Querido diário,
Hoje, quando cheguei a casa, deparei-me com uma cena insólita: um grande gato ruivo sentado mesmo à entrada da porta. Fiquei parada a observá-lo, tentando perceber de quem seria aquele bichano.
Então, ó bigodes! És de quem? perguntei, como se esperasse uma resposta.
O gato, claro, nem se incomodou em reagir. Continuou perfeitamente imóvel, apenas a orelha rasgada mexeu-se ligeiramente, como quem diz: Ouço-te sim, mas não me apetece responder.
Senti-me ligeiramente ofendida com a indiferença dele e, de rompante, fui à mala à procura das chaves. Curiosamente, o gato encostou-se um bocadinho mais ao tapete, mas não arredou pata. Limitou-se a olhar-me com aqueles seus olhos atentos.
Finalmente encontrei as chaves e comecei a abrir a porta, de olho sempre posto naquele visitante inesperado.
Esta casa pequena, de dois quartos foi o nosso sonho durante tanto tempo, meu e do Miguel. Pode parecer pouco, uma casa num prédio antigo de Lisboa, mas para nós significava tudo. Aquilo que outros achariam modesto, para nós era conquista, liberdade. Passámos anos a viver num quarto da casa do avô, ali em Arroios, e já nos dávamos por sortudos por termos algum recato.
Rita, vê lá se não te desentendes com os vizinhos dizia a minha sogra, Dona Margarida, quando me ajudava a limpar o quarto ainda antes do casamento. São boas pessoas, só têm o azar de gostar demais de vinho tinto.
Então, se são bons, porque é que passam os dias na tasca? resmunguei. Depois torci o pano e afastei o cabelo da cara.
O meu cabelo é o terror das limpezas o Miguel adora-o, mas aqueles caracóis são um tormento, ainda mais quando insisto em domá-los e eles cismam em saltar das ganchas, ficando ao rubro na testa, a dar-me ar de ouriço-cacheiro maluco.
Não é fácil explicar, minha filha. Passaram por tanta coisa má que perderam o controlo da vida. Nem todos conseguem dar a volta dizia a Dona Margarida, com um ar compreensivo.
Compreendo bem o que quer dizer. Cresci em lares de acolhimento. Assim que fiz dezoito anos, a minha família de acolhimento despachou-me. Sei bem o que é depender de alguém e perceber que, para muitos adultos, cuidar é apenas uma obrigação.
Lembro-me bem da última vez que vi a minha mãe. Eu tinha três anos. Ela deixou-me na estação de Santa Apolónia com uma nota no bolso do casaco e um coelho de peluche, o Zézinho, a quem faltava uma orelha. Sentei-me no banco, obediente, à espera que ela voltasse. Espremi o Zézinho contra o peito, cheia de medo e com uma vontade enorme de ir à casa de banho mas sabia que não podia sair do sítio, ou a mãe podia zangar-se.
A minha mãe não voltou. Apareceu um polícia, fardado, que me fez perguntas. Nem coragem tinha para chorar já estava gelada, cheia de fome, sem conseguir perceber o que diziam os adultos. O único momento em que me permiti responder foi quando tocou no Zézinho:
Como se chama o coelho?
Zézinho murmurei. E foi só aí que chorei mesmo, assustando toda a gente à volta.
Muitos anos depois, já a viver com uma família de acolhimento e rodeada de irmãos postiços, aquela mulher apareceu à porta da escola. Abraçou-me apatetadamente e chorou:
Filha, encontrei-te! Dá cá um abraço à tua mãe, estive tanto tempo cheia de saudades!
Por essa altura já eu sabia como funcionava aquela casa onde cresci: não havia fome, nem frio, mas amor era coisa que não constava na lista. Assim que atingíssemos a maioridade, tínhamos que sair para dar lugar a outros. Sabia que não podia confiar na proximidade fingida da mãe biológica. Por mais que, às vezes, desejasse isso com todas as forças.
Afinal, quem é que não sonha com um daqueles abraços verdadeiros de mãe? Mesmo sabendo, lá no fundo, que um brinquedo de peluche não substitui família. Mas quando finalmente ela apareceu, percebi de imediato que aquelas lágrimas não eram para mim. Hidratei as minhas lembranças só para mim.
A minha irmã de acolhimento, Madalena que ao menos partilhava a escola comigo meteu-se pelo meio quando rejeitei o abraço daquela estranha:
Rita, quem é esta?
Não sei disse, incapaz de raciocinar. A cabeça rodava, o mundo parecia dançar à minha volta, e eu só queria fugir dali.
Desculpe, mas enganou-se! Esta é a minha irmã. Não a conhecemos! Madalena agarrou-me pela mão e arrastou-me para casa, ambos a responder de ombros à mãe do lar:
O quê?! E assim, naquele dia, conquistei uma irmã.
Nem a Madalena teve mais sorte o pai alcoólico abandonou-a. No fundo, tal como eu, ansiava por alguém de verdade.
Acabei por falar com a minha mãe biológica. Foi a Madalena que insistiu.
Interroga-a! Pede-lhe explicações! Assim tiras isso do peito, sabes porquê e deixas de pensar que a culpa é tua.
Como é que tu sabes que eu acho isso? perguntei.
Todas achamos. Porque é que nos deixaram? Fomos menos?
O que ela disse era tão verdadeiro. Em miúda, nunca falei disso, mas as noites eram povoadas de perguntas e de saudades. Só muito mais tarde, naquele confronto final, a minha mãe gaguejou:
Foi difícil para mim, filha. O teu pai deixou-me, não tinha ninguém que me ajudasse.
E achaste que um bilhete no bolso corrigia tudo? Que raio de mãe és tu?
Perdoa-me implorou. Mas eu só queria esquecer. Perdoar, talvez um dia; esquecer, nunca.
Daí para a frente, decidi cuidar de mim própria. Chega de deixar que os outros decidam por mim. Madalena percebeu tudo.
Se tu sentes que é o melhor para ti, esquece e continua.
O tempo foi passando, e entre Madalena e algumas pessoas especiais, os recantos mais ásperos do passado foram ficando mais suaves. O convívio na casa velha do avô Miguel não era um paraíso, mas era o que tínhamos. A minha sogra sempre foi terra-a-terra, dessas mulheres de mão firme e coração grande. Aceitou-me como uma filha.
Olha, Rita, não esperes grandes mimos da minha mãe avisou-me Madalena quando fui conhecer a família do Miguel. Para ela, és só mais uma miúda, órfã e sem futuro certo.
Mas puseram-me na lista para casa! argumentei.
Achas? Vais estar uma vida à espera. Não contes muito com isso, conta só contigo.
E foi exatamente assim que fiz. O Miguel percebeu-me logo, não precisei de explicações. E Dona Margarida, apesar do jeito bruto, tinha um estranho jeito de maternar quase sem querer. Acabámos a passear juntas no shopping, sempre com desculpa de precisar de renovar o guarda-roupa. E, sem dar por ela, saia eu carregada de sacos: um casaco, uma mala, botas novas.
Aos poucos, fui baixando a guarda. A verdade é que ela não tinha obrigação nenhuma de gostar de mim. Mas ali estava, ajudava sem exigir nada em troca. E compreendia o quanto eu queria o meu espaço.
O avô do Miguel também foi fundamental. Lembro-me de como ficou feliz quando andámos às voltas com as questões da casa:
Ora lá, preocupada por quê? Se não derem certo aqui, dão noutro lado. Não há de ser por aí. O Miguel trabalha, tu também. Têm é que guardar uns trocos dizia, sorridente, enquanto me pedia para fazer chá.
Tornaram-se, ambos, a minha família. Ensinavam-me que às vezes, ser parentes era mais do que sangue era querer bem, era preocupar-se mesmo.
Foi com este exemplo que aprendi a dar valor ao verbo acarinhar. E, nesta tarde, ao ver o gato ruivo à porta, pensei: talvez esta seja a minha vez de acolher alguém.
Fui buscar o tabuleiro mais velho e abri-lhe a porta de casa. Mal entrei, o gato disparou escada acima e voltou com um minúsculo gatinho ruivo na boca. Segurei-o nas mãos, e ri-me da figura.
Mas tu és mesmo uma mãezona disse-lhe, enquanto o segundo gatinho, mais enérgico, se atirava para o chão.
Deixei-os entrar todos em casa. O grande, de ar cauteloso, entrou atrás de mim. Fui ver o que tinha no frigorífico para lhes dar e preparei um pratinho de leite.
À noite, partilhei tudo com a Dona Margarida.
Se não se importar, ficava com eles pedi. Não tenho coragem de os deitar para a rua. Não sei o que aconteceu à mãe deles, mas acho que estes miúdos precisam de mim.
Rita, a casa é vossa. Vocês decidem. Eu só vos quero ver felizes. E fez-me uma festa no ombro, sentando o gatinho no colo.
Acho que vou deixar ficar o ruivo comigo confessei, já a sorrir.
O Miguel ouviu a conversa com ar cúmplice. Tinha um brilho nos olhos, igual ao da Dona Margarida.
Agora temos dois professores acrescentei, esfregando a orelha do gato, sentindo finalmente que, de todas as formas possíveis, a família estava a crescer. E foi naquele abraço inesperado que, pela primeira vez, me desatei a chorar sem vergonha.
Talvez isto seja ser mãe. Talvez isto seja, finalmente, casa.







