sala. E aquela cena: Tomás, o marido, estendido na poltrona. No sofá, o Vítor, o Paulo e um desconhecido com barba. Na mesa de centro aquela de vidro que ela limpava religiosamente empilhavam-se garrafas, pacotes de batatas e uma montanha de escamas de peixe por cima de um jornal velho.

Tomás disse Matilde em tom calmo. Tínhamos combinado: nada de visitas às escondidas durante a semana. Estou exausta. Só queria um bocadinho de silêncio.

Tomás fez um gesto vago, sem desviar os olhos do jogo, em que vinte e dois milionários andavam atrás de uma bola.

Lá vem ela outra vez! resmungou. Cansada, dói-me a cabeça, sempre a mesma coisa. Matilde, não sejas uma velha rabugenta. Malta, digam-lhe!

Oh dona da casa, a gente porta-se decentemente! gritou o Vítor, cujo decente era garantia de estrondo de aviões na Portela. Se o Benfica marcar, dançamos! Anda lá, junta-te a nós. Vai uma cervejinha?

Não, obrigada. O que eu queria era que esta sala estivesse vazia e limpa em dez minutos saiu-lhe por fim, a voz a endurecer-se.

Não me faças passar vergonhas explodiu Tomás, voltando-se por fim, a cara vermelha de embaraço. Vai tratar de alguma coisa na cozinha. Faz antes uns croquetes ou frita umas chamuças, que isto faz-nos falta. Não fiques aí a estragar o ambiente!

Matilde olhou para ele como quem vê um estranho. Dez anos de casamento. Dez anos a ser a esposa-exemplo, casa acolhedora, jantares feitos, paciência para as maluquices com o irmão e a mãe dele sempre a dar palpites, as meias largadas em todo lado. Mas hoje algo estalou. Talvez tenha sido a última gota: a montanha de escamas, ou talvez aquele tom autoritário do vai fritar.

Saiu da sala sem responder.

Pronto, amuou ainda ouviu atrás de si. Isto passa-lhe. Daqui a pouco já vem com petiscos. Ela é bem assim, o feitio é só no princípio.

No quarto, o olhar de Matilde recaiu na carteira de Tomás, pousada em cima da cómoda, onde ele despejava sempre tudo moedas, chaves, cartões. Ela sabia que tinha recebido na véspera o subsídio de Natal. Gordo, sardento, destinado ao arranjo da varanda ou, vá, a uns pneus novos para o carro.

Viu o brilho do cartão dourado.

O plano surgiu-lhe de rompante. Ousado, louco, impossível para a Matilde antiga pacata, conformada. Mas aquela Matilde já não existia. No seu lugar estava uma mulher que exigia respeito ou pelo menos uma compensação pelo desgaste emocional.

Pegou no cartão. Depois abriu o roupeiro e tirou uma pequena mala de viagem. Os gestos eram decididos. Roupa interior, o pijama de seda (aquele que Tomás dizia ser frouxo e chato), carregador do telemóvel, creme facial.

Da sala rebentou um berro: GOOOOOLO! Tremeram as paredes. Alguém saltava no sofá.

Matilde vestiu o casaco, calçou-se. Fitou-se no espelho: olhos encovados, lábios cerrados.

Croquetes, era? murmurou ao reflexo. Vais ver os croquetes

Saiu de mansinho. Nem a porta a bater se ouviu o relato abafava tudo.

Na rua chovia e fazia frio, mas Matilde sentia-se quente por dentro. O sangue fervia-lhe de adrenalina. Pediu um táxi no telemóvel. Escolheu Executivo. Não, melhor: Luxo.

Em cinco minutos parou-lhe à porta um Mercedes preto, estofos de pele. O motorista, elegante de fato, saiu para lhe abrir a porta.

Boa noite. Para onde, minha senhora?

Para o Hotel Avenida Palace respondeu. O mais caro de Lisboa, cinco estrelas, mármores e porteiros de luvas brancas. Matilde passava ali a sonhar, mas nunca pensara ficar hóspede.

Excelente escolha anuiu o condutor.

Durante a viagem, o telemóvel começou a vibrar na mala. Era Tomás. Devia ter acabado o intervalo ou ficado com fome. Matilde pôs tudo em silêncio. Que ligue. Que procure. Que pense que foi buscar maionese ao Mini Preço.

O átrio cheirava a perfume caro e flores frescas. Um candelabro lançava reflexos dourados. Matilde aproximou-se do balcão. A recepcionista, sorriso de catálogo.

Boa noite. Tem reserva?

Não Matilde pousou o cartão dourado do marido. Quero um quarto. Suite, se possível. E com vista para o Tejo.

A jovem teclou veloz.

Temos a Suite Real no sexto andar. Pequeno-almoço incluído, spa aberto 24 horas. O preço é de trezentos euros por noite. Avanço com a reserva?

Trezentos euros. Metade do seu ordenado, ou um terço do subsídio do Tomás. O bichinho da poupança também guinchou dentro dela, mas Matilde algemou-o mentalmente.

Avance.

Posso ver o seu cartão de cidadão?

Matilde entregou. O terminal apitou: Pagamento aceite. Imaginou o Tomás no sofá, junto aos tremoços, a receber o SMS: O seu cartão foi debitado em 300,00 EUR no Avenida Palace.

Terá reparado de imediato? Duvidava. O futebol era sagrado.

O porteiro acompanhou-a ao quarto. Quando a porta abriu, Matilde perdeu o fôlego. Não era um quarto, era um reino. Cama king-size, lençóis tão brancos que pareciam de neve, sala com poltronas, casa de banho maior que uma cozinha de Alfama, tudo em mármore, janelas panorâmicas com Lisboa a brilhar lá em baixo.

Sozinha, Matilde tirou primeiro os sapatos, atravessou o tapete felpudo, abriu o minibar. Uma mini de espumante custava tanto como uma grade da cerveja que os caras do Tomás estavam a beber.

Pois, que beba disse ela em voz alta, destapando a garrafa.

Serviu um copo e foi sentar-se. Ligou o telemóvel. Quinze chamadas não atendidas, três mensagens.

Matilde, estás onde?

Foste ao supermercado? Traz maionese!

Matilde, foste aonde? Isto aqui está gente faminta!

Zero preocupação. Só ordens. Matilde deu um gole na bebida gelada, ácida, deliciosa.

Chegou mais uma mensagem.

Matilde, recebi um aviso estranho. Saída de 300. Foste comprar o quê? O cartão sumiu da carteira. Foste tu? Responde, já!

Ah, já reparou. Matilde sorriu e marcou serviço de quartos.

Boa noite. Gostava de pedir jantar no quarto. Sim, já é tarde, mas estou cheia de fome. Uma salada de polvo, posta de bacalhau à lagareiro e leite creme. E uma garrafa de tinto alentejano. Sim, ponham na conta do quarto.

Foi à casa de banho, encheu a banheira de hidromassagem, jogou sais perfumados. O telemóvel disparou nova sirene. Tomás não largava o osso.

Matilde só atendeu já mergulhada na água quente, entre espuma e lavanda.

Tou?

Matilde! Perdeste o juízo?! berrou Tomás. Atrás dele, silêncio. Deviam ter-se apercebido de sarilhos. Onde andas? O que são estes débitos? Três centenas?! Compraste um casaco de peles?

Não, querido respondeu ela, calma, quase doce. Comprei paz de espírito. Estou num hotel.

Num hotel?! Para quê?!

Porque a nossa casa parece uma tasca, cheira a peixe e eu estou cansada. Pedi-te para não trazeres ninguém e ignoraste-me. Disseste para te fazer jantarinho. Mas eu não quero croquetes. Quero calma e um bife.

Estás tola, mulher? Volta já para casa! Esse dinheiro era para a varanda!

A varanda pode esperar. Os meus nervos, não. E olha, ainda vais receber mais um SMS: o jantar deve ficar uns setenta euros. Não te assustes.

Setenta pelo jantar?! És louca? Temos rissóis congelados em casa!

Bom apetite, Tomás. Pede ao Vítor para te fritar. Ou ao Paulo. Eles ajudam-te de certeza.

Matilde, pára com o drama! Volta! Eles já estão de saída!

Sério? E o cheiro? E a louça? Também desaparecem sozinhos? Tenho o quarto pago por mais uma noite. Vou aproveitar. Amanhã faço massagem no spa. Dizem que é ótimo.

Massagem?! Quanto é isso? Matilde, queres arruinar-me?! Volta, limpo tudo!

Fico contente que te tenha nascido vontade de limpar. Treina, que amanhã avalio. Se berrares mais, renovo a noite: o cartão está comigo.

Desligou definitivamente.

Um toque à porta: o jantar. Uma mesinha rolante, toalha imaculada, talheres de prata, salada fresca, bacalhau a fumegar, leite creme queimado na hora. Matilde sentou-se de roupão, contemplando Lisboa luminosa.

Pela primeira vez em anos, sentiu-se mulher não criada, não dona de casa. Mulher. Cara, exigente, até caprichosa. Nem que seja só ela a gostar dela mesma, à custa do orçamento mas sua.

A noite foi um sonho. A cama parecia nuvem. Ninguém ressonava, ninguém puxava o cobertor. Madrugada, acordou com o sol a entrar devagar. Espreguiçou-se com um sorriso. O corpo leve. A mente limpa.

Desceu ao spa. Piscina, banho turco, massagem. A massagista, cheia de força, murmurava: Está durinha, menina. Tem de se poupar mais.

A partir de agora, vou poupar, sim prometeu Matilde, sentindo o peso dos ombros a dissolver-se.

Quando saiu do hotel, já passava das duas da tarde. O telefone encheu-se de mensagens. Dezenas de chamadas perdidas. E, por fim, uma do Tomás: Está tudo limpo. Espero por ti. Vamos conversar.

Encomendou outro táxi (Executivo? Porque não!). De volta a casa.

A chave rodou. Em casa cheirava a lixívia e limão. E um pouco a culpa masculina.

Tomás estava na cozinha, à mesa, muito calado, chá frio à frente. A casa brilhava. Nenhum vestígio do motim da véspera. O tapete fora lavado, o chão lustroso, a loiça seca e arrumada. Até o fogão resplandecia.

Ao vê-la, Tomás levantou-se. Estava desalinhado, olheiras fundas. Dormira mal, sem dúvida.

Chegaste respirou fundo. Bem, Matilde Exageraste. Quase tive um ataque do coração, sabes? Tens noção?

Matilde pousou a mala, tirou o cartão e atirou-o para cima da mesa.

Tenho. Trezentos e oitenta e cinco euros e quarenta. O preço do sossego. E o teu castigo.

Tomás passou as mãos pela cabeça.

Quase quatrocentos euros numa noite Matilde, era metade das obras!

Faz as contas a quanto custa uma empregada, uma cozinheira e uma psicóloga durante dez anos Matilde enfrentou-o de olhos nos olhos. Sempre contaste que eu ia aguentando. Que eu ia calando, limpando, servindo. O meu não nunca valia nada. Ontem mostraste que não queres saber do que sinto. Transformaste a nossa casa numa casa de alterne sem pedir. E ainda querias jantar especial!

Tomás ia protestar, mas assustou-se.

Não foi calhou assim. Eles insistiram

E não tens língua para dizer não? Ou valem mais que a tua mulher? a voz de Matilde era baixa e firme como pedras roladas. Fica sabendo, Tomás: se voltas a repetir, não vou a hotel nenhum. Vou-me embora de vez. E o divórcio vai-te sair muito mais caro do que estes quatrocentos euros.

Tomás calou-se. Fitava o cartão, a esposa e a cozinha imaculada que arranjara à força de esfregona e raiva aos amigos. De repente percebeu: aquela Matilde doméstica partira. Diante dele estava uma mulher renovada, serena, até um pouco perigosa.

Pronto murmurou, cabisbaixo. Exagerei. O Vítor também foi porco já lhe disse que acabou a festa.

Ótimo Matilde levantou-se. Estou cheia de fome. Sobrou coisa para comer ou devoraram tudo?

Tomás endireitou-se.

Eu eu fiz sopa. De pacote só, mas com batata. Queres?

Matilde conteve um sorriso. Sopa de pacote. Um Hércules doméstico.

Quero sim. Serve, por favor.

Comeram em silêncio. Tomás não tirava os olhos dela, como quem espera um trovão escondido atrás de cada colher. Matilde saboreava a sopa, um pouco salgada, e pensava: estes quase quatrocentos euros foram o melhor investimento do nosso casamento. Às vezes para alguém dar valor, tem de o pagar caro literalmente.

À noite, viram um filme (Tomás deixou-a escolher, calados viram Amor Impossível, que ele gozava mas aguentou até ao fim). No meio, chegou-se a ela e agarrou-a.

Matilde

Sim?

Foi assim tão bom no hotel?

Foi. Hidromassagem, vista para o rio, roupão fofinho

Era de ficarmos juntos um dia desses Na nossa boda, talvez? Vamos começar a poupar

Matilde encostou-se ao peito dele.

Vamos, pois. E o cartão, guarda bem. Se me voltar a apetecer um bife caro no meio da noite

Tomás riu, nervoso, e apertou-a com força.

Nem pensar. Aprendo a fazer bifes em casa! Sai mais barato.

Meio ano passou. Agora, visitas só aos fins-de-semana, com aviso, a casa em ordem. Tomás até passou a lavar a loiça. Espantoso o poder de um extrato do banco negativo funciona melhor que todos os sermões.

Matilde abriu uma conta só dela. Chamava «Fundo SOS». Todos os meses poupava um bocado. Só para saber que, aconteça o que acontecer, ali está garantia de um luxo com vista para o Tejo. E só essa certeza aquecia mais que uma manta nas costas.

Se achaste esta história realista e concordas que temos de nos amar e respeitar, partilha o texto, deixa um gosto e conta a tua opinião dá-me mesmo prazer saber das vossas vidas.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Marido levou os amigos para casa sem avisar, então peguei a mala e fui dormir no hotel de luxo com o…