O meu marido, aos 45 anos, esqueceu-se do meu aniversário a 27 de Fevereiro e, nesse mesmo dia, foi pescar com os amigos: durante a ausência dele, preparei uma surpresa que, desta vez, ele nunca mais irá esquecer essa data
O Manuel já passara dos quarenta e cinco anos e, ao aproximar-se dos cinquenta, desenvolveu uma particularidade curiosa. Nunca se esquecia do dia certo para mudar o óleo do carro, dos fins de semana de pesca com os companheiros, ou quando começava a época do robalo. Mas as datas da família parecia que se apagavam da cabeça, como se nunca tivessem existido.
Muitas vezes fui eu quem salvou a situação. Deixava bilhetes na porta do frigorífico, perguntava-lhe com o olhar e, por vezes, dava a dica direta. Mas para os meus 45 anos, eu queria algo diferente. Sem lembretes, sem pedir. Ingenuamente, pensei que vinte e cinco anos de casamento ensinassem alguma coisa.
Naquela sexta-feira, o Manuel andava a correr pela casa, agarrou nas canas e no isco, mochila às costas.
Leonor, viste o meu termo? Os rapazes já estão à espera. Vamos para o Tejo, agora é que eles estão a morder. Só volto no domingo e o telemóvel vai estar sem rede, aviso já.
Deu-me um beijo distraído na bochecha sem sequer olhar.
Não fiques triste. Compra qualquer coisa boa para ti.
A porta fechou-se atrás dele. Cheguei-me ao calendário, onde a data estava bem marcada a vermelho. O meu aniversário. Ele não só se esqueceu, como escolheu este dia para fugir.
Primeiro senti um aperto, um frio por dentro. Depois veio a serenidade. Imaginei um plano para mostrar ao Manuel, homem que coloca as pescarias e os copos com os amigos acima da mulher, o real valor das prioridades. E não hesitei: pus-me logo a tratar do assunto.
Na verdade, tinha a oportunidade em mãos: lá em casa, ele guardava uma quantia avultada, bem escondida no cofre do escritório. Era o pé-de-meia para o tal motor novo do barco. O código, eu sabia-o de cor, porque a sua memória infalível também tinha falhas.
Quase trinta mil euros estavam por lá. Decidi o que fazer.
Estes foram os melhores dias que vivi em muitos anos. Pedi serviço de catering, chamei as minhas amigas mais próximas, enchi a sala de flores, a música alta, gargalhadas, champanhe. No sábado, levei-me a jantar num restaurante bonito com vista para Lisboa, depois fusei ao spa.
E no final, comprei aquele broche de prata que namorava na montra daquela joalharia há tanto tempo, mas que nunca me permiti trazer para casa pelos planos mútuos.
No domingo à noite, a porta abriu-se. O Manuel entrou feliz, balde de peixe na mão.
Então, vê só o que trouxe! Foi uma pesca do outro mundo!
Mas, ao entrar na sala, parou. Garrafas vazias pela mesa, cestos de flores, sacos das lojas mais finas espalhados pelos sofás.
O que se passou aqui? Tiveste visitas?
Tive, sim, respondi tranquila. Foi o meu aniversário. Quarenta e cinco. Lembras-te?
Ele parou, respirou fundo, percebeu o que sucedeu.
Bolas Leonor, esqueci-me mesmo. Andei à nora. Mas sabes como é
Sei, sim cortei. Por isso decidi não ficar triste. Organizei tudo sozinha. E o presente também.
Os olhos dele foram diretos à porta do escritório. O cofre estava aberto. Perdeu a cor e correu lá. Voltou logo, de cara vazia.
O dinheiro? Não está lá nada! Onde é que está o meu pé-de-meia?
Está tudo aqui, e fiz um gesto amplo pela sala.
Gastaste tudo? Isso era para o motor! Dois anos a poupar!
E eu, vinte e cinco a aturar esquecimentos respondi baixinho, mas convicta. Esqueceste-te do meu aniversário. Agora, nunca mais vais esquecer.
Ele deixou-se cair no sofá, sem dizer palavra, alternando o olhar entre o balde de peixe, o cofre vazio e eu. Fácil fazer escândalo não era o dinheiro era dos dois.
Naquela noite, limpou a pescaria em silêncio.
Passaram-se seis meses. Ele agora volta a poupar para o motor, mas hoje tem alarmes no telemóvel a avisar das datas importantes: um mês antes, uma semana antes e no próprio dia. Há lições caras, mas que ficam gravadas a ferro. Esta, já ele não esquece.






