Marido de fim de semana
A almôndega repousava bem no centro do prato. Alexandre olhava para ela e sentia o estômago protestar com um silêncio desconfortável.
Leonor, posso fazer um sandes? Só uma fatia de pão, estou cheio de fome.
Alexandre, o jantar é daqui a vinte minutos. Se comeres agora, a comida arrefece e depois ficas sem apetite.
Mas é só um bocado
Não podes esperar vinte minutos? Fiz tudo para estar pronto a horas. As batatas ficam prontas às sete e quinze, o frango às sete e vinte. Se te encheres agora, depois já não comes a sério.
Alexandre suspirou baixinho e sentou-se à mesa. Leonor estava de costas, a arrumar os produtos do supermercado no frigorífico. Cada embalagem no seu lugar certo: leite na segunda prateleira à direita, queijo no compartimento de baixo, iogurtes organizados pela validade, os com data mais próxima à frente.
Posso ao menos servir-me de um chá?
Podes, mas só com uma colher de açúcar.
Leonor, já sou homem crescido.
E estás quase diabético. O teu pai era diabético, o teu avô também. Só uma colher, Alexandre.
Quando ele se levantou para pegar no bule, Leonor antecipou-se, serviu-lhe a chávena, mediu cuidadosamente o açúcar e pousou na sua frente.
Pronto. Bebe.
Alexandre olhou para a chávena. Depois para as costas dela, mais uma vez curvada sobre o frigorífico. Pegou na chávena, bebeu um gole. O chá estava fraco, mal se notava o doce. Não disse nada.
Lá fora, o céu já escurecia. Outubro em Lisboa escurece cedo, ainda mais ali no bairro, onde os prédios se empilhavam como caixas de fósforos. Os candeeiros da rua estavam todos acesos, os carros nos seus sítios habituais. Tudo como sempre.
Tinham ambos cinquenta e tal anos, juntos há trinta. O apartamento era limpo como uma sala de operações, silencioso como uma biblioteca.
***
O sábado começava sempre às oito da manhã, não por obrigação, mas porque era a essa hora que o dia verdadeiramente arrancava. Leonor fazia a lista das tarefas na véspera, com letra miudinha em caderno quadriculado.
Oito horas. Pequeno-almoço.
Oito e meia. Limpeza molhada.
Dez. Ida ao supermercado, primeiro o “Pingo Doce” da Alvalade, depois a drogaria.
Meio-dia. Almoço.
Uma da tarde. Descanso, uma hora.
Duas. Visita à tia Maria.
Cinco. Regresso a casa.
Cinco e meia. Jantar.
Seis e meia. Televisão ou leitura.
Dez. Dormir.
Alexandre sabia a lista de cor. Não era por a ler, mas porque não mudava há quinze anos. Só variava o nome da tia a visitar, às vezes o supermercado.
Esfregava o chão do corredor, empurrando a esfregona contra e desde as paredes, e pensava em pescar. Só pensava. Há quanto tempo não ia à pesca? Há oito anos talvez. Da última vez foi com o Carlitos Montenegro, antigo colega da fábrica, junto à albufeira de Alqueva. Fizeram caldos de peixe junto à água, sentados até ao anoitecer. Carlitos contava piadas, riam tanto que afugentaram as galinhas-dágua do sítio.
Voltou tarde nesse dia, já pelas tantas. Leonor estava acordada.
Sabes as horas?
Sei, Leonor. A conversa alongou-se.
Liguei-te oito vezes. O jantar está no frigorífico, frio. Agora já não é a mesma coisa.
Desculpa.
Nem imaginas como fiquei preocupada.
Desculpa, Leonor.
Nunca mais fora pescar. Não que ela tivesse proibido; simplesmente foi-se adiando, surgiam sempre tarefas, visitas, pequenas reparações até que deixou de sequer sugerir. Mais fácil assim.
Alexandre, tens de torcer bem a esfregona! Não a deixes demasiado seca, senão fica tudo com riscos.
Alexandre torceu como ela ensinara, embora não notasse diferença. Os chãos brilhavam. Leonor enchia-se de orgulho pela casa. Uma vez disse ao telefone, para uma colega: “Em minha casa, podia-se comer do chão”. Alexandre ouviu e pensou que nunca na vida ia querer comer do chão, por melhor que estivesse.
A ida ao supermercado correu como sempre. O almoço, também. A tia Maria encheu-os de empadas de batata, um pouco queimadas por baixo, e Leonor comentou, para todos ouvirem: “Maria, a tua máquina do forno está a aquecer de um lado só”. Alexandre comeu três empadas. Achou-as saborosas, talvez precisamente por estarem meio queimadas.
Regressaram a casa às cinco e vinte. Dez minutos adiantados.
Leonor pousou os sacos, pôs o bule ao lume, tirou do frigorífico um pudim de requeijão, da manhã. Estava cortado em seis fatias perfeitas, todas iguais.
Alexandre sentou-se, olhou para o pudim e sentiu aquela leve ansiedade que vem de saber demasiado bem o que se segue amanhã, depois, daí a um ano.
Comeu, bebeu e foi para junto da televisão.
***
O aspirador avariou à quarta-feira. Parou de aspirar, pronto. Alexandre desmontou-o na mesa da cozinha, viu logo: filtro entupido, a escova partida. Nada complicado. Era engenheiro de manutenção numa fábrica há duas décadas; arranjar um aspirador não o assustava.
Leonor apareceu à porta.
Que fazes?
Estou a reparar. Vê, o filtro está entupido e a escova precisa trocar o encaixe.
Alexandre, chama um técnico. Não é preciso meter mãos nisto.
Eu faço isto num instante, é fácil.
Já arranjaste o ferro duas vezes e cada vez ficou pior. Lembras-te? Uma vez nem sequer ligou, da outra só aquecia de um lado…
Foi diferente. Aqui vejo bem o problema.
Alexandre.
Sou engenheiro.
Da fábrica. Não és técnico de pequenos eletrodomésticos. Se avarias tudo, depois gasta-se mais.
Qualquer coisa moveu-se dentro dele. Apenas um deslizar de pedra antiga, algo calado que, de repente, se ativa. Olhou para o aspirador aberto, para as mãos, para o rosto dela, sereno e firme.
Eu arranjo, Leonor.
Alexandre…
Eu. Arranjo.
Ela ficou surpreendida. Depois apenas levemente irritada. Saiu da cozinha.
Demorou-lhe quase uma hora. O aspirador voltou a funcionar. Mais forte do que nunca, com o filtro limpo. Alexandre arrumou tudo e ligou-o para ouvir o barulho certinho.
Leonor passou de relance, assentiu com a cabeça, sem dizer palavra.
Ele percebeu que tinha ficado à espera de um simples: Bravo.
***
O aviso estava preso a um poste perto do metro: Arranjo de aparelhos antigos, máquinas, cavaletes. Informações nesta morada. Alexandre anotou os dados. O seu gira-discos, um antigo “Emidio”, estava parado há anos. Leonor já sugerira várias vezes deitá-lo fora. Ele dizia sempre “mais tarde” e voltava a arrumá-lo.
O gira-discos era do tempo de solteiro. O pai ajudara a comprar. Ouviu nele discos de José Afonso, Sérgio Godinho. Quando casou, Leonor pôs os discos numa caixa e mandou-os para a arrecadação: Só fazem pó. Às vezes ele ia ver se lá estavam.
O telefone do anúncio não respondia. Decidiu ir ao endereço: um prédio antigo no Bairro Alto, portas de madeira, fachadas lascadas.
Subiu ao terceiro andar. Tocou. Demoraram a abrir. Passos, queda de coisas, um vidro a tilintar. Abriu a porta.
A mulher era da idade dele, de cabelo preso à pressa sob um lenço manchado de tinta. Na cara, um risco de azul.
Olá, veio do anúncio?
Vim, disseram que aqui reparavam…
Entre, entre. Sou a Benedita. Cuidado com o cavalete.
Dentro da casa, Alexandre parou.
Aquilo era um caos criativo, cheio de telas, algumas novas, outras com camadas de pintura, pincéis em copos, bisnagas de tinta pelo chão, jornais pisados. Um gato amarelo dominava o sofá, observando Alexandre com um ar superior.
Cheirava a tinta, linóleo, café, e qualquer coisa mais: vida, talvez.
Desculpe a desarrumação disse Benedita. Estive a pintar de manhã.
Não faz mal respondeu ele, genuinamente.
O que precisa de arranjar?
Um gira-discos Emidio, não roda. Tentei, mas o problema parece ser do motor.
Conheço bem esses modelos. Não será só os contactos sujos?
Não, já vi. Está mais fundo.
Benedita acenou.
Trouxe o aparelho?
Não, queria primeiro saber se poderia tratar.
Eu perco o telemóvel cinquenta vezes por semana! Pode trazer, ve-se. Mas já que está aqui… ajuda-me com o cavalete? Faço-lhe desconto depois.
***
O cavalete estava num canto junto à janela. Era velho, robusto, as pernas bambas. O apoio da tela caía sempre.
Está a ver? Aqui devia ter um parafuso, eu pus um prego mas não presta.
Alexandre agachou-se, observou. Pediu uma chave de fenda. Ela trouxe-lhe três, incerta. Ele ajustou o suporte, improvisou com fita isoladora.
Isto é de desenrascar. Precisas mesmo é de um parafuso M6, qualquer loja de ferragens tem.
M6. Deixa apontar pegou num pincel e rabiscou numa folha jornal: Parafuso M6 com porca!!.
Alexandre riu, sem esperar.
Vais esquecer quando deitares o jornal fora.
Não, não. Vai para o frigorífico. Vá, venha tomar um chá. Ainda tenho empadas de couve de ontem.
Ia dizer que tinha que ir. Que Leonor…
Com todo o gosto, respondeu.
***
Na cozinha de Benedita, pequena, a janela dava para o pátio. Vários vasos de plantas, cada um seu tamanho. As empadas estavam atiradas num prato, umas sobre as outras.
Alexandre provou uma. Era do dia anterior, um pouco húmida, mas estava deliciosamente familiar. Couve, ovo e cebola como fazia a mãe.
Isto está óptimo disse.
A sério? Nunca fui grande cozinheira, foi a minha filha que me ensinou antes de ir para o Porto estudar História da Arte. Ela bem mais responsável do que eu.
Vive cá há muito?
Umas boas duas décadas. Morei com o meu marido, mas divorciámo-nos o ano passado. Fico com o gato, o Zig.
Zig, ao ouvir o nome, ergueu a cabeça e voltou a deitar-se.
Custou-lhe muito?
Ao princípio sim. Depois é como tirar sapatos apertados, só nos apercebemos da ferida quando já passou.
Alexandre olhou lá para fora, para as árvores quase despidas, folhas amarelas teimosamente presas aos ramos.
És engenheiro?
Sou, numa fábrica de componentes.
Gosta do que faz?
É serviço. Mas gostava era de mexer em coisas, a sério. E gostava de pescar.
Pescar? Conte-me.
Ficou surpreso. Normalmente cortavam logo a conversa. Leonor dizia: Pescar o quê? Ficar sentado?
Mas Benedita queria ouvir.
Contou das manhãs com o pai. Do cheiro da água, do silêncio cortado só pelo chapinhar de um peixe. Dos dias no Alqueva com Carlitos. Primeiro crente que tinha apanhado um tronco. Riram-se até às lágrimas.
Quando deu por si, eram quase nove. Tinha que ir.
Preciso de ir.
Obrigada por tudo, Alexandre. Venha sempre.
Saía para o metro a pensar quando fora a última vez que alguém o escutara realmente.
***
Leonor esperava na cozinha. O jantar esfriara, tapado. Pela postura sabia que ia haver conversa longa.
Onde estiveste?
Fui ver sobre o gira-discos. Uma senhora artista precisava de ajuda com um cavalete, atrasei-me.
Não avisaste.
Não pensei que demorasse tanto, Leonor.
Fiquei à tua espera. Fiz almôndegas. Estão secas de tanto aquecer.
Alexandre olhou para o prato, depois para ela.
Desculpa pelas almôndegas.
Não é pelas almôndegas! É por respeito. Combinámos avisar. Isso é consideração.
Tens razão. Não pensei.
Nunca pensas! Compraste queijos errados na semana passada, escrevi meio gordo e trouxeste gordo. Tive que deitar fora.
Ele pendurou a gabardina. Por dentro, sentia-se apertado como uma mola.
Comi lá. Trouxe empadas.
Empadas.
Sim.
Alexandre, foste arranjar um gira-discos e voltas às nove da noite, já jantado. Achas isto normal?
Só conversei com uma senhora, artista, divorciada, da minha idade, precisava de ajuda.
Quem é essa mulher?
Chama-se Benedita, tem cinquenta e quatro anos. Dá aulas de pintura. Ficámos à conversa.
Leonor indignada, arrumou as almôndegas no frigorífico.
Aquece se quiseres. Eu vou deitar-me.
Saiu. Alexandre ficou sozinho a ouvir a chuva contra os vidros. Pensou que a chuva nunca segue horários.
***
Houve outras visitas. Levou o gira-discos, Benedita arranjou através de um amigo. Da próxima vez, Alexandre levou um bolo de cereja, comprado na pastelaria.
Houve um dia que foi só para ver se ela já comprara o parafuso M6. Comprara, mas enganada, era M4. Alexandre riu-se, ela também. Levou ele próprio um M6, prevenido.
Já não contava tudo a Leonor. Limitava-se a dizer vou ali a uma oficina. Talvez ela não quisesse saber mais. Talvez bastasse saber que voltaria para o jantar.
Certa vez, ficou até tarde. Viram juntos álbuns de Cézanne, ela explicou-lhe como aquele pintava a luz. Nunca pensara nisso.
Leonor estava à espera.
As almôndegas…
Leonor, escuta por favor.
O olhar dela tinha agora algo de inquietação. Não irritação, mas inquietação verdadeira.
Alexandre, o que se passa?
Nada se passa. Falo, ajudo, converso… É só isso.
Só conversam.
Só.
Alexandre, estamos juntos há trinta anos. Trinta anos a gerir bem esta casa, a cuidar de ti, do dinheiro, da tua saúde. Trabalho como chefe de contabilidade, faço tudo. Por quê, então, ires a outra casa em vez de ficares aqui?
Não encontrou resposta. Ou encontrou, mas não tinha coragem.
***
Saiu de casa numa sexta-feira à noite. Só levou uma mala: duas camisas, a máquina de barbear, um livro velho.
Para onde vais?
Preciso de estar só. Pensar.
Isto é parvoíce.
Talvez. Mas vou.
Vais ter com ela.
Vou pensar.
Alexandre!
Fechou a mala. Leonor estava ali, de braços cruzados, robe imaculado, ar perdido, sem saber que ferramentas usar.
Telefono-te, disse.
E saiu.
***
Benedita nada perguntou. Quando Alexandre ligou, perguntou se podia ficar uns dias, ela só disse: Claro, o sofá está livre, vem.
Dormiu entre telas. O Zig aparecia durante a noite, enrolando-se aos pés. De manhã, Benedita fazia café na cafeteira, com cardamomo. Sentavam-se na cozinha, ouviam a rádio. Falavam do tempo, do café, do Zig que devorava folhas das plantas.
Leonor telefonava. Primeiro quase de hora a hora, depois menos. Alexandre respondia, ouvia a mesma cadência:
Tomaste os comprimidos hoje?
Tomei, Leonor.
Levaste o casaco quente? Vem aí chuva.
Levei.
Não esqueças da consulta, segunda, às quatro. Está marcada desde janeiro.
Está bem.
Alexandre, não podes simplesmente voltar? Que é que falta aí?
Respirava antes de responder.
Leonor, falamos depois.
Depois, mensagem da amiga dela: Alexandre, está tudo bem? A Leonor não pára de falar nisto. Depois, telefonema do patrão: Alexandre, a Leonor está preocupada. Leonor montava sempre uma operação completa à volta de qualquer crise.
Como estás? perguntou um dia Benedita.
Estranho. E assustado. Mas estranho bom.
É normal.
Dei por mim esta manhã sem saber o que vestir. Vesti a camisa azul-escura porque quis. Não há mais quem escolha por mim, depois de anos.
Era ela quem decidia?
Punha sempre de véspera, para eu não errar.
Benedita ficou calada.
Ela gosta de mim, sei que sim. Mas com ela desapareci. Passei a ser só uma peça do plano.
***
Leonor apareceu no domingo. Descobriu o endereço de alguma maneira. Alexandre abriu a porta e ficaram um instante calados.
Posso entrar?
Claro.
Ela entrou, olhou tudo com aquele jeito crítico botas de Benedita junto à porta, uma gabardina manchada de tinta ao lado, telas visíveis.
Benedita saiu da cozinha. Cumprimentaram-se.
Está tudo bem contigo? perguntou Leonor a Alexandre.
Está.
Andas a tomar os medicamentos?
Leonor…
Só quero saber.
Do lado da cozinha, Alexandre acabara de partir pepino para salada, em pedaços tortos e desiguais Leonor conteve o fôlego ao vê-los. Pepinos deviam ser cortados sem falhas.
Leonor, não devias ter vindo.
Alexandre, dediquei-te a vida toda, a voz dela vacilou. Cuidava de ti, trinta anos. Nunca viste?
Sei.
Então por quê?
Benedita, num tom suave à porta, disse:
Leonor, posso dizer-lhe uma coisa, não como rival, mas como gente de fora?
Fale.
Cuidar de alguém é fazer-lhe sentir leveza, Leonor. Se a pessoa mal consegue respirar ao pé de si, não é bem cuidado. Não deixavas o Alexandre respirar.
Silêncio longo.
Não conhece a nossa vida, murmurou Leonor.
Não conheço, confirmou Benedita.
Alexandre pegou na mão de Leonor. Ela não afastou.
Leonor, vou pedir o divórcio. Decidi. Não porque deixei de gostar, mas porque não consigo mais.
Ela olhou as mãos dadas, depois afastou-as. Agarrou a mala, de costas direitas e postura firme como sempre.
Não te esqueças dos comprimidos. Estão na caixa azul, na gaveta de cima.
A porta fechou-se.
***
O divórcio demorou meio ano. Ele deixou-lhe o apartamento, arrendou um quarto perto do prédio de Benedita. Ironicamente, quase ao lado.
A vida recompôs-se devagar. Nos primeiros meses fazia coisas insólitas. Comprava o pão que lhe apetecia, não o do costume. Jantava às horas que queria. Um dia ficou a ver um filme antigo até à uma da manhã, só porque sim sentiu uma felicidade quase pueril.
Com Benedita não foi tudo imediato. Sabiam que gostavam um do outro, mas não apressaram nada. Era importante. Precisavam que fosse devagar.
Na primavera, foram à pesca.
Alexandre arranjou canas emprestadas, conduziram o velho Renault dela até uma barragem perto de Santarém. Benedita nunca pescara.
Sentaram-se na margem. O dia começou frio, relva molhada. Alexandre esqueceu-se do termo.
Deixei o termo na cozinha. Bolas.
Não faz mal disse Benedita. Olha o nevoeiro sobre a água.
O nevoeiro era branco, plano, suspendia-se leve. O sol nascia lentamente.
Bonito, não? murmurou ela.
Muito.
Apanhou um peixe pequeno. Benedita soltou uma risada ao vê-lo saltitar.
Deixa-o ir, é pequeno!
Soltou.
Voltaram a casa sem peixe, enlameados até aos joelhos depois de ambos escorregarem, divertidos, junto à margem.
O casaco ficou inutilizável de sujidade.
Nada, disse Benedita, mas já viste que manhã!
Alexandre olhou-a mangas sujas, sorriso franco, cabelo rebelde. Sentiu, naquela manhã, que aquilo era vida. Só vida. Lama, nevoeiro cor-de-rosa.
***
Casaram no outono, um ano e meio depois. Um casamento pequeno, amigos antigos, a amiga Irene a fazer de fotógrafa, e Zig a observar tudo do parapeito da janela, com ar real.
Com Benedita, a vida era viva e ligeiramente caótica. Às vezes metade do orçamento ia em tintas, esquecendo o pão. Alexandre desmontava rádios velhos na cozinha. Ela perdia chaves, ele esquecia krans abertos.
Discutiam. Às vezes a sério. Mas nunca faziam listas de erros. Falavam, zangavam-se, calavam, e depois, quem pusesse primeiro a chaleira ao lume, estava a dizer: passou. O outro sentava-se também. E tomavam café.
***
Leonor soube do casamento através da amiga Matilde. Matilde sabia tudo e nunca guardava segredo.
Nos meses a seguir ao divórcio, Leonor sobreviveu em piloto automático. O apartamento mantinha-se limpo, horários cumpridos, o trabalho no escritório continuava.
Mas à noite, a casa parecia muito vasta, demasiado sossegada. Sentava-se na cozinha com duas chávenas na mesa, só depois lembrava-se de retirar uma.
Um dia, a chefe dela, Vera, deteve-a no fim de uma reunião.
Leonor, o que se passa?
Nada.
Já noto há dois meses que há qualquer coisa. Problemas em casa?
O meu marido saiu.
Sabia. Eu também já passei por isso. Ouça: não comece por organizar a casa. Arrume-se primeiro por dentro. Fale com alguém não a uma amiga, a um psicólogo.
Leonor ia responder que não precisava. Calou-se.
***
Encontrou a psicóloga através da internet. Era uma mulher de meia idade, gabinete simples na Graça. Nas primeiras sessões, Leonor quase não falava. Respondia em monossílabos, sentia-se despida. Mas à quarta sessão, a psicóloga perguntou:
Leonor, quando teve medo pela sua vida? Não pelo seu marido por si.
Pensou muito.
No dia em que percebi que ele ia mesmo embora e eu não o podia impedir. Percebi que não controlava.
Porquê tanta necessidade de controlar?
Ficou em silêncio, a olhar a chuva lá fora.
Sempre fui ensinada que, se não controlarmos, tudo desmorona. A minha mãe dizia: Agarra tudo, senão os homens vão-se embora. O meu pai foi. E ela ficou igual.
Silêncio acolhedor, diferente do de casa.
Por fim, percebeu…?
Que se apertamos demais, perdemos na mesma.
Dito isto, sentiu um alívio inesperado.
***
Foi ao Centro Cultural por sugestão de Matilde. Havia uma exposição de aguarelas. Leonor decidiu ir, o domingo estava demasiado pesado em casa.
Gostou da exposição pela transparência das aguarelas.
Estava a olhar um quadro de rio quando um homem apareceu ao lado, um pouco mais velho, olhar sereno.
Repare, sussurrou ele, o autor deixou este canto em branco. Sem cor. Dá profundidade a tudo.
Leonor fixou o recanto.
Não tinha visto.
Pouca gente vê. Sou o André.
Leonor.
Era desajeitado. Ao sair, prendeu o fecho do casaco à porta, não conseguia fechar a correr.
Sem pensar, Leonor ajudou.
Dê cá.
Arranjou o fecho. Ele sorriu, feliz como se tivesse feito muito mais.
Obrigado. Devia comprar outro, odeio lojas.
Ficaram ainda um bocado à porta.
Dou aulas de guitarra nesta casa, venho sempre aos domingos. Apareça quando quiser.
Não prometeu. Na semana seguinte, no entanto, voltou.
***
Com André tudo era inesperado. Viuvo, vivia só, passava a vida a fazer chá, tocar guitarra, às vezes nem sabia em que dia estava. Adorava perder tempo em conversas sobre trivialidades, falava de árvores antigas nos bairros.
Leonor tentou organizá-lo: sugeriu uma agenda, criticou a arrumação do frigorífico, ia mexer nos frascos.
Ele segurou suavemente a mão dela.
Leonor, gosto assim. É a minha cozinha. Não te importes.
Ficou a olhar para ele, para aquela mão que segurava a dela, sem irritação nenhuma.
Desculpa. Mania minha.
Não faz mal. É a minha cozinha.
Ficou-lhe na memória. Reparou depois que, por vezes, as mãos tentavam consertar, arrumar, controlar. E começou a parar.
A psicóloga dissera:
A única coisa que pode controlar é você. E isso tem muito que se lhe diga.
Pensava nisso.
Começou a aventurar-se na doçaria. Uma vez a Matilde sugeriu: Põe canela ao teu gosto. Ficou hesitante; nunca cozinhara a olho. Acabou por polvilhar imensa canela. A tarte tinha sabor forte, mas cheirava tão bem que comeu metade de pé na cozinha, quente.
Estás a aprender a fazer bolos? espantou-se Matilde.
Estou. Nem sempre sai bem, mas diverte-me!
Matilde olhou-a:
Estás diferente, Leonor.
Talvez sim.
Para melhor.
Saiu à rua ainda a sorrir ao acaso.
***
Encontraram-se dois anos depois, por acaso, no jardim da Tapada das Necessidades. Alexandre vinha com Benedita, de mãos dadas, Leonor esperava sentada, livro na mão; André tinha ido buscar café ao quiosque.
Ela viu-o primeiro. Alexandre trazia uma camisa azul-escura já conhecida; Benedita a rir-se, num casaco comprido.
Leonor fechou o livro.
Alexandre parou. Aproximou-se.
Olá, Leonor.
Olá, Alexandre.
Benedita afastou-se um pouco, oferecendo espaço com delicadeza.
Estás bem, disse ele. E dizia mesmo.
Também tu.
Ficaram em silêncio. Outubro era calmo, as folhas douradas cobriam os caminhos.
Como estás? perguntou ela.
Bem. Eu e a Benedita vamos descer pelo Alentejo, sem planos. Ver o que calha.
Para onde?
Não sabemos ainda, disse com um sorriso.
Ela olhou para Benedita, recuando para ver folhas numa árvore.
E tu? quis saber Alexandre.
Bem. Aprendi a fazer bolos. Engraçado, não?
Nada.
Às vezes corre mal. Da última rebentei com o fermento. Mas come-se.
Maravilha.
O André, meu amigo, ela parou, é professor. Muito distraído. Estou a aprender a não corrigir tudo.
Alexandre sorriu.
Isso deve custar-te.
Custa, mas É estimulante.
André regressou, dois cafés e um saco de papel de onde saltava algo doce.
Leonor! Apanhei croissants: um com sementes, outro com canela. Não sabia o que preferias, trouxe ambos!
Leonor riu, descontraída, surpreendendo-se a si própria.
Alexandre observou:
Sorris.
Sorrio respondeu, sincera.
Benedita aproximou-se.
Vamos andando.
Tudo bem, respondeu Leonor. E era mesmo.
Despediram-se sem ressentimentos. Ele acenou, ela sorriu. Benedita fez um gesto afetuoso, caloroso sem ciúme, sem triunfo.
Leonor ficou a olhar enquanto desapareciam na alameda. Ele disse algo, e Benedita riu, agarrando-lhe o braço.
André estendeu-lhe os dois croissants.
Fica com os dois, escolhe tu.
Ela escolheu o croissant de canela. Era morno, esfarelava-se.
O jardim sussurrava o som das folhas. Ao longe, risadas de crianças. As nuvens passavam, sem pressa, pelo céu.
Sentada no banco, comia o croissant quente e pensava: podia ter vivido a vida inteira sem saber o que era amar sem controlar. E nunca teria sabido, se ele não tivesse partido.
André sentou-se ao lado; mexeu no saco, viu que ficara com o de sementes, que até nem gostava.
Queres? perguntou, atrapalhado.
Ela aceitou.
Claro.







