Mamã Lurdes
Estás aí sentada a chorar? Já molhaste isto tudo! Com tanto calor lá fora, e tu aqui a aumentar a humidade!
Uma mulher corpulenta, larga como uma traineira e com ar de quem não se deixa atrapalhar, deixou-se cair no banco ao meu lado.
Está um bafo hoje! E para ajudar, choveu toda a manhã. Agora parece que estamos numa sauna! Ainda nem é meio-dia e já estou derretida, nem sei para onde me virar!
A senhora retirou uma garrafa de água da mala, abriu-a com algum esforço e estendeu-ma.
Queres? Olha, dizem que beber água ajuda a acalmar. A mim não me faz nada. Posso beber um alguidar que nem por isso fico mais tranquila!
Olhei para ela com surpresa e desilusão. O universo tinha mesmo poupado esforços para me castigar. Como se não tivesse já preocupações suficientes, veio ainda este presente a mulher ao meu lado!
Nunca gostei de pessoas cheias, confesso. Não percebo como conseguem não cuidar de si. Não custa assim tanto mexer o corpo e ter algum autocontrolo à mesa. Para além do lado estético, há o incómodo todo: roupa larga, suor, cheiro… Lembro-me de quando fui ao spa com as amigas e vimos uma senhora assim a nadar na piscina.
Eu ali não entro, meninas! Hoje fico por aqui. disse a Isa, a minha melhor amiga, esticando o corpo todo, impecável, lindo, modelado por infinitas horas no ginásio.
Mas porquê? Não planeámos passar o dia aqui?
Faz favor com aquele espetáculo ali?! Só de olhar já fico incomodada.
E pronto, começou um discurso que preferia nem recordar. Até me soou mal, mas acabei por concordar em parte. Não faz sentido sair de casa quando não nos sabemos cuidar. A Isa estava certa.
Agora o destino sentava-me ao lado de uma senhora mais que o dobro daquela do spa. E não ficava calada um instante! Mas forças para me levantar do banco não havia depois de tanto tempo a chorar, a olhar para o nada, era também tudo o que me restava.
Olha, tão bonita e sem malas, sem nada? Não vais viajar, pois não? Estás à espera de alguém? Ou ficaste sem rumo?
Desviei o olhar e acabei por encarar a senhora.
O seu rosto redondo, cheio de bochechas coradas, tinha um ar tão doce, tão aberto, que de repente não fui capaz de conter as lágrimas. Um grito de dor atravessou-me, nem percebi bem como, e a mulher puxou-me para um abraço largo. Encostei a cara à blusa fresca e, de repente, reparei que ela cheirava a flores, não a suor. Senti-me menino de novo, a tentar adivinhar se o cheiro vinha do detergente ou de alguma receita antiga para perfumar roupa. Cheirava exatamente às mãos da minha mãe, aquelas poucas vezes que me lembro dela. Faleceu jovem, eu só tinha cinco anos. O que guardei dela foi a lembrança de um prado cheio de flores, uma coroa de margaridas que me pôs na cabeça e aquele cheiro inconfundível.
O que foi, filho? Fizeram-te mal?
Balancei a cabeça, mas depois acabei por assentir.
Malandros… deixa cá ver. Tirou da mala um embrulho de papel, revelou dois sandes de fiambre de peru e uma maça enorme e vermelha. Vá, come!
Abri a boca para protestar.
Não como carne…
O quê?… Ignorou e pousou a sande nas minhas mãos, partilhando depois a maça em dois.
Tirei-lhe a primeira dentada e gemeu-me a barriga de satisfação. Nem me lembrava da última vez que tinha comido a sério.
Sabe bem? Então pronto. O resto é conversa!
A mulher ajeitou-se no banco e olhou-me de novo.
Mas conta lá, o que fazes aqui sozinha, sem malas e, corrija-me se estiver enganada, sem um tostão no bolso?
Dei um aceno mudo, as lágrimas teimaram em voltar.
Olha, chorar podes depois, mas primeiro conta tudo, está bem? Depois choramos, ou até rimos, quem sabe…
Não me apetecia falar, não confiava em mim para aguentar, mas ela não me deixou alternativa. Era tudo tão corriqueiro mas era a minha vida e não tinha outra.
Saí de casa na noite anterior, depois de o meu pai ter dito que afinal não era meu pai. Que ia ser pai de verdade agora. Os anos todos de mão dada com ele, a acreditar que seria para sempre, e afinal… nunca foi meu pai de verdade.
A madrasta, a Inês, nunca engoli. Tinha só uns anos mais que eu. Da primeira vez que a vi, apenas sorriu, toda arranjadinha.
És tão fofinha… cantou ela, e eu percebi que os dias de paz acabavam ali.
Vieram provocações, mexericos, lágrimas e dramas de novela barata. Tudo o que tentava resolver falhava. O meu porto seguro sempre fora o pai, e nem percebi a tempo que isso já estava a acabar.
O golpe foi duro: papelada em cima da mesa, verdades atiradas à cara, revelações de orfandade e adoção, perguntas sem resposta. A mãe já não estava, nunca ia saber de onde vinha.
Passei a noite a olhar para a parede, depois vesti um casaco e fui à rua. Nem sabia para onde ir. Acabei na estação, sem bateria, sem querer falar com ninguém. Amigas não tinha mudei de casa tantas vezes que nunca criei raízes. As poucas pessoas que chamava de amigas eram mesmo mais conhecidos. A frase que me ecoava era do velho desenho animado: Gosta de ti! O resto que se lixe! Só assim se tem sucesso! Carregava um porta-chaves com um diabinho a lembrar-me disso, até o perder.
A mulher escutou-me sem uma interrupção. Quando terminei, passou-me umas toalhitas.
Limpa as lágrimas.
Revirou a mala outra vez e tirou um telemóvel velho, simples, de teclas grandes.
Ora aqui tens. Liga ao teu pai. Ou manda-lhe uma mensagem. Ele pode não ser modelo de pai, mas não deixa de se preocupar. Não o faças sofrer mais do que já basta.
Mandei a mensagem, com ela a olhar de lado.
Olha, o meu nome é Lurdes. Moro ali numa aldeia perto. Vens comigo? Se não tens para onde ir, o melhor é vires.
Mas… porquê?
Porque não há crianças de ninguém. Não se pode deixar um menino ao abandono.
Mas já não sou nenhum menino…
Pois claro, estás um homem feito… Anda, anda lá! Ainda temos que apanhar o comboio, senão temos de esperar pelo próximo.
E fui. Sem saber bem como, nem porquê. Ela não me perguntou mais nada a caminho. Mais tarde explicou-me:
Entrar no coração dos outros é coisa delicada, filho. Uns conseguem falar logo, outros nunca. Mas se derem tempo, acabam por contar tudo.
Adormeci no comboio e só acordei quando ela me tocou no ombro:
Vá, que já chegámos, rapaz!
Na estação, Lurdes acenou a alguém ao longe. Uma mulher mais alta, muito magra, correu-lhe ao encontro.
Ó mãe Lurdes! Já fiquei para trás dois comboios, a ver se tinhas vindo! E a Nina, está melhor?
Também! Amanhã vou lá ver dela.
E o médico?
Prometeu tratar de tudo. É novo, mas parece saber o que faz.
E este rapaz? lançou ela o olhar para mim.
Menos perguntas, Susana. Vimos da viagem, agora só queremos comer.
O carro, um velho Renault com uns autocolantes já gastos, fez-me rir sem querer.
Que foi? Isto é obra do Paulo, o meu irmão.
Está bem, está… sorri, a olhar para o desenho duma andorinha no capô.
A Susana levou-nos por atalhos e com curvas apertadas. Eu fechava os olhos em cada viragem.
Devagar, Susana! avisou Lurdes, sorrindo de canto para mim. Isto é que é condução à portuguesa…
Chegando à aldeia, um rancho de miúdos saiu ao nosso encontro.
Todos meus, filho! disse Lurdes, divertida. Mas vivo sozinha, eles vêm sempre cá porque esta casa é de todos. Anda, não tenhas vergonha!
Entrei no meio deles, acolhido como se os conhecesse há anos. Só à noite é que percebi, depois de conversar com a Susana, que todos tinham histórias parecidas com a minha.
Vês aquela casa? Três dos nossos vivem lá. Depois, ali na rua de cima, mais dois. E por aí fora. A nossa Lurdes juntou cada um. Ninguém nasceu dela, mas somos todos filhos. Vamos e vimos, mas a casa está sempre cheia.
Fiquei a conhecer mais nos dias seguintes. As razões para cada miúdo ter chegado àquela casa eram tantas quanto pessoas lá havia. Uns fugidos de lares violentos, outros abandonados, uns sem nada, outros apenas sem rumo.
Fui ficando, adaptando-me. Aprendi que a Lurdes nunca teve filhos. O corpo não deixou a saúde não perdoou. Passou a vida a tratar dos outros, mesmo com todos os seus problemas de saúde, diabetes, coração. Tudo escondia para ninguém a impedir de ser mãe dos filhos do mundo.
Susana contou-me o resto da história: a mulher valente que sobreviveu a um casamento violento, fugiu do Porto, regressou à aldeia, cuida dos que precisa. Não foi protegida, mas soube proteger os outros.
E quando lhe perguntei como se aguentava financeiramente, riu.
Ora filho, a vida faz-se assim… O Estado ajuda pouco, mas apareceu-nos um anjo da guarda o sr. António, que ficou com o pequeno Pedro depois de o termos cuidado aqui. Homem rico, empresário na cidade. Ajudou-nos com habitações, papelada, tudo o que pôde. Eu costumo dizer que, finalmente, até à Lurdes calhou um “rei” na vida.
O que era aquela casa, senão um milagre dos dias normais? Como pode uma mulher, sem filhos, criar uma família maior que certas aldeias, dar colo a quem precisa, unir quem perdeu tudo?
Os meses passaram e, aos poucos, comecei a refazer-me. Lurdes ensinou-me a aceitar o passado e a cuidar do presente. Iria seguir com os estudos o pai, depois de muita conversa intermediada pela Lurdes, aceitou ajudar-me a pagar o resto da licenciatura. Tornei-me psicólogo e voltei para a cidade, mas a família ficou sempre lá atrás, com Lurdes, essa mãe de tantos.
Quando adoeceu, deixei tudo para cuidar dela. Estive a seu lado o tempo que o coração precisou. Foram seis meses difíceis, mas cheios de sentido. Os outros filhos, hoje todos homens e mulheres feitos, estavam sempre por perto. A Lurdes voltou a andar com ajuda, sentava-se no banco feito pelo Paulo e pelo cunhado, junto ao portão de casa.
As crianças continuaram a ir buscar colo, a pedir conselhos e a brincar junto a ela.
Vim embora quando vi que já estava segura, rodeada por aqueles que cuidou. E quando decidi casar, foi a primeira pessoa a quem fiz o convite.
Vais estar comigo, mãe Lurdes?
Sempre, meu filho. Sempre…
Hoje, ao rever tudo na memória, percebo como a família não é apenas sangue. É afeto, cuidado, história partilhada. E que há mães e pais do coração, que mudam a nossa vida para sempre. Em Portugal ou em qualquer lugar do mundo.







