Página em branco
Tornaste-te alguém invisível, Leonor. Percebes? Invisível. Ocupas um lugar, só isso.
Ele disse aquilo como se fosse a coisa mais banal do mundo, quase sem emoção, como quem recita uma lista de compras. Estava à janela, de costas para mim, a olhar para o pátio. Alguém passeava um cão lá em baixo, um podengo de pelo cor de mel, feliz da vida, puxando a trela direto para uma poça.
Eu fiquei sentada no sofá com uma chávena de chá entre as mãos. O chá já estava frio há pelo menos vinte minutos, mas eu insistia em segurá-lo, sem saber onde pousar as mãos.
O que queres dizer? perguntei, a voz quase sem força.
O que disse. O Miguel acabou por se virar. O rosto mostrava aborrecimento, cansaço de quem foi obrigado a explicar o óbvio. Olho para ti e não vejo nada. Só vazio. Tu andas, cozinhas, dormes És como um móvel cá em casa, Leonor. Um bom móvel, seguro, mas não mais do que isso.
Devolvi a chávena à mesa. A porcelana tilintou levemente.
Dez anos, disse eu.
O que é dez anos?
Vivemos juntos dez anos.
E então? Ele encolheu os ombros, atravessou a sala e sentou-se na poltrona à minha frente. Dez anos é suficiente para perceber que continuar não faz sentido. Não quero mais isto. Eu quero fez uma pausa, procurando a palavra quero sentir alguma coisa. E tu não me fazes sentir nada. Não me inspiras. Nem sinto que estás aqui, apesar de estares a meu lado.
Senti algo cá dentro dobrar-se como um arame teimoso.
Para onde é que eu vou, Miguel?
Isso já não é comigo. Ele cruzou as pernas. O apartamento está em nome da minha mãe, sabes bem. Legalmente tu aqui não és ninguém. Não te estou a pressionar, mas uma semana chega? Hás de encontrar algo.
Uma semana chega, repeti, sem pensar.
Pronto. Pegou no telemóvel do aparador e começou a deslizar o dedo pelo ecrã. A conversa, para ele, já estava acabada.
Levantei-me e refugiei-me no quarto, fechei a porta, estendi-me por cima da colcha e encarei o teto. Branco, com uma pequena mancha no canto que eu queria pintar há anos, mas nunca o fiz.
Na sala, houve qualquer ruído de televisão. O Miguel encontrou ocupação.
Não chorei. Apenas fiquei ali a olhar o teto, com o peito silencioso, daquele silêncio que fica depois de um vidro partido.
***
A semana arrastou-se num tempo espesso, estranho. O Miguel quase não apareceu em casa. Chegava tarde, saía cedo. Não falávamos. Eu juntava as minhas coisas e, surpreendentemente, foi humilhantemente fácil: havia pouco que fosse verdadeiramente meu naquele espaço. Alguns vestidos, o casaco do inverno, uma caixa com fotografias dos outros tempos, revistas de costura que, vá-se lá saber porquê, guardei sem nunca lhes pegar.
Deixei as revistas. Logo a seguir, fui buscá-las de volta.
Liguei à minha tia-avó, a tia Irene, do lado materno, a quem não via desde o funeral da minha mãe, há sete anos. Ouviu-me em silêncio e depois disse:
Vem. Tenho um quarto, não é grande, mas serve. Vais ficando até te orientares.
A tia Irene vivia em Chelas, mesmo na ponta de Lisboa, onde o autocarro só passa de hora a hora e o tal MiniPreço é o único supermercado em três quarteirões. Nunca gostei daquela zona. Prédios de bloco, beirais partidos, choupos que na primavera enchiam tudo de pó branco.
Cheguei numa sexta à noite com duas malas e uma mala de viagem.
Ficaste magrinha, rapariga, disse-me tia Irene ao abrir a porta. Era baixa e robusta, com um rosto redondo e gentil, cheio de rugas, e cheirava a Vicks e a sopa acabada de fazer. Entra, não te deixes estar à porta. Vais jantar?
Não, tia Irene.
Tens de comer, respondeu ela, seca, e seguiu para a cozinha.
O quarto era mesmo pequeno, com um divã estreito, um guarda-roupa antigo, e a janela virada para uma parede lisa do prédio ao lado. Os papéis de parede tinham perdido a cor, se é que alguma vez foram azuis. No parapeito, três vasos de gerânios, vermelhos e vivos.
Pousei as malas, sentei-me. As molas do divã protestaram.
Queres chá? gritou tia Irene da cozinha.
Quero, respondi.
Só ali, na penumbra daquele quartinho, com gerânios à janela e papel de parede desbotado, é que finalmente chorei.
***
Vieram tempos maus, arrastados.
Acordava cedo, pelas seis, sem saber ao certo porquê. Ficava na cama a ouvir a tia na cozinha a mexer no bule, a ouvir os travões dos autocarros. Depois levantava-me, lavava o rosto, bebia chá enquanto olhava para a tal parede cega.
Tia Irene era sensata. Não perguntava o que não devia, não dava conselhos, não dizia há de passar ou vais encontrar alguém melhor. Dava-me sopa, deixava-me ver televisão, e por vezes, à noite, punha as cartas na mesa e dizia:
Jogamos à Sueca?
Jogávamos quase caladas.
Dinheiro, tinha pouco. Tirei tudo o que tinha do banco: mil euros e pouco, o que dava para um mês ou mês e meio, sem esbanjar. Não esbanjei.
Eu era contabilista numa pequena empresa de construção e, felizmente, não perdi o emprego. Ia ao escritório três vezes por semana, do outro lado da cidade, tratava dos papéis, e recebia os meus oitocentos euros. Dava para viver, pagar à tia Irene embora ela recusasse, até eu lhe pôr o envelope em cima da mesa da cozinha e fechar-me no quarto antes que mo devolvesse.
As noites eram piores. Sentava-me no meu cantinho e os pensamentos giravam em círculo: dez anos. Tudo o que cabe em dez anos. Ele olhou para mim e só viu vazio. Saberá ele, saberei eu, quando é que o amor acabou? Ou fomos os dois mudando, sem ver?
Às vezes, abria o telemóvel, revia fotografias antigas de férias nos Açores, ríamos os dois. Não me lembrava do motivo desse riso.
Nessas noites, deitava-me cedo e tapava a cabeça com o cobertor.
Uma noite, a tia Irene espreitou:
Leonor, já dormes?
Não.
Eu vejo. Pausa curta. Tens fome?
Não.
Então fica aí. Pausa. Sabes, eu também já pus um homem fora de casa. Foi há séculos, nem tu tinhas nascido. Pensei que morria de tristeza. Não morri.
Fechou a porta.
Fiquei na escuridão a pensar: quase cinquenta anos, Leonor. Começa do zero outra vez. Como se fosse fácil.
***
A máquina apareceu no início do segundo mês.
Tia Irene pediu-me para limpar o topo do armário, ninguém mexia ali há década e meia. Concordei era bom ter o que fazer.
Entre caixas, velharias, revistas Ana, um guarda-chuva partido, caixas de botões, frascos de perfume vazios, encontrei, embrulhada num lençol velho, algo pesado.
Era uma máquina de costura. Antiga, preta, com motivos dourados a perder a cor, mas belas. No painel, lia-se Lisboa, num lettering rebuscado.
Tia Irene! chamei.
A Lisboa! exclamou, quase contente. Era da minha irmã. Já nem me lembrava que cá estava. Se ainda cose? Sei lá, nunca lhe mexi.
Posso experimentar?
Ela olhou-me demoradamente.
Sabes usar?
Já soube. Quero tentar.
Leva.
Trouxe a máquina para o quarto. Limpei bem, desmanchei restos de costuras velhas, procurei as bobinas, as linhas, as tesouras guardadas numas caixas enferrujadas.
Havia uma lata de óleo para máquinas. O óleo estava seco, mas comprei outro no armazém da esquina, lubrifiquei tudo, limpei os dentes da cremalheira, dei à manivela. De início custou, mas foi amaciando.
Passei quase três horas com a máquina. Revi o sistema da lançadeira, preparei a bobina, enfiei a linha.
Pus debaixo do calcador um pedaço de chita velha. Cedi ao pedal.
A máquina arrancou a costurar, certa, tinindo em metal, e senti algo parecido à circulação a voltar num braço dormente: dói e vive ao mesmo tempo.
Parei para ver a costura. Direitinha.
No canto mais fundo da minha memória, mexeu-se qualquer coisa.
***
Tinha dezoito anos e costurava sempre. Vestidos de mãe, transformados em saias, blusas feitas de retalhos comprados em feiras. Na esquina em frente ao instituto, trabalhava a Dona Maria, costureira velha de mãos picadas, que me deixava ver como cortava moldes e fazia bainhas. Explicava tudo porque percebia que eu tinha sede de aprender.
Depois veio a faculdade, o Miguel, o casamento, a casa pequena. A minha primeira máquina vendi-a logo o Miguel disse que ocupava muito espaço, não havia onde guardar. Nem me custou muito: estava apaixonada, achei que havia coisas mais importantes.
Com os anos, fui-me esquecendo da costura. Só de vez em quando, vendo nas montras um vestido bonito, pensava: era capaz de fazer isto. E não fazia.
Agora eu sentava-me neste quarto pequeno com a Lisboa e ouvia o zumbido regular da agulha.
No dia seguinte fui ao mercado da Quinta do Conde, não ao centro comercial, mas mesmo ao mercado das tendas onde vendem tecidos ao metro.
Percorri as bancas, toquei nos tecidos. Linho, sarja, crepe, malha. Parei diante dum rolo de chita azul acinzentada. Bonita, simples.
Quantos metros tem? perguntei à vendedora.
Quatro e meio.
Levo tudo.
Enrolou e fez um embrulho.
Vai fazer o quê?
Um vestido, respondi.
Nem sei como soou tão firme.
***
Cortei o molde de memória, inspirei-me nas revistas velhas da tia Irene: direito, com cinto, gola alta, manga três quartos. Nada especial. Só forma.
Tia Irene vinha espreitar, mas não dizia nada. Uma vez trouxe-me chá.
Obrigada, murmurei sem largar a peça.
A cor que escolheste é bonita, elogiou ela.
Tive medo no primeiro corte do tecido. As tesouras achei-as novas no fundo de uma gaveta. Encostei às linhas desenhadas, cortei. O medo desapareceu no primeiro corte.
Demorei três dias a costurar.
Não por ser complicado, mas porque não tinha pressa. Trabalhava à noite, depois da contabilidade, sentava-me à máquina e seguia pausadamente. Costas, fecho nas costas, gola, mangas tive trabalho a ajeitá-las, não correram bem à primeira.
Quando algo corria mal, desmanchava e recomeçava. A Lisboa costurava certo, apenas o seu tique metálico. Nesses momentos, não pensava no Miguel: só em tecido, linhas e ângulos da gola.
Na terceira noite, fiz a última costura, cortei as linhas, passei a ferro. Pendurei o vestido num cabide, afastei-me para ver.
Um bom vestido.
Simples, azul acinzentado, linhas suaves. O cinto marcava bem a cintura, a gola alta chegava à elegância exacta.
Vesti-o.
Fui ao espelho da entrada o único grande na casa. Era antigo, com a prata a desfazer-se nos cantos, mas sincero no reflexo.
Olhei-me durante um minuto, talvez mais.
Do outro lado do espelho, brilhava uma mulher. Não ninguém, não móvel. Uma mulher de cinquenta anos, cabelo escuro preso, costas direitas. E no olhar, alguma coisa bruxuleava devagar, hesitante, mas real.
O vestido assentava lindamente. Mesmo.
Leonor! chamou tia Irene da cozinha. Mostra-me o resultado!
Fui de vestido até à cozinha.
Ela olhou, ficou uns segundos calada.
Pois, assim sim, filha.
Virou costas porque o tacho chamava. Mas vi-lhe o sorriso.
Voltei ao quarto e toquei no tecido. Macio e leve. O vestido nem repuxava nem apertava: estava feito para mim.
Aquele arame torto cá dentro começou a endireitar-se.
***
Saí pela primeira vez com o vestido ao sábado.
Só para apanhar ar. Tia Irene pediu-me para lhe ir buscar os comprimidos à farmácia; vesti o meu vestido novo, o casaquinho claro por cima, e saí.
Estava um dia bonito. Outubro, ar seco e fresco. Os choupos começavam a amarelar.
Ia devagar. Percebia o mundo à volta: um gato aninhado num parapeito a olhar a rua com serenidade absoluta; uma idosa tricotava azul num banco; um miúdo arrastava a mãe para uma poça e a mãe resistia.
A farmácia ficava duas ruas depois. Ao lado havia um café de esquina que nunca reparara: Cantinho Doce. Na porta lia-se Pastelaria e café.
Entrei. Pedi um galão e um croissant, porque sim.
O café era pequeno, meia dúzia de mesas. Ao fundo, uma mulher de sessenta anos, elegante, cabelo curto, pintado de branco, brincos grandes, lia o telemóvel. Tinha aquele ar de quem sempre soube cuidar de si e dos assuntos dos outros. Compreendida no seu lugar.
Levei o café e sentei-me junto à janela.
Ficámos ali, cada qual na sua. Passados dez minutos, a senhora aproximou-se, discreta.
Desculpe.
Virei-me.
Não quero ser indelicada, mas o seu vestido é lindíssimo. Posso perguntar onde comprou?
Fiquei surpreendida.
Fui eu que fiz.
Ela animou-se.
Fez? É costureira?
Não propriamente. Sei costurar. Ou soube, e agora voltei a pegar.
A sério inspeccionava o vestido com olhar clínico. Corte muito pouco vulgar: parece simples, mas está tudo perfeito. Nota-se na forma como assenta. Eu percebo pouco, trabalhei no antigo Pronto-a-Vestir.
Obrigada, sorri sem saber o que dizer.
Clara Fonseca, apresentou-se. Pode tratar-me por Clara.
Leonor.
Leonor, posso ser atrevida? Faço 65 daqui a três semanas, queria um vestido bonito para o meu aniversário mas não há nada que me agrade nas lojas: ou são para velhas, ou para miúdas. Este seu vestido era exatamente o que procurava. Fazia-me um?
Olhei-a nos olhos. O pedido era sincero, sem pressão.
Algo dentro de mim aceitou o desafio.
Faço sim, Clara.
***
Clara apareceu dois dias depois com o tecido escolhido: crepe cereja, sóbrio e macio.
Tirei-lhe as medidas no meu quarto, arrumei tudo num caderno. Sentámo-nos à mesa da cozinha, chá quente, desenhei esboços diferentes e ela escolheu: evasé, manga três quartos, decote discreto.
Este, decidiu ela.
Em duas semanas está pronto.
Quanto lhe devo?
Hesitei. Não tinha sequer pensado nisso.
Não sei.
Então eu digo-lhe: no atelier costumaria custar tanto. Pago-lhe o mesmo. É justo.
O valor era o que eu ganhava em duas semanas como contabilista.
Fiquei um instante calada.
Está combinado.
Quando saiu, tia Irene veio da cozinha:
Bem pago.
É, sorri.
Continua, Leonor. Tu és boa nisto.
Tia Irene, porque me acolheu? Mal nos conhecíamos
Ela pensou.
Porque és filha da Margarida, a minha mãe. E a tua mãe salvou-me a pele quando precisei. Pago agora o que me fizeram a mim.
Ela voltou à cozinha.
Fui à janela. A tal parede continuava ali mas, agora, tinha um graffito enorme, flores azuis vivas a subirem pelo betão.
***
O vestido para Clara foi diferente. Não era para mim, era uma responsabilidade. Senti-o a cada vez que me sentava à máquina.
Medi e cortei devagar; o crepe não perdoa erros: ou se corta, ou não se toca. Cosi direito, alinhavei a mão invisível, fiz a costura linda.
Quando a Clara veio experimentar, vi-lhe tudo na cara.
Santo Deus, murmurava diante do espelho. Parece que sou outra.
Rodava, mexia-se, tocava no tecido.
Sinto-me hesitou. Sinto-me de outra maneira.
A saia pedia um ajuste na costura lateral: marquei-lhe os alfinetes, ela não queria tirar o vestido.
Posso dar-lhe o contacto de uma amiga minha, Helena? É para o aniversário dela, também quer um vestido especial. Posso?
Pode.
E depois, a minha nora vai casar o ano que vem. Precisa dum vestido bonito, não de noiva, mas de cerimónia. É difícil encontrar para o corpo dela; aceitaria?
Olhei-a, sorri.
Claro que aceito.
Ela acenou, como se soubesse que era o que eu ia dizer.
***
Dois meses a seguir, foi uma enxurrada. Não má, mas de trabalho a sério.
A Helena pediu um conjunto, depois uma tal Rosa para um blusão, uma filha de não sei quem para um vestido de noite. Costurei de manhã e noite. Uma das clientes colocou uma foto na internet: finalmente encontrei quem sabe fazer à minha medida. Daí vieram logo três contactos.
A casa da tia Irene tornou-se pequena; o tecido acumulava-se no sofá, nas janelas, nas cadeiras. A Lisboa rodava noite após noite, às vezes de manhã nos domingos.
Tia Irene nunca protestou. Só um dia comentou, ao ver o chão coberto de moldes:
Leonor, precisas de um espaço maior.
Sei, tia.
Não posso continuar contigo assim, entendes.
Percebo.
Já tinha pensado nisso. O dinheiro dava: nos últimos dois meses ganhei mais do que em meio ano a fazer contas. E havia sempre mais pedidos.
Vi três espaços no centro de Lisboa. Primeiros dois, escuros, húmidos. O terceiro: segundo andar de um prédio antigo, janela grande a sul, soalheira, tábua corrida, tectos altos. Caro.
Fiz contas. Entre a renda, uma máquina industrial, uma overlock, uma mesa de corte, ia-se o que tinha poupado e ainda ficava a dever.
Liguei à Clara. Nem pensei, apenas liguei.
Clara, posso conselho?
Diz.
Expliquei-lhe. Houve silêncio. Depois:
Aluga. O dinheiro eu empresto, sem juros. Pagas quando puderes.
Não posso aceitar.
Leonor, interrompeu ela. Deste-me o melhor vestido da minha vida. Deixa-me retribuir. Não é caridade. É o normal das pessoas se ajudarem.
Fiquei calada.
Além disso, já tenho quatro amigas à espera da tua agenda. Por isso também me convém que tenhas atelier.
***
No início de dezembro, a oficina estava pronta.
Mudei a Lisboa também, porque embora rareasse o uso, era símbolo e companhia. Comprei a industrial, mais rápida. Mas a Lisboa ficou na mesa perto da janela, sempre presente.
A oficina era luminosa. Mesa de corte, duas máquinas, estante com tecidos, espelho grande de corpo inteiro. Pendurei alguns desenhos emoldurados. Tia Irene veio ver, percorreu o espaço, ficou diante do espelho.
Está bem feito, disse. E não precisou de mais.
Tia Irene, quero dar-lhe isto, entreguei-lhe um envelope.
Não, Leonor.
Tem de ser. Por tudo. É o que poupei para a renda.
Nunca contei isso…
Eu contei. Aceite.
Ela pegou no envelope.
Andam-me as tripas a avisar que preciso de frigorífico novo. Velho já resmunga.
Vamos já. Levei-a ao Media Markt, ela passou meia hora a abrir portas, apalpar prateleiras. Acabou com um frigorífico enorme, inox, todo contente.
Bom, disse, tom de miúda feliz.
Percebi, então, que acertara em cheio no essencial.
***
Dezembro trouxe me muitos pedidos. Antes do Natal, toda a gente queria roupa nova: vestidos para a passagem de ano, conjuntos de trabalho, camisas vistosas. Trabalhei até às nove algumas vezes, três chávenas de chá, a máquina a zumbir baixinho.
Em janeiro acalmou. Contratei uma ajudante a Joana, jovem, perigosa com a tesoura mas disposta a aprender. Ensinar tornou-se estranho prazer; gostava de explicar, de ver resultados.
Despedi-me da contabilidade. O chefe lamentou mas aceitou. Fiquei até abril, depois ficou tudo em modo oficina.
Em março, um número desconhecido:
Fala a Teresa. Costuro, mas quero aprender moldes. Dá aulas?
Não sou professora.
Mas tem jeito, e dizem que ensina bem. Foi a Clara que sugeriu.
Venha ver.
Primeira aula. Depois outra. Depois grupo pequeno. Encaixou-se bem na rotina.
Na primavera, mudei-me de casa.
Arrendei um T1 perto da oficina, terceiro andar, cozinha cheia de sol. Pintei as paredes, pendurei cortinas feitas por mim.
Na primeira noite, chá à janela a ver o jardim com bétulas. Casa pequena, ainda sem raízes, mas minha.
***
Encontrei o Miguel no final de maio.
Ia da oficina a pé para casa pelo parque. Fim de tarde quente, cheiro a jacarandás, folhas novas douradas no poente. A mala enchia-se de amostras de tecido para escolher à luz do dia.
Ele vinha em minha direção.
Vi-o a uns vinte metros conheci-o logo, ainda que parecesse outro homem: mais magro, fato a cair-lhe mal, jeito algo perdido.
Ele viu-me. Parou.
Continuei. Mas quando passei por ele, a dois passos, disse:
Leonor.
Parei.
Olá, Miguel.
Fitou-me. Nos olhos, algo de insegurança.
Estás bem. Estás… bonita.
Obrigada.
Silêncio. Mãos nos bolsos.
Vais para onde?
Para casa.
Vives aqui perto?
Sim.
Passou uma senhora com carrinho de bebé, barulho das rodas no chão.
Leonor, eu… hesitou. Podemos conversar? Só falar um bocadinho?
Olhei-o. Tinha o rosto cansado. Não de trabalho, mas como quem perdeu o rumo.
Vamos sentar ali, sugeri.
Sentámo-nos no banco. Ele fixou os dedos.
Não sei por onde começar.
Pelo princípio.
Ela foi embora, disse após pausa. Aquela porque… Pronto, foi. Há seis meses. Disse que eu era aborrecido e sem ambição. Engraçado, não é?
É, disse; no fundo, sim.
Estou a morar com a minha mãe. O trabalho é precário, a empresa acabou. Olhou-me de novo. Tudo desmoronou. Às vezes penso que errei. Que foi o maior erro. Penso nisto tantas vezes, Leonor.
Ouvi, sem interromper.
Contigo não dei valor. Estavas sempre, fazias tudo, eras verdadeira. E eu… Procurei não sei o quê. E tratei-te como se fosses nada. Chamei-te invisível. A vergonha doeu-lhe na cara. Não tem desculpa. Mas queria que soubesses: penso muito nisto.
Olhei para as bétulas ao fundo. Cheiro a sardinha assada de um quintal.
Miguel, disse. Ninguém é culpado por deixar de amar. Acontece.
Ele ficou calado.
Mas és culpado pela forma como falaste. Invisível, móvel, rua. Doeu muito, não por seres mau, mas foi cruel, e marcou.
Eu sei, murmurou.
Mas também fizeste-me um bem.
Surpreendeu-se.
Expulsaste-me. Saí de lá assustada, com duas malas, mil euros e sem saber que fazer. Vivi na casa da tia Irene como uma orfã. Chorei muitas noites. Foram maus dias.
Leonor…
Espera. Não para magoar; só para ser verdadeira. Lá encontrei uma máquina velha e lembrei-me que gostava de costurar. Gostava mesmo, mas fui deixando para trás por mil razões. Recomecei. Primeiro para mim. Depois vieram as clientes. Agora tenho oficina no centro, Miguel. E adoro o que faço.
Ele olhou-me, perdido.
Se não me tivesses posto fora, eu ainda lá estava. A fazer o jantar, sem saber quem era. Disse isto com serenidade, sem mágoa. Não digo que fizeste bem, só que as coisas correram assim.
E não me perdoaste?
Pensei.
Não guardo raiva. Não é a mesma coisa. Não quero voltar atrás. Não por despeito. Porque estou finalmente na minha própria vida, percebes? Talvez pela primeira vez a sério.
Ele desviou o olhar.
Podíamos…
Não, respondi. Baixo, certo. Não, Miguel.
O silêncio ficou ali algum tempo, sem pressão.
E a tia Irene? perguntou, lembrava-se dela.
Está bem. Ofereci-lhe um frigorífico. Ao domingo vou lá, jogamos à Sueca.
Miguel sorriu, genuinamente.
Foste sempre boa pessoa, Leonor.
Tu também não és mau. Só diferentes. Provavelmente, há muito.
Levantei-me, peguei na mala.
Tens de ir?
Tenho, amanhã trabalho cedo. Uma cliente vem às oito.
Pronto. Ele também se levantou. Fico feliz por ti, a sério.
Também desejo o melhor para ti.
Era verdade. Não havia veneno, nem orgulho: era só sincero. Queria-lhe bem, sem ressentimento.
Afastei-me pelo parque. Ainda senti o olhar dele durante uns passos, depois não. Deve ter ido noutra direção.
A bétula faz uma sombra fina no asfalto. Eu ia nessa sombra, a mala a pesar no ombro: lá dentro, um corte de lã verde escura e um catálogo de acessórios com páginas marcadas. Amanhã tinha de encontrar o molde certo para a saia da dona Amália, professora reformada, que sonhava com uma saia de inverno: nem larga, nem justa, direita e digna.
Pensava nisso, e ao mesmo tempo percebia o cheiro da noite, a voz de uma criança a cantar, o aroma de batatas fritas vindo de um rés-do-chão.
***
Na oficina, à noite, não trabalhei mais; ficou prometido cortar às sete em ponto. Só fui buscar o caderno de clientes, pousado na mesa de corte. Ao lado, a Lisboa, preta e dourada, serena.
Passei os dedos no metal.
Obrigada, disse baixinho.
Fazer agradecimentos a uma máquina era estranho. Mas como agradecer a vida que se desenrolou: tia Irene, Clara, Joana, todas estas mulheres no meu caminho. Talvez a todas. Talvez a esta sequência improvável que começou com injustiça e acabou numa sala cheia de luz.
Peguei no caderno, apaguei a luz, fechei a porta. Desci as escadas antigas até à rua.
A cidade em movimento. Pessoas, carros, crianças aos gritos. Uma noite de maio, como tantas outras.
No regresso parei na mercearia Pão Quente, comprei um pão de sementes e um frasco de mel puro: a dona Rosa, de setenta anos, vende o mel que o filho tira das suas colmeias.
Boa noite, Leonor.
Boa noite. Ela devolveu-me o troco. O mel deste ano está um primor. Coma logo de manhã, vai ver.
Obrigada, vou experimentar.
Saí para a rua. Na mala: pão, mel, caderno, catálogo de acessórios. Vesti um vestido feito por mim, linho cru com cinto largo e mangas abertas. Bom vestido, confortável.
Caminhei dez minutos até a casa. Pensei na saia da dona Amália, na encomenda de fios novos, na Joana já quase autónoma nos cortes simples.
Depois deixei de pensar em trabalho e só caminhei.
O céu ainda rosa em cima dos telhados, andorinhas traçando sombras. A vida, com toda a sua complicação, existia ali por perto.
A tal felicidade depois do divórcio que dizem nas revistas. Como se fosse outra espécie de felicidade. Nem pensava nisso. Só pensava: estou a caminho de casa. Amanhã acordo cedo. Tenho trabalho que sei fazer e gosto dele. Tenho a tia Irene, ao domingo. Clientas satisfeitas. A Lisboa na mesa. O céu da cidade.
É suficiente.
Não um excesso de felicidade. Nem tragicamente pouco. Basta. Talvez seja isto a tal segunda vida de que falam. Não nasce de repente, nem por magia. Vem: um vestido, outro, a oficina, a casa, o pão e o mel de maio.
Liguei à tia Irene.
Tia Irene, está em casa?
Onde mais havia de estar? Televisão ligada. Diga lá.
Nada. Só para ouvir a sua voz.
Pausa curta.
Vens domingo?
Vou sim. Faço uns bolinhos?
De maçã, se não custar.
De maçã será.
Arrumei o telemóvel, subi ao terceiro andar, abri a porta.
Cheirava a linho tinha cortado ali anteontem, enquanto chovia. Guardei os restos, mas o cheiro ficou. Bom cheiro.
Pus água a ferver, cortei uma fatia de pão, abri o mel. Dourado, translúcido.
As andorinhas ainda voavam, embora já menos a noite ia caindo.
Barrei o pão com mel, provei. A dona Rosa tinha razão: era ótimo.
***
O dia nasceu limpo.
A dona Amália chegou à hora certa, oito em ponto. Baixa, cheia de energia, cabelo bem penteado, olhar direto atrás dos óculos.
Leonor, disse sem cerimónias trouxe uma foto, gostava disto, mas sem enchumaço.
Mostrou-me. Uma saia bonita, digna. Ia dar gosto fazer.
Sente-se. Já lhe explico como vai ser.
Ela sentou-se, mãos cruzadas.
Sabe, olhou à volta da oficina, anos a sonhar com uma saia assim. Não sabia a quem pedir. Nas lojas nunca há nada que me sirva. Uma vizinha falou de si. Disse-me que voltou a sentir-se mulher depois do seu vestido. Riu-se. Isso vale por mil recomendações.
É a melhor recomendação, concordei.
Peguei no caderno, na fita métrica.
Venha cá, por favor.
A dona Amália levantou-se. Endireitou as costas. Observou-se no grande espelho.
Sabe, voltou ela, já estou reformada há quatro anos. Achei: já não vale a pena vestir-me bem. Depois pensei: porque não? Ainda há tantos anos pela frente. Porque não andar bonita?
Porque não mesmo, sorri.
Fui medindo, tirando notas, a pensar nos moldes certos. O sol entrava pela janela sobre o soalho de madeira. Ao canto, a Lisboa com as flores douradas. A Joana chegaria às dez. Às onze a próxima cliente.






