– Tu tornaste-te numa sombra, Leonor. Percebes? Uma sombra. Nem um lugar, apenas vazio.
Ele disse isto com a mesma voz com que se dita uma lista de compras. Estava de costas para mim, desculpa, para ela, junto à janela, a olhar para o pátio. Ali em baixo, alguém passeava um cão, um pequeno rafeiro castanho, que puxava o dono alegremente até uma poça de água.
Leonor Martins sentava-se no sofá, uma caneca de chá nas mãos. O chá já estava frio há mais de vinte minutos, mas ela continuava a segurá-lo, sem saber o que fazer às mãos.
– O que é que queres dizer com isso? perguntou ela, quase sem voz.
– O que disse. Miguel virou-se finalmente. O rosto mostrava a fadiga de quem já explicou tudo milhares de vezes. Olho para ti e não vejo nada. Vazio. Cinzento. Caminhas pela casa, cozinhas, dormes. És como um móvel, Leonor. Um bom móvel, robusto, mas mesmo assim, apenas um móvel.
Ela pousou a caneca na mesinha. A porcelana tilintou na madeira.
– Dez anos murmurou ela.
– O que dez anos?
– Vivemos juntos dez anos.
– E então? ele encolheu os ombros, sentando-se na poltrona à frente dela. Dez anos, é tempo suficiente para saber que não faz sentido continuar. Não quero mais viver assim. Quero… hesitou, à procura da palavra sentir alguma coisa. E tu não me fazes sentir nada. Não me inspiras. É como se não estivesses cá, apesar de estares à minha frente.
Leonor sentiu algo dentro dela ceder, como um arame torcido que finalmente se parte.
– Para onde queres que vá, Miguel?
– Isso já é problema teu disse ele, cruzando as pernas. A casa está em nome da minha mãe, sabes bem. Legalmente, aqui tu não és ninguém. Não te vou pressionar, mas… uma semana chega? Vais encontrar qualquer coisa.
– Uma semana chega repetiu ela, sem pensar.
– Óptimo. Ele agarrou no telemóvel e ficou a deslizar o dedo no ecrã. Para ele, a conversa estava encerrada.
Leonor levantou-se, foi para o quarto e fechou a porta. Deitou-se em cima da colcha e ficou a olhar o teto. Branco, com uma pequena mancha num canto que ela pretendia tapar há dois anos. Mas nunca tapou.
Do outro lado da parede, a televisão zumbia baixinho. Miguel entretinha-se com o que quer que fosse.
Ela não chorou. Só ficou ali, quieta, olhando o teto, dentro do peito uma quietude absoluta aquela calma que fica depois de partir um vidro numa casa silenciosa.
***
A semana foi longa, enevoada. Miguel quase não aparecia chegava tarde, saía cedo. Não falavam. Leonor fez as malas, o que surpreendentemente foi fácil as suas coisas ocupavam pouco espaço naquela casa. Umas quantas roupas, um casaco de inverno, uma caixa com fotografias dos tempos de estudante, revistas de costura que continuava a guardar, sem saber porquê.
Chegou a deixar as revistas, mas voltou atrás para as buscar.
Ligou à tia Lurdes, do lado da mãe, que não via desde o funeral da mãe há sete anos. Tia Lurdes ouviu em silêncio e depois disse apenas:
– Vem. Tenho um quarto pequeno, mas chega. Ficas enquanto não arranjas melhor.
A tia Lurdes morava em Vila Nova, na margem do Douro, onde o autocarro só passava de hora a hora e o Minipreço era o único supermercado do bairro. Leonor nunca gostara da zona prédios antigos, varandas descascadas, choupos que enchiam tudo de penugem na primavera.
Sexta-feira à noite, chegou com duas malas e um saco de viagem.
– Credo, como tu emagreceste! exclamou tia Lurdes ao abrir a porta, uma mulher baixa, robusta e com um cheiro a canela e remédios. Anda, anda, não fiques aí. Vais jantar?
– Não quero, tia.
– Tens de comer respondeu ela, indo já para a cozinha.
O quarto era minúsculo, com um sofá-cama, um armário velho e uma janela virada para a parede do prédio ao lado. O papel de parede tinha sido azul, agora não se sabia bem de que cor era. No parapeito da janela, três vasos de gerânios. Vermelhos, vivos.
Leonor pousou as malas e sentou-se. As molas chiaram.
– Vais querer chá? gritou tia Lurdes.
– Quero respondeu automaticamente.
E só aí, naquele quarto com cheiro a gerânio, com o papel de parede gasto, Leonor chorou.
***
Seguiram-se tempos ruins.
Daqueles em que se acorda e custa levantar, sem saber para quê. Acordava cedo, às seis, e ficava a ouvir a tia na cozinha, a agitação do chá, os travões dos carros escassos na rua. Depois levantava-se, lavava-se, sentava-se a beber chá olhando a parede de tijolo da janela.
A tia era mulher sábia. Não fazia perguntas, não dava conselhos, não dizia vais ver, um dia melhora. Alimentava Leonor com sopa, deixava ver a televisão, e à noite desafiava-a para um jogo de bisca lambida.
Jogavam, quase sem palavras.
O dinheiro era pouco. Leonor foi levantar tudo o que restava na conta: mil euros. Dava para um mês e pouco, se apertasse bem. E apertou.
Trabalhava como contabilista numa pequena empresa de construção e, felizmente, ainda não perdera o emprego. Ia três vezes por semana ao escritório na Baixa do Porto, tratava da contabilidade, recebia oitocentos euros. Pagava à tia o quarto mesmo ela dizendo sempre que não queria deixando o envelope na cozinha, sem hipótese de recusar o pagamento.
As noites eram piores. Sentava-se sozinha e os pensamentos corriam em círculos. Dez anos. Não é pouco. Dez anos de jantares, doenças, natais, verões em Vila Praia de Âncora, zangas e reconciliações. Ele olhara para ela e só vira vazio. Talvez ela fosse mesmo isso. Ou ele. Ou ambos.
Por vezes pegava no telemóvel e revisava conversas antigas. Fotos nas praias do sul, três verões atrás. Os dois a sorrir. Já não se lembrava do motivo daquela alegria.
Nessas noites deitava-se cedo, tapando a cabeça com a manta.
Uma noite, tia Lurdes espreitou:
– Leonor, já dormes?
– Não.
– Pois, notei. Pausa. Tens fome?
– Não.
– Então descansa. Mais uma pausa. Eu também pus o meu fora de casa. Sozinha. Isso há muitos anos, tu nem eras nascida. Achei que morria de tristeza. Não morri.
Ouviu-se o fecho da porta. Tia Lurdes saiu.
Leonor ficou deitada, na escuridão, a pensar: cá vais tu, quase com cinquenta anos. Recomeçar. Como se fosse fácil.
***
A descoberta da máquina aconteceu no segundo mês.
Tia Lurdes pediu para arrumar a prateleira superior do corredor; ninguém lá mexia há quinze anos e, ao abrir a porta, quase caiu uma avalancha de quinquilharia. Leonor aceitou, precisava de ocupar as mãos.
No fundo da arca, debaixo de revistas Maria, chapéu de chuva partido, caixas de botões e frascos vazios, encontrou algo pesado, embrulhado num lençol velho.
Desembrulhou.
Era uma Singer antiga, preta, com arabescos dourados descorados. Na frente lia-se São Jorge.
– Tia Lurdes! chamou Leonor.
Ela veio da cozinha, de pano ao ombro.
– Olha a Singer da tia Rosa! Sabes que já nem me lembrava dela? Será que ainda funciona? Não mexo nela desde sempre.
– Posso experimentar?
A tia olhou para Leonor de maneira diferente:
– Sabes usar?
– Sabia. Vamos ver se me lembro.
Levou a máquina para o quartinho, ao lado da janela. Limpou, tirou os restos de linha fossilizada na bobine, encontrou uma caixa de acessórios, linhas antigas, fita métrica, tesouras sem corte.
Trouxe também o óleo estava solidificado, mas na drogaria comprou mais, lubrificou tudo, rodou a roda manualmente. A princípio custou, depois começou a fluir.
Demorou três horas. Percebeu a lançadeira, pôs linha, testou em restos de tecido.
A máquina começou a costurar, com o seu traquejar metálico característico. Leonor sentiu algo aquela sensação de, quando o sangue volta a circular num braço dormente: dói e faz viver ao mesmo tempo.
Viu a costura: direita, perfeita.
Um canto de memória reacendeu-se.
***
Tinha dezoito anos e adorava costurar. Dava nova vida à roupa da mãe, transformava lençóis em saias, fazia blusas com tecido do mercado. Na costureira da esquina, Dona Odete, aprendia só de olhar. Dona Odete explicava de boa vontade via que Leonor aprendia mesmo.
Depois veio a Faculdade, Miguel, o casamento, a rotina. A primeira máquina fora vendida Miguel achava demasiado volumosa para o T2 deles, a prioridade era espaço. Leonor cedeu, apaixonada, convencida de que a vida nova exigia outros sacrifícios.
Nunca mais costurou. Só de vez em quando, via um vestido bonito na montra e pensava: fazia igual. Mas nunca fazia.
Agora, sentada no quartinho, ouvia só o traquejar ritmado da São Jorge.
No dia seguinte, foi ao mercado de Campanhã não a um shopping, mas ao verdadeiro mercado, onde comprou metros de um algodão azul-cinza suave.
– Para quê tanto tecido? quis saber a vendedora, sorridente.
– Para um vestido disse Leonor, e até se surpreendeu com a convicção.
***
Cortou o molde no chão: estendia o pano, prendia com alfinetes, guiava-se por uma combinação de lembranças e revistas antigas. Molde muito simples: recto, cintura marcada, gola subida, manga três-quartos.
Tia Lurdes ia vigiando, sempre em silêncio. Um dia, trouxe chá e pôs ao lado.
– Obrigada murmurou Leonor, sem erguer a cabeça.
– Escolheste uma cor bonita comentou a tia, e nada mais.
No início hesitou ao cortar o tecido sempre um momento de nervos. Mas comendas tesouras novas que encontrou guardadas, e o medo dissipou-se ao primeiro corte.
Costurou durante três noites.
Não havia pressa cumpria cada etapa com calma. Laterais, fecho nas costas, gola, mangas. As dificuldades eram resolvidas devagar, às vezes havia que desmanchar e recomeçar.
A São Jorge costurava direita, fiel. Nestes momentos, a cabeça silenciava Miguel. Só o tecido, a agulha e a ideia do vestido importavam.
Na terceira noite, passou a última costura, perfumou a peça a vapor. Ao pendurá-la, recuou um passo.
Que bom vestido.
Simples, azul-cinza, linhas límpidas e justas. O cinto da mesma cor marcava a cintura, a gola erguida dava sobriedade ao conjunto.
Foi experimentar.
Na entrada, o único espelho grande da casa. O espelho era velho, mas sincero.
Ficou ali, olhando. Uns minutos ou mais.
No reflexo, via uma mulher. Não uma sombra, não um móvel, não um vazio, mas uma mulher, quase cinquentona, cabelo preso num coque, postura direita e com um brilho nos olhos.
O vestido assentava-lhe bem. Muito bem.
– Leonor! chamou tia Lurdes. Vem cá mostrar o que fizeste.
Ela foi à cozinha, ainda de vestido.
Tia Lurdes virou-se, olhou-a em silêncio.
– Pronto. Já está outra vez inteira.
Virou-se para o tacho, mas Leonor percebeu o sorriso.
Voltou ao quarto, sentou-se. Passou a mão pelo tecido: macio, confortável, não apertava nem caía.
Por dentro, o arame dobrado do primeiro dia endireitou-se um pouco.
***
Saiu à rua com o vestido ao sábado.
Só para passear. Tia Lurdes pediu-lhe uns comprimidos na farmácia, e Leonor pegou na receita, vestiu o azul-cinza, pôs um casaco creme por cima e saiu.
O ar cheirava a outono seco, céu limpo. Os choupos começavam a perder folhas.
Caminhava diferente a cabeça mais direita, reparava mais ao redor: um gato gordo na ombreira da janela, uma idosa a tricotar azul na escada do prédio, uma criança a puxar a mãe para as poças de água.
A farmácia era perto, mas em frente aparecera uma pastelaria nova: Cantinho do Pão Quente.
Entrou. Pediu um galão e um pão-de-deus, porque sim.
No café, só meia dúzia de mesas. Ao canto, uma senhora dos seus sessenta anos, bem arranjada, brincos grandes e cabelo prateado, mexia no telemóvel. Tinha o ar seguro de quem está à vontade no mundo.
Leonor sentou-se perto da janela.
Dez minutos passaram, café quente, sem pressa. Era bom, só isso.
– Peço desculpa…
Virou-se. A senhora fitava-a.
– Não leve a mal, mas o seu vestido é lindíssimo. Posso perguntar onde comprou?
Leonor atrapalhou-se.
– Fui eu que fiz.
– Foi? É costureira?
– Não, só… sabia costurar e agora lembrei-me como era.
– Esse corte… parece simples, mas o caimento é perfeito. Nota-se logo. Eu trabalho há anos em ateliê, sei reconhecer. Como se chama?
– Leonor.
– Eu sou Fernanda Pereira. Olhe, Leonor, precisava de lhe pedir um favor estranho. Faço 65 anos daqui a três semanas. Queria um vestido bonito, feito para mim, não dessas lojas onde tudo é ou para velhas ou para miúdas. Algo assim, como o que veste. Aceita o desafio?
Leonor hesitou um instante. Fernanda mantinha-se serena, só aguardando resposta.
– Aceito.
***
Fernanda trazia a própria fazenda, um crepe cor de vinho de qualidade. Tiraram medidas na mesa do quarto, rabiscando moldes em folhas de bloco. Foram discutindo o modelo até concordarem: vestido evasé, manga a três quartos, decote em v.
– Este mesmo decidiu Fernanda era isto que eu queria.
– Fica pronto em duas semanas garantiu Leonor.
– Quanto lhe devo?
Leonor estancou.
– Não sei…
– Eu digo por si quanto vale um trabalho digno num ateliê. Pago-lhe isso. É justo.
Era mais do que Leonor recebia em meio mês como contabilidade. Sorriu, sem saber bem como reagir.
– Combinado.
Assim que Fernanda saiu, tia Lurdes apareceu:
– Ouvi tudo. Boa paga.
– Sim, é boa.
– Tu tens jeito, Leonor. Vai por aí.
Ela fitou a tia.
– Porque me recebeu cá em casa, tia Lurdes? Mal me conhecia…
– Porque eras filha da minha Zézinha. E a tua mãe, no seu tempo, também me ajudou. A vida é assim: devolvem-se favores.
Saiu. Leonor reparou na parede da frente agora via um grafiti de flores azuis, não se lembrava de ter reparado antes.
***
O vestido para Fernanda foi responsabilidade diferente. Não era para si, mas para outra pessoa; isso pesava. Cortou e costurou devagar, cada ponto medido. O crepe não permitiria erros.
Quando Fernanda voltou para provar, nem precisou de palavras. Sorriu, rodopiou em frente ao espelho da entrada.
– Estou outra mulher.
– Não, é apenas… a si, neste vestido certo.
– Isso faz diferença. É que mal me visto, até endireito as costas. Sente-se, percebe?
Teve de apertar um pouco na anca; Fernanda já não queria despir.
– Sabe, tenho uma amiga, Maria Augusta, também vai fazer anos. Precisa de vestido, posso dar-lhe o seu contacto?
– Claro.
– E há mais, a nora do meu filho casa para o ano, busca algo especial. Não queres também?
– Quero.
Fernanda aprovou com um sorriso metódico.
***
Os meses seguintes foram uma roda-viva mas pela primeira vez, no bom sentido.
Maria Augusta encomendou um tailleur; depois veio outra cliente, depois outra, uma mais nova, pediu vestido de festa. Leonor fez. A filha pôs foto nas redes e não faltaram logo mais três encomendas.
O quarto já não chegava. Tecido por todo o lado, a São Jorge costurava sem descanso. Tia Lurdes nunca se cansava de ver. Uma manhã, entrou no quarto invadido por restos de pano:
– Leonor, tens de arranjar espaço maior.
– Pois tenho, tia.
– Aqui não dá.
Ela já pensara nisso. Tinha dinheiro mais do que em muito tempo no trabalho antigo.
Foi ver espaços no centro do Porto. Uns demasiado escuros, outros húmidos. O terceiro servia: segundo andar de casa antiga, restaurada, janelas amplas. Caro.
Fez contas: renda, máquina industrial, overlock, mesa de corte. A poupança dos dois meses voava, e precisava de pedir emprestado.
Ligou a Fernanda, sem saber bem para quê.
– Fernanda, preciso de conselho.
– Diga.
Explicou tudo. Fernanda ouviu. Depois disse:
– Avance. Eu empresto-lhe, sem juros. Pague-me quando quiser.
– Não posso aceitar…
– Leonor, deu-me o melhor vestido da vida. Deixe-me retribuir. Faz parte, ajudar quem merece e acredite, é do meu interesse: há já mais quatro amigas na lista para si.
***
Em Dezembro, abriu o ateliê.
Levou a São Jorge, símbolo mais do que ferramenta. Comprou máquina industrial. Organizou tudo: mesa de corte, prateleiras, espelhos grandes, esquissos das suas modelos nas paredes. Tia Lurdes foi visitar, inspeccionou tudo.
– Está bem aprovou ela, com pouco entusiasmo sonoro, mas orgulho nos olhos.
– Tia Lurdes, tenho uma coisa para si.
Entregou-lhe um envelope. Ela protestou mas Leonor insistiu.
– É pelo quarto, pelas refeições, por tudo.
– Eu nunca contei nada disso…
– Mas eu contei. E agora compre um frigorífico novo, aquele já parece uma locomotiva.
– Vamos tratar disso concluiu a tia.
Foram à loja, compraram um de duas portas, enorme.
– Óptimo disse ela, e Leonor sentiu nos olhos da tia aquela satisfação silenciosa que se sente com coisas certas.
***
Dezembro trouxe muitos pedidos: vestidos de Natal, fatos, blusas festivas. Leonor trabalhava até tarde, chá atrás do balcão, a São Jorge a costurar alto na noite.
Em Janeiro, acalmou. Contratou uma ajudante Mariana, nova, sabedora do suficiente. Leonor encarregava-se de lhe ensinar o resto e descobriu como era gratificante passar o saber a outra.
Deixou a contabilidade. Fez o aviso ao patrão, ficou mais uns meses para ajudar na transição; saíu em Abril.
Em Março, recebeu chamada de uma senhora desconhecida fazia os próprios vestidos, queria aprender com Leonor.
– Eu não sou professora…
– Mas tem jeito, e foi recomendada pela Fernanda Pereira.
– Então venha, vemos como corre.
Primeiro workshop, depois outro, depois pequenas turmas. Diferente de costurar só para si mas encaixava perfeitamente.
Na primavera, mudou-se. Alugou um T0 perto do ateliê. Terceiro andar, cozinha luminosa, paredes brancas sem mácula. Arrumou tudo, pôs umas cortinas feitas por si própria.
Na primeira noite, sentou-se na cozinha, chá nas mãos, a ver o pátio com bétulas. Era seu aquele espaço, pequeno mas seu.
***
O reencontro com Miguel foi no fim de Maio.
Caminhava sem pressas pelo jardim, noite perfumada, saco com amostras de tecido no braço.
Viu-o à distância; reconheceu de imediato, um pouco mais magro, ar menos sólido, casaco a pedir substituição.
Parou quando ele também parou.
– Olá, Leonor.
– Olá, Miguel.
Havia embaraço no ar. Ele, inquieto, mãos nos bolsos.
– Estás com bom aspeto.
– Obrigada.
Pausa. Uma mãe passou com o carrinho do bebé, barulho de rodas no passeio.
– Posso… falar?
Ela fitou-o: ar cansado, cansado da vida.
– Vamos ali sentar sugeriu.
Sentaram-se no banco. Miguel olhava as mãos.
– Não sei por onde começar.
– Começa pelo princípio disse Leonor, serena.
– Ela foi-se embora. Aquela por quem… enfim. Seis meses. Disse que sou um aborrecido sem ambição. Engraçado, não é?
– É.
– Estou em casa da mãe. Trabalho pouco, perdi o emprego. A firma fechou. Tudo desabou. Às vezes penso… que errei. Muito. Pensei se podia ao menos dizer-to.
Ela ouviu.
– Eu nunca te valorizei. Tu fazias tudo. Eras sincera, genuína, e eu… calou-se. Chamei-te sombra. Pensei que não te magoava. Enganei-me. Penso nisto muitas vezes.
Leonor olhou as bétulas. O cheiro do jardim e de grelhados misturava-se no ar.
– Não és culpado de deixar de amar. O que fizeste de errado foi a maneira como disseste. Isso foi cruel, e doeu.
– Sei anuiu ele.
– Mas sabes uma coisa? Até te deves agradecer.
Ele olhou intrigado.
– Expulsaste-me. Foi horrível. Saí com duas malas e mil euros, aterrorizada. Vivi como órfã no quarto da minha tia, chorei todos os dias. Foram meses horríveis.
– Leonor…
– Deixa acabar. Lá, reencontrei a máquina antiga e lembrei-me do que sabia e gostava de fazer. Voltei a costurar, primeiro para mim, depois para os outros. Tenho o meu ateliê no centro, há meio ano. Trabalho que adoro.
Ele tinha um olhar estranho, difícil de catalogar.
– Se tu não me tivesses empurrado da tua vida, ainda estaria onde sempre estive. A fazer jantares e sem saber quem sou. Agora sei. Não te digo isto por despeito apenas porque é verdade.
– Perdoas-me?
Ela pensou.
– Não guardo rancor. Não é o mesmo que perdoar e voltar atrás. Não quero voltar, Miguel. Não é vingança. É que vivo, finalmente, a minha vida.
Ele desviou o olhar.
– Podíamos…
– Não ela foi firme.
O silêncio prolongou-se, mas não pesou.
– E a tua tia Lurdes?
– Bem. Comprou frigorífico novo. Vou visitá-la aos domingos, jogamos bisca.
Ele sorriu de verdade.
– Sempre foste boa pessoa, Leonor.
– Também não foste má. Só nos desencontrámos.
Ela ergueu-se, pegando no saco.
– Tens de ir? perguntou ele.
– Tenho, cedo de manhã vou trabalhar. Cliente à espera.
– Que tudo corra bem.
– Também te desejo o melhor.
Sem mágoa ou amargura, só verdade. Ela desejava-lhe mesmo o melhor.
Seguiu pelo jardim. Sentiu o olhar dele por uns passos, depois desvaneceu-se.
As bétulas projectavam sombras no passeio. Leonor seguia naquela sombra, a mala pesava, mas dentro ia um corte de lã verde-escura para a senhora Maria Helena, reforma, que queria uma saia direita para tudo, até para o teatro.
Pensava já na modelagem: a clienta era baixa, cheinha. Saia direita exigia engenho.
Entretanto, o perfume da magnólia intensificava-se. Um menino passou de patinete, cantando aos gritos, e das janelas subia o cheiro a batatas fritas feito em casa.
***
Naquela noite, já não costurou. Decidiu: depois das sete, nada de máquina. Só foi ao ateliê buscar o caderno das medidas das clientes. Estava junto à São Jorge.
Passou-lhe a mão pelo corpo escurecido.
– Obrigada disse em voz alta.
Parece tolo agradecer a uma máquina, mas quem deveria então? À tia Lurdes? À Fernanda? À Mariana, que agora começava a cortar sozinha? Talvez a todas. Talvez à própria reviravolta da vida, nascida de uma injustiça, chegada a este lugar luminoso.
Pegou no caderno, apagou as luzes, fechou a porta.
A rua cheia, vida normal de fim de tarde.
No caminho, parou no Pão Quente do Bairro, comprou uma broa de sementes e um frasco de mel a vendedora era uma senhora antiga, que garantia a qualidade.
– Boa noite, Leonor.
– Boa noite.
– O mel está ótimo, experimente amanhã, vai gostar.
– Experimentarei.
Na mala, um pão, mel, o caderno das medidas, um catálogo de botões. Vestia o vestido de linho cru de mangas largas, que fizera para si. Bem confortável.
Subiu pelo bairro, dez minutos devagar. A pensar na saia da Maria Helena, nas linhas a encomendar, em Mariana pronta a cortar moldes simples sozinha.
Depois deixou de pensar em trabalho e só andou, tranquila.
O céu perolado ainda claro, andorinhas aos círculos, o murmúrio da cidade, vida plena de segredos.
A felicidade de mulher divorciada, diriam certas revistas, como se fosse coisa especial. Leonor só pensava que ia para casa. Amanhã madruga. Tem um ofício que sabe e gosta. Tem tia Lurdes aos domingos. Tem clientes, a São Jorge à janela, este céu e as andorinhas.
Era o suficiente.
Não era um conto de fadas. Nem tragédia. Suficiente. Talvez seja isto que se busca quando falam em recomeçar: vestido a vestido, ateliê, casa, pão com mel num fim de tarde.
Ligou à tia.
– Tia, está em casa?
– Onde havia de estar? A ver a novela. Tudo bem?
– Só para saber.
Pausa.
– Vens domingo?
– Vou. Faço torta de maçã?
– Se não te der trabalho, adoro de maçã.
– Trago.
Guardou o telemóvel, subiu ao terceiro andar, abriu a porta da sua casa.
Cheirava a linho cortara ali na véspera, enquanto chovia. Aos retalhos já os deitara fora, mas ficou o aroma. Bom aroma.
Pôs o chá, cortou o pão, abriu o mel: dourado, translúcido.
Lá fora, as andorinhas riscavam o céu escurecido.
Passou o mel no pão, provou: a vendedora tinha razão. Bom mel. Muito bom.
***
A manhã raiou limpa.
Maria Helena chegou pontual às oito. Pequena, mexida, cabelo branco impecável, olhar vivaz.
– Dona Leonor, trouxe um exemplo. Veja este modelo, era o que queria. Simples, sem volume.
Mostrou uma imagem impressa.
Leonor analisou. Boa peça, elegante.
– Sente-se um pouco, explique-me ao detalhe.
Maria Helena sentou-se, mãos no colo.
– Sabe, há anos sonhava com uma saia assim. Nunca encontrava nada decente nas lojas. Uma vizinha sua recomendou-lhe, diz que voltou a gostar de se ver ao espelho graças ao seu vestido. É boa recomendação, não acha?
– Das melhores sorriu Leonor.
Abriu o caderno, pegou a fita métrica.
– Ponha-se de pé, por favor.
Maria Helena endireitou-se. Espreitou-se ao espelho grande.
– Sabe? Estou reformada há quatro anos. Achei que já não valia a pena cuidar tanto do exterior. Mas pensei: porquê? Ainda tenho muitos anos pela frente. Porque hei de andar com coisas sem jeito?
– É, exactamente! respondeu Leonor.
Enquanto tirava medidas e fazia apontamentos, o ateliê enchia-se de luz, o sol caía no soalho. Ao canto, a São Jorge reluzia tranquila. Mariana chegaria às dez. Às onze, vinha outra cliente.
E eu, ao acabar este dia, sabia bem melhor do que era fazer. Aprendi que há vidas por recomeçar, que o trabalho feito com paixão encontra sempre o seu próprio caminho; que, por vezes, é preciso perder tudo para se ganhar a alegria simples de existir. No fundo, é preciso coragem só isso de costurar as nossas próprias sombras e transformá-las num vestido com o nosso nome.






