Mãe, vem viver connosco! Para quê ficares sozinha o tempo todo? Aqui vais sentir-te melhor, vais ter mais conforto e alguém sempre de olho em ti repetia-me a minha filha Filipa sempre que me telefonava ao final do dia a perguntar se estava tudo bem comigo.
Durante muito tempo recusei. Afinal, tenho os meus setenta e cinco anos, os meus hábitos, o meu ritmo sereno.
Gosto de acordar cedo, preparar um café na mesma chávena um pouco lascada de sempre, e sentar-me junto à janela a ver as árvores que dançam sob o vento de Lisboa. Pode não ser nenhuma mansão no Restelo, mas é o meu lar. O meu refúgio. O meu universo.
No entanto, sentia-me cada vez mais só. Desde que a minha cadelinha, Belota, partiu há dois anos, o silêncio no apartamento tinha ganho um peso estranho, ecoando alto entre as paredes. A televisão aborrecia-me, os livros ficavam por abrir, e as vizinhas viam mais vezes os netos no Porto do que a mim para um chá. Por vezes, dava por mim a pensar que talvez a Filipa tivesse razão.
Numa tarde enevoada, ela voltou à carga:
Mãe, muda-te para nós. Preparamos um quarto para ti, tudo será mais fácil
Pois bem respondi, apanhando-me de surpresa. Se é mesmo isso que querem, aceito.
Não fazia ideia do quanto essa decisão alteraria tudo. Começou melhor. Depois um pouco menos.
Filipa não cabia em si de felicidade.
Nem imaginas como estou contente, mãe! repetia seguidas vezes, como se temesse que pudesse voltar atrás. O Tiago vai buscar-te no fim de semana. Já comprámos lençóis novos, cortinas e até uma lâmpada de cabeceira. Vais adorar!
Quis acreditar que era o início calmo de uma nova etapa. Que, finalmente, teria a família por perto. Que não adormeceria sozinha a escutar o tique-taque do relógio. Nessa noite, arrumei roupa, as fotografias preferidas, alguns livros. O resto podia esperar. Não quis levar tudo para sempre era mais fácil enganar-me que era apenas um ensaio.
O Tiago chegou pontualmente no sábado. Sorridente, prestável, demasiado energético para o meu gosto, mas atencioso. Quando a porta do meu apartamento se fechou atrás de mim, senti a pele arrepiar-se como se despedisse de uma parte de mim mesma.
A casa da Filipa era grande, luminosa, cheia de movimento: brinquedos do meu neto Vasco espalhados pela sala, manchas de tintas e legos, roupa por passar na banheira. O meu quarto, sim, estava lindo lençóis a cheirar a novo, a luz quente, um vaso de manjerico na janela. Tive esperança: talvez tudo corresse bem.
Os primeiros dias foram deliciosos. Filipa fazia-me café forte, o Vasco contava aventuras da escola, e o Tiago fazia piadas ao jantar. Ia com Filipa ao Jardim da Estrela, preparava-lhes canja ao almoço, e o Vasco devorava os meus pastéis de feijão como se fossem mágicos. Senti-me de novo importante. Alguém verdadeiramente feliz por me ter por perto.
Na quarta noite, porém, começou o estranhamento.
Primeiro, era o ruído. Tiago corria pela casa de sapatos, Filipa falava alto ao teletrabalho, e Vasco acelerava carros de pilhas que guinchavam e apitavam como ambulâncias. Tinha a impressão que os ouvidos iam estalar.
Desabafei com Filipa.
Mãe, isto é a vida com crianças. Vais-te habituando sorriu, distraída.
Tentei. Mas, nas noites em que a casa finalmente silenciava, o meu peito batia a descompasso. Quinze anos a viver só fizeram do caos uma tempestade difícil de aceitar.
Depois vieram outros detalhes. Ao jantar, Tiago bebia um copo de vinho, outro, e depois mais dois. Ficava barulhento. Sempre temi vozes altas, desde o meu pai Mas não queria ceder a memórias antigas.
Vasco resmungava, Filipa mostrava-se exausta, Tiago resmungava por ninguém saber relaxar. Eu, na ponta da mesa, apertava os dedos, a pensar onde teria ficado o calor de família que imaginei.
No dia a seguir, apareceram mais pequenas fissuras.
Filipa, cansada, dizia:
Mãe, tenta pelo menos não estorvar. Tenho tanto para fazer.
Tiago deixava loiça suja na pia e brincava, meio sério:
A mãe sempre foi excelente a lavar pratos, não foi?
O Vasco quase não vinha ao meu quarto. E eu, cada vez menos saía para os corredores.
Quando me oferecia para fazer a sopa, Filipa respondia:
Mãe, não é preciso. Descansa.
Quando sugeria um passeio:
Agora não dá. Talvez amanhã.
Mas amanhã nunca chegava.
Numa dessas noites, acordei sobressaltada perto da meia-noite com um estoiro. Tiago e Filipa discutiam como se Lisboa inteira tivesse de ouvir. Gritos, acusações, mágoas. Levantei-me, fui ter com eles, tentei filhos, deixem isso, faz mal ao coração, mas Filipa lançou-me um olhar frio, gélido.
Mãe, isto não te diz respeito. Vai dormir.
Obedeci. Fechei a porta sobre mim e senti-me a estalar como loiça velha.
À noite, a tensão subiu-me a cabeça. Chamaram o INEM. Expliquei que não tomava medicamentos, apesar da idade. O médico sorriu: Pois, talvez esteja na altura.
Foi então que pensei nas paredes do meu apartamento do Areeiro. Na mesa com a toalha florida, no cadeirão à janela, nos livros, no silêncio. Na liberdade.
Cada dia a imagem do regresso surgia mais nítida. Até que uma tarde encontrei o Vasco colado ao tablet, tão absorto no jogo que nem me sentiu entrar. E percebi.
Ali, eu era uma estranha.
Uma visita, não parte da família.
Não daquelas visitas desejadas.
Daquelas que se toleram.
À noite disse à Filipa:
Vou voltar para casa.
Ela largou o talher, atónita, talvez até irritada.
Mãe, aqui tens tudo. Para quê voltar à solidão?
Filha murmurei serena a solidão não é o mesmo que perder a paz. Compreenderás quando tiveres a minha idade.
Filipa tentou demover-me, mas o meu coração já estava decidido.
No dia seguinte, embalei as coisas, pedi ao Tiago que me levasse de volta.
Ao entrar no meu pequeno T1, senti um alívio cor-de-mar ao poder respirar à vontade. Lavei o chão, apesar de estar limpo. Arrumei flores. Fiz chá na minha velha chávena e sentei-me à janela.
O silêncio era meu de novo. Não assustava: embalava, confortava. E, nesse instante, sorri de verdade pela primeira vez em meses.
Pensei num gatito. Um alaranjado, olhos verdes, um pequeno amigo com quem partilhar este ninho feito de tarde e sol.
Sim. Amanhã vou ao canil.
Porque a vida pode começar outra vez, em qualquer idade.
Basta que o lugar seja verdadeiramente nosso.







