“Mãe, somos nós, os teus filhos… Mãe…” Ela olhou para eles. Ana e Roberto viveram sempre na pob…

Mãe, somos nós os teus filhos Mãe Ela olhou para eles.

Helena e Manuel passaram a vida inteira mergulhados na pobreza. Lembro como Helena, tão jovem e cheia de sonhos, perdera há muito a esperança de uma vida feliz e digna. Cheia de esperanças juvenis, apaixonara-se por Manuel e juntos sonharam um futuro vitorioso, antes de os anos pesados caírem sobre os seus ombros. Mas, como bem sabemos, a vida nem sempre segue o caminho que o coração deseja.

Manuel trabalhava duramente nas vinhas em redor de Penafiel, mas o dinheiro mal dava para o pão de cada dia. E, como se não bastasse, Helena acabou por engravidar. Tiveram três filhos, um a seguir ao outro. Desde esse tempo, ela deixou o trabalho. Só com o ordenado de Manuel, pouco havia de sobrar. Os rapazes cresciam e precisavam de roupa e sapatos.

Todo o ordenado era gasto em comida. Acrescentando-se luzes, água e outras despesas, passaram-se doze anos assim. O cansaço e a frustração começaram a pesar na família. Manuel começou a beber vinho tinto, todos os dias, no regresso da taberna. Por mais que trouxesse o salário para casa, voltava quase sempre embriagado. A tristeza e o desalento tomaram conta de Helena e o amor pelos sonhos de juventude foi-se esvaindo. Então, numa tarde chuvosa, o marido chegou a casa com uma garrafa de aguardente nas mãos. Helena, saturada e desanimada, arrancou-lhe a garrafa e bebeu dela. Assim, começou o seu vício.

Aos poucos, a bebida dava-lhe uma paz estranha, fazia as dores parecerem distantes. Quando Manuel chegava com a aguardente, ela já esperava ansiosa aquele consolo. Bebiam juntos, esquecendo-se, dia após dia, dos filhos.

Os vizinhos da aldeia comentavam baixinho como as bebidas podiam transformar as pessoas. Depois de algum tempo, os rapazes vagueavam pelo povoado a pedir um pedaço de broa ou alguma chouriça. Certo dia, uma vizinha já cansada daquela miséria disse:

Ó Helena, mais vale entregares os rapazes ao orfanato do Porto do que deixá-los morrer à fome. Até quando vais fechar os olhos e deixar os teus filhos assim?

Essas palavras nunca mais saíram da cabeça de Helena. O pensamento de se livrar dos filhos deixou-a inquieta, mas, por fim, ela e Manuel consentiram. Pouco depois, os três irmãos foram levados para o orfanato. Choravam inconsoláveis à espera da mãe e do pai, mas ninguém voltou.

Anos passaram como o vento pelas serras. Um a um, os rapazes deixaram o orfanato. Cada um recebeu um pequeno quarto num bairro social de Vila Nova de Gaia. Ao menos tinham teto e arranjaram trabalho. Sempre juntos, apoiaram-se uns aos outros. Nunca falavam dos pais, mas todos guardavam a vontade de um dia os rever e perguntar porque foram abandonados.

Num domingo de outono, combinaram ir ver a velha casa. No caminho cruzaram-se com a mãe, que cambaleava sozinha, envelhecida e triste. Passou por eles sem os reconhecer.

Mãe, somos nós os teus filhos Mãe

Helena olhou-os com olhos vazios, mas logo a memória regressou e reconheceu-os. Caiu em lágrimas e pediu-lhes perdão, entre soluços. Como poderia ser perdoada depois de tudo? Os filhos, calados e perplexos, hesitaram. Mas, no fundo, sabiam que mãe é sempre mãe. Assim, num abraço silencioso, perdoaram-na, pois, embora marcada, a família não deixava de ser família.

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