Pronto, Margarida, agora és uma rica herdeira o António recostou-se na cadeira e soltou uma gargalhada tão estrondosa que o notário fez uma cara de quem não estava a gostar. Só te calhou mesmo serrote, plaina velha e martelo. Podes abrir uma oficina, ou então vender isso ao ferro-velho. Se tiveres sorte, ainda ganhas uns trocos.
Ó António, não me faças rir a Ângela tapou a boca com a mão, mas o riso escapava-lhe pelos dedos. Só consigo imaginar-te a carregar aquele baú pela cidade, Margarida. Precisas que te mande uns carregadores? Ou vais conseguir levar esse tesouro sozinha?
As unhas dela brilhavam num rosa exuberante, o cabelo ondulado perfeitamente arranjado, o perfume era tão doce que até cheirava à distância. Encostava-se ao António, mostrando bem de quem era, enquanto Margarida, do outro lado da mesa, estava calada, num velho casaco cinzento, mãos pousadas no colo, a olhar para a chuva de novembro que borrava Lisboa, tornando tudo numa mancha cinzenta.
O notário limpou a garganta e voltou aos papéis.
Segundo o testamento, António Silva fica com a moradia e terreno na zona de Alvalade, bem como os depósitos na conta do falecido. Margarida Rodrigues herda o baú de madeira com ferramentas, uma caderneta de poupança aberta em mil novecentos e oitenta e sete em seu nome, e um envelope selado, que deve ser aberto aqui, na presença de todos.
Envelope? Para quê? António já folheava os documentos, a apontar com o dedo para as linhas. Que brincadeira é essa? O pai estava mesmo a perder o juízo nos últimos tempos, só pode
É vontade do falecido explicou o notário, passando o envelope amarelado, lacrado, a Margarida.
Ângela sussurrou ao ouvido do António e ele riu-se, acenando. Depois falou alto:
Ó António, vendemos logo essa casa, dá para arranjar a nossa no centro e ainda sobra para comprar carro. Ou então mudamo-nos para o Algarve, que agora só se fala em investimentos aí.
Margarida rompeu o lacre, abriu o envelope e tirou a carta. O manuscrito do sogro era grande, desalinhado, as letras dançavam. A primeira frase foi como um murro no estômago, deixou-lhe tudo turvo.
«Margarida, sempre soube tudo. Sobre a Ângela. Sobre como ele te deixou, ainda eu respirava deitado na cama. Sobre como gastaste o último troco nos meus medicamentos, enquanto ele jantava fora com a nova namorada.»
A Margarida trabalhou na padaria do bairro trinta e dois anos. Os últimos quinze foram de cuidar do sogro doente. O marido dizia que não conseguia olhar dói-me o coração mas para a pesca ou jantaradas com os amigos, o coração ia sem problemas.
Margarida trocava lençóis, virava o velho, lia-lhe o jornal quando os olhos já falhavam, contava cêntimos para os remédios. O António só contava dias para a liberdade.
O sogro era reservado e mal-humorado, raramente agradecia. Um mês antes de partir chamou-a: pediu-lhe o baú antigo lá do arrumo. Vasculhou entre ferramentas, encontrou um envelope amarrotado.
Margarida, és boa disse-lhe, com um olhar que pela primeira vez soou suave. Nada como o meu filho. Eu vou arranjar tudo bem, mas não digas nada ao António.
Semanas depois foi à casa o notário, o velho ditou o testamento, Margarida assinou como testemunha, sem perceber ao certo. Três semanas e já não estava entre nós.
O António no funeral não chorou, só acenava aos pêsames. Depois dos comes e bebes desapareceu não aguento estar neste ambiente. Margarida ficou a lavar pratos, arrumar mesas, e a casa vazia tornou-se insuportavelmente silenciosa. Pela primeira vez em quinze anos estava só, sem o constante cuidado e vigilância ao doente.
Duas semanas depois, António arrumou as coisas. Ângela esperava no átrio, toda cheia de estilo, a lembrar anúncio de detergente. Margarida espreitava detrás do cortinado, via o marido pôr as malas no carro, esperando que ele voltasse ou dissesse algo. Mas apenas entrou no volante e partiu. Essa noite a almofada ficou molhada ninguém viu.
Pronto, a casa é minha, as poupanças também António folheava os papéis, satisfeito. O pai fez bem, deixou o que era de direito ao filho. Não te preocupes, Margarida, com sorte ainda há uns escudos na tua caderneta, dá para pão.
Ó António, e quem vai usar essas ferramentas? Ângela ria-se, inclinada para ele. Talvez seja melhor mandar isso para o lixo, quem é que quer esses trastes?
Margarida levantou os olhos da carta, olhou para eles ele relaxado, vitorioso, ela ao lado como um prémio. Voltou ao papel, à escrita trémula do velho.
«Achavas que não ouvia quando choravas na cozinha? Ouvi. As paredes são finas. E eis o que fiz, Margarida. Aquela caderneta em teu nome tem o valor da minha indemnização por acidente de trabalho, era uma quantia boa. Depositei quando vi que vinhas casada com o meu filho, era para testar. Tu passaste, ele não. O dinheiro esteve lá todos estes anos, os juros cresceram. Agora é cinco vezes o valor daquela casa. Ou mais.»
Margarida olhou para o notário. Ele concordou, pegou outro documento.
Margarida Rodrigues, segundo o banco, na caderneta aberta em seu nome, existe um valor que ultrapassa largamente o imóvel atribuído ao António. É capital suficiente para comprar vários apartamentos no centro de Lisboa.
O ambiente ficou tão quieto que se podia ouvir a chuva lá fora. António ficou parado, sorriso a desaparecer. Ângela perdeu o riso, começou a olhar alternadamente ao notário e à Margarida, nos olhos dela já havia susto.
Espera lá, mas quanto é que é? António esticou-se, deixou cair os papéis. Quanto?
Só posso revelar com o consentimento da Margarida, mas digo que é uma quantia significativa, o notário respondeu sério, mas com uma ligeira graça ao canto da boca.
António, deve haver algum erro Ângela agarrou-o, voz fina, quase a chorar. Isso é uma caderneta da Caixa, dos tempos antigos, não pode ter dinheiro nenhum, vamos ver melhor
António ficou branco, depois vermelho, e de novo branco. Olhou para Margarida, com pânico nos olhos. Margarida guardou calmamente a carta no envelope. As mãos já não tremiam.
Pronto, Margarida, és uma rica herdeira repetiu ela baixinho, cada palavra como um golpe.
António saltou da cadeira, rodeou a mesa, tentou tocar-lhe no ombro. O sorriso já era só máscara.
Margarida, somos família, tantos anos juntos, vamos conversar O pai queria que decidíssemos juntos, como sempre, não sou estranho para ti, verdade?
Margarida levantou-se, empurrou a cadeira, tomou os documentos e o envelope. António estava junto, o aroma de colónia antes seguro, agora repulsivo.
Conversar? olhou nos olhos dele, e ele recuou. Como quando saíste da casa pouco depois do funeral? Ou quando te pedi ajuda para levantar o teu pai e foste ter com a Ângela?
Margarida, não vale a pena recordar passado, somos adultos, podemos chegar a acordo, tentou sorrir, manso, quase doce. A casa dá trabalho, precisa de obras, tudo custa dinheiro. Se me ajudares, também te ajudo, não somos inimigos.
Ângela levantou-se de repente, abriu o casaco branco, mostrando a saia curta.
António Silva, estás a falar a sério? virou-se para ele, a voz aguda. Disseste que íamos para o Algarve, que compravas carro, que estava tudo resolvido! Agora, a tua ex leva tudo e nós ficamos com nada?
Ângela, cala-te, deixa-me tratar disto António tentou que ela parasse, mas ela gritava ainda mais.
Não me calo! Esperei meses pela tua separação, contei com os teus planos, e agora vejo que ela tem mais dinheiro que tu! Se calhar voltas para ela!
Margarida abotoou o casaco, atou o lenço, com movimentos lentos e fatais. Olhou para Ângela, e esta ficou calada, sem força.
Vocês riam do meu baú falou Margarida, fria como gelo. Esse baú vale mais que todos os vossos planos. Porque foi montado por quem sabia o que era honra. Vocês nunca vão perceber.
Pegou na mala, acenou ao notário e saiu. Por trás dela, António berrava sobre justiça, anos de vida, honestidade; Ângela gritava por explicações. Margarida atravessou o corredor e fechou a porta. Desceu as escadas, e a cada degrau o peito ficava mais leve.
Na rua, a chuva de novembro caía fria, mas Margarida sentia-se quente por dentro. Chegou à paragem, sentou-se no banco molhado, tirou o envelope da mala, releu a carta devagar, a pensar em cada frase. No fim, letras pequenas, tremidas, uma nota que não viu na sala do notário:
«Vive, Margarida. Mereces. E leva o baú lá no fundo, sob as ferramentas, está uma fotografia minha com a tua avó, jovens. Quero que saibas: eu compreendi quem tu és. A minha Maria era igual. Obrigado por tudo.»
Margarida guardou a carta, a mala, e as lágrimas vieram. Mas eram diferentes sem ser as lágrimas de noite, sozinha, para ninguém ouvir. Era alívio, reconhecimento, libertação. Chorava e sorria ao mesmo tempo; os transeuntes desviavam-se, mas ela não queria saber.
O autocarro chegou dez minutos depois. Margarida sentou-se à janela, olhou para o reflexo no vidro molhado. Casaco cinzento, lenço velho, rosto cansado. Mas os olhos eram outros vivos. Pegou no telemóvel, viu três chamadas não atendidas do António. Carregou, bloqueou o número. Um gesto de dedo, e pronto.
Lá fora passavam prédios cinzentos, ruas molhadas, candeeiros tremidos. Margarida apertou a mala com os papéis ao peito, lembrando o sogro a segurar-lhe a mão antes de morrer. Como apertava os dedos, silencioso, mas nos olhos algo importante. Agora entendia. Ele disse tudo o que queria, à sua maneira.
Saiu na sua paragem, atravessou o pátio, subiu ao terceiro andar. O apartamento recebeu-a com silêncio, mas já era um silêncio que era dela. Margarida tirou o casaco, pôs o fervedor ao lume, sentou-se à janela. Lisboa lá fora seguia o seu rumo, distante e indiferente. Aqui, neste silêncio, começava uma vida nova. Sem António, sem sogro, sem precisar fingir que estava tudo bem.
Amanhã iria ao banco, depois buscar o baú. Ia encontrar lá no fundo a foto do sogro jovem com uma mulher parecida com ela. Talvez percebesse porque ele a escolheu, em oitenta e sete, porque confiou, porque calou-se, mas nunca esqueceu.
Agora, só sentava-se à janela e respirava. Livre. Pela primeira vez em quinze anos.






